A canção “Fairytale of New York“, gravada em 1987 pelos Pogues, é um dos grandes clássicos natalícios, mas este ano a BBC Radio 1 decidiu retirar a versão original do ar e substituí-la por uma nova versão por considerar que a letra original pode ser ofensiva para alguns ouvintes, de acordo com uma notícia da própria BBC.

A canção é um dueto em que a cantora inglesa Kirsty MacColl (que morreu em 2000) se junta ao vocalista Shane MacGowan — as duas vozes representam duas personagens embriagadas na noite de Natal, numa cela da polícia de Nova Iorque, a perorar sobre como chegaram ali. Numa das partes da canção, as duas vozes trocam insultos que incluem expressões como “slut” (vagabunda, ou pior…), “faggot” (termo pejorativo usado contra os homossexuais, equivalente ao português “maricas”) ou “arse” (cu).

Em 2007, a canção já tinha sido censurada pela BBC, que na altura disse que “alguns membros da audiência” podiam achar a letra “ofensiva”. Na época, a estação editou a faixa para que a palavra “faggot” não se ouvisse. A mãe da cantora Kirsty MacColl pronunciou-se sobre a decisão da BBC considerando-a “ridícula”, ao passo que os Pogues classificaram a atitude da BBC como “divertida”.

A decisão da BBC acabaria por ser revertida devido às críticas dos ouvintes. Porém, este ano, a estação britânica voltou a censurar a canção.

“Sabemos que a canção é considerada um clássico de Natal e vamos continuar a tocá-la este ano, e as nossas estações vão poder escolher a versão mais relevante para a audiência”, disse um porta-voz da BBC, referindo-se às diferenças com que a medida foi aplicada: a BBC Radio 1 vai tocar apenas a versão editada, enquanto a BBC Radio 2 vai continuar a tocar a original. Já a estação Radio 6 Music terá as duas versões, à escolha de cada animador.

O cantor Shane MacGowan já explicou, em 2018, que a canção não é ofensiva: as expressões são usadas por uma personagem dentro da história que é contada dentro da canção. “A palavra foi usada pela personagem porque se adequava à forma como ela falaria e com a personagem dela. Não é suposto que ela seja uma boa pessoa, nem sequer uma pessoa saudável”, explicou o cantor.

“Ela é uma mulher de uma determinada geração num determinado momento da história”, afirmou o cantor. “O diálogo é o mais preciso que eu podia ter feito, mas não tem intenção de ofender. É apenas suposto que ela seja uma personagem autêntica e nem todas as personagens nas canções e nas histórias são anjos ou sequer decentes e respeitáveis. Às vezes, as personagens nas canções e nas histórias têm de ser más para a história poder ser contada de forma eficaz.”