Uma mensagem trocada entre vigilantes do aeroporto de Lisboa levou a Polícia Judiciária (PJ) a investigar se houve uma segunda morte no Centro de Instalação Temporária, além da de Ilhor Homeniuk — o cidadão ucraniano que morreu em março após agressões de três inspetores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). A informação foi avançada pela TVI e confirmada pelo Observador junto de fonte deste órgão de investigação criminal.

As suspeitas serão passadas a pente fino, no âmbito de uma certidão que foi extraída para investigar, num inquérito isolado, um inspetor do SEF pelo crime de falsificação de documentos. Em causa estará uma alegada falsificação do auto do óbito de Ilhor Homeniuk, que declarava que a morte fora por epilepsia. Só que, na sequência desta investigação e da análise feita aos telemóveis apreendidos, os inspetores da PJ encontraram uma mensagem suspeita trocada num grupo de conversação entre os vigilantes do aeroporto. “Este já é o segundo no meu turno“, lia-se.

Ao que o Observador apurou não há, até ao momento, registo de outra morte no aeroporto que possa explicar o conteúdo da mensagem. No entanto, a PJ está a apurar o contexto em que terá sido enviada e, apesar de não ser para já um cenário muito provável, a tese de um segundo homicídio não está de todo afastada. Certo é que a Provedora de Justiça já tinha alertado em abril para denúncias de maus tratos no Centro de Instalação Temporária no aeroporto de Lisboa, segundo noticiou o Sol.

Três inspetores do SEF acusados do homicídio do ucraniano Ihor Homenyuk no aeroporto de Lisboa

A nova investigação foi conhecida esta quarta-feira na sequência da acusação do Ministério Público a três inspetores do SEF pelo homicídio de Ihor Homenyuk, em março passado, no aeroporto de Lisboa. Os três inspetores vão responder, cada um, por um crime de homicídio qualificado em coautoria e crime de posse de arma proibida.

Ihor Homenyuk morreu a 12 de março no Centro de Instalação Temporária do aeroporto de Lisboa, dois dias depois de ter desembarcado, com um visto de turista, vindo da Turquia. De acordo com a investigação, o SEF terá impedido a entrada do cidadão ucraniano e decidido que teria de regressar ao seu país no voo seguinte. As autoridades terão tentado por duas vezes colocar o homem de 40 anos no avião, mas este terá reagido mal: foi levado às urgências do Hospital de Santa Maria e, antes da meia-noite do dia 11, terá sido levado pelo SEF para uma sala de assistência médica nas instalações do aeroporto, isolado dos restantes passageiros, onde terá sido amarrado e agredido violentamente, acabando por morrer.

Pedidos de silêncio e informações falsas. Como os inspetores do SEF terão ocultado o bárbaro homicídio de Ihor

Apesar de no relatório o SEF ter descrito o óbito como natural, o médico legista que autopsiou o corpo não teve dúvidas de que tinha havido um crime, alertando imediatamente a PJ, que acabaria também por receber uma denúncia anónima que referia que Ihor Homenyuk tinha ficado “todo amassado na cara e com escoriações nos braços”, relata o jornal Público.

Os inspetores do SEF, de 42, 43 e 47 anos, foram detidos no final de março e encontram-se em prisão domiciliária por causa da pandemia de Covid-19. Nunca prestaram declarações nem contaram alguma vez a sua versão da história: terão feito um “pacto de silêncio”, segundo o Público.

A Inspeção-Geral da Administração Interna vai também instaurar oito processos disciplinares a elementos do SEF na sequência deste inquérito. Além destes, o ministro da Administração Interna já tinha determinado, a 30 de março, a instauração de processos disciplinares ao diretor e subdiretor de Fronteiras de Lisboa, ao Coordenador do Espaço Equiparado a Centro de Instalação Temporária do aeroporto, bem como aos três inspetores.

IGAI vai instaurar oito processos disciplinares a elementos do SEF no caso da morte de ucraniano