Estamos a viver um “inverno à antiga”, como lhe chamou o climatologista Mário Marques no programa Resposta Pronta da rádio Observador. “Janeiro quer-se geadeiro”, lembrou, citando o provérbio popular, mas destacando que não se viam tanto dias seguidos de geada em Portugal — neste momento já são 13 — desde os anos 1980.

O frio, que algumas regiões do país fez os termómetros baixar aos 7ºC negativos, foi normal noutros tempos, mas está a fazer com que este seja o inverno mais frio da década — aliás, do milénio —, como referiu Mário Marques, consultor na iClimate Adviser. A razão, porém, não é a mesma que nos dava os invernos frios de outros tempos: este ano, “o anticiclone dos Açores estendeu-se em crista até à Gronelândia”, e “a massa de ar frio foi injetada de forma contínua desde o início de janeiro”. Ou seja, em vez das temperaturas frias próprias da época, tivemos um verdadeiro frio polar.

Climatologista. “É o inverno mais frio da década”

Depois, essa massa de ar frio veio da Escandinávia, no nordeste da Europa, até à península Ibérica fazendo com que, sobretudo em Espanha, as temperaturas mínimas fossem ainda mais baixas do que nos países nórdicos. Foi já na península Ibérica que a massa de ar frio trazida pelo anticiclone dos Açores se encontrou com a depressão Filomena, que deveria ter sido “uma depressão normalíssima, com precipitação”, disse o climatologista. Mas como o frio já estava instalado, a precipitação foi de neve e não de chuva. “Foram quase 48 horas que, em vez de chover, acumulou-se neve.”

A neve chegou a alguns pontos em Portugal onde é mais raro nevar, como no Alentejo ou até na Beira Baixa, mas Mário Marques não estranha que nestas condições tenha nevado tanto em Espanha. “É o país com maior altitude média da Europa.” Ainda assim, o país vizinho regista uma situação histórica, não nevava assim pelo menos desde 8 de março de 1971.

Neve volta a cair no Alentejo uma década depois. Veja as fotos e os vídeos

José Luis Martínez-Almeida, presidente da câmara municipal de Madrid, disse que, em cerca de 30 horas, caíram na cidade 1.250.000 quilos de neve, ou 23,2 milhões de metros cúbicos, o equivalente a uma fila de camiões alinhados desde a capital espanhola até Bruxelas com 40.000 quilos de neve cada um.

Termómetros em Espanha bateram nos 25 ºC negativos

Em Espanha, as temperaturas mínimas atingiram recordes. Esta terça-feira, Bello, na província de Teruel (região autónoma de Aragão, a este de Madrid), chegou aos 25,4 ºC negativos, e Molina de Aragão, na província de Guadalajara (região autónoma de Castilla-La Mancha, a sul de Madrid), aos 25,2 ºC negativos, destacou o site de meteorologia eltiempo.es.

Na quarta-feira, três capitais de províncias (Teruel, Toledo e Madrid) continuavam a registar temperaturas abaixo de 10 ºC negativos (Teruel com -15,4 ºC) e outras três (Burgos, Ávila e Soria) abaixo de -8 ºC, referiu eltiempo.es. Estas seis cidades espanholas registaram assim valores mais baixos do que a Noruega, onde a mínima da capital, Oslo, foi -8 ºC e de Tromso, já no círculo polar ártico, de -6,6 ºC.

Parte da explicação está na massa de ar frio trazida pelo anticiclone dos Açores, mas outra parte é consequência da própria neve acumulada e que em alguns locais ultrapassou meio metro de altura. Por um lado, o céu limpo, sem vento e sem renovação do ar faz com se que verifiquem temperaturas mais baixas, sobretudo de noite. Por outro lado, as temperaturas abaixo de zero, transformam a neve fofa em gelo e a manutenção desta neve e gelo ao nível do chão aumenta a reflexão da radiação solar.

