O bispo auxiliar de Lisboa D. Américo Aguiar, o eclesiástico responsável pela organização da Jornada Mundial da Juventude de Lisboa, em agosto deste ano, vai ser elevado a cardeal, anunciou este domingo o Papa Francisco durante a oração do Angelus, a partir da janela do apartamento pontifício na Praça de São Pedro.

O Papa Francisco anunciou a realização de um consistório para a criação de novos cardeais no dia 30 de setembro — e D. Américo Aguiar é um dos nomes incluídos na lista dos novos cardeais. Isto significa que Portugal passa a ter quatro cardeais eleitores num futuro conclave: D. Manuel Clemente, D. António Marto, D. José Tolentino Mendonça e D. Américo Aguiar. São os quatro cardeais portugueses que têm menos de 80 anos, idade a partir da qual perdem o direito de voto. Outros dois cardeais portugueses, D. José Saraiva Martins e D. Manuel Monteiro de Castro, já ultrapassaram os 80 anos de idade e não podem votar.

Também significa, em termos práticos, que Portugal passa a ter quatro figuras com hipóteses reais de serem eleitos para o trono papal. Há vários séculos que o Papa é escolhido de entre os cardeais eleitores, embora as regras da Igreja Católica permitam, em tese, que qualquer homem batizado possa ser eleito Papa (poderia até acontecer que fosse eleito um leigo, que teria de ser ordenado padre e bispo de imediato para ocupar o trono papal).

O anúncio feio este domingo pelo Papa Francisco não significa, necessariamente, que D. Américo Aguiar venha a ser o sucessor de D. Manuel Clemente na liderança do Patriarcado de Lisboa — embora essa seja uma opção forte, sobretudo tendo em conta que o atual cardeal patriarca completa 75 anos de idade na próxima semana, alcançando a idade em que é obrigatório que peça a resignação ao Papa. D. Manuel Clemente já tem deixado sinais de que vai abandonar o Patriarcado de Lisboa após a Jornada Mundial da Juventude.

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D. Américo Aguiar. Conferência de D. José Ornelas, após reunião de bispos, foi “uma tarde péssima, com danos colaterais na mútua confiança”

Vários nomes têm circulado nos meios eclesiásticos como possíveis sucessores de D. Manuel Clemente, incluindo D. Virgílio Antunes (Coimbra), D. Francisco Senra Coelho (Évora), D. Nuno Brás (Funchal) e D. Américo Aguiar. A nomeação cardinalícia de D. Américo Aguiar pode ser lida como um indício de que o atual bispo auxiliar poderá ser a escolha do Papa — mas o historial de nomeações de Francisco para o Colégio Cardinalício não permite especular em excesso. Formalmente, D. Américo Aguiar mantém-se no cargo de bispo auxiliar de Lisboa, o que poderá mudar depois da JMJ.

Pode ver aqui o anúncio do Papa, por volta dos 18 minutos:

Com a nomeação, D. Américo Aguiar passa a fazer parte do Colégio Cardinalício, o restrito grupo de clérigos que pode eleger o Papa. O cardinalato, que dá a D. Américo Aguiar o direito a usar as tradicionais vestes vermelhas, é uma honra atribuída pelo Papa aos mais importantes clérigos da Igreja Católica, nomeadamente aos bispos que exercem funções na Cúria Romana e aos líderes das principais dioceses do universo católico. O cardinalato também é atribuído segundo algumas tradições com vários séculos, como é o caso do Patriarcado de Lisboa, cujo titular é sempre elevado a cardeal.

O Papa Francisco tem usado também a nomeação cardinalícia para dar destaque a padres e bispos que, mesmo não estando em funções em dioceses ou instituições importantes, pretende que integrem o colégio que vai eleger o próprio Papa. Além da função protocolar de eleger o Papa, os cardeais são, essencialmente, os principais conselheiros do pontífice — que ajudam o Papa na condução dos destinos da Igreja, ocupando cargos na Cúria Romana e reunindo-se com Francisco periodicamente.

Um caso especialmente paradigmático do modo como o Papa Francisco tem usado a nomeação cardinalícia para indicar o rumo que pretende para a Igreja foi a elevação do bispo americano Robert McElroy, da pequena diocese de San Diego, a cardeal. McElroy, um bispo progressista que em vários momentos entrou em conflito com a ala mais conservadora da Igreja Católica nos EUA, recebeu a nomeação cardinalícia — mas o arcebispo José Gomez, da arquidiocese de Los Angeles, muito mais importante no contexto da geopolítica eclesiástica e tradicionalmente liderada por um cardeal, nunca foi incluído nas nomeações do Papa Francisco (o que causou desconforto na Igreja norte-americana).

