José Ornelas, bispo da Diocese de Leiria-Fátima e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, investigado pelo Ministério Público por “possível comparticipação em encobrimento” de abusos sexuais de menores, reconheceu que há casos de pedofilia na Igreja, mas não “aceita” que acusem a Igreja Católica de ser “pedófila”.

“Não aceito que me venham dizer que a Igreja Católica é pedófila. Isto é uma completa desverdade. Agora, que temos casos de pedofilia, temos, porque isso é transversal a toda a sociedade”, disse, este domingo, 2 de outubro, ao canal CMTV.

O bispo de Leiria-Fátima confirmou que falou sobre as acusações de encobrimento de abusos sexuais com o Papa Francisco, no encontro que decorreu no sábado, 1 de outubro (o mesmo dia em que o caso veio a público). “O Papa Francisco diz ‘eu contas dessas tenho muitas‘ e que é natural que haja coisas que na Igreja estão a mudar, que se querem fazer novas e que isso tenha leituras diferentes”.

José Ornelas “não tem dúvidas” de que os casos de abusos sexuais que lhe foram relatados em Moçambique, em 2011, foram “convenientemente tratados”, não “diretamente” por ele, mas pelas autoridades locais e autoridades locais da congregação, com quem esteve em “articulação”.  O bispo considera ainda que o caso que veio agora a pública tem gerado “muita confusão” no que se refere ao papel das diferentes entidades.

Está de consciência tranquila e não pretende abdicar:  “Não está minimamente em causa sequer isso. Ninguém me pediu“, disse.

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa considera que a luta contra a pedofilia não cabe só à Igreja — que, diz, tem sido o bode expiatório — mas a toda a sociedade. “É preciso é que todos juntos, como sociedade, tenhamos juntos para dizer ‘nós estamos decididos a inverter esta situação”, disse. “Uns contra os outros, o campeonato está perdido”, acrescentou.

José Ornelas está a ser investigado pelo Ministério Público. Ocorrida há 11 anos, em causa está a possível “comparticipação em encobrimento” de casos de abusos sexuais de menores de um orfanato liderado por um padre dehoniano (congregação da qual o bispo era líder máximo), numa cidade da província de Zambézia, em Moçambique, avançou na manhã de sábado, 1 de outubro, o jornal Público.

A denúncia foi feita por João Oliveira — na altura professor de português no Centro Polivalente Leão Dehon, frequentado por várias crianças daquele orfanato — que a dirigiu diretamente ao presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. A Presidência da República encaminhou o caso para a Procuradoria-Geral da República (PGR), que confirmou ao Observador a receção da denúncia, adiantando que o caso está “para análise”.

A Conferência Episcopal Portuguesa, em comunicado enviado às redações, garantiu que o bispo “deu indicações para que as suspeitas fossem investigadas pelas competentes autoridades locais da Congregação, as quais não encontraram nenhuma evidência de possíveis abusos.” A Conferência adiantou que as autoridades de investigação judicial de Moçambique e de Bergamo, na Itália, onde residia um dos sacerdotes visados, também investigaram todas as situações, tendo resultado no seu arquivamento.

Denuncia de encobrimento de abusos sexuais contra bispo de Leiria. Caso foi investigado em Itália e Moçambique e arquivado

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