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Antes das 10h da manhã a correria já era grande junto à Casa do Roseiral, nos Jardins do Palácio de Cristal. Naquele miradouro idílico Diogo Miranda iria fazer desfilar as suas deusas modernas inspiradas nos apontamentos do passado, com formas mais fluídas do que é habitual ver nas suas criações. Com os olhos divididos entre a passerelle e o rio Douro, logo ali à beira, o sol abriu para deixar passar um desfile de cor e leveza extrema num regresso à vida que se quer mais confortável, sem ter de ceder à preguiça do loungewear.

A simplicidade é aqui palavra chave, e acaba por ser, para o designer, “um ato amplificador”. Desta vez, Diogo Miranda, que mantém a figura feminina no olho do furacão, deixou cair as silhuetas justas para dar lugar a novas justaposições e jogos de materiais e cortes mais fluidos, sem nunca, em momento algum, perder a feminilidade.

O designer admite que quis “fazer diferente”, sobretudo num momento em que, de forma generalizada, as pessoas querem libertar-se dos confinamentos sucessivos e voltar a divertir-se. “Desta vez quis trabalhar uma coisa diferente, porque as minhas coleções são sempre muito coladas ao corpo, mas aqui trabalhei os cortes e deixei os tecidos falar”, explica Diogo no fim do desfile, desabafando que toda a gente está cansada de fatos de treino e que já tiveram o seu tempo.  “Não quer dizer que um macacão ou um kaftan seja de fácil execução, porque o que trabalhamos foi o corte e a forma como a peça é construída.”

As modelos iam entrando pela passerelle montada no terraço da Casa do Roseiral, rodeada de arbustos e flores vivas a compor um cenário que se queria romântico e quase fantasioso. As viagens a Roma e depois à Grécia deram-lhe combustível para construir um verão leve, a chamar as deusas romanas e gregas para servirem de base a algumas das formas que por ali passaram — sobretudo as capas esvoaçantes trabalhada em chiffon de seda e em crepe presentes em vários coordenados. Outro detalhe para o qual Diogo chamou a atenção: todas as modelos desfilaram de sandálias rasas. Porquê? “Não precisas de estar de salto alto para estares extremamente elegante”, afirmou.

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Os vestidos, os macacões e os conjuntos de calça e camisa foram o espelho de uma coleção que quis ter a máxima versatilidade, com tecidos leves que assentam em vários tipos de corpos, silhuetas longas e em camadas, e cores como o amarelo, pistachio, castanho, beringela, bordeaux, azul klein, laranja, marfim e preto.

O verão pede cor e Miguel Vieira dá. E Pé de Chumbo também

Apesar do calor atípico, o outono começa a dar sinal de si na hora de Miguel Vieira apresentar “As Cores do Dia”, uma coleção que já passou pela semana da moda de homem em Milão em junho. Com a passerelle instalada numa das ruas dentro dos Jardins do Palácio de Cristal, as folhas das árvores caíam, quase que numa dança ensaiada na hora dos manequins desfilarem uma paleta de cores luminosa, ao contrário da sua tendência habitual “de ir buscar o preto e o branco para as peças de desfile”, em criações que casavam a sua já conhecida alfaiataria com detalhes de sportwear.

Memórias de infância e o elogio da cor. O regresso de Miguel Vieira e David Catalán a Milão

Se para Milão levou só cor, para o Porto Miguel Vieira acabou por escurecer o verão com o preto e branco, inevitavelmente. Surgiram na passerelle coordenados femininos dominados pelos vestidos pretos com formas fluídas, e também alguns looks adicionais masculinos nessas tonalidades.  “Como eu tenho a parte de senhora quis apresentar um apontamento de mulher, não podia estender muito se não a coleção ficava gigante”, explica Miguel Vieira. Apesar de os coordenados de mulher terem aparecido apenas em preto, o designer esclarece que podem ser reproduzidos “em todas as cores da coleção”, e que optou pelo negro por que queria acabar o desfile “de forma mais festiva”, diz. “Não era um registo de festa excessiva, mas a pandemia fechou as pessoas e agora cada vez há mais eventos e festas, por isso quis opções para as pessoas poderem usufruir de tudo novamente, que sejam coisas mais leves e não tão pesadas.”

