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Quando os hospitais do país, e sobretudo os da região de Lisboa e Vale do Tejo, atingiram o limite da sua capacidade, o Ministério da Saúde autorizou a 13 de janeiro a suspensão de toda atividade cirúrgica programada, com o objetivo de aumentar a resposta à Covid-19. Agora, os médicos das especialidades mais sobrecarregadas queixam-se da diferença de trabalho em comparação com os cirurgiões, escreve o Diário de Notícias esta segunda-feira.

A situação deixou cirurgiões e médicos de outras especialidades, como oftalmologia, dermatologia, otorrino, em teletrabalho, ou com atividade muito reduzida, o que acabou por reacender “querelas antigas entre especialidades”, como admitiu o presidente do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), Jorge Roque da Cunha, em declarações ao DN.

Nos hospitais, médicos das especialidades mais sobrecarregadas no combate à pandemia, como medicina interna, pneumologia, infecciologia e até medicina intensiva, dizem que este “é assunto melindroso entre serviços e equipas”, mas o presidente da Federação Nacional de Médicos (FNAM), Noel Carrilho, aponta a existência de algumas “queixas informais”, refere o mesmo jornal.

“Há sempre muita dificuldade em que as especialidades mais cirúrgicas colaborem com as especialidades médicas ou até com a medicina intensiva”, admitem ainda os médicos contactados pelo DN

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Mas a “querela antiga” terá sido agravada durante a pandemia com a suspensão das cirurgias. “Os cirurgiões ficaram com trabalho reduzido, alguns só com consultas uma vez por semana, e sobretudo teleconsultas, outros com duas e uma urgência, outros só a fazer consultas e relatórios” em vez de “terem sido colocados nas equipas Covid e no reforço das atividades em que o seu hospital estava com maior dificuldades de resposta”, argumentam.

No caso do Hospital Garcia de Orta, em Almada, os cirurgiões foram colocados em casa em teletrabalho. “Houve uma proposta do diretor de serviço para que uma boa parte dos cirurgiões ficasse em teletrabalho, que foi aceite pela direção clínica”, garantiram os profissionais desta unidade hospitalar ao DN, criticando: “Sobra sempre para uns, outros podem ficar em casa. Somos todos médicos e todos poderíamos estar a trabalhar para o mesmo, apesar das características de cada especialidade.”

Já no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central (CHULC), “há especialidades que não operam doentes com Covid”, relataram os profissionais desta unidade ao DN. Na primeira fase da pandemia, “houve total solidariedade por parte de todas as especialidades”, depois, “com o desconfinamento, e com o voltar da atividade cirúrgica, ficámos com um problema grave. Os cirurgiões não queriam acompanhar os seus doentes infetados com Covid. O trabalho voltou a recair em algumas especialidades”, explicaram.