Além da incerteza, a pandemia de Covid-19 veio dificultar o negócio de muitos setores que estavam em crescimento, como é o caso do turismo. Em Portugal, por exemplo, os últimos nove meses registaram menos dez milhões de turistas do que no mesmo período do ano passado, num ano que se esperava que fosse de crescimento. Mas, apesar da realidade pandémica, há áreas do turismo que começam a encontrar formas de se adaptarem. É o caso da GuestReady, empresa de gestão de arrendamentos de curto prazo, que depois de sofrer quebras nas receitas na ordem de 80%, no início do ano, conseguiu recuperar algum fôlego no verão, tem repensado a forma de trabalhar e conseguiu obter 1,5 milhões de euros de financiamento através de uma campanha de crowdfunding.

O caminho até aqui teve vários desafios. Alexander Limpert, cofundador e presidente da GuestReady, admite que este ano “tem sido muito agitado” e que a empresa sofreu o impacto da pandemia logo no início, em março, por ser uma empresa ligada ao turismo. “Fomos dos primeiros a sentir tudo isto”, explica, acrescentando que houve uma grande quebra no número de reservas — cerca de 80% entre janeiro e abril.

“Estávamos a crescer. De 2018 para 2019, a empresa cresceu três vezes mais e estávamos a caminho de duplicar esse crescimento em 2020. Toda a gente estava entusiasmada para este período”, conta ao Observador o responsável da empresa que gere a plataforma dedicada sobretudo aos proprietários, ajudando-os com a logística dos imóveis, na colocação do anúncio em várias plataformas e no contacto personalizado com os hóspedes.

Com a quebra nas reservas de alojamento, a GuestReady foi obrigada a fazer alguns ajustes: reduziu os custos com o marketing e teve também de mexer na equipa, que “não tem o mesmo tamanho que tinha antes da pandemia”. No entanto, acrescenta Alexander Limpert, medidas como a possibilidade de layoff, ajudaram a manter alguns postos de trabalho. Além disso, a empresa ainda conseguiu manter 20% das reservas, “ao contrário de, por exemplo, muitos hotéis que ficaram a zeros”.

Já nessa altura, a GuestReady diz ter sido surpreendida pela compreensão dos proprietários face ao que se estava a passar. “Eles entenderam que este tempo é diferente e que podem não ter a mesma receita que tinham no ano passado. E, ao mesmo tempo, também acreditam que isto tem um bom futuro. Surpreendentemente, não perdemos muitos proprietários, porque acreditam nisto e sabem que nos próximos anos tudo será melhor”, explica.

O crescimento no verão, as mudanças e Portugal

Depois da quebra no início do ano, o período que se seguiu para a GuestReady foi de alguma recuperação. Agosto foi, aliás, um mês em que a empresa conseguiu voltar a ter receitas perto dos valores antes da Covid-19. Porquê? Pelo facto de a solução de Alojamento Local ter características diferentes de hotéis ou companhias aéreas, por exemplo.

Temos assistido a um aumento da procura por parte dos viajantes domésticos e para estadias mais longas, que ajudaram a compensar uma grande parte das reservas perdidas dos viajantes internacionais. Isto permitiu à GuestReady manter uma ocupação mais elevada em comparação com os hotéis”, conta.

O tempo de estadia dos hóspedes, acrescenta Alexander Limpert, quase duplicou. Já não se procura uma estadia de apenas dois dias, mas sim “planos mais longos” e em locais que permitem mais distanciamento social, com menos áreas em comum com outros hóspedes. Além disso, acrescenta o responsável, o que está a acontecer atualmente é que “algumas pessoas vão uma semana de férias e, como estão a trabalhar a partir de casa, acrescentam mais uma, duas semanas para trabalharem a partir desse local”. “Acho que isto vai continuar a acontecer no futuro: as pessoas vão ser mais flexíveis e vão combinar mais o trabalho e as férias”, sublinha.

Com a pandemia, também a própria empresa teve que alterar algumas das suas rotinas de trabalho. Se antes, por exemplo, os membros da equipa entregavam pessoalmente as chaves do Alojamento Local aos hóspedes e faziam a sua receção, agora tudo é feito sem contacto físico.

“Instalámos uns smart locks, também com locais de armazenamento de chaves descentralizados, onde os hóspedes podem ir buscar as chaves remotamente. Torna-se mais fácil no processo de check in e também ajuda no distanciamento e tem menos custos”, explica o responsável.

Além disso, também todo o contacto com proprietários, incluindo o momento em que a casa é “visitada” e a assinatura do contrato, é feito de forma virtual.