Em Portugal, há o caso de D. António Marto, o bispo emérito de Leiria-Fátima, que foi elevado a cardeal em 2018, depois das celebrações do centenário das aparições de Fátima. Na altura, o Papa Francisco elevou-o a cardeal sem lhe atribuir um novo cargo e sem transformar a diocese de Leiria-Fátima numa sé cardinalícia — o que foi interpretado como uma forma de distinção pessoal a D. António Marto, também conhecido pelas suas posições mais próximas da ala progressista da Igreja.

“Ninguém sonha ser cardeal, só se não tiver juízo”

D. Américo Aguiar considera que a sua nomeação cardinalícia está relacionada com a preparação da Jornada Mundial da Juventude. “Estou convencido que aquilo que o Papa teve no seu coração foram estes jovens, esta preparação da JMJ, que é indispensável com eles”, disse o novo cardeal em declarações aos jornalistas em Setúbal, num armazém onde se encontrava com um conjunto de jovens voluntários a preparar os kits do peregrino para os participantes.

“Acho que o Papa quis, deste modo, homenageá-los, valorizá-los. Dar aos jovens a possibilidade de serem os protagonistas da história, os protagonistas das suas vidas. Acho que esta decisão é muito esse gesto do Papa. Que não tem nada a ver comigo, nem com as minhas competências”, sublinhou o bispo, que referiu ter ficado surpreendido com a notícia da nomeação — da qual não teve conhecimento prévio.

O novo cardeal explicou que estava a trabalhar no armazém quando sentiu o telemóvel “particularmente nervoso”.

“A certa altura espreitei e vi numa mensagem que tinha qualquer coisa de linguagem cardinalícia, que eu li como brincadeira. Mas continuavam, continuavam, continuavam. A certa altura a curiosidade foi maior, fui ver e tomei consciência e noção do que tinha acabado de acontecer”, disse D. Américo Aguiar. “Sei que as pessoas podem achar estranho, mas estas nomeações não são pré-comunicadas a ninguém pelo Papa Francisco.”

“Apanhou-me totalmente surpreendido”, disse ainda, lembrando que “qualquer um está sujeito” a ouvir um anúncio do género a partir do Vaticano.

Sobre as suas ambições, D. Américo Aguiar garantiu que não tinha qualquer desejo de receber a nomeação. “Ninguém sonha ser cardeal, acho eu, só se não tiver juízo”, disse. “Acho que no passado muitas destas coisas eram muito protocolares, muito de estatuto, e acho que todos concordamos que hoje em dia é tudo menos isso, aliás, o Papa lembra muito que o vermelho não é para ser mais vistoso e pavoneado. É o martírio, o sangue e o testemunho de Cristo vivo.”

Quanto às razões na origem da nomeação, D. Américo Aguiar insistiu que se trata de um gesto “em relação aos jovens” — e garante que o tema nunca surgiu nas conversas com o Papa a propósito da JMJ. “Todos os encontros que tive com o Papa serviram para eu me aconselhar. Não sei qual foi a leitura que o Santo Padre teve”, sublinhou o bispo. “Foi uma decisão à Papa Francisco.”

D. Américo Aguiar também não especulou sobre o seu futuro depois da Jornada Mundial da Juventude — designadamente sobre a possibilidade de ficar em Lisboa (como cardeal patriarca) ou de receber um cargo no Vaticano. “Sou escuteiro, não tenho grande problema quanto à geografia… Aquilo que o Papa Francisco precisar, se ele achar que tenho capacidade de concretizar…”, disse apenas.

O braço direito de D. Manuel Clemente

O novo cardeal português tem 49 anos e uma carreira eclesiástica em que se consolidou como braço direito de D. Manuel Clemente. Nascido a 12 de dezembro de 1973 em Leça do Balio, no concelho de Matosinhos, Américo Aguiar entrou no seminário do Porto em 1995 após uma juventude ligada aos escuteiros católicos — e foi ordenado padre em 2001. Já durante o tempo de seminário, recebeu a alcunha de “cardeal”, explicou este domingo aos jornalistas.

