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É confortável, democrático e tornou-se uma farda do confinamento. Será que o fato de treino veio para ficar? /premium

Alavancou negócios, dominou o Instagram e trouxe mais conforto ao confinamento, que está longe de acabar. Será o fato de treino uma tendência passageira ou o prenúncio de uma nova relação com a roupa?

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O colar de pérolas ou as meias de lã? Há um caminho percorrido (talvez possamos cingir-nos aos últimos dez anos) até chegarmos ao momento em que dilemas como este são perfeitamente legítimos quando se trata de fazer o styling de um fato de treino. Em 2020, recolhemo-nos e, na demanda pelo conforto, tropeçámos no combo que representa o compromisso ideal entre bem-estar físico e contentamento estético.

No último ano, o fato de treino foi promovido a um lugar de destaque, honroso até. Não vem atrelado à prática de exercício físico, é confecionado com recurso a materiais nobres e selecionados — já a léguas da desinteressante “roupa de andar por casa”. O styling entrou em ação (como sempre, aliás) e provou que não há joia demasiado cara nem salto demasiado alto para emparelhar com duas peças de algodão, poliéster ou nylon, da mesma forma que até o mais preguiçoso dos visuais ganha contornos de um glamour alcançável.

As imagens proliferaram nas redes sociais, marcando o anuário que agora se acabou de escrever. Todas sugerem conforto, esse luxo aparentemente despretensioso e democrático. A verdade é que 2020 foi o ano em que começámos a olhar para o fato de treino com outros olhos, ao ponto de desconfiná-lo quando chegou a altura. Agora que estamos de volta a casa, a triagem do guarda-roupa já não começa do zero.

Moda e conforto: uma questão de styling

Em novembro, a Vogue decretava oficialmente o regresso triunfante do fato de treino. As evidências somavam-se e, na verdade, não era preciso chegar ao final do ano para fazer o balanço. De opção confortável e à medida dos longos dias de confinamento, este conjunto de duas peças assumiu-se como símbolo máximo de um sportswear sedutor. Conclusão? Saiu à rua, chegou em força às redes sociais e foi reeditado em múltiplas versões, da maison de luxo às mais democráticas marcas de pronto-a-vestir.

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Na opinião de Daniela Pais, o protagonismo assumido por peças extremamente confortáveis e de cunho desportivo, das quais o fato de treino é o exemplo mais flagrante, são uma consequência natural do curso que as tendências tomaram nos últimos anos. “Se repararmos, tudo o que é casual e activewear ganhou um espaço enorme e tomou conta de quase todas as áreas de mercado. É claro que o facto de estarmos em casa e de, naturalmente, procurarmos estar mais confortáveis, acelerou a procura”, aponta a designer de moda e representante da Trend Union em Portugal.

Da esquerda para a direita, no sentido dos ponteiros do relógios: Rita Pereira, Ana Moura, Maria Guedes, Pernille Teisbaek, Chiara Ferragni e Gilda Ambrosio

Faz parte de uma equipa internacional cuja missão é prever quais serão as tendências de amanhã — na moda, no design e no próprio estilo de vida. Passar a estar em casa na maioria do tempo só podia refletir-se no armário. “Se algumas pessoas já usavam o fato de treino num contexto mais generalizado, a maior parte não o fazia. Havia a roupa de casa, à qual não se ligava muito, e a roupa para trabalhar. Esses dois universos cruzaram-se”, resume ao Observador.

As calças e a camisola (com ou sem capuz) em algodão e num tom neutro tornaram-se uma tela em branco. Podem ser um indício de menor esforço, mas também a base de uma elaborada construção. “O valor conforto já pairava no mercado, a pandemia veio torná-lo mainstream. E não quer dizer que este registo não seja apresentável, romântico ou até mesmo chique”, remata Daniela. De traje menor a must-have potenciado pelos looks do clã Kardashian e pelo fenómeno da marca The Pangaia, o fato de treino pode ser usado com um colar de pérolas ou com uns brincos de diamantes, com um blazer executivo ou com um casaco de pelo, com umas botas de pele ou com umas sandálias de salto alto.

Mas combinar sportswear com elementos do vestuário casual ou até formal não é uma receita nova, segundo nota Amélia Antunes, que relativiza o fenómeno. “O fato de treino já é tendência há algum tempo, sobretudo para quem acompanha mais de perto o mundo da moda. E continuo a conhecer pessoas que são incapazes de usar, nem mesmo para passear o cão”, refere ao Observador. Dentro de casa, o tom é outro — genuinamente orientado para o conforto, negligenciando muitas vezes o valor estético e retirando atenção à qualidade dos materiais.