O criador voltou a partir da sua já conhecida matriz de alfaiataria para, pontualmente, descontrair a silhueta masculina, tanto através dos cortes e tecidos — onde contrastavam o corte clássico do fato com as peças fluídas de seda — como dos padrões, onde introduziu elementos botânicos em lenços e noutros conjuntos da coleção.

“A coleção roça o clássico e formal, mas é desconstruída com todos estes detalhes, que são pormenores que tornam a coleção mais descontraída. As sandálias, as meias, as malas, tudo isso se mistura com fatos de altíssima qualidade, por exemplo”, explica. Os detalhes, lá está, não são deixados ao acaso nunca e mais uma vez os modelos usavam uma aliança de ouro e as unhas pintadas de verniz colorido, tal e qual a coleção. As malas da sua autoria complementaram os looks, assim como o calçado criado para a coleção — as sapatilhas, sandálias e mules — usado com meias coloridas que se sobrepunham às calças em todos os coordenados.

Miguel Vieira admite também estar a tentar criar coleções cada vez mais fluídas no que diz respeito ao género, “que possa ser vestida tanto por homem ou mulher ajustando os tamanhos das peças e como estas são estilizadas”.

O designer dá graças por estar de volta a apresentar fisicamente a sua coleção, porque sem público “nada é igual”. Apesar de não ter parado de trabalhar durante a pandemia, confessa que “estar horas e horas a fazer filmagens para apresentar um vídeo de seis ou sete minutos, Independentemente, de passar em Times Square, no Japão ou na China, não é a mesma coisa que numa passerelle”, lamenta. Miguel Vieira diz que é preciso uma certa mise en scène na moda, e isso inclui “público, primeira fila, palmas, tudo”.

Alexandra Oliveira teve de se readaptar na coleção passada, altura em que estava tudo confinado entre as quatro paredes de casa e em que o mundo estava praticamente parado. Mas desta vez, a designer voltou a convidar o público a cair na malha da Pé de Chumbo, que entre fios de linhos e fitas de fibras recicladas desenhou uma coleção de verão delicada, sem grandes volumes e, mesmo com a estrutura que a sua malha impõe, com muita leveza em simultâneo.

Depois de Paris e Milão, a Pé de Chumbo quer conquistar o seu próprio país, fio a fio

Na sala de desfiles, duas violinistas tocavam ao vivo “City Of Stars”, um êxito do filme “La La Land”, enquanto os modelos iam desfilando na passerelle com a leveza de espírito que esta coleção pedia, ainda que tenha sido pensada por Alexandra para ser um regresso ao glamour e à festa. Neste abraço à elegância, com muita pele à mostra entre as malhas de vestidos, saias e tops, os coordenados começaram nos pretos e brancos e foram crescendo para os dourados e bejes, laranjas, amarelos e rosas.

Os sapatos exóticos de Luís Onofre ganham asas

Já de noite e prestes a encerrar o dia, Luís Onofre fez o público pôr os olhos no chão — não em jeito de castigo, mas sim em jeito de ode ao exotismo naquela que foi, talvez, a coleção mais colorida do designer. O nome da coleção “Kaleidoscope”, aliás, remete para esse espetro de cores quase ilimitado que se reflete em criações mais simples e outras mais trabalhadas com animais com recortes de corujas, pavões e papagaios que se moldavam ao peito do pé, tanto nos saltos altos como nas sandálias rasas que pisaram a passerelle.

