Um prédio em Gaza, que tinha escritórios da agência de notícias Associated Press e da televisão Al Jazeera, bem como apartamentos e outros escritórios, desabou este sábado, depois de mais um bombardeamento das forças israelitas. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanhyahu, afirma que o edifício tinha “alvos terroristas” — algo que o proprietário do edifício nega — e que o país vai continuar “a responder com recurso à força” até que a segurança do seu povo seja “reinstituída e restaurada”.

Momentos antes do ataque, segundo a agência Reuters, o edifício tinha sido evacuado, depois de o proprietário, Jawwad Mahdi, ter recebido um alerta de um oficial dos serviços secretos de Israel, que deu uma hora de pré-aviso antes de iniciar o ataque ao edifício, conhecido como Torre Jala. O proprietário diz ter pedido mais 10 minutos para que os jornalistas pudessem salvar equipamento, mas este apelo terá sido negado.

A Casa Branca já reagiu, advertindo Israel de que garantir a segurança dos jornalistas é “primordial”. “Dissemos diretamente aos israelitas que garantir a segurança dos jornalistas e dos meios de comunicação independentes é uma responsabilidade de importância crítica”, disse a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki.

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A Associated Press disse estar “chocada e horrorizada com o facto de os militares israelitas terem como alvo e destruírem o prédio do escritório da AP e de outras organizações de notícias em Gaza”. É “um desenvolvimento incrivelmente perturbador”, disse o CEO da agência Gary Pruit.

Os militares de Israel “sabem há muito tempo a localização” do escritório “e sabiam que estavam lá jornalista”, afirma numa nota publicada no site da agência. E confirma ter recebido “um aviso de que o prédio seria atingido”, que chegou quase tarde demais: “Evitámos por pouco uma terrível perda de vidas. Uma dúzia de jornalistas e freelancers da AP estava dentro do prédio e, felizmente, fomos capazes de retirá-los a tempo”.

“Estamos a procurar obter informações do governo israelita e estamos em contacto com o Departamento de Estado dos EUA”, acrescentou o presidente da agência, deixando ainda a certeza de que “o mundo saberá menos sobre o que está a acontecer em Gaza por causa do que aconteceu hoje”.

Antes de o edifício ter sido atingido, Fares Akram, correspondente da AP em Gaza, descreveu no Twitter os momentos em que o pessoal da agência fugiu: “E agora o nosso escritório pode ser alvo de bombardeamentos. Descemos a correr as escadas desde o 11º andar e estamos agora a ver o prédio de longe, rezando para que o exército israelita acabe eventualmente por recuar” na decisão de atacar.

Por seu lado, o chefe do gabinete da Al Jazeera na Palestina e em Israel classificou este ataque como um “crime” e uma tentativa de o exército israelita “silenciar os media”.

Falando em direto no canal de notícias em língua árabe, o chefe do gabinete da Al Jazeera para a Palestina e Israel, Walid al-Omari, disse que este é mais um de uma “série de crimes perpetrados pelo exército israelita” em Gaza.

Israel não quer “apenas espalhar a destruição e a morte em Gaza, mas também silenciar os meios de comunicação social que veem, documentam e dizem a verdade sobre o que está a acontecer”, adiantou, advertindo que tal “é obviamente impossível”.

Novos bombardeamentos das forças israelitas na Faixa de Gaza

Balanço de mortes aumenta para 145, incluindo 40 crianças

Este incidente ocorre numa altura em que o balanço de mortes continua a subir. Pelo menos 145 pessoas já terão sido mortas em Gaza, incluindo 40 crianças, desde que os ataques começarem na segunda-feira passada, segundo as autoridades locais, como avança o The New York Times, naquela que é a maior escalada de violência entre israelitas e fações palestinianas em sete anos.

O Ministério da Saúde em Gaza disse ainda que há cerca de mil feridos. Estes números não puderam ser verificados de forma independente, adverte, no entanto, o mesmo jornal. A Organização das Nações Unidas afirma que dez mil habitantes de Gaza deixaram as suas casas para se abrigarem em escolas, mesquitas e outros locais devido aos ataques.

Antes deste último balanço, a BBC citava autoridades de saúde palestinianas para dar conta de que este sábado morreram pelo menos 13 pessoas. Dez das vítimas, entre as quais oito crianças, faziam parte de uma mesma família, que foi atingida num campo de refugiados, de acordo ainda com fontes oficiais palestinianas citadas pela televisão britânica.

Por outro lado, um homem de 50 anos morreu em Israel, na cidade de Telaviv, na sequência de um ataque de rockets, a nona vítima no país desde o início do conflito. Fontes oficiais de Israel dão conta de cerca de 200 ataques de rockets na última madrugada, segundo a BBC, que terão atingido casas nas cidades de Ashdod, Beersheba e Sderot. Como resposta, as forças israelitas dizem ter atingido um largo número de locais em que os rockets terão sido lançados, mas também apartamentos que alegadamente pertenceriam a operacionais do Hamas.

