Aos 6 anos, Vera tinha um dia da semana preferido. Era aquele em que, no ATL que frequentava depois na escola, no Barreiro, havia uma atividade extracurricular chamada Mad Science (“Ciência Louca”). O professor Mad Mike chegava pelas seis da tarde, com a sua caixa cheia de coisas incríveis para fazer experiências. E então começava o espetáculo: transformavam açúcar em algodão doce, aprendiam o que era a eletricidade estática ficando com os cabelos em pé, convertiam os ovos em bolas saltitonas depois de os enfiarem em vinagre. “Não me lembro do verdadeiro nome do professor, mas lembro-me da figura: era a personificação do cientista maluco, com o cabelo meio em pé. O certo é que estas experiências simples me permitiram perceber que tudo tem um ‘Como’ e um ‘Porquê’ e ter vontade de os descobrir.”

Agora, com 25 anos – e depois de concluir a licenciatura em Biologia na Universidade de Aveiro e o mestrado em Oncologia, no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), no Porto –, a investigadora acabou de iniciar o doutoramento na área do cancro da próstata, com a ajuda de uma bolsa da Fundação “la Caixa”, integrada no Grupo de Epigenética e Biologia do Cancro, do Centro de Investigação do IPO-Porto.

Sentada na sala da sua casa, a poucos quarteirões de distância do trabalho, Vera faz primeiro um sorriso largo e franco e depois agita-se um pouco na cadeira, admitindo que está nervosa. É a primeira vez que dá uma entrevista. Mas, se conseguir aquilo a que se propõe, será certamente primeira de muitas: a investigadora está a tentar desenvolver uma coisa extraordinária – um biomarcador que consiga prever que doentes com cancro da próstata vão sofrer metastização do tumor.

“O ideal seria conseguir perceber quais os tumores que têm probabilidade de metastizar (cerca de 30%) e os que podem ter aquilo a que chamamos um ‘watchful waiting’ (espera vigilante)”, diz a investigadora. “Para ir acompanhando o curso da doença, mas com uma ação menos interventiva”

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Vera começou por ter contacto com a investigação em cancro da próstata no terceiro ano de curso, quando estudou na Universidade de Alcalá, em Madrid, ao abrigo do programa Erasmus. Mais tarde estagiou no Institute of Cancer Sciences, da Universidade de Glasgow, na Escócia, a sua tese de mestrado, no ICBAS, foi já focada no desenvolvimento de um método de rastreio não-invasivo para os cancros frequentes no homem. Os resultados que obteve valeram-lhe uma bolsa da Liga Portuguesa contra o Cancro-Fundação PT, em 2019, o que lhe permitiu continuar a otimizar esta ferramenta.

Os amigos, ainda jovens, brincam com ela: que, por favor, se despache para não terem de fazer o toque rectal daqui a uns anos. Mas o humor esconde uma realidade preocupante: muitos homens fogem dos exames, que consideram desagradáveis, e isso pode ser uma barreira ao diagnóstico precoce. “Os homens geralmente não gostam muito dos métodos de rastreio existentes. Com esse projeto estamos a tentar tornar isso mais fácil.”

Mas apesar de o diagnóstico precoce ser um problema pertinente, não é o único. A tecnologia tem vindo a permitir que se detetem tumores mais cedo e isso é bom, na medida em que é possível “apanhar” a doença numa fase em que é mais fácil tratá-la. Mas o que também acontece é que, cada vez mais, se detetam tumores que não iriam causar problemas e, uma vez encontrados, é difícil tomar a decisão de não os tratar. São dois problemas bem conhecidos dos médicos: o sobrediagnóstico e o sobretratamento.

Alguns cancros da próstata, sobretudo após os 70 anos, não irão influenciar em nada o curso de vida dos homens. Mas, ainda assim, muitos acabam por ser submetidos a tratamentos que pioram muito a sua qualidade de vida. Podemos estar a tratar em excesso.” No seu doutoramento, Vera Constâncio foca-se nesta questão.

O problema é conhecido e discutido há muitos anos em oncologia, nomeadamente através do conceito IDLE (indolent lesions of epithelial origin), a chamada lesão indolente: aquela que é designada como cancro, mas que, possivelmente, não causaria danos se não fosse tratada. Em muitos casos, estas lesões, que não trariam mal ao paciente – são autênticos soldados desarmados – são atacadas com a artilharia pesada da quimioterapia, que causa muitos danos colaterais. Isso põe em causa um dos princípios básicos da medicina: o princípio da não-maleficência: Primum non nocere (primeiro, não prejudicar).

