Com as festas e romarias canceladas, o cantor Toy está sem saber quando voltará à estrada, mas este sábado atua num arraial, em Lisboa, com o público à distância, a assistir através da Internet.

“Um Arraial Digital (Especial Santos Populares)”, promovido no Dia de Santo António pela plataforma Gigs em Casa, é, para Toy, “pelo menos, um método, uma lágrima de esperança, um sopro de vitalidade num setor que está desmaiado, adormecido”.

“É sempre bom chegar ao pé da minha banda, dos meus técnicos, dos meus músicos e dizer-lhes: ‘Meus amigos, vamos ter um trabalho'”, afirmou o cantor em declarações à agência Lusa, reconhecendo que este espetáculo “não vem resolver o problema, mas vem ajudar imenso a amenizar” o que profissionais do setor da Cultura têm passado em Portugal, nos últimos meses, consequência da pandemia da covid-19.

O ano passado “foi um dos melhores” da carreira de Toy, “devido ao êxito do [tema] ‘Toda a noite'” e o cantor tinha planeado 2020 como o seu “melhor ano”.

“Este ano, em vez de ser um ano de 10 ou 20 concertos, era um ano de 100 ou 150. Isto correu mesmo mal, se tivesse acontecido há quatro anos não tinha feito tanta diferença quanto fez, porque nós vamos fazendo um investimento mediante a nossa perspetiva de mercado e aquilo que sabemos que vai acontecer”, lamentou.

Com a perspetiva de um ano com “muitos concertos”, que lhe dariam a ganhar “algum dinheiro”, Toy decidiu “fazer algum investimento: comprar uns leds, um material diferente em termos de cenário, de composição de concerto, em termos de produção”, e, “de repente, foi tudo cancelado”.

“O que aconteceu a todos, da Cultura, foi que nos cancelaram a vida este ano”, considerou.

Com a reabertura das salas de espetáculos e a possibilidade de serem retomados os espetáculos ao ar livre, desde 01 de junho, no âmbito do “plano de desconfinamento” do Governo, Toy lembra que “diz-se que ‘agora já se podem fazer algumas coisas'”, mas não é bem assim.

“O grande problema é que a grande maioria das câmaras municipais, como não tinham medidas [informação] do Ministério da Cultura, cancelaram, inclusivamente, as licenças para concertos, romarias, festas. Podíamos agora neste momento, com condições sanitárias, fazê-las, mas as comissões de festas nem sequer têm licença para as fazer, nem sequer têm licença para fazer peditórios, convívios, almoços e jantares para angariar fundos, para fazer as tais festas. Portanto, todas essas festas foram canceladas. Ou seja, o ano foi todo cancelado”, explicou.

Toy não se lamenta por ele, mas por quem com ele trabalha, “pelas pessoas que vivem do carregamento da coluna, da condução do camião de som, o técnico de frente, o técnico de palco, o de luz, o roadie, o road manager, as empresas de espetáculos, as empresas de som e luz”. “Todos eles foram cancelados”, disse à Lusa.

Para o músico, na crise que se tem vivido no setor nos últimos meses, houve “muita displicência da parte daquilo que deveria ser um verdadeiro ministério e que é pior que uma secretaria de Estado, que é o Ministério da Cultura”.

“Acho que não houve uma única medida. A não ser a do TV Fest, que era completamente injusta e facultava a ideia do lobby e de divisionismo — ‘vamos dar a cem, mas deixamos os outros 100 mil de fora’ -, e não é por aí que as coisas funcionam”, defendeu.

O cantor defende “algum alívio fiscal” para quem trabalha no setor. “A minha proposta seria rever o IRC de empresas ligadas ao mundo da Cultura e baixá-lo, porque este ano é muito duro – não ganhar nada e ter que pagar. E também rever o IRS, como está, por exemplo, para os direitos de autor, que são 50% de retenção na fonte. E rever o IMI das empresas que têm escritórios, que têm estúdios, armazéns…”, defendeu.

Sem saber quando regressará à estrada, Toy partilha que, neste momento, tem “uma agenda de 2021 repleta”. “Porque os 80 concertos que já cancelei, não cancelei, adiei para 2021. Pelo menos a perspetiva de 2021 não é má, mas, sinceramente, o próximo concerto não faço a mínima ideia”, disse à Lusa.

O músico “todos os dias” recebe telefonemas de “adiamentos, cancelamentos, restruturações”. “Somos 20 pessoas na estrada, entre músicos e técnicos, e perguntam-me ‘não pode transformar isso num showcase, uma coisa mais pequena?’. Um ou outro ainda posso fazer, mas isso também é ser indigno para com toda a minha equipa”, referiu.

No sábado, terá toda a equipa com ele numa sala de espetáculos em Lisboa, a partir de onde “Um Arraial Digital (Especial Santos Populares)” será exibido em streaming.

“Nós temos a estrutura igualzinha à de um concerto ao vivo, todos os instrumentos iguais, como um concerto ao vivo, a colocação em cima do palco exatamente da mesma forma. É tudo exatamente igual, a única coisa que não vai estar presente é o público”, referiu.

O público não está lá, mas Toy não deixa “de comunicar com as pessoas que estão em casa”.

Esta não é uma estreia do músico nos concertos digitais. No final de maio, a convite da Casa Ermelinda Freitas, fez uma atuação que foi exibida no Youtube. Uma experiência “muito gratificante”, seguida por “quase cem mil pessoas em direto”.

O concerto de sábado, marcado para as 21h30, coincide com o feriado municipal de Lisboa, dia de Santo António e das festas populares da cidade, canceladas este ano por causa da Covid-19.

Com bilhetes a dois euros, o espetáculo será exibido em direto na página Gigs em Casa.

“Espero que percebam que estes dois euros do preço do bilhete, quase simbólico, é uma forma de ajudar a plataforma que vai fazer este investimento de pagar a este pessoal todo, para fazermos um trabalho que consideramos digno e de qualidade, como é evidente, senão não o fazíamos”, afirmou Toy.