Os atuais combates são considerados os mais graves desde 2014 e eclodiram após semanas de tensão entre israelitas e palestinianos em Jerusalém Oriental, que culminaram com confrontos na Esplanada das Mesquitas, o terceiro lugar sagrado do islão junto ao local mais sagrado do judaísmo. Ao lançamento maciço de foguetes por grupos armados em Gaza em direção a Israel opõe-se o bombardeamento sistemático por forças israelitas contra a Faixa de Gaza.

Netanyahu diz a Biden que quer “evitar ferir civis”

Benjamin Netanhyahu, falou este sábado ao telefone com o Presidente dos EUA, Joe Biden, e disse que o país “está a fazer de tudo para evitar ferir civis inocentes”. Na mesma chamada, o líder israelita disse que o edifício tinha “alvos terroristas” e que os ocupantes foram avisados previamente para poderem abandonar o local.

Netanyahu agradeceu também a Biden pelo “apoio inabalável” dos EUA ao direito de Israel de se defender, como conta a BBC. Este sábado, Biden também teve um telefonema com o líder palestiniano, Mahmoud Abbas. O porta-voz de Abbas, citado pela agência de notícias AFP, disse que a conversa era “importante”.

Já Mark Regev, um conselheiro sénior do primeiro-ministro de Israel, defendeu as ações israelita numa entrevista à BBC: “Não quero ver nenhum inocente ferido, muito menos crianças, e não quero ver crianças israelitas ou palestinianas apanhadas em fogo cruzado”. Porém, o responsável afirmou que esta é a única forma para se conseguir um fim, nem que seja provisório, do conflito.

“Se usar o exemplo de 2014 [quando Israel lançou uma ofensiva terrestre em Gaza em resposta a ataques palestinos], foi depois desse conflito que alcançamos um período sustentado de calma. Enquanto o Hamas estiver preso na sua agenda extremista muito, muito radical, não se pode falar com eles sobre paz”, disse Regev.

O conselheiro disse ainda na entrevista que os israelitas já negociaram no passado com o governo palestiniano e, “com sorte”, vai voltar a “negociar com eles no futuro”.

Como conta o The New York Times, responsáveis norte-americanos, egipcíos e do Qatar estão a tentar que palestinianos e israelitas cheguem a um cessar-fogo para poderem retomar negociações de forma a pôr fim a esta escalada do conflito.

Nações Unidas preocupadas com possíveis crimes de guerra

A Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos disse estar preocupada com possíveis crimes de guerra nos ataques aéreos das forças israelitas e nos ataques com rockets dos grupos palestinianos, em áreas densamente povoadas por civis. Em comunicado, citado pela BBC, Michelle Bachelet diz ainda estar em causa o uso de munições reais pelas forças de segurança israelitas contra manifestantes. A ex-presidente chilena quer, por isso, uma investigação independente sobre todas as alegações de violações do direito internacional.

“Nos últimos 10 dias, a situação no Território Palestino Ocupado e em Israel deteriorou-se a um ritmo alarmante”, disse Michele Bachelet, que enumera os múltiplos problemas dos últimos dias: “A situação em Sheikh Jarrah, na ocupada Jerusalém Oriental, desencadeada por ameaças de despejos forçados de famílias palestinianas; a forte presença das Forças de Segurança de Israel e a violência em torno da mesquita de Al Aqsa durante o Ramadão; a severa escalada de ataques de e contra Gaza; e o chocante incitamento ao ódio racial e à violência em Israel levaram a ataques cruéis e ao aumento de vítimas no Território Palestino Ocupado e em Israel”.

Bachelet apela, por isso, à redução da escalada. Por um lado, apela diretamente ao Governo de Israel para que trave a violência entre colonos israelitas e israelitas palestinianos nas cidades de Lod, Haifa, Jaffa e Ramle, dizendo que a violência parece ser organizada. A responsável está preocupada com as indicações que tem recebido nesses casos, em que a polícia israelita não terá atuado perante ataques violentos sobre os palestinianos. A Alta Comissária da ONU condena também a “retórica inflamada” de parte a parte, que visa “estimular as tensões em vez de acalmá-las”.

Ainda este sábado, uma dezena de ambulâncias egípcias entrou na Faixa de Gaza para transportar feridos, informou a representação palestiniana no Egito. Num comunicado publicado na rede social Facebook, a embaixada descreve a situação, apontando que o tratamento hospitalar dos feridos está a ser garantido em hospitais egípcios.

“Cerca de dez ambulâncias egípcias entraram na Faixa de Gaza para transportar os feridos que vão receber tratamento em hospitais egípcios e foram vítimas de uma brutal agressão”, escreveu a embaixada palestiniana no Egito, citada pela agência de notícias espanhola Efe.

Última atualização na manhã de domingo, 16 de maio. Para ler sobre os principais acontecimentos que se seguiram, siga este link.