Luís Onofre: “Comecei a fazer sapatos porque o meu pai via que eu era um bocado destravado e pôs-me a trabalhar”

Luís Onofre confessa que todo o processo de escolha de cores e de conjugações de materiais lhe “dá muito gozo”, sobretudo numa altura em que ecoa na cabeça de todos a vontade de voltar a sair. “Talvez seja pela forma como as coisas estão a mudar, daí também eu querer dar um certo ânimo à moda para as pessoas se sentirem com alegria de viver e voltarem à sua vida”, explica o designer.

As modelos desfilavam convictas — como pede um desfile deste tipo — e em coreografias labirínticas pela passerelle dividida em três corredores. Esta é uma linha de calçado que acaba por ser uma continuação de um processo de ligação à natureza que começou com a coleção “Freedom”, ainda em 2020. Entre sandálias abertas de salto, outras rasas e mules, os tons refletiam uma autêntica floresta de tons com o castanho-terra a dominar e a fazer depois sobressair os outros tons: rosa, laranja, azul, amarelo, fúchsia e turquesa, com o dourado a surgir em vários detalhes. Surgiram algumas botas-meia e uns ténis num desfile que pontuava sobretudo pela elegância característica do salto alto e fino que já é imagem de marca de Onofre.

No que diz respeito aos materiais, o criador de sapatos admite que não é possível, hoje em dia, fechar os olhos às preocupações de sustentabilidade que pairam no mercado.

É muito difícil um designer encontrar uma pele maravilhosa mas que seja sustentável”, confessa. “E, se não o são, temos de ser fortes e não as usar. Porque se continuarmos a insistir no mais bonito não vai resultar.  Enquanto que as gerações mais novas estão altamente ligadas a este tema, na minha geração e na geração passada fomos culpados de certas coisas que aconteceram, e nós na moda temos de ser recetivos às mudanças e estar preparados para elas.”

A coleção foi construída com peles de efeito croco, camurças e cetim como base de sandálias que ganham pulseiras de correntes douradas ou vinil translúcido a envolver o tornozelo. Noutros modelos há bordados personalizados que dão um ar mais boémio e descontraído ao sapato, mas não menos elegante.

Quantas horas? Quantos artesãos? Quanto custa? Susana Bettencourt responde

Numa sala branca, onde as janelas ao fundo deixam entrar a luz natural, Susana Bettencourt preparava-se para deixar entrar o público naquela que seria a sua apresentação da próxima coleção. Deixou de lado o desfile e trouxe antes um happening ao Portugal Fashion, transformando a sua apresentação num momento em que fez perguntas pertinentes e deu respostas justas com o objetivo máximo de elucidar quem vê — e quem veste — a perceber o real valor da moda de autor.

À entrada da sala, antes de chegar à instalação com os manequins vestidos com a coleção “Azáfama”, há várias amostras de malha emolduradas e uma grande instalação de arte também em malha tricotada ao centro da sala. A acompanhar a peça, protegida numa moldura em acrílico, estava uma legenda com a pergunta “Quanto valerá esta peça?” e as respetivas resposta — aquela grande peça em malha demorou 35 dias a ser feita, o que equivale a 1120 horas, levando com mais 19 horas de modelagem, tudo feito por quatro artesãs com 433 metros de fio. O preço? Está sob consulta. Isto porque Susana não deixa nunca de passar uma mensagem e, desta vez (como em tantas outras), tem a ver com a valorização do artesanato português no mundo.

Escape ou prisão? Susana Bettencourt deixou a janela aberta no arranque do Portugal Fashion

A criadora portuguesa — e guru das malhas — criou uma parceria com o Município de Peniche e o seu centro de artesanato de rendas de bilros, e ao começar a desenvolver esta relação percebeu que aquelas pessoas se deparavam com o desafio da valorização das técnicas artesanais e da sua existência nos dias de hoje.