Uma farda? Amélia admite que sim, mas não no melhor dos sentidos. “É claro que o estado de espírito não ajuda. Acho, sinceramente, que as pessoas se estão a esconder atrás da roupa. Deixaram de ir às compras, não acham que seja o mais importante a fazer agora e esta é uma solução fácil”, resume.

Fato de treino e saltos altos: uma combinação saída das ruas de Paris

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Fala também enquanto proprietária de uma loja de roupa, em Lisboa. Na Amélie au Théâtre, o movimento abrandou em 2020, embora tenha conseguido manter um grupo de clientes fiéis — à boutique e aos velhos rituais, mesmo quando os momentos sociais são pautados por novas exigências. “Investir na imagem tem muito a ver com a força interior de cada um e sim, há pessoas que querem continuar a arranjar-se”, conclui.

Conhecida por um estilo exuberante e feminino (o mesmo que aplica quando veste Marisa Liz no programa “The Voice”), Amélia Antunes alude ao sentimento de escapismo, o desejo de compensar o cinzentismo do momento com o colorido de vestuário e acessórios. Tudo aponta para um 2021 dividido entre visuais despojados e funcionais e o excesso próprio de estampados, volumes e até brilhos. Quanto mais a crise durar, maior será a procura pelo o antídoto e a moda tem um para oferecer.

Do atletismo ao hip hop. Uma breve história do fato de treino

É preciso recuar aos anos 60 do século passado para pôr os olhos nos primeiros fatos de treino, obviamente usados em contexto desportivo. As duas peças — um casaco com fecho de correr e umas calças a combinar — foram usadas por atletas norte-americanos, dos velocistas John Carlos e Tommie Smith aos corredores de longa distância como Frank Shorter e Steve Prefontaine. A modalidade em questão, o atletismo, viria a ditar o nome de batismo deste conjunto inusitado. Chamaram-lhe tracksuit, precisamente porque era usado na pista (track), sobre os arejados equipamentos oficiais.

Os Run-DMC em 1985

Michael Ochs Archives

Nos anos 70, o fenómeno extrapola as fronteiras da alta competição e o seu uso dissemina-se através do entretenimento televisivo. Quem é que o vestiu? Bruce Lee nas suas breves aparições na série “Longstreet” e, pouco tempo depois, Lee Majors, protagonista da série “The Six Million Dollar Man”. No final da década, o fato de treino tinha chegado às famílias, em pleno boom do jogging recreativo.

Só no romper da década de 80 é que este item de vestuário se dissociaria da prática desportiva. O hip hop era uma cultura em ascensão e o visual disruptivo dos Run-DMC (altamente patrocinado pela Adidas) inaugurou um novo capítulo da história da moda no século XX, o streetwear. Em 1984, o filme “Beat Street” é uma espécie de catálogo, cunhado por um novo acabamento, o do nylon. Dos subúrbios de Nova Iorque para o mundo, b-boys e rappers deram o mote daquela que se tornaria uma nova farda urbana.

Na verdade, a música continuou a servir de fio condutor à tendência — Beastie Boys, Snoop Dogg, Oasis, entre muitos outros nomes. Os anos 90 podem ter arrefecido a febre do fato de treino, mas não lhe puseram termo. As peças permaneceram, contudo, conotadas com a prática de diferentes modalidades desportivas, mas também associadas a culturas suburbanas, muitas vezes alvo de estigmas sociais.

Paris Hilton e o seu icónico fato de treino cor-de-rosa Juicy Couture, em 2008

WireImage

Na viragem do século, ele volta, à imagem e semelhança do que eram os modelos dos anos 70, mas com uns retoques ao estilo de Hollywood. Numa era de estrelas perseguidas por paparazzi, com um latte numa mão e um pequeno canídeo na outra, ficou para a posteridade a imagem de Paris Hilton no seu Juicy Couture de veludo cor-de-rosa. O postal dos anos 2000 abriu caminho para uma fusão entre os códigos de vestuário entendidos como clássicos e as peças desportivas. O resto é o mais recente capítulo de uma história que acaba com um grande palavrão: athleisure.

A resposta das marcas portuguesas

A pandemia e o seu impacto nas necessidades e preferências de consumo testou a rapidez das marcas em reagir e adaptar a oferta. Na moda, o fenómeno foi flagrante — apelidada de loungewear (ou homewear), a roupa ideal para usar dentro de casa disparou. Entre leggings, malhas quentes e confortáveis, calçado apropriado e, claro, fatos de treino, a diversidade esteve à altura do momento.

“Entrámos em confinamento em março e eu sentei-me a pensar no que podia fazer para a minha empresa sobreviver”. O testemunho é de Gonçalo Peixoto, designer de moda que, à data, tinha acabado de apresentar a coleção deste inverno na ModaLisboa. Canceladas as encomendas internacionais, dificilmente o plano b passaria pelo incremento das vendas para fora. “Ninguém sabia quando é que ia voltar a sair de casa, ou seja, tinha de responder à necessidade daquele momento, o homewear“, continua.