Assim, a questão não é apenas diagnosticar precocemente, mas sim, após o diagnóstico, conseguir prever que tumores precisam de uma intervenção mais musculada e quais, a bem do doente, podem ser deixados em paz. “O ideal seria conseguir perceber quais são os que têm probabilidade de metastizar – que são cerca de 30% – e os que podem ter aquilo a que chamamos um ‘watchful waiting’ (espera vigilante): ir acompanhando o curso da doença, mas com uma ação menos interventiva.”

A chave para conseguir fazer esta previsão pode estar nos exossomas, pequenas vesículas extracelulares, de 30 a 150 nanómetros, que todas as células libertam. “Estas partículas parecem conseguir transmitir informação a outras células, tanto vizinhas como à distância. Há alguma evidência que podem dar origem ao estabelecimento de nichos pré-metastáticos, ou seja, um ambiente, num órgão secundário, que pode facilitar o desenvolvimento de metástases do tumor primário.”

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Todas as células produzem estas vesículas, mas as células cancerígenas parecem produzi-las em maior quantidade e é provavelmente a carga que transportam que vai estabelecer estes nichos: fazem parte do mecanismo de criação de metástases. O que Vera quer perceber durante o seu doutoramento é precisamente como é que esta comunicação se estabelece. “Ao perceber isso, na altura do diagnóstico poderíamos testar os doentes para essa ‘carga’ – através de um biomarcador – e perceber se está a haver comunicação com outro órgão ou não. Ou seja, se é ou não provável que a metastização ocorra.”

A grande dificuldade do projeto vai ser encontrar um bom biomarcador. Uma análise que conjugue o melhor de dois mundos: a sensibilidade e a especificidade do teste. Uma sensibilidade elevada garante que não escapa ninguém, mas aumenta o risco de falsos positivos. Já com uma grande especificidade, é diminuído o risco de falsos-positivos, mas aumenta o de falsos-negativos. “Este é o grande desafio de qualquer biomarcador. Neste caso, estamos interessados em encontrar um biomarcador da carga das vesículas que tenha uma maior especificidade, de forma a evitar o sobretratamento dos doentes.”

Esta foi a primeira vez que Vera Constâncio deu uma entrevista. Mas, se conseguir aquilo a que se propõe, será a primeira de muitas: a investigadora está a tentar desenvolver método de rastreio não-invasivo para os cancros frequentes no homem, graças a um biomarcador que consiga prever que doentes com cancro da próstata vão sofrer metastização do tumor

Nesta fase inicial, Vera vai estar focada em trabalho de bancada, que a ajude a perceber melhor os mecanismos moleculares das vesículas extracelulares. Depois vai passar a testes em modelos-animais e, por fim, recorrendo ao Biobanco do IPO-Porto, vai fazer testes em amostras de doentes diagnosticados com cancro há muitos anos e tentar ‘prever’ através do seu biomarcador quais os que desenvolveram metástases, antes de ir verificar nos processos clínicos para saber como evoluiu a doença.

É um verdadeiro trabalho de detetive, aquele que tem pela frente nos próximos três anos. Mas, como lhe ensinou na infância o professor Mad Mike, tudo tem um ‘como’ e um ‘porquê’. É só preciso descobri-los.

Este artigo faz parte de uma série sobre investigação científica de ponta e é uma parceria entre o Observador, a Fundação “la Caixa” e o BPI. Vera Constâncio, atualmente a desenvolver investigação no Grupo de Epigenética e Biologia do cancro do IPO-Porto (em colaboração com o Grupo de Oncologia de Sistemas da Fundação Champalimaud e com o Grupo de Biologia do Cancro da Próstata do CancerResearchUK, BeatsonInstitute (Glasgow), foi uma dos 65 selecionados (11 em Portugal) – entre 1078 candidaturas – para financiamento pela fundação sediada em Barcelona, ao abrigo da edição de 2020 do programa de bolsas de doutoramento INPhINIT. A investigadora recebeu 115 mil euros para desenvolver o projeto Prostate Cancer Pre-Metastatic Niche Formation:  Exosomal Osteotropism (PCaEXOBone) ao longo de três anos. As candidaturas para a edição de 2021 encerram a 4 de fevereiro ou 25 de fevereiro (de acordo com o local de realização da investigação).