O gabinete de Rodrigo Cunha está coberto de memórias felizes. As paredes brancas estão tapadas por centenas de fotografias das viagens que fez, pessoas com quem trabalhou e congressos a que assistiu ao longo dos últimos 25 anos. A maioria deles foram passados aqui, no Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC) da Universidade de Coimbra, onde lidera um grupo de investigação que se dedica a estudar os benefícios de uma substância muito consumida pelos portugueses: a cafeína.

O cientista de 54 anos tem sempre uma boa história para contar a propósito de tudo. Começa com a da mosca: “Um investigador diz a uma mosca: ‘Voa!’ E a mosca voa. Arranca-lhe uma asa e diz: ‘Voa!’ E a mosca, meia trôpega, voa. Arranca-lhe a outra asa e diz ‘Voa!’ E a mosca já não voa. Conclusão? Uma mosca sem asas fica surda.” A anedota tem um intuito pedagógico: alertar para os perigos de confundir a correlação – uma ligação entre dois eventos – com a causalidade – a relação de causa-efeito.

Foi precisamente isso que ele fez em relação à cafeína: conseguiu estabelecer uma relação de causalidade entre o seu consumo e a melhoria de sintomas de algumas doenças do Sistema Nervoso Central. Não havia dúvida que a cafeína parecia melhorar a atenção, a memória e o humor, mas não se sabia exatamente porquê.

Quem bebe café poderia ter menos tendência para a depressão por causa do convívio com os amigos no café e não pelos efeitos da bebida”, exemplifica o cientista. “Por isso, para determinar causalidade, é necessário saber qual o mecanismo de causa-efeito. Foi isso que nós fizemos: conseguimos identificar os alvos moleculares cerebrais onde atua a cafeína.”

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Rodrigo Cunha começou por pensar em seguir Medicina. Mas, quanto mais pensava nisso, mais pontos de interrogação lhe surgiam: ainda havia muitas doenças do sistema nervoso central sem opções de tratamento e as soluções teriam de estar a montante da prática clínica. Foi então que se decidiu por ir à origem, ao funcionamento do cérebro. “Não ao seu funcionamento como um todo, mas antes a cada célula, individualmente. Para perceber qual é o impacto de uma célula que funciona mal.”

Licenciou-se em Bioquímica na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e depois avançou para o doutoramento em Bioquímica, na mesma instituição, estudando uns sensores celulares – umas “antenas”, como lhe chama – que pareciam ter impacto no funcionamento dos neurónios, os recetores de adenosina. Parece complicado, mas Rodrigo lança-se numa história que simplifica tudo.

“Há uma molécula chamada ATP [trifosfato de adenosina] dentro da célula, que funciona como moeda energética para ela trabalhar. Se falta, a célula morre. Quando a quantidade começa a diminuir, a célula liberta adenosina para o exterior, um sinal crítico para avisar as outras células que precisa de ajuda.”

“Ainda não sabemos tratar a depressão”, diz o investigador. E não a sabemos tratar porque não sabemos onde é que ela “está” no cérebro. “Conhecemos várias modificações num cérebro deprimido, mas não sabemos qual a importância relativa de cada uma delas”

Ora, as células são todas delimitadas por uma barreira com o exterior, a membrana. Mas, como precisam de saber o que se passa no ambiente em redor, têm sensores externos. Entre eles estão os recetores de adenosina, que lhes permitem perceber que há outras células em apuros. Quando percebem que há problemas, isso causa uma perturbação em todo o sistema de neurónios que tem um impacto nas capacidades funcionais do cérebro. Supondo que a perturbação acontece numa estrutura com responsabilidades na memória, por exemplo, “quando meia dúzia de neurónios deixa de funcionar, há um grupo muito maior que fica aflito e isso faz com que deixemos de ter uma memória funcional”.

E é aqui que chegamos ao papel da cafeína. Ela interfere com os recetores de adenosina – os sensores, ou “antenas”, à superfície da célula. “A cafeína faz algo que do ponto de vista social seria muito mal visto, mas que a nível do sistema biológico é muito funcional: diz às células boas para ignorarem os sinais de stress enviados pelas que estão em apuros”, explica o investigador. “Assim, a esmagadora maioria dos neurónios bons ignora o apelo de ajuda e continua a trabalhar como habitualmente, mantendo a nossa capacidade de memória.”

É por isso que sempre que há uma diminuição da eficiência do funcionamento do cérebro, o consumo de cafeína ajuda a recuperar essa função. “Na maior parte das doenças do cérebro – psiquiátricas ou neurológicas – estes sinais de alarme disparam muito cedo. Se os pararmos, mantemos um funcionamento normal mais tempo.”

A má notícia é que comprar tempo não é igual a resolver o problema. Por isso, com o projeto “Adenosine A2A receptors as a new opportunity to manage and detail the neurobiology of emotional distress”, financiado pela Fundação “la Caixa” através do Concurso Health Research, o investigador quer usar a cafeína para entender a base neurológica da depressão, de forma a explorar novos tratamentos.

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“A verdade é que ainda não sabemos tratar a depressão.” E não a sabemos tratar porque não sabemos onde é que ela “está” no cérebro. “Conhecemos várias modificações num cérebro deprimido, mas não sabemos qual a importância relativa de cada uma delas.” O investigador espera que a cafeína seja uma janela de oportunidade para o descobrir. “Temos dezenas de milhares de circuitos cerebrais. Se descobrirmos em quais deles a cafeína é mais crítica para a melhoria do humor, perceberemos também quais os mais críticos para o aparecimento de depressão.”