E em Portugal, como tem sido o negócio nos últimos tempos? António Fragateiro, country manager da GuestReady, admite que o impacto da pandemia no negócio em Portugal “foi um pouco maior do que em outros países”, sobretudo porque o turismo é uma das áreas chave na economia nacional. “Tivemos de experimentar algumas estratégias e tornar o impacto um pouco menos agressivo”, explica ao Observador. Foram, então, definidas algumas estratégias como reservas a médio e longo prazo e parcerias com alguns canais locais, como a Uniplaces e a NomadX.

A equipa em Portugal, onde a empresa está presente desde 2018, também sofreu ajustes, passando de 22 para 15 pessoas. Depois de alguma recuperação a partir de agosto, a GuestReady conta com um portefólio de cerca de 250 propriedades de Alojamento Local, estando neste momento a integrar 40 novos propriedades — 60% localizadas no Porto e 40% em Lisboa.

Uma campanha de crowdfunding e uma forma de chegar a mais cidades

No início de novembro, a GuestReady decidiu lançar uma campanha de crowdfunding na plataforma Seedrs para conseguir mais financiamento para crescer. Um dia depois do lançamento, a 3 de novembro, a campanha atingiu 100% do seu objetivo: 1,5 milhões de euros investidos por mais de 560 investidores. O resultado, acrescenta Alexander Limpert, mostra que há confiança de que o setor vai recuperar nos próximos anos, sobretudo o Alojamento Local.

O caminho que a empresa seguiu é semelhante ao que se passa no Airbnb, que sofreu milhares de cancelamentos este ano devido à pandemia e tem agendado para o final do ano uma IPO (admissão de uma empresa em bolsa).

Sempre quisemos fazer uma campanha de crowdfunding porque achamos que pode ajudar a fortalecer a comunidade de hóspedes e proprietários. Mas até agora não tínhamos encontrado a altura certa. Este ano, com a ronda de investimento que fechámos na primeira metade do ano, conseguimos encontrar a oportunidade para acrescentar mais algum financiamento com este crowdfunding. De uma perspetiva de timing resultou muito bem”, acrescenta o responsável ao Observador.

E se o início do ano foi tremido, o verão revelou-se uma surpresa: a empresa tornou-se rentável pela primeira vez, tendo em conta que não estava tão focada em crescer mas sim “em ser eficiente” e tendo também em conta que o modelo do Alojamento Local tem verificado um crescimento comparado com outras áreas do turismo.

A pandemia, apesar dos resultados negativos, foi também uma oportunidade para a empresa repensar o seu modelo de trabalho. Se, antes, o grande foco eram os grandes mercados urbanos — em Portugal, o caso do Porto e Lisboa –, agora a GuestReady vê potencial noutros destinos. E tudo é feito através de parcerias com empresários locais. 

Construímos uma boa tecnologia e uma boa marca e isso ajudou-nos no lado online, mas no terreno precisamos sempre de boas pessoas e às vezes é difícil encontrar e contratar em destinos mais remotos. Por isso, decidimos apostar em parcerias nestes destinos. Podem ser parcerias que já tenham relação com o Alojamento Local, que já gerem algumas propriedades. Nós damos o nosso software e acesso à equipa de comunicação com os clientes e eles, localmente, tratam de tudo o resto, porque conhecem o mercado local”, explica o responsável.

António Fragateiro refere que se trata de um modelo em que ambos os lados saem a ganhar: a empresa, por um lado, fornece a tecnologia e experiência no negócio e, ao mesmo tempo, tem a oportunidade de entrar em cidades mais pequenas e ter o seu modelo de negócio implementado através da experiência de locais. “Não temos a necessidade de estar presentes localmente, porque há pessoas que podem fazer esse trabalho por nós. Nós desenvolvemos a tecnologia, conhecemos essa tecnologia e agora é altura de aparecerem e trabalharem connosco”, acrescenta Alexander Limpert. Em Portugal, o modelo já está a ser aplicado no Algarve, Açores e Alentejo.

Os responsáveis acreditam que este será precisamente o futuro do setor: estadias mais locais, mais longas e muitas vezes dentro do próprio país: “Esta pandemia mostrou-nos que há muito mais localidades em Portugal que são interessantes, não só Lisboa e Porto, e o mesmo em França, onde estamos atualmente em seis mercados, mas podemos estar em muitos mais. É nisto que nos vamos focar a curto prazo”.

O futuro da GuestReady passa também por adquirir negócios mais pequenos do setor. “Infelizmente, esta pandemia impactou empresas na nossa área e algumas delas não têm acesso a financiamento e estão à procura de formas de se juntarem, de dar o seu portefólio a alguém, de parar ou vender o negócio por causa dos tempos difíceis. Acho que há muitas oportunidades e estamos a ter interesse de proprietários que querem vender o seu negócio e isso pode ser uma oportunidade para encontrarmos uma situação win-win com estas pessoas”, acrescenta Alexander.