Título: O Bode Expiatório
Autor: René Girard
Editora: Edições 70
Páginas: 288
Preço: 19,90€

A capa de “O Bode Expiatório”, de René Girard (Edições 70)

É difícil, hoje em dia, olharmos para o sacrifício como mais do que uma curiosidade antropológica ou como sintoma de uma patologia por diagnosticar. Os sacrifícios pessoais, se não têm um objetivo imediato e palpável, surgem como uma estranha mania religiosa ou destemperada, que violenta o corpo em nome de princípios pouco saudáveis; os sacrifícios coletivos, por outro lado, as fogueiras, os rituais, tudo isso nos parecem lembranças de tempos mais obscuros e perigosos, em que a ignorância governava e podia condenar grupos ou pessoas às maiores penas sem grande oposição.

A ideia de aplacar a ira dos deuses com oferendas, privarmo-nos daquilo que temos em nome de algo que não sabemos se virá, tudo isso parecem quadros pinturescos, quando não vergonhosos, de um mundo antigo.

O Bode Expiatório de Girard (1923-2015), porém, quer mostrar-nos que o caso não é tão simples nem tão datado quanto parece. Os sacrifícios e as perseguições fazem parte da vida das sociedades antigas, sim, mas porque são acontecimentos estruturantes da vida em sociedade. Isto é, aquilo que Girard vem propor é a hipótese de o sacrifício ser estruturante das sociedades. Mais, não só Girard estuda esta possibilidade, como analisa o mecanismo pelo qual as sociedades procuram esconder os seus sacrifícios, coisa que invalidaria a objeção mais natural à sua tese: se os sacrifícios nos parecem coisa do passado, não poderiam ser estruturantes da nossa sociedade, a menos que o sacrifício, como defende Girard, estivesse escondido.

Este livro é, assim, além de uma análise à possibilidade de o sacrifício fazer parte da vida social, também uma defesa das provas disso mesmo. Isto porque os documentos históricos mais típicos não mostram uma presença tão forte do sacrifício nas sociedades antigas. Girard explica que, para conseguirmos encontrar vestígios dos sacrifícios, temos de aprender a decifrar o grande testemunho deles: o mito.

A analogia que Girard faz é interessante. Da mesma maneira que, num documento medieval (para o caso Girard usa O julgamento do Rei de Navarra, de Machaut) que acuse os judeus de envenenarem a água, causando assim a peste que se procura resolver com a morte dos descendentes de Abraão; da mesma maneira que, dizíamos, conseguimos perceber num caso destes que um elemento falso – o envenenamento das águas – não invalida completamente o testemunho histórico do documento (não duvidamos de que os judeus foram acusados), no mito o elemento ficcional não deve tolher a busca daquilo que nele é verdadeiro. Ora, Girard desenvolve uma estrutura dos mitos, a que eles não podem obedecer conscientemente, que quadra com a estrutura típica do sacrifício coletivo. O bode expiatório surge, segundo Girard, em tempos de crise. A crise ativa um mecanismo de perseguição em que a turba, que tem como função agir, procurar causas para a crise, encontra elementos com marcas de seleção vitimária – isto é, elementos diferenciadores, sejam eles defeitos ou qualidades. Daí, inverte-se a tendência natural dos factos, passa a considerar-se o individual como responsável pelo geral, atribuem-se ao bode expiatório crimes inventados mas impossíveis de provar, de natureza dissimulada e secreta, de tal maneira que só a morte ou a expulsão do bode expiatório permitem corrigir a anomalia que ataca todo o coletivo.

De uma maneira ou de outra, são vários os mitos que contraem esta estrutura e apagam dela as marcas de violência coletiva. Édipo, por exemplo, chega a Tebas numa altura de peste (crise coletiva), tem as marcas da seleção vitimária (coxeia e é rei) e depressa surgem os crimes individuais (dormir com a mãe) que ganham expressão coletiva e são considerados a causa da peste. O tempo disfarça os sinais da violência coletiva, ficciona-a, o mito tem uma tendência idealizante, mas toda a estrutura do castigo de Édipo indicam o modo social de agir em alturas de crise.

Ora, esta estrutura indicada por Girard é importante por duas razões. Em primeiro lugar, porque percebemos que podemos enquadrar as democracias contemporâneas neste modo de agir. Afinal, as democracias são modos de encontrar constantemente culpados, que cumprem perfeitamente a função de bode expiatório. Os eleitos tanto conservam as marcas de seleção vitimária, como se tornam o alvo da indignação e violência coletiva, que culminará na expulsão desses bodes expiatórios do poder. A diferença é vista como responsável pela anomalia mas, ao mesmo tempo, a igualdade gera violência, que tem de ser canalizada para os grupos de seleção vitimária: minorias mal-integradas, quer porque se evidenciam por cima, quer porque estão especialmente em baixo na cadeia social.

Ao mesmo tempo, porém, Girard identifica, na História, um acontecimento que destrói o mecanismo do bode expiatório. Esse acontecimento é relatado nos Evangelhos, que fogem, de todas as maneiras possíveis, a este mecanismo. Para este mecanismo funcionar, é necessária a sinceridade da turba: acreditar que a vítima é de facto culpada. Ora, a História de Cristo, do grande inocente, destrói a eficácia do mecanismo não só porque é óbvia a inocência do bode expiatório, mas porque há já nela uma consciência do mecanismo que a torna ineficaz. Cristo apresenta-se logo como um bode expiatório, tudo se faz “para se cumprir as Escrituras”, o sacrifício já está anunciado, mostrando que ele é, não o culpado, mas a vítima. Essa ideia tira logo a eficácia ao mecanismo persecutório.

A função do bode expiatório – dar à turba um sentido, um consolo em tempos difíceis, desresponsabilizar a sociedade e garantir que a violência, naturalmente gerada com a aproximação social motivada pela crise, é canalizada para o corpo estranho – não pode ser garantida sem a ideia de que a vítima é na verdade culpada.

A presença desta História no imaginário coletivo da Humanidade permitiu reinterpretar o papel do sacrifício (e, aliás, seria interessante comparar a noção de Girard com a de Joseph de Maistre) e aplacar a violência coletiva; a perda de importância desta História, porém, fez com que, de algum modo, se recuperasse o mecanismo, não só de um modo mais agressivo nos casos extremos (Holocausto, genocídio do Camboja…), mas também de um modo mais constante nas democracias contemporâneas.