A contagem de espingardas não correu bem a Nadia Calviño, que esta quinta-feira perdeu a corrida à liderança do Eurogrupo para o irlandês Paschal Donohoe, numa segunda votação. É que, afinal, Calviño teria “apalavrados pelo menos 10 votos” entre os 19 ministros das Finanças que compõem o Eurogrupo.

A votação foi feita por video-conferência, de forma secreta, com os ministros das Finanças da Zona Euro a terem disponível uma aplicação para votar com anonimato à distância. Nenhum ministro sabe quem escolheu quem e no final só foi anunciado o vencedor, sem divulgação dos resultados. Apenas alguns funcionários do Conselho Europeu têm acesso à matemática que deu a vitória ao ministro irlandês.

Nem 24 horas depois, a vice-primeira-ministra espanhola, que é também ministra dos Assuntos Económicos e da Transformação Digital no governo liderado por Pedro Sanchez, decidiu abrir o livro — afinal, houve quem aproveitasse o anonimato para fintar as promessas que tinham sido feitas. Em entrevista à rádio Onda Cero, revelou que “alguns ministros não fizeram o que disseram que iriam fazer”, apesar de minimizar o que se passou: “Estas coisas acontecem”, disse Nadia Calviño, que rejeita a palavra “traição”. “É impossível saber [quem mudou o voto], não vale a pena especular, viremos a página”.

Deixando a ressalva de que o governo que integra sabia à partida que suceder a Mário Centeno “seria uma luta complicada”, Nadia Calviño justificou ainda a derrota, em parte, com a composição partidária do Eurogrupo e com a presidência portuguesa, de Mário Centeno. “Começámos com desvantagens significativas, porque existe uma maioria dos governos do Partido Popular na UE, porque já viemos da Presidência [do Eurogrupo] de um país, não apenas do Sul, mas de um país irmão”, disse a ministra espanhola à Onda Cero.

Nadia Calviño sublinha ainda que o poder nesta eleição é detido pelos países de menor dimensão e que é relevante o facto de ser a única mulher numa reunião de homens: “Nunca houve a presidência de um país grande, precisamente porque o o sistema de votação dá mais peso aos pequenos países, sem mencionar que sou a única mulher naquela mesa”.

Nos 15 anos do Eurogrupo, além de Mário Centeno (2018-2020), os homens que ocuparam o cargo foram o belga Jean-Claude Juncker (2005-2013) e o holandês Jeroen Dijsselbloem (2013-2018).

Calviño entende que a sua candidatura implicava muitas novidades, porque teria sido não só a primeira mulher na presidência do Eurogrupo, como representaria também a primeira vitória de um país grande e a primeira vez que se repetiria um presidente da mesma zona geográfica e da mesma família política, neste caso da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas.

Donohoe sucede a Centeno no Eurogrupo, fintando os pesos pesados