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São duas soluções diferentes, com o mesmo objetivo: ajudar os alunos a recuperar o que ficou perdido durante o ensino à distância. Um pouco por todo o mundo, a discussão começa agora a ser feita, com alguns países a testar as primeiras experiências no terreno. Em Portugal, um grupo de investigadores da Universidade Nova publicou o seu contributo para esta discussão: com programas de tutoria e escolas de verão é possível recuperar as aprendizagens. No cenário que implica maior investimento, custará 1.574 euros oferecer a um aluno estas duas possibilidades. O ganho pode ser superior a um ano de aprendizagem.

As tutorias, defende a equipa de investigadores, podem equivaler a um ganho de 3 a 15 meses se o programa se estender no tempo entre 12 a 20 semanas. Já as escolas de verão podem permitir uma recuperação correspondente a três meses de aprendizagens. Em qualquer um dos casos, os programas são mais eficazes para alunos de meios socioeconómicos mais desfavorecidos, que são também os mais vulneráveis à perda de aprendizagens.

As propostas são também acompanhadas de orçamento. O valor total que o Governo terá de desembolsar se decidir avançar com estas ideias é o equivalente a 3% do orçamento da educação para 2021 (se optar pela solução minimalista) ou 10%, se quiser chegar a mais estudantes.

“O montante de investimento total pode variar entre 168 e 639 milhões de euros para as tutorias, acrescidos de entre 42 e 55 milhões para as escolas de verão“, lê-se no documento assinado pelos investigadores Bruno P. Carvalho, Pedro Freitas, Susana Peralta, Ana Balcão Reis, e Miguel Herdade (o único que não pertence à Nova e participa a título pessoal).

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“Um aluno que beneficie do programa mais abrangente dos vários cenários da nossa proposta, isto é, tutorias, em grupos de três, a duas disciplinas, e a frequência da escola de verão, tem um custo 1.574 euros” por ano, argumentam os investigadores.

Quanto é que ficou por aprender? Ainda não se sabe

“Desde o último confinamento em Portugal, ainda não foi tornado público nenhum plano de recuperação de aprendizagens. Este documento propõe dois tipos de medidas imediatas, efetivas e temporárias, já testadas em outros sistemas de ensino e adaptadas ao sistema português”, escrevem os investigadores, defendendo que tutorias e escolas de verão são programas exequíveis e passíveis de serem implementados rapidamente.

Embora não se saiba exatamente quanto se perdeu com o ensino à distância — o Ministério da Educação vai revelar esses dados na segunda-feira, 29 de março — os investigadores lembram que a diferença de conhecimentos, “constante entre 2003 e 2018”, entre os alunos mais pobres e os mais ricos equivale a um atraso de 2 anos nas aprendizagens. Apesar disso, e até porque os dados do ministério não incluem dados relativos ao fecho de escolas em 2021, a equipa lembra que é fundamental conhecer tudo o que foi perdido “para desenhar, afinar e medir o impacto de qualquer programa de recuperação de aprendizagens”.

O que se sabe, por agora, é o que foi constatado noutros países que têm estudos já feitos: “Os grandes prejudicados são os alunos de contextos socioeconómicos mais desfavorecidos.”

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Os programas de escolas de verão são complementares às tutorias

Tutoria a Português e Matemática para grupos máximos de 5 alunos

São duas sessões por semana para alunos do básico, entre o 1º e o 9º ano, divididos em grupos de 3 a 5 alunos. A primeira proposta dos investigadores da Nova, as tutorias a Português e Matemática, devem ser integradas em horário escolar e podem ajudar entre 125 e 380 mil alunos, no caso da língua materna, e entre 273 e 528 mil estudantes no caso de Matemática.

No final, os custos anuais por aluno e por disciplina são de 422 euros ou 704 euros, dependendo do tamanho dos grupos.

A integração no horário escolar não é por acaso: quando as tutorias são integradas no horário escolar, e não após o fim das aulas, têm melhores resultados.

A outra ideia é manter as crianças nos estabelecimentos de ensino depois de terminado o 3.º período. “Os programas de escolas de verão, com duração de 4 semanas e envolvendo atividades lúdicas e de recuperação de aprendizagens podem envolver entre 251 e 331 mil alunos do 1.º e 2.º ciclo”, sublinham os investigadores, prevendo um custo total de 42 a 55 milhões de euros, o que equivale a um custo anual por aluno de 166 euros.

Acima de tudo, frisa a equipa, para reduzir as desigualdades aprofundadas durante o fecho das escolas, “este programa deve ser especialmente dirigido às crianças que mais foram afetadas”, até porque são elas que mais frutos podem vir a colher. E recordam os investigadores: há estudos que apontam para uma “potencial perda de metade da progressão do ano escolar durante o período de férias de verão”.

“As escolas de verão são uma resposta eficaz para perda de aprendizagens, mas é importante que combinem as várias dimensões do desenvolvimento das crianças e jovens”, ou seja, juntando aprendizagens mais académicas com atividades desportivas e artísticas, defende a equipa, já que todas sofreram com a pandemia.