Em tempo recorde, desenhou e produziu (em Portugal) uma linha de fatos de treino — calças a 49 euros e hoodies a 60 euros — em seis cores. Sem logotipos, apenas uma frase que se tornou já numa assinatura da marca: sometimes I just wanna kiss girls. O lançamento aconteceu em maio e o sucesso ultrapassou largamente as expectativas do jovem criador, além da própria gestão do stock. “Quase um ano depois, ainda continuamos a fazer reposição das diferentes cores”, refere, explicando que a paleta ganhou entretanto três novos tons.

O lançamento dos fatos de treino de Gonçalo Peixoto, em maio do ano passado

Surpreendentemente, as peças acabaram por agradar também ao público masculino, à partida excluído das propostas de passerelle de Gonçalo Peixoto. As redes sociais, em particular o Instagram, foi onde o rastilho se acendeu. Através de parcerias estratégicas — Gonçalo admite que as cinco personalidades com as quais divulgou a nova linha totalizam dois milhões de seguidores — o ano que parecia perdido acabou por ser de crescimento financeiro.

Independentemente da especialidade de cada negócio, as pequenas marcas nacionais foram respondendo ao fenómeno. Foi o caso da Conscious, até então dedicada aos biquínis, e da Jujuca, focada numa maior diversidade de corpos e silhuetas. Em outubro, nasceu a iUKIYO, etiqueta portuguesa com fatos de treino em algodão orgânico, disponíveis em quatro cores.

Na reta final de 2020, o mercado acolheu a ideia de dois jovens empreendedores — vestuário minimal e confortável (fato de treino incluído), pensado de raiz já em plena pandemia. Focaram-se no bem-estar momentâneo de quem veste, mas também na sustentabilidade de um design intemporal. “Se há coisa que esta pandemia trouxe de bom foi este alerta para a importância da compra consciente”, explica Sara Peixoto, uma das fundadoras da Majatu.

O guarda-roupa do futuro está criado, na opinião de Sara. Uma fórmula que não é alheia ao eventual regresso ao trabalho fora de casa (há blazers e sobretudos no catálogo de lançamento), que alinha na atual “febre do conforto” e se esforça para reduzir ao mínimo o impacto ambiental da produção. No fundo, prioridades que vieram para ficar.

Loucos anos 20? O futuro é bem mais complexo

Constatado o fenómeno e resolvidos os dilemas de styling, o que é que o fato de treino da moda nos diz sobre o futuro? “Não há dúvidas de que 2020 veio acelerar o consumo consciente. Para mim, é a grande transformação. Já havia algum ativismo, mas agora houve algo que nos tocou diretamente na pele. Além disso, tivemos todos de desacelerar”, reflete Daniela Pais, da agência de previsão de tendências Trend Union.

Repetir-se-ão os loucos anos 20 um século depois? A descompressão, própria de um período pós-crise, virá certamente a caminho, mas uma vez chegados ao que Daniela chama de “uma nova base”, não haverá como voltar atrás. “Não acho que [as novas prioridades] vão desaparecer. Vão ser absorvidas no nosso quotidiano e fazer parte da nossa nova forma de viver. A questão do conforto pode ser flutuante no sentido em que não vamos estar sempre a trabalhar em casa”, conclui.

A campanha da primeira coleção da Majatu

O ativismo vai ter repercussões estéticas, na opinião da designer. Do combate ao racismo à promoção da diversidade, passando pelo feminismo e pela própria causa ambiental, as questões ideológicas estão destinadas a desembocar numa linguagem marcada pela mistura — “colorida, artesanal, folclórica, amadora”, nas palavras de Daniela. “Isso acontece paralelamente com este lado mais simples e despojado. Os dois vão encontrar-se e a consequência mais imediata disso vai ser uma procura de repensar e refazer a roupa de uma forma mais sustentável, de aprender os processos na internet e experimentar com os recursos que se tem”, explica.

Ainda no campo das macrotendências — e “por muito estranho que possa parecer” — dá-nos algumas pistas sobre animismo. “Vamos desenvolver uma relação mais séria com os nossos objetos. Quando os escolhermos, vamos fazê-lo com a consciência de que vamos cuidar deles. Mas isso não significa que todas as pessoas se vão tornar minimalistas”, continua.

Descreve as casas do futuro como pequenos museus — a seleção de objetos será cuidadosamente feita pelo seu curador. “Animismo, ativismo e amadorismo — a empatia é comum a todas, aos objetos, às causas partilhadas e ao amor a fazer algo, mesmo não sendo perfeito”, descreve Daniela ao resumir um futuro (provavelmente a próxima década) que começou em 2020, o ano do fato de treino.

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