“O Porto teve um cardeal, D. Américo Santos Silva, que faleceu em 1899. Eu chamo-me Américo”, lembrou o bispo. “Foi o reitor do seminário que começou a chamar-me cardeal.”

Desde os estudos universitários, D. Américo Aguiar aproximou-se do universo da comunicação social. Fez um mestrado em Ciências da Comunicação e a sua tese daria origem ao livro Um Padre na Aldeia Global — e ainda hoje mantém a função de presidente do Conselho de Gerência do Grupo Renascença Multimédia. Mas também teve uma passagem pela política: foi militante do PS e deputado municipal em Matosinhos.

Depois da ordenação sacerdotal, teve uma curta experiência como pároco, na Campanhã (Porto), mas rapidamente assumiu funções na estrutura central da diocese do Porto, exercendo funções de diretor do gabinete de informação, vigário geral e chefe de gabinete de três bispos do Porto — incluindo D. Manuel Clemente. Foi também presidente da Irmandade dos Clérigos entre 2011 e 2020, e foi sob a sua liderança que se desenvolveram os trabalhos de requalificação da Torre dos Clérigos.

Em 2019, o então padre Américo Aguiar foi elevado a bispo e nomeado bispo auxiliar de Lisboa, voltando a ser o braço direito de D. Manuel Clemente, a cujo lado tinha estado no Porto. Uma das primeiras funções que recebeu foi a de coordenador da comissão de proteção de menores do Patriarcado de Lisboa, criada no início de abril na sequência da cimeira organizada pelo Papa Francisco no Vaticano a propósito do combate aos abusos sexuais de menores. Nesse cargo, D. Américo Aguiar começou a tornar-se conhecido do grande público como um dos principais rostos da Igreja em Portugal no combate aos abusos.

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Mais tarde, com a confirmação de que Lisboa tinha sido escolhida como o destino da próxima edição da Jornada Mundial da Juventude, o cardeal patriarca de Lisboa colocou D. Américo Aguiar à frente do comité organizador do evento — o que deu ao bispo auxiliar uma visibilidade mediática muito superior à esmagadora maioria dos clérigos portugueses.

D. Manuel Clemente sublinha “disponibilidade, generosidade e eficácia”

O cardeal patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, reagiu à notícia com um comunicado divulgado através da página do Patriarcado de Lisboa.

“É com muita alegria e gratidão que acolhemos a criação cardinalícia do Senhor D. Américo Aguiar. Pessoalmente, sempre pude contar com a sua disponibilidade, generosidade e eficácia, quer no Porto, quer em Lisboa”, escreveu o cardeal.

“Tudo o que acontece de muito bom com a Jornada Mundial da Juventude deve-se sobretudo a ele. Eclesialmente, serão ainda mais os que beneficiarão com as suas muitas qualidades”, acrescentou. “Obrigado ao Papa Francisco e parabéns a D. Américo!”

D. José Ornelas: é o “reconhecimento grato do seu trabalho à frente da Fundação JMJ”

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) considera que a nomeação de D. Américo Aguiar é “o reconhecimento” do trabalho que o agora cardeal tem feito na organização da Jornada Mundial da Juventude de Lisboa. Em nota enviada às redações, D. José Ornelas reage àquela que diz ser uma “notícia feliz” para a Igreja portuguesa como sendo também um “reconhecimento do trabalho de D. Américo e a sua dedicação à Igreja”.

Ao longo dos últimos anos, e com maior dedicação nos últimos meses, D. Américo Aguiar tem sido a figura mais dedicada aos trabalhos de preparação do maior evento da Igreja Católica. Relacionando a nomeação do novo cardeal com essas funções, o presidente da CEP considera que “este é um estímulo para todos os jovens em Portugal, para as Jornadas Mundiais da Juventude que estão à beira de se realizar e certamente que este reconhecimento para nós todos é muito grato”.

D. José Ornelas confessa a “grande alegria” com que recebeu a notícia da nomeação. “Agradecemos ao Santo Padre e também desejamos ao Senhor D. Américo as maiores felicidades no desempenho desta nova missão que o Santo Padre lhe confia como Cardeal.”

Numa nota independente, a própria Conferência Episcopal reagiu à nomeação estabelecendo a mesma ligação entre as funções desempenhadas por D. Américo Aguiar no âmbito da JMJ e a nomeação. “A coordenação da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa bem como as qualidades pessoais e pastorais de D. Américo Aguiar estarão certamente em sintonia com esta tão relevante nomeação, que constitui imensa alegria e forte estímulo para toda a Igreja em Portugal.”

