Os oceanos devem ser considerados na recuperação económica após a pandemia de covid-19, defendem a associação ANP/WWF e a Fundação Oceano Azul, numa declaração conjunta divulgada este sábado.

A declaração surge no âmbito do Dia Mundial dos Oceanos, que se assinala na segunda-feira, e nela a organização ambientalista e a fundação dizem que é preciso que essa recuperação tenha em conta a proteção e recuperação da vida marinha, a transição para uma economia circular e sustentável, e um reforço do papel de liderança de Portugal na agenda internacional dos oceanos.

As duas entidades, salientam na declaração conjunta que Portugal tem de olhar para o oceano além de documentos estratégicos e discursos, “incluindo-o nas suas opções político-económicas, nomeadamente no plano de relançamento da economia portuguesa”.

“O oceano é um elo fundamental de uma corrente de vida e saúde e deve ser considerado no discurso e na ação política sobre a recuperação económica pós-pandemia”, afirma-se na declaração.

E o momento é agora, como salientaram em declarações à Agência Lusa Ângela Morgado, diretora executiva da Associação Natureza Portugal, que trabalha em associação com a internacional “World Wide Fund for Nature” (WWF), e Tiago Pitta e Cunha, presidente da Fundação Oceano Azul.

“Já passámos o momento, em termos de economia, em que a sustentabilidade ambiental era vista como uma ameaça, hoje é vista como um negócio”, afirmou Tiago Pitta e Cunha.

Otimista quanto a uma retoma económica que tenha em conta a natureza, o presidente da Fundação Oceano Azul frisou que é de conhecimento geral que este é o século de descarbonização das economias, e que é claro que também a União Europeia se quer “reinventar”, com uma economia inovadora.

E depois, “esta crise sanitária sem precedentes aumentou muitíssimo o número de pessoas que compreenderam que as ações têm impactos e aumentou a consciencialização e responsabilização individual. Ficou bem claro que dependemos muito mais da natureza do que pensávamos”.

Ou seja, defendeu o responsável, se antes a civilização acreditava demasiado no poder da tecnologia, hoje percebeu que é preciso escutar a natureza e escutar os cientistas. “Se continuarmos sem ouvir os cientistas os vírus voltarão”.

A mudança tem por isso de ser agora, porque, lembrou, os corais estão a desaparecer, as tempestades a aumentar, estão a ser dizimados os predadores do mar, está a aumentar a falta de oxigénio nos oceanos, que absorvem “mais de 90% do excesso de calor do aquecimento global”.

“Os cientistas dizem que temos 10 anos para impedir um profundo desastre ecológico. Este emergir das economias é a oportunidade para acelerar a mudança. Não podemos continuar a pensar na velha economia”, defendeu o responsável nas declarações à Lusa.

A nova era que agora começa é a de “salvar a natureza” que só se consegue através da economia, não a antiga, mas uma nova, de promoção dessa natureza como uma parte da economia, como um capital natural, disse.

E Ângela Morgado, na mesma linha, também à Lusa, defende que a mudança para uma nova economia “já não é uma crença, mas sim uma absoluta urgência e necessidade”, aliás de acordo com a política “inovadora” da União Europeia.

E diz que já se percebeu que “a saúde humana está tanto mais protegida quanto a biodiversidade também o estiver”, incluindo os oceanos, “uma peça fundamental para a nova economia”.

É por isso, acrescentou, que vão ser pedidas audiências aos ministros do Mar, do Ambiente e da Economia, e ao coordenador do programa de recuperação económica, Costa e Silva, para apresentar sugestões de investimento nos oceanos.

E no próximo ano, na cimeira sobre os oceanos, que devia estar a decorrer em Lisboa mas que foi adiada devido à covid-19, é preciso que se tomem decisões sobre áreas marinhas protegidas, sobre cogestão das pescas, ou sobre empreendedorismo azul, defendeu Ângela Morgado.

E repetindo uma frase que disse várias vezes, “nunca a natureza foi tão importante”, a responsável lembrou que Portugal tem a maior área marítima da União Europeia e que o oceano não só alimenta como sequestra carbono, produz oxigénio e absorve calor.

E ainda Tiago Pitta e Cunha: “As relações entre oceano e clima, e entre a conservação e a economia, são os motores de uma mudança que não pode esperar mais”.

As duas organizações anunciaram que vão desenvolver, nos próximos anos, ações dedicadas à pesca sustentável, a áreas marinhas protegidas e à alteração de comportamentos, para “ajudar Portugal a colocar o oceano no centro da sua ação política e ambiental”.

A WWF é uma organização internacional com mais de cinco milhões de apoiantes e está em mais de 100 países.

A Fundação Oceano Azul, criada em 2017, tem como objetivo promover um oceano mais saudável e produtivo através da literacia, conservação e capacitação.