As autoridades chinesas demoraram seis dias a tornar pública a dimensão e o risco representado pelo surto inicial do novo coronavírus em Wuhan, uma atitude que pode ter comprometido a resposta inicial à epidemia. A informação está confirmada em documentos internos a que a Associated Press (AP) teve acesso, através de uma fonte médica não identificada, e que foi publicada esta quarta-feira.

A 14 de janeiro, o diretor da Comissão Nacional chinesa de Saúde, Ma Xiaowei, fez uma teleconferência com vários responsáveis de saúde do país, onde afirmou que “a situação epidémica é grave e complexa, é o desafio mais sério desde a SARS em 2003 e é provável que se torne numa grande questão de saúde pública”. A AP confirmou esta informação não apenas através dos documentos, mas também junto de duas fontes que estiveram presentes na teleconferência. Os documentos indicam que a avaliação de Ma Xiaowei foi transmitida para dar instruções vindas diretamente da cúpula do governo: do Presidente Xi Jinping, do primeiro-ministro Li Kequiang e do vice-primeiro-ministro Sun Chunlan.

Os responsáveis políticos só viriam a pronunciar-se publicamente sobre a situação a 20 de janeiro, numa declaração pública de Xi Jinping. Ao longo desses seis dias, mais de três mil pessoas terão sido infetadas na China.

A resposta ao novo coronavírus só começou a avançar a 14 de janeiro, depois de se ter detetado o primeiro caso fora da China, a 13 de janeiro, na Tailândia. De acordo com a AP, os documentos — marcados com indicações como “interno”, “não é para ser espalhado na internet” ou “não é para divulgação pública” — mostram que o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças de Pequim iniciou então um plano nacional com equipas de trabalho para “obter fundos, formar profissionais de saúde, reunir dados, conduzir investigações no terreno e supervisionar laboratórios”, de acordo com os documentos. À província de Hubei, onde fica Wuhan, foi recomendado que começassem a ser feitos controlos de temperaturas em aeroportos e estações de comboio e autocarro — mas tal informação não foi tornada pública de imediato.

A Comissão Nacional de Saúde também distribuiu instruções aos responsáveis de saúde nas províncias para que se começassem a identificar casos suspeitos e para que fosse fornecido equipamento de proteção individual aos profissionais de saúde. “Toda a gente que trabalha na área das doenças infecciosas no país sabia que se passava algo”, resumiu à AP uma especialista chinesa que preferiu não ser identificada. Oficialmente, Pequim continuava a afirmar que o vírus não era preocupante e assumia apenas a existência de 41 casos diagnosticados na China.

As reações a estas notícias são variadas. Zuo-Feng Zhang, epidemiologista da Universidade da Califórnia, considera que esta é uma informação “tremenda”. “Se eles tivessem tomado medidas seis dias mais cedo, haveria menos pacientes e as instalações médicas poderiam ter aguentado. Podia ter sido evitado o colapso do sistema de saúde de Wuhan”, afirmou à agência.

Ray Yip, antigo fundador da delegação do Centro de Controlo de Doenças norte-americano na China, discorda. “Eles podem não ter dito a coisa certa, mas fizeram a coisa certa”, afirma. “Fizeram soar os alarmes em todo o país no dia 20, o que é um atraso razoável”.

A República Popular da China recusa qualquer acusação de que tenha escondido qualquer tipo de informação: “As alegações de um encobrimento ou de falta de transparência na China são infundadas”, declarou o porta-voz dos Negócios Estrangeiros na passada quinta-feira.