Não é um trabalho fácil. “Existem tantos neurónios no cérebro humano como estrelas no céu.” O trabalho do investigador agora é descobrir qual o conjunto destas estrelas que “brilha mais” quando lhes chega a cafeína. Identificar claramente estes circuitos poderia ajudar a desenvolver a próxima geração de antidepressivos. “Medicamentos que não se limitem a atenuar a depressão, mas que a curem, ao corrigirem o funcionamento dos neurónios específicos que estão a causar a modificação de humor. Ainda não se sabe quais são e é isso que estamos a tentar identificar.”

Rodrigo Cunha é um fervoroso adepto da substância que estuda: bebe seis expressos por dia. O seu polimorfismo genético, ou seja, as características dos seus “sensores” inscritas no ADN, determinam que precise de uma quantidade de café elevada para sentir os seus efeitos benéficos. “Durmo muito melhor se beber café à noite. O consumo regular do café diminui o tempo de sono necessário para termos uma recuperação de qualidade. Mas não somos todos iguais: cerca de 60% das pessoas dormem melhor consumindo café, mas aproximadamente 20% tem insónias.”

Porque o café, note-se, não é uma panaceia. Não é bom para todos, nem em todas as situações: há uma pequena percentagem de pessoas que lhe são intolerantes e há momentos em que não convém consumi-lo. Para combater os efeitos do álcool em excesso, por exemplo. “A cafeína desliga os alarmes e, nesse caso, isso não é bom: perde-se a capacidade de perceber qual o limite e bebe-se até o álcool começar a matar neurónios. O consumo de bebidas energéticas com cafeína para combater os efeitos do álcool, vulgar em jovem, é uma preocupação que tenho”.

No Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC) da Universidade de Coimbra, Rodrigo Cunha lidera um grupo de investigação de 25 pessoas que se dedicam a estudar alguns efeitos da cafeína no cérebro. O grupo tem mais de 250 publicações em revistas científicas, com mais de 12 mil citações.

O grupo de investigação do cientista tem mais de 250 publicações em revistas científicas, com mais de 12 mil citações. Mas o poder traz responsabilidade. E Rodrigo Cunha não se esquece que estar à frente de um grupo de 25 pessoas o torna responsável por elas: hoje, a sua principal função é garantir o financiamento necessário para os ordenados e boas condições de trabalho da equipa que lidera. Isto implica saber ouvir as pessoas, mas também implementar aquilo a que chama “uma democracia musculada” que segundo ele, funciona assim: “Todos podem e devem dar a sua opinião, mas com uma certeza: no fim, faz-se o que eu decidir. Essa decisão é baseada nos melhores argumentos.”

Admite que há muito de emotivo no trabalho que faz. “Até porque, como disse o nosso novo Espinosa [refere-se ao neurocientista António Damásio], a razão não é mais do que aquilo que já foi uma emoção.” Mas considera que há momentos que ela tem de ser posta de parte. “Encaro sempre o problema da perspetiva de encontrar uma solução. Se uma coisa não tem solução, então, por definição, não é um problema. E tenho de fazer um esforço para me tornar insensível: é a única maneira saudável de viver com as adversidades.”

Apesar de ainda estar longe da reforma, o cientista já não olha para o seu trabalho do ponto de vista do que quer alcançar. “O pico de criatividade em ciência costuma ser atingido pelos 40 anos. Já fiz as grandes descobertas que tinha para fazer. O que faço agora é detalhar a boa ideia que tive no passado e criar condições no meu grupo para uma série de jovens promissores fazerem aquilo que eu já tive a ocasião de fazer.”

A esse propósito, conta mais uma história. Quando, há mais de trinta anos, teve a primeira entrevista com aquele que viria a ver um dos seus mestres – Alexandre Ribeiro, catedrático em Farmacologia – o mentor perguntou-lhe se sabia qual a diferença entre um homem e uma vaca. O jovem investigador ficou atrapalhado. Ensaiou várias respostas, nenhuma delas a conclusão certa do enigma. O catedrático logo o esclareceu: “A grande diferença entre nós e as vacas, é que temos uma biblioteca”. “Demorei a perceber o alcance da frase: todos nós começamos apoiados nos ombros daqueles que nos antecederam. O que conseguimos é possível graças a quem deixou as bases que nos permitem fazer o que fazemos. E o mesmo devemos fazer para a geração seguinte.”

Este artigo faz parte de uma série sobre investigação científica de ponta e é uma parceria entre o Observador, a Fundação “la Caixa” e o BPI. O projeto Adenosine A2A Receptors as a New Opportunity to Manage and Detail the Neurobiology of Emotional Distress / Entender a Base Neurológica da Depressão para Obter Novas Terapias, liderado por Rodrigo A. Cunha, do CNC – Universidade de Coimbra, foi um dos 25 selecionados (dez em Portugal) – entre 785 candidaturas – para financiamento pela Fundação sediada em Barcelona, ao abrigo da edição de 2018 do Concurso Health Research. O investigador recebeu 333 mil euros para desenvolver o projeto ao longo de três anos. O Health Research apoia projetos de investigação em saúde e as candidaturas para a edição de 2021 encerraram a 3 de dezembro último. Em meados deste ano deverão estar disponíveis as informações sobre as candidaturas para 2022.