Durante um estado de emergência nacional, a meio de uma pandemia mundial, no segundo país a nível global com mais casos da Covid-19 e o terceiro com mais vítimas mortais, explodiu uma crise relacionada com a liberdade de expressão. E tudo começou através de um porta-voz improvável: o chefe do Estado-Maior da Guardia Civil espanhola, o general José Manuel Santiago.

A tarefa até era simples. O general José Manuel Santiago era um dos protagonista de uma conferência de imprensa, este domingo, no Palácio da Moncloa, a residência oficial do presidente do governo espanhol, conta o El Mundo. Mas foi durante uma pergunta sobre fake news, e a forma como as forças de segurança do Estado estão a combater a informação falsa que circula nas redes sociais em particular e na internet no geral, que o general acabou por espoletar a polémica. “Um dos objetivos é minimizar o clima contrário à gestão da crise por parte do governo”, disse José Manuel Santiago.

Entretanto, numa mensagem publicada nas redes sociais, a Asociación Pro Guardia Civil já lamentou aquilo a que chamou um “erro de comunicação” e garantiu que a Guardia Civil defende “os direitos de todos os cidadãos, incluindo a liberdade de expressão”.

A frase do chefe do Estado-Maior da Guardia Civil, que parece dar a entender que as forças de segurança do Estado estão a gerir a informação nas redes sociais de forma a limitar as críticas ao governo de Pedro Sánchez, motivou desde logo duras críticas e interrogações por parte de Pablo Casado, presidente do PP e líder da oposição. “A Guardia Civil não serve para minimizar o clima contrário à gestão da crise por parte do governo. Pedro Sánchez deve explicar se ordenou às forças de segurança a restrição da liberdade de expressão dos cidadãos nas redes sociais para cobrir os seus erros. Seria gravíssimo”, escreveu Casado no Twitter. De referir que, esta segunda-feira, o líder do PP vai reunir com Sánchez para explorar a possibilidade de um pacto de Estado.

A indignação do PP com a frase do general José Manuel Santiago foi sublinhada também pela líder parlamentar do partido, Cayetana Álvarez de Toledo, que já anunciou que vai pedir que tanto o chefe do Estado-Maior da Guardia Civil como Fernando Grande-Marlaska, o ministro do Interior, compareçam na Câmara Baixa para prestar esclarecimentos. “É uma prova dramática da capacidade do Governo para apodrecer as instituições”, disse Álvarez de Toledo, que responsabilizou então o ministro do Interior pela situação.

Ora, o ministro do Interior já comentou o tema e garantiu que tudo se tratou de um “lapso”. “Desconheço de que é que poderia ter estado a falar. Se disse isso, devo dizer que não, que deve ter sido um lapso do general ao responder. Estamos num Estado de Direito e estado de emergência não muda nada nesses términos”, afirmou Fernando Grande-Marlaska.

Santiago Abascal, líder do Vox, foi mais longe do que o PP e qualificou o episódio como o “início de um golpe de Estado”. “Isto é, de facto, o início de um golpe de Estado do próprio Governo, que ordena ao Instituto Armado que vulnerabilize a Constituição”, escreveu Abascal no Twitter, acrescentando a expressão “alarme democrático”. O presidente do Vox garantiu ainda que vai iniciar “ações legais urgentes” contra o ministro do Interior e também contra o próprio general que, nas palavras de Abascal, “reconheceu publicamente um delito gravíssimo contra a liberdade de expressão, que é um direito fundamental”. Num tom duro, Santiago Abascal acusou ainda o governo de Pedro Sánchez de querer “matar a liberdade de expressão usando uma instituição querida pelos espanhóis”.

Também o Ciudadanos, à semelhança do PP, pediu a presença do general José Manuel Santiago e do ministro do Interior na Câmara Baixa, para responderem a uma “declaração gravíssima e muito preocupante”, indicou Edmundo Bal, o líder parlamentar adjunto do partido.