Na tal sala seguinte, os modelos estavam posicionados em cima de cubos brancos, quase estáticos, envergando a coleção da designer onde surgem jacquards — já imagem de marca da criadora — com grafismos com manchas orgânicas repletas de texturas contrastantes envolvidas em rendas artesanais e trabalhadas ao detalhe, como é habitual.

“Faz-nos repensar na verdadeira noção que temos do real processo de manufatura e enche-nos de intriga ao confortar-nos com o valor que damos a cada peça de vestuário. Esta reflexão vem de um sítio quase desconfortável do nosso interior: a nossa futilidade”, pode ler-se no descritivo da coleção, que volta a reutilizar desperdícios fabris.

E apesar do ritmo frenético — daí o nome “Azáfama” — Susana quer alertar para as escolhas do consumidor, incitá-lo a questionar-se antes de se precipitar a comprar e a fazer questão partindo da mais básica: “Quanto vale esta peça?”.

Um tributo à mãe, a euforia da festa e a procura pela identidade

“Madre” é uma homenagem à figura maior da vida de David Catalán, designer natural de Logroño radicado no Porto. É a sua mãe que inspira uma coleção que, mais uma vez, tem na sua base o workwear onde predominam as gangas tingidas e os cortes de alfaiataria, com uma exploração clara da delicadeza de malhas e camisas leves.

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Se em Milão a coleção foi apresentada num vídeo, dirigido por Isabel Branco, e filmado numa zona industrial, na Alfândega do Porto o designer teve oportunidade de mandar os modelos pela passerelle numa coreografia ensaiada e com looks que percorriam uma paleta de beges, ocres e azuis. A enriquecer os coordenados, capuzes, chapéus de abas e pequenas gravatas decalcadas de memórias e fotografias da mãe a trabalhar na carpintaria, a mesma onde desenhava e produzia peças em vime, mas também no cenário rural onde cresceu.

E se a pandemia começa a dar tréguas para o mundo poder ir voltando à dita normalidade, então Sophia Kah prepara terreno para esse regresso à vida e à euforia das saídas. Ana Teixeira de Sousa, a criadora da marca fundada em 2011, convidou a irmã Marta para mostrar o sentido de ocasião e dar vida a uma coleção cujo estado de espírito é esse mesmo: o de festa com o glamour que os confinamentos não permitiram.

Pela passerelle exterior da Alfândega desfilaram rendas românticas, aplicadas a vestidos, coordenados de tops e calças e até casacos de noite. Houve também um padrão floral com ares de vintage a marcar alguns looks da coleção, onde também estiveram muito presentes as plumas em acabamentos de vestidos e de calças, em contraste com peças mais sóbrias como smokings e vestidos de cocktail.

Neste dia também o criador Estelita Mendonça deu o ar da sua graça, com uma coleção onde, mais uma vez, predominou o workwear, que está presente na marca desde a primeira coleção. Com muitos calções em várias texturas, t-shirts arrojadas e bombers, o designer construiu uma coleção para questionar a ideia de nação, de limite geográfico, de simbologia nacional e da dimensão identitária.

Ao abrigo do programa CANEX, de moda africana, apresentaram ao longo do dia de sexta-feira a marca Maison D’Afie, com a coleção “Myango” que significa na língua Douala “Histórias do Passado”, e que é uma recordação do Reino Mandala, da sua história, legado, cultura e da forma como este reino evoluiu até se tornar nos Camarões atuais. A fechar o dia, e à boleia do mesmo programa, esteve Rich Mnisi, que continuou a explorar a mitologia Bushongo do Congo com o habitual verde vivo, a cor central de marca, à qual se junta uma paleta de amarelos e vermelhos, com direito a estampas abstratas inspiradas em bactérias visualizadas através do microscópio.

O Portugal Fashion continua este sábado com desfiles de Maria Gambina, Hugo Costa, Alexandra Moura e Alves/Gonçalves. Até lá, veja (ou reveja) as imagens que marcaram esta sexta-feira, na fotogaleria.