A reunião do Gabinete de Crise para o acompanhamento da evolução da Covid-19 em Portugal, convocada de emergência pelo primeiro-ministro, não chegou a duas horas e terminou sem anúncio de novas medidas.

O primeiro-ministro começou a conferência de imprensa, após o encontro, com a previsão de que o país poderá chegar aos mil novos casos diários já na próxima semana: “A manter-se esta tendência, seguramente na próxima semana chegaremos a 1.000 novos casos por dia.

Números que só se verificaram por duas vezes desde o início da pandemia no país: a 31 de março, registaram-se 1.o35 novos casos e a 10 de abril, 1.516. E houve apenas um outro dia em que o número de infeções foi superior a 900 — a 28 de março, quando se contabilizaram 902 novos casos.

Contudo, e apesar desta previsão, António Costa não vê razões para medo ou pânico e diz mesmo que este cenário não é “uma inevitabilidade”. Aliás, acha que há “razões para se estar confiante”: “Mas essa confiança assenta na consciência de que cada um tem de ser cauteloso, de que tem de adotar as precauções necessárias, tem de se prevenir e ajudar os outros a prevenir a difusão desta pandemia”.

Além disso, o primeiro-ministro destacou a confiança que se pode ter tanto na “capacidade de testagem” — que aumentou “significativamente” e que, esta quinta-feira, atingiu um novo recorde de 23 mil testes diários —, como na “excelência” dos profissionais de saúde e do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Ainda assim, o melhor “apoio” que se pode dar tanto ao SNS como aos médicos é “prevenir o risco” de infeção e de infetar terceiros, indicou.

A tónica das declarações de Costa assentou sobretudo na ideia da responsabilidade individual e no papel de cada pessoa no controlo da pandemia: “Temos mesmo de travar a pandemia por nós próprios, através da nossa responsabilidade social”, afirmou o primeiro-ministro, sublinhando a importância de um regresso à normalidade, mas “respeitando as regras fundamentais para controlar a pandemia.”

E as cinco regras “fundamentais” destacadas foram:

  • o uso de máscara “o mais possível e obrigatoriamente sempre que necessário”;
  • manter a higiene regular das mãos “ao longo do dia”;
  • respeitar “estritamente” a etiqueta respiratória, isto é, tossir só para o cotovelo e “nunca para as mãos e nunca sem qualquer proteção”;
  • manter o afastamento físico “adequado em cada circunstância”;
  • utilização “efetiva” da aplicação Stayaway Covid, que respeita “escrupulosamente a proteção de dados e assegura o anonimato de todos”.

“O custo social do confinamento foi brutal”

Para António Costa, a pandemia pode ser controlada se se respeitarem estas regras fundamentais. Desse modo, será possível garantir a normalidade do ano letivo, a retoma da atividade das empresas e, sobretudo, “a proteção do emprego e a proteção do rendimento das famílias”.

Até porque, o regresso ao confinamento é algo que nem sequer está em cima da mesa: “Nós não podemos voltar a parar o país”, respondeu o primeiro-ministro a uma jornalista que perguntou se Governo ponderava impor um confinamento parcial, como está a acontecer noutros países da Europa, como França.

“Nós não podemos voltar a parar o país”, afirmou o primeiro-ministro

Para o líder socialista, não é possível voltar a “privar as crianças e os jovens do acesso à escola”, proibir as famílias de visitarem os idosos nos lares, nem separar as famílias no Natal — lembrando o que acontecera na última Páscoa. Salientou igualmente que não se pode “continuar a destruir emprego, a empobrecer as famílias com cortes nos rendimentos, [nem] a destruir empresas”.

O custo social do confinamento foi brutal, o sofrimento pessoal de cada um foi enorme, a dor das famílias foi enorme e temos de evitar passar por isso tudo outra vez. Não podemos passar por isso tudo outra vez.”

“Não é pelo facto de se ser jovem que a responsabilidade é menor”

O primeiro-ministro voltou descrever que a pandemia foi uma “longa maratona”, cuja duração é desconhecida, uma vez que só terá fim quando “houver uma vacina ou um tratamento eficaz”. E sublinhou a importância de não haver “qualquer tipo de relaxamento, até porque a “generalidade” das pessoas infetadas com o novo coronavírus não tem sintomas: “[São] agentes ativos da difusão do vírus”.

“Presumo que todos pensemos que não estamos contaminados, mas não podemos ter a certeza, portanto a nossa responsabilidade é permanente”, afirmou Costa.

Dirigiu ainda umas palavras às camadas jovens, onde o número de infeções tem aumentado: “Compreendo que muita gente pense que afinal o vírus não é tão grave e, sobretudo, agora, que tem incidido numa faixa etária mais jovem, onde as consequências são menos graves, as pessoas tendam a relaxar”. Mas, disse, mais do que prevenir a doença neles próprios, os mais jovens têm a responsabilidade de não a transmitir a terceiros, nomeadamente idosos ou outras pessoas com doenças associadas.

Não é pelo facto de se ser jovem que a responsabilidade é menor.”

“Nós devemos ser os polícias de nós próprios”

Tal como já tinha afirmado na manhã desta sexta-feira, após uma visita à Escola Secundária de Alcochete, Costa voltou a sublinhar a importância de manter “escrupulosamente” as regras que são aplicadas nas escolas fora da instituição.

Para o primeiro-ministro, as pessoas não podem estar à espera de novas regras, uma vez que todos sabem “as regras que estão em vigor”: “Não podemos estar à espera que seja um polícia a vir dizer-nos o que devemos fazer. Nós devemos ser os polícias de nós próprios”, disse António Costa.

Ainda assim, António Costa indicou que, na próxima semana, a Direção-Geral da Saúde (DGS) irá apresentar um “plano específico” para o outono e para o inverno.