É altamente provável que o tão aguardado desconfinamento (resultante do avanço das campanhas de vacinação) tenha efeitos surpreendentes ao nível das tendências. Aparentemente, já está a acontecer. Depois dos fatos de treino, dos pijamas acetinados e dos casacos puffer, a demanda pelo conforto, mesmo quando já não estamos limitados ao recato do lar, ameaça continuar a pautar as escolhas de quem compra e, consequentemente, as apostas das marcas de moda.

Conhecendo a natureza cíclica do sistema, era só uma questão de tempo até alguém resolver tirar os Crocs da caixa. Confortáveis? Esse será, provavelmente, o único predicado consensual no que diz respeito a estes chinelos de plástico. O certo é que há uma nova vaga de fashionistas fascinados com este item, que tanto divide as opiniões. Afinal, se o “feio” se assumiu como tendência durante os últimos cinco anos (em parte, graças ao empurrão dado por Demna Gvasalia, diretor criativo da Balenciaga), porque não alargar um fenómeno que começou com os ténis a outros elementos do guarda-roupa?

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Da inesperada adoração da geração z aos velhos e inveterados fãs, o renascimento já se traduz em números. No final de abril, a marca fazia um balanço para lá de positivo, com o CEO a classificar o atual nível de procura como “mais forte do que nunca”. A empresa norte-americana fechou o primeiro trimestre de 2021 com uma receita de 382 milhões de euros, um aumento de 64% face ao mesmo período do ano passado.

A América lidera a tendência, embora a empresa reconheça que é na Ásia que reside o maior potencial de crescimento a longo prazo. Para o segundo trimestre deste ano, a Crocs já reformulou as projeções de vendas — de cerca de 40%, estas deverão registar uma subida entre os 60% e os 70%, anúncio que, na semana passada, fez com que as ações disparassem mais de 16%. A empresa está cotada em bolsa desde 2006.

Lançada em outubro de 2020, a colaboração com Bad Bunny esgotou em poucos minutos © Divulgação

Mas se a pandemia foi uma alavanca decisiva para o sucesso, também a estratégia da própria empresa permitiu às velhas socas passar com distinção no teste do tempo. Nos últimos meses, elas não se limitaram a surgir nos pés de influenciadores e celebridades planetárias — a marca fez uma forte aposta em colaborações com figuras estratégicas, sobretudo do mundo da música. Justin Bieber, Post Malone, Bad Bunny e Priyanka Chopra assinaram edições exclusivas, prova de um esforço coletivo e concertado (e bem sucedido) para tornas os Crocs cool outra vez.

Uma breve história dos Crocs

Não existe nenhuma história mirabolante por trás dos Crocs, antes uma ideia mais ou menos brilhante que se foi aperfeiçoando, mesmo já depois de chegar ao mercado, em 2002. Pensados para serem uma alternativa aos sapatos de vela tradicionais, conquistaram pelo conforto. O público juvenil foi o primeiro a adotar esta nova forma leve e ventilada de calçar, seguindo-se profissões que, habitualmente, passam várias horas de pé — médicos e enfermeiros praticamente cunharam o modelo, à semelhança dos cozinheiros, classe que chegou mesmo a merecer uma coleção exclusiva.

NIWOT, COLORADO, JUNE 23, 2004--The founders of Crocs footwear pose with a variety of their products at their Niwot offices. Clockwise from left (starting with the man in glasses), Scott Seamans , director of product development; Lyndon (Du

Os três fundadores da Crocs © Glenn Asakawa/The Denver Post via Getty Images

Lyndon Hanson, Scott Seamans e George Boedecker foram os homens a lucrar com aquele que ficou conhecido como “o sapato mais feito do mundo”, sem nem sequer o terem inventado — limitaram-se a criar a marca com o nome que hoje conhecemos e a comprar no Canadá um modelo produzido através de uma espuma injetável patenteada como Croslite, fórmula multimilionária que, em apenas três anos, veria as receitas aumentarem de um milhão para 322 milhões de dólares (cerca de 268 mil euros), entre 2003 e 2006.

A diversificação do produto foi o caminho, com os Crocs a assumirem as mais diversas cores e formatos, incluindo um modelo com plataforma, o equivalente a um chinelo de borracha de salto alto. Com sede no Colorado, a empresa é hoje global com pontos de venda em mais de 90 países, incluindo Portugal.

Hora da verdade: quem ama e quem odeia?

“Preferia morrer”, declarou Victoria Beckham, alistando-se entre os que heroicamente resistem aos avanços da tendência. A demonstração de repulsa teve lugar no Instagram quando, há pouco mais de uma semana, a designer partilhou imagens de um par de Crocs lilases durante um unboxing polémico que contou com o alto patrocínio de Justin Bieber. Mas antes disso, decidiu consultar os seus seguidores — os resultados da sondagem ficaram praticamente taco a taco.

93rd Annual Academy Awards - Arrivals

Questlove na última cerimónia dos Óscares © Matt Petit/A.M.P.A.S. via Getty Images

Beckham não estará sozinha certamente, mas convém esclarecer que também há nomes de peso do outro lado da barricada. Em 2015, numa passagem pelo The Tonight Show de Jimmy Fallon, Helen Mirren decidiu trocar os seus sapatos de salto alto, impecavelmente emparelhados com o vestido roxo, por uns Crocs brancos com a bandeira britânica. Dias antes, sentado no mesmo sofá, Alan Cumming denunciara a opinião da atriz sobre os famigerados chinelos — “Odeio os teus Crocs, acho-os muitos feios”. Convertida ou decidida a desculpar-se em público, o certo é que Mirren calçou os “sapatos feios” à frente de uma audiência de milhões.

Na última cerimónia dos Óscares, os Crocs também pisaram a passadeira vermelha. O autor da proeza foi o músico norte-americano Questlove, que decidiu calçar-se a combinar com a estatueta e usar um modelo dourado, ainda que fiel ao desenho clássico. Também Ariana Grande já revelou publicamente o seu apreço por este item. No Instagram, e à parte de qualquer colaboração, antecipou o come back, muito antes da pandemia rebentar.

Crocs na coleção de Christopher Kane para o verão de 2017 © Getty Images

De Hollywood para as passerelles europeias (e no meio, nem o sonolento Bernie Sanders na tomada de posse de Biden escapou à tendência), estes pedaços de plástico têm atraído as atenções de algumas marcas de luxo. À boleia do súbito interesse pelo feio, a Balenciaga apresentou uma nova versão dos famosos sapatos, com uma plataforma digna de um editorial de moda.

Ainda assim, foi Christopher Kane o primeiro a colaborar com a marca norte-americana. Em setembro de 2016, o designer escocês integrou alguns modelos (bastante fiéis aos Crocs originais) na coleção do verão seguinte. Desde então que a silhueta tem feito parte dos desfiles de Kane, que já os adornou com pelo, pedraria e estampados animais.