Dito de outra forma: já deve ter notado que quando se coloca ao sol com roupas escuras aquece mais do que com roupas claras. Isso acontece porque o branco reflete muito mais radiação solar do que o preto, logo há menos energia a ser absorvida pelo solo (coberto com o manto branco) que, consequentemente, aquece menos. Ora, quando as superfícies aquecem mais durante o dia, podem ir libertando calor durante a noite, mas, com toda a cobertura de neve e gelo, isso acontece muito menos.

[Rio Douro, em Duruelo de la Sierra (Castela e Leão, Espanha), completamente gelado.]

Em Portugal, o “frio está a amaciar” (a ficar mais suave), como disse Mário Marques — embora haja ainda nove distritos sob aviso amarelo —, mas em Espanha mantém-se os avisos laranja (o mais grave) em Madrid e nas localidades a sul da capital, que podem ter mínimas de menos 8 ºC, as províncias de Castila e Leão, que podem baixar aos 10 ºC negativos, ou Cuenca, Toledo e Guadalajara, que podem registar entre 10 e 12 ºC negativos.

A península Ibérica só se livrará do frio gélido vindo do círculo polar ártico a partir de dia 20 de janeiro, quando uma massa de ar vinda do oceano Atlântico trouxer chuva e humidade.

O inverno gelado depois do ano mais quente

Já as temperaturas geladas tinham chegado à Península Ibérica, quando se soube que 2020 tinha sido o ano mais quente desde que há registo na Europa e um dos mais quentes a nível mundial. Mais, a década de 2010-2020 foi a mais quente da história. As conclusões vêm no relatório do programa europeu de observação terrestre Copernicus divulgado na semana passada.

2020 foi o ano mais quente na Europa e igualou 2016 a nível global

As vozes céticas em relação às alterações climáticas não se fizeram esperar, usando o frio que agora se faz sentir para levantar dúvidas sobre o aquecimento global. Mas quando se fala de alterações climáticas, trata-se de um fenómeno global, à escala planetária, que tem de ser avaliado com um vasto conjunto de dados ao longo de um período de tempo longo e não por fenómenos pontuais e localizados, como explicou fonte oficial do programa Copernicus ao Observador.

Mais, analisar se um evento meteorológico específico foi causado ou não pelas alterações climáticas é desafiante e, às vezes, inconclusivo, responderam os cientistas do programa europeu. “Em termos de tendência geral, no entanto, em particular no que diz respeito a eventos frios, não significa que não vamos voltar a ver um clima frio ou a experienciar recordes de frio a nível local ou regional, mas vão tornar-se mais raros, enquanto os recordes de temperaturas altas vão acontecer com maior frequência”.

[Mapa com as variações de ano para ano e mudanças de longo prazo na temperatura à superfície desde 1979. E gráfico com a progressão das médias globais de temperatura.] 

A equipa do programa Copernicus reforça ainda que não só terminámos a década mais quente de que há registo, como a temperatura global média tem estado a aumentar. E isto, reforçam, não é uma conclusão baseada só nos dados do programa Copernicus, que remontam a 1950, mas nos dados de várias instituições (como mostra o gráfico em baixo). “É claramente visível que as bases de dados de todas as instituições mostram uma tendência de subida ao longo dos anos.”

Variação da temperatura média global, por década, registada por várias instituições. A partir da década de 1930 as variações mostram um aumento, sobretudo a partir da década de 1980 — Copernicus

O que se sabe sobre as alterações climáticas e o aquecimento global é que podem provocar modificações nas correntes atmosféricas e estarem na base de fenómenos meteorológicos extremos cada vez mais frequentes. Na Península Ibérica, por exemplo, a perturbação da dinâmica atmosférica pode fazer com que venham mais ventos frios da região polar no inverno e mais massas de ar quente no verão.

Este ano, houve uma espécie de rutura no vórtice polar ártico, que mantém o frio nesta região, explicou o biólogo Carlos Duarte ao jornal espanhol ABC. Para que o vórtice se mantenha íntegro, as temperaturas têm de ser mesmo muito baixas. O problema é que esta é precisamente a região do planeta que está a aquecer mais rapidamente e, este ano, registou as temperaturas mais altas de sempre. A rutura do vórtice polar permitiu assim que massas de ar gelado invadissem a Europa e os Estados Unidos.