Marcelo fala em “honra para Portugal e para os portugueses”

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, reagiu com “profundo júbilo” à nomeação de D. Américo Aguiar e sublinhou, numa nota publicada no site da Presidência, que, “com esta nomeação por Sua Santidade o Papa Francisco, Portugal passa, pela primeira vez na História, a ter, simultaneamente, seis Cardeais”.

“O Presidente da República manifesta profundo júbilo pela elevação ao Cardinalato de Dom Américo Aguiar, Bispo Auxiliar de Lisboa”, lê-se “Dom Américo Aguiar personalidade reconhecida pelo serviço à Igreja Católica e à sociedade portuguesa, com papel muito relevante na comunicação social e responsável máximo pela Jornada Mundial da Juventude 2023.”

É, diz Marcelo, “uma honra para Portugal e para os Portugueses”.

António Costa elogia “figura ímpar da Igreja Católica”

O primeiro-ministro, António Costa, reagiu à nomeação cardinalícia de D. Américo Aguiar com uma mensagem no Twitter.

“É com enorme satisfação que felicito D. Américo Aguiar pelo anúncio da sua nomeação como Cardeal. Uma escolha que reconhece o bispo auxiliar de Lisboa como figura ímpar da Igreja Católica e que muito prestigia Portugal”, escreveu Costa.

“A poucos dias da Jornada Mundial da Juventude, a que D. Américo Aguiar tem dedicado tanto esforço e empenho, este anúncio do Papa Francisco enche-nos de alegria”, acrescentou.

Cardeais dos quatro cantos do mundo

Além de D. Américo Aguiar, o Papa Francisco nomeou outros vinte clérigos para o Colégio Cardinalício, incluindo novos responsáveis da Cúria Romana, núncios apostólicos, o patriarca latino de Jerusalém e bispos e arcebispos de várias cidades do mundo.

Entre os novos cardeais encontram-se algumas figuras relevantes da ala mais progressista da Igreja Católica, mas também um conjunto de bispos de países como África do Sul, Colômbia, Malásia, Tanzânia e Sudão do Sul — o que ilustra, uma vez mais, a insistência do Papa Francisco em romper com a tradição histórica de nomear quase exclusivamente cardeais europeus (e especialmente italianos) e colocar na cúpula eclesiástica membros do clero das periferias globais.

A lista completa dos novos cardeais:

Eleitores:

  1. Robert Francisc Prevost (Estados Unidos) — novo prefeito do Dicastério para os Bispos
  2. Claudio Gugerotti (Itália) — novo prefeito do Dicastério para as Igrejas Orientais
  3. Víctor Manuel Fernández (Argentina) — novo prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé
  4. Emil Paul Tscherrig (Suíça) — núncio apostólico
  5. Christophe Louis Yves Goerges Pierre (França) — núncio apostólico
  6. Pierbattista Pizzaballa (Itália) — patriarca latino de Jerusalém
  7. Stephen Brislin (África do Sul) — arcebispo da Cidade do Cabo
  8. Ángel Sixto Rossi (Argentina) — arcebispo de Córdoba
  9. Luis José Rueda Aparicio (Colômbia) — arcebispo de Bogotá
  10. Grzegorz Ryś (Polónia) — arcebispo de Lodz
  11. Stephen Ameyu Martin Mulla (Sudão do Sul) — arcebispo de Juba
  12. José Cobo Cano (Espanha) — arcebispo de Madrid
  13. Protase Rugambwa (Tanzânia) — arcebispo coadjutor de Tabora
  14. Sebastian Francis (Malásia) — bispo de Penang
  15. Stephen Chow Sau-Yan (China) — bispo de Hong Kong
  16. François-Xavier Bustillo (França) — bispo de Ajaccio
  17. Américo Manuel Alves Aguiar (Portugal) — bispo auxiliar de Lisboa
  18. Ángel Fernández Artime (Espanha) — padre e reitor-mor dos Salesianos

Não eleitores (com mais de 80 anos)

  1. Agostino Marchetto (Itália) — núncio apostólico
  2. Diego Rafael Padrón Sánchez (Venezuela) — arcebispo emérito de Cunamá
  3. Luis Pascual (Argentina) — padre, confessor no Santuário de Nossa Senhora de Pompeia, em Buenos Aires