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Impossible is nothing é o slogan de uma marca de sapatilhas (ou ténis), mas podia também ser o próximo slogan do PS, desde que, em letras pequenas, viesse acompanhado de uma recomendação de humildade. Algo como ‘seja responsável, acredite que tudo é possível, mas com moderação’. António Costa foi esta noite à reunião da Comissão Política do PS pedir “cabeça fria”, “nervos de aço”, e “humildade” aos socialistas nesta que é a próxima fase da pandemia, e talvez a mais difícil: a da crise económica e consequente recuperação dos estragos. Não basta “o PS ter força”, porque o PS sozinho não vence esta batalha. É preciso manter o “esforço” de “consenso político e social” que tem mantido até aqui, acreditando simultaneamente na ajuda que vem de Bruxelas. Se os socialistas seguirem esta receita, então quem supera uma crise, supera duas: “Não há impossíveis”.

“Da mesma forma que enfrentámos a pandemia temos de enfrentar a crise económica e social. Mas para isso temos de fazer um esforço para manter o nível de consenso político e social que temos mantido até aqui. Porque a democracia não foi suspensa, mas temos de ter a humildade de compreender que, por muita força que o PS tenha, precisamos de todos os portugueses, de todos os parceiros sociais, de todos os partidos da Assembleia da República para prosseguir este caminho exigente que temos pela frente”, disse, insistindo no “espírito de humildade, de abertura e diálogo para prosseguir a governação”.

“Soubemos unir-nos contra o vírus, temos de nos unir contra a crise económica, o desemprego, a crise social”, acrescentou, vaticinando que, apesar de ser duro, não vai ser impossível superar mais esta crise.

Numa intervenção de meia hora perante o órgão de direção alargado do PS, o secretário-geral socialista e também primeiro-ministro pediu ao PS para “concentrar toda a sua energia e determinação no essencial”, que é o relançamento da economia sem deixar descontrolar a pandemia, ao mesmo tempo que se dá confiança aos portugueses e se protege as empresas, o emprego e o rendimento, e para deixar de fora o acessório: as tricas políticas e partidárias e, quem sabe, as questões presidenciais. A unidade que era precisa no início da pandemia, continua a ser precisa agora. Não basta um PS forte, é preciso um PS com o apoio de “todos os portugueses”, disse Costa perante a cúpula socialista.

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É que apesar de se dizer que Costa é um “otimista”, o secretário-geral do PS diz que está apenas a ser “realista” e não quer enganar ninguém: os próximos “dois anos” vão ser “muito duros” e vão ser “dois anos de luta e de combate pela proteção das empresas e do rendimento dos portugueses”. “Não há razão para não termos confiança na nossa capacidade de vencermos esta crise, como vencemos a crise anterior, e de conseguirmos dar a volta a esta situação e regressarmos ao ponto onde estávamos há dois meses”, disse. Ou seja, não há impossíveis. E se em 2015 foi possível dar a volta à austeridade e contornar uma crise, agora também será.

“Aos que duvidam de que isto é possível, devo recordar que quando chegámos ao governo em novembro de 2015 tudo era impossível, até o aumento do salário mínimo nacional em 2016 era impossível, até a reposição das pensões cortadas era impossível, tudo era impossível. Mas, passo a passo, sem nunca dar um passo maior do que a perna, conseguimos virar a página da austeridade, conseguimos manter as regras da zona euro e ter um ministro das Finanças. Era tudo impossível, mas felizmente foi possível”, disse.

António Costa, o otimista, até diz que “há sinais muito claros e encorajadores” vindos de Bruxelas, no sentido de que vai ser “possível nos próximos dois meses” encontrar no Conselho Europeu a capacidade necessária para ter um verdadeiro plano de retoma, com volume financeiro que dê aos Estados “poder de fogo” para responder à crise. Mas é preciso Portugal ter as suas empresas vivas, e à tona, quando chegar a altura de implementar o programa económico de retoma e de reconstrução. Primeiro a emergência, depois a estabilização.

Numa altura em que o primeiro-ministro se prepara para, no início da próxima semana, ouvir os partidos políticos para delinear aquilo que vai ser um “programa de estabilização económica e social”, que vai servir de base ao orçamento suplementar de julho, Costa sublinhou que é nesse “espírito de humildade” que vai entrar nas reuniões partidárias. Admitindo que algumas propostas dos partidos são “melhores e outras piores”, algumas “são possíveis e outras não”, o secretário-geral socialista fez questão de dizer ao PS que “é fundamental contra com eles”. Não é preciso relembrar ninguém que o PS não tem maioria absoluta.

Numa abordagem genérica dos quatro pilares em que vai assentar o tal plano de estabilização económica e social, Costa destacou o primeiro pilar, de natureza institucional, onde vai ser implementado uma espécie de “Simplex SOS”, que estimule as empresas e as autarquias a investir naquilo que é necessário para responder à crise, mas sem burocracia. Os outros pilares passam pela ajuda às micro e pequenas empresas, pela manutenção do emprego — “manter as medidas de apoio do governo e reinventar os mecanismos de apoio ao emprego” — e pela dimensão social da crise, garantindo que a proteção social chega a todos e “ninguém fica para trás”.

Trata-se de um programa de estabilização que vai funcionar como uma espécie de programa de transição, “intermédio”, entre aquilo que foram as medidas de emergência e aquilo que vai ser o verdadeiro plano de relançamento da economia. Para esse, Costa conta com o empurrão de Bruxelas.