Nome: Teoria Feminista – Da Margem ao Centro
Autor: bell hooks
Editor: Orfeu Negro
Páginas: 328

A capa de “Teoria Feminista”, de bell hooks (Orfeu Negro)

Depois do lançamento em 2018 da primeira obra de bell hooks (Não Serei Eu Mulher?), a Orfeu Negro suprime agora uma falha evidente na divulgação dos estudos feministas em Portugal com a publicação de Teoria Feminista — Da margem ao Centro (1984), o segundo livro da académica afro-americana.

Teoria Feminista é escrito de uma perspetiva pouco usual em análises deste género, partindo, como aliás o título indica, sempre de uma posição periférica. bell hooks era, em 1984, uma jovem negra, de classe baixa, imersa numa discussão que era à data, como a própria explica repetidas vezes, dominada quase exclusivamente por mulheres brancas de classe média-alta. Ao analisar o fenómeno à distância, bell hooks consegue destrinçar vários ângulos mortos que escapavam às suas camaradas de luta.

Esta coletânea de ensaios parte, por esse mesmo motivo, de um ataque à ideia, que ainda hoje parece sobreviver, de que para se ser feminista basta reconhecer a evidente desigualdade de oportunidades entre homens e mulheres nas sociedades contemporâneas, numa reação mais ou menos intensa ao sexismo e ao patriarcado. Esta visão genérica e simplista do que é ser feminista deve-se em grande medida, diz hooks, ao facto de o feminismo nunca ter sido um movimento uniformizado com uma direção centralizada, o que levava, no limite, à existência de tantos feminismos como feministas, reduzindo-se assim o mínimo denominador comum a uma definição bastante inócua e inofensiva de luta feminista.

Não existe nada de inócuo na definição de feminismo segundo bell hooks. O argumento principal da investigadora é o de que uma discussão séria de desigualdades de género tem de ser sempre articulada com uma discussão igualmente séria sobre desigualdades de raça e de classes por o feminismo ser, afinal, um combate a estruturas de dominação que derivam, em grande medida, do capitalismo nas suas mais variadas formas. Só faz, por isso, sentido uma mulher revoltar-se contra a dominação de que é vítima se não a quiser ver reproduzida contra nenhuma outra comunidade (seja essa comunidade a homossexual, a negra ou a que é composta pelas classes mais desfavorecidas economicamente, por exemplo). Isso implica, portanto, levantar barreiras firmes contra o capitalismo selvagem, criando-se assim uma revolução que terá como bandeira a criação de uma sociedade mais comunitária e, acima de tudo, mais fraterna. Assumir que o feminismo se trata apenas de uma luta entre homens e mulheres ignora não só as assimetrias dentro de cada um destes géneros como também o papel de cada homem e de cada mulher dentro dos nossos modelos organizacionais societários. O feminismo parte, assim, necessariamente de uma vontade de destruição total do modelo societário em que vivemos.

bell hooks não se coíbe, por isso, de atacar o movimento feminista estadunidense dos anos 80 (que é em grande medida o modelo feminista dominante hoje em dia). Para bell hooks, a luta feminista a que pertence tinha-se transformado numa arma das mulheres brancas burguesas para se emanciparem profissionalmente, arma essa que fechava os olhos às dificuldades dos segmentos populacionais mais desesperadamente necessitados de alguém que defendesse os seus interesses, que em pouco ou nada coincidiam com os destas mulheres privilegiadas. Esta tensão dentro do feminismo conduz, segundo hooks, a que muitas mulheres se vejam desnecessariamente alienadas do movimento que deveria servir-lhes de escudo. A apropriação do feminismo por estas mulheres brancas burguesas transformou o movimento não numa tentativa de sororidade e emancipação, mas antes numa defesa narcisista de interesses de classe, que visa liberar algumas mulheres do fardo doméstico, assim remetido airosamente para as suas empregadas-a-dias.

Todo o movimento libertador sério deve então, como bell hooks sugere, procurar em primeiro lugar proteger os mais oprimidos pelas desigualdades e é precisamente isto que tanto o feminismo como uma certa esquerda cosmopolita parece ter esquecido a meio do caminho, ao deslocar o seu foco de interesse dos estaleiros de Viana para o Príncipe Real.  Ao tentar fazer do feminismo um movimento que mostra como todas as pessoas são simultaneamente opressoras e oprimidas (exceto, talvez, as mulheres negras, pobres e analfabetas e os homens brancos ricos de Wall Street), bell hooks consegue, por um lado, desconstruir discursos simplistas acerca do sexismo e, por outro, impor mudanças que levem mulheres que se viam a si mesmas exclusivamente como vítimas a assumirem-se também como força motora de muitas agressões inconscientes.

Um outro ponto de interesse em Teoria Feminista é a descrição do funcionamento da violência nas sociedades modernas, uma descrição que nos traz à memória, por exemplo, o livro de René Girard acerca de violência tribal (La Violence et le Sacré). bell hooks vê a civilização como uma perpetuação de violência e opressão que se vira hierarquicamente para camadas cada vez mais baixas da sociedade. Os patrões oprimem os funcionários, os operários exercem depois essa violência não purgada sobre as suas mulheres e filhos e por aí fora. Desta estrutura de violência, podemos inferir naturalmente que protestos em que se queimam carros, destroem lojas e se atacam forças de autoridade são então, não demonstrações da mais bárbara selvajaria, mas de um desespero civilizado de quem, por estar constantemente no fim destas cadeias de violência, só pode agredir objetos inanimados ou representações anónimas e atomizadas do Estado que sistemática e impunemente as oprime.

Existe, contudo, um problema nas formulações de bell hooks, uma vez que a escritora parece ver o sexismo, o racismo e o classismo como um produto exclusivamente ocidental. Nunca se percebe (até porque bell hooks nunca explica) de que forma é que sociedades como, por exemplo, a muçulmana ou os modelos de castas hindus estão isentos dos erros que bell hooks de forma tão certeira aponta aos países denominados de primeiro mundo.

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