“Sabes o que é que isto quer dizer? Que devias ter acabado segunda-feira.”

Quase no fim de uma emissão para esquecer, o humorista João Quadros não resiste a picar o criador de “Como é Que o Bicho Mexe”. Dias antes, Bruno Nogueira andara a debater-se com a data para desligar o Bicho. Se era melhor seguir o instinto e acabar com tudo logo no início da semana ou aguentar até sexta e ter tempo para preparar uma despedida à altura. Hoje à noite, se tudo correr bem, vai passear-se sozinho por Lisboa em busca da grande família com quem passou parte da quarentena. No Porto, terá a ajuda da rapper Capicua e da humorista Beatriz Gosta. Quem assistiu ao direto nas últimas noites sabe qual é o código secreto: iluminações de Natal à janela.

Esta procissão das luzes assinala o fim de dois meses em que todos os dias, entre as 23h e a 01h, o ator e humorista ofereceu um late-night show ao mundo, via Instagram, numa das mais extraordinárias experiências coletivas desta quarentena. Uma ideia que nasceu sem pretensões, quando Bruno Nogueira deu por si a passar os primeiros dias de confinamento sozinho com as três filhas e a precisar de descomprimir. Primeiro passo, fugir para o escritório. Segundo, servir um copo de branco. Terceiro, ligar aos amigos, que também estão em casa. “Como foi o teu dia?” Já agora, torna-se isto acessível a quem estiver igualmente à toa e online, num exercício com tanto de terapia pessoal como de grupo. O número estabilizou nuns sólidos 60 mil. Ali entre a família numerosa e um culto de sucesso, daqueles que atraem muita gente conhecida. O que se seguiu foi, no mínimo, um fenómeno e, numa noite em particular, um milagre.

Se, quando arrancou, o programa nem nome tinha, aos poucos foi-se definindo, num ambiente de recreio para maiores de 18 anos. Monólogo à entrada, conversas pelo meio, música a fechar, embalo coletivo cortesia de Filipe Melo ao piano. Como convidados residentes, o humorista Nuno Markl e o ator Nuno Lopes. Intermitentes, mas regulares, o apresentador de televisão João Manzarra, os também humoristas Salvador Martinha e Beatriz Gosta, e os atores Inês Aires Pereira e Albano Jerónimo, entre outros. Cada um no seu registo, cada um com a sua função. Vale tudo. E tudo pode acontecer. Como a pianista Maria João Pires aparecer para tocar, ou o guarda-redes Rui Patrício para conversar. Rapidíssimo, Bruno provoca, responde, pergunta. Distribui jogo. Se vê alguém interessante nos comentários, tenta trazê-lo para a conversa.

Bruno Nogueira e a reinvenção do late night nos tempos da quarentena

Foi o que aconteceu na noite de 24 para 25 de abril quando, depois de ter estado a discorrer sobre um putativo “Auto da Picha”, em cena no Teatro Nacional D. Maria II e protagonizado por Eunice Muñoz e Ruy de Carvalho, Bruno Nogueira repara na própria Eunice a comentar no live do Instagram. Minutos depois, está a atriz de 91 anos em direto. O momento é de ternura e incredulidade. Até porque Eunice Muñoz, totalmente lúcida, confirma que sim, que fez o “Auto da Picha”.

Entretanto já é meia-noite. No dia seguinte ninguém pode ir para a rua gritar, mas é tempo de avançar para um compromisso: ligar a Vhils, que está a esculpir um retrato de José Afonso numa parede. Ouve-se “Grândola, Vila Morena” e o Bicho comove-se em peso, incluindo o anfitrião. Não é para menos. O número de pessoas a assistir passa os 70 mil. Ainda há tempo para se seguir de improviso para um rap de intervenção de Capicua, antes do fecho habitual, desta vez com uma versão jazz de “Traz Outro Amigo Também.” “Eh pá, vou ser lamechas, mas que se foda”, remata Bruno. “Não gravei digitalmente, mas é um momento que me vai acompanhar para sempre. Vai correr tudo bem. Hoje mais do que nunca, vai correr tudo bem.”

Muito se escreverá sobre “O Grande Confinamento”, mas não foi preciso esperar tanto assim para confirmar a nossa natureza gregária. Juntamo-nos na adversidade. Mais ainda em celebrações. #estamosjuntos, não é? O palco privilegiado para estas manifestações espontâneas esteve, desde o início da pandemia, nas redes sociais, com destaque para os diretos do Instagram. Concertos, leituras de histórias para crianças, workshops, espectáculos de marionetas. Ofertas sinceras de quem acredita na generosidade e na partilha como vacina universal, não contra o bicho, mas contra a incerteza. A cultura, tão desprezada nos cálculos da economia pós-covid, tem vindo a salvar-nos todos os dias. E as duas horas de loucura e solidariedade comandadas por Bruno Nogueira foram isso mesmo, uma boia de salvação. Um momento em que realidade se suspendia. Mais que não fosse porque em vez de estarmos a contabilizar os mortos, estávamos a rir até às lágrimas com Inês Aires Pereira e os Halls Pretos ou Rita Blanco e Quaresma.

Um dos aspetos mais interessantes e inadvertidos de “Como é que o Bicho Mexe” é o que significará isto em termos culturais. Será este o futuro do audiovisual? Plataformas onde cada um de nós pode ter uma “MeTV”? Em que se dilui a distância entre protagonista e espectador e se abdica dos filtros? Em que mais do que receber produtos feitos as pessoas procuram partilhar experiências? No limite, o Bicho é um programa feito a custo zero e totalmente sem rede – por vezes, em mais do que um sentido. Será este um formato exportável para TV ou confinado a um estado de emergência com um inegável efeito nivelador, ao mostrar-nos a todos igualmente irritados com o pó e interessados em fazer pão? Teríamos noutras circunstâncias a mesma paciência para ouvir as mesmas conversas intermináveis sobre masturbação e sexo oral? Há anos que Bruno Nogueira explora novos formatos televisivos e joga com as fronteiras entre a ficção e a realidade. Basta pensar em “O Último a Sair” ou “Odisseia”. Já agora, de certeza que não está a perguntar-se, mas o “Auto da Picha” já consta da página da Wikipedia do autor.

Mais do que ter inaugurado aquilo que poderá ser um novo formato audiovisual ou apenas um one-hit wonder, a grande magia do Bicho – e de Bruno Nogueira, porque só ele seria capaz de ser, em simultâneo, de improviso e desta maneira, ator, humorista, entrevistador e realizador – é a comunidade que criou. Com um léxico e folclore próprios. Dos cortes de cabelo de João Manzarra aos afters de Beatriz Gosta, do “som sim?” ao “vai de cona”. Já agora, “o que é que eu ia dizer que não era mentira?”

Na noite desta quinta-feira, Bruno Nogueira garantiu que isto não é um adeus. É um até já. Só não sabe em que moldes será o regresso. É dar-lhe tempo para descansar e assistir a família. Entretanto, um programa que nasceu como resposta imediata a uma crise deixa uma série de perguntas no ar que ninguém sabe quando vão ter resposta. Exceto uma, logo à noite: será que o país se vai iluminar para se despedir do Bicho?