Sarah Luz tem apenas nove anos e um amor incondicional pelos livros, sobretudo pela poesia. Natural de Leça da Palmeira, em Matosinhos, herdou da família o hábito e o gosto pela leitura — todos os dias reserva um pouco do seu tempo para ler com os avós. Há cerca de dois anos, Sarah decidiu que queria incentivar mais pessoas a ler e a conhecer poesia. Foi dessa premissa que, em março de 2020, nasceu um projeto onde já vivem mais de 140 poemas declamados: o canal de YouTube “Poesia de Cor”.

[Ouça no final deste noticiário da Rádio Observador a reportagem sobre o projeto de Sarah]

A ideia surgiu durante o confinamento provocado pela pandemia de Covid-19, que obrigou à mudança de repentina de hábitos e rotinas. De repente, o contacto presencial que tinha com os avós teve de ser substituído pelas novas tecnologias e o tempo era passado em casa. “As escolas fecharam e eu passava horas ao telefone a ler livros para os meus avós. Com o incentivo dos meus pais, criei o hábito de ler poesia e com esse amor pela poesia nasceu este canal”, explica Sarah ao Observador, sentada numa das salas da Biblioteca Municipal Florbela Espanca, em Matosinhos, onde chega a passar horas a descobrir livros.

No canal de Sarah declamam-se desde clássicos de Fernando Pessoa a poemas de Alice Vieira, Luísa Ducla Soares, Sophia de Mello Breyner Andresen, Ana Luísa Amaral, Vinicius de Moraes e muitos outros autores. O nome do canal surge também para representar a variedade de textos que aqui podem ser declamados. “Chama-se ‘Poesia de Cor’ porque a poesia transmite-me sensações e emoções em várias tonalidades, como as cores. Eu tanto gosto de poemas mais leves e engraçados, como ‘O Pato’, de Vinicius de Moraes, como também gosto de poemas mais intensos, como ‘O Monstrengo’, de Fernando Pessoa”, explica Sarah. Da poesia, gosta mais “dos sentimentos e das emoções que cada poema transmite”.

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O objetivo do canal é fazer com que as pessoas ganhem também um hábito de ler poesia. A faz parte da minha vida e queria passar a mensagem às outras pessoas de que a poesia é muito importante e transmite-nos sensações e emoções muito boas”, acrescenta Sarah.

Além dos poemas declamados por si, Sarah desafia também outras pessoas a fazerem o mesmo para o seu canal — desde professores e funcionários do Agrupamento de Escolas Eng. Fernando Pinto de Oliveira a autores como Luísa Ducla Soares (com quem mantém uma amizade e fala regularmente por vídeo-chamada e por cartas), Alice Vieira, Richard Zimler, Rosário Alçada Araújo, Joel Neto, Rosabela Afonso, entre outros. Nunca ninguém recusou o desafio.

Os hábitos de leitura que Sarah criou têm ajudado também na escola, na vertente da escrita e leitura de textos. Susana Luz, mãe desta criança de nove anos, refere que o objetivo do projeto passa por incentivar outras pessoas, entre adultos e crianças, a lerem, a abrirem novos horizontes e a desenvolverem outras capacidades.

A leitura é um hábito que todos deveríamos ter, porque nos abre horizontes, porque às crianças, em particular, alarga o vocabulário, faz com que escrevam melhor, com que leiam melhor, com que tenham uma mente mais aberta. Achamos que isso é muito importante para a Sarah e, consequentemente, gostaríamos que as outras crianças se sentissem um bocadinho entusiasmadas ao verem uma criança a ler poesia e lessem também. Se não gostarem de ler poesia, podem ler prosa que é igualmente bonito”, explica ao Observador.

O canal “Poesia de Cor” conta com mais de mil subscritores e já tem alguns poemas da autoria de Sarah Luz. A escola, refere, é a prioridade, mas o resto do tempo livre é dedicado à leitura e à preparação dos vídeos que semanalmente publica e que têm também todo um trabalho antes de gravar: “Preciso, primeiro, de ler a poesia para tentar perceber sobre o que é que fala, os sentimentos e o que é que retrata. Depois tenho de ler de forma a que as outras pessoas também sintam as emoções que a poesia transmite”, explica, cuidadosamente.

O gosto de Sarah pela poesia é também partilhado num programa semanal na Rádio Miúdos e por várias presenças em eventos de poesia, onde também já teve oportunidade de ler alguns poemas. Quanto ao futuro, Sarah ainda está a descobrir o caminho, mas tem uma certeza: a poesia estará sempre presente.