O risco de demência é maior para as pessoas com níveis de escolaridade mais baixos, pelo menos, é isso que mostram os dados disponíveis em Inglaterra e País de Gales. No Reino Unido, como em Portugal e outros países, faltam estudos epidemiológicos que permitam perceber a verdadeira dimensão do problema, o impacto em cada país e como afeta as respetivas populações.

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Uma equipa coordenada pela University College de Londres (UCL) analisou os dados de incidência da demência de quase 20 mil doentes entre 2002 e 2019 e concluiu que, apesar de ter havido uma diminuição na taxa de demência de 28,8% entre 2022 e 2008, houve um aumento de 25,2% entre 2008 e 2016. Nas pessoas com menores níveis de escolaridade, a incidência da demência diminui mais lentamente antes de 2008 e aumentou mais rapidamente depois disso, quando comparada com grupos com maior escolaridade. Os resultados foram publicados na semana passada na revista científica The Lancet.

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Estes resultados estão em linha com um trabalho de investigação conduzido em Shangai, onde a incidência da demência mantinha uma tendência estável em pessoas com mais de seis anos de educação, mas estava em crescimento nas pessoas seis ou menos anos de escolaridade. Numa investigação em Estocolmo, pelo contrário, foi observada uma maior redução na incidência da demência entre pessoas com menores níveis de escolaridade.

Se a nossa conclusão sobre a inversão da tendência da incidência da demência se repetir noutros países de elevado rendimento, é necessário um esforço de investigação sistemático para explicar este padrão epidemiológico”, referem os autores no artigo.

“Seria interessante ver se as tendências referidas neste artigo são espelhadas noutros países com uma distribuição de riqueza e recursos menos polarizada”, comentou Tom Dening, professor na unidade de Investigação em Demência da Universidade de Nottingham, que não participou no estudo. O investigador destaca também a importância de bons estudos epidemiológicos: “Precisam de ser apoiados e devidamente financiados, caso contrário não fazemos ideia do que se passa com doenças relevantes como a demência”.

Os resultados agora divulgados pretendem complementar um trabalho anterior em que se concluía que a incidência de demência estava a diminuir dos países de alto rendimento, nomeadamente nos Estados Unidos e Europa, conforme publicado, em 2020, na revista científica Neurology. Para a equipa liderada pela UCL, o estudo anterior falha na avaliação da tendência a partir de 2010. Mais, no presente estudo a equipa internacional incluiu os novos doentes com demência que morreram antes de uma nova avaliação para reduzir o enviesamento dos dados, dizem.

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Nesta nova análise, a equipa de Yuntao Chen, investigador no Departamento de Epidemiologia e Saúde Pública da CUL, estimou que o número de pessoas com demência em Inglaterra e no País de Gales, em 2040, será maior do que as previsões anteriores: 1,7 milhões de doentes, cerca de o dobro dos números atuais e mais 500 mil do que uma projeção anterior. Para a estimativa de 1,2 milhões de doentes em 2040, os custos em cuidados sociais e de saúde chegavam ao 70 mil milhões de libras (cerca de 80 mil milhões de euros) entre 2020 e 2029.

A demência é uma designação abrangente para um conjunto de doenças que causam o declínio progressivo do funcionamento da pessoa, como a doença de Alzheimer ou Parkinson. Entre os sintomas mais frequentes estão a perda de memória, de capacidade intelectual, de raciocínio, de competências sociais e alterações das reações emocionais normais, descreve a associação Alzheimer Portugal. A doença é mais prevalente nos mais idosos e nas mulheres, mas também pode surgir antes da terceira idade.

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A organização Alzheimer Europe estimava que, em 2018, 1,73% da população da União Europeia (incluindo o Reino Unido) sofreria de alguma forma de demência — a prevalência em Portugal era de 1,88%, como uma estimativa de mais de 193 mil doentes, e no Reino Unido de 1,56%. Portugal era o terceiro país com maior prevalência de demência, a seguir à Itália (2,12%), Grécia (1,99%) e Alemanha (1,91%), e seguido de perto por Espanha e França (ambos com prevalência de 1,83%).

A estimativa é que o número de casos de demência continue a aumentar, com a União Europeia (ainda incluindo o Reino Unido) a chegar a uma prevalência de 2% da população em 2025 e 3,28% em 2025. Para Portugal, isso significaria 2,29% (230 mil casos) em 2025 e 3,82% (347 mil casos) em 2050 — no Reino Unido, respetivamente, 1,2 milhões de casos em 2025 e 1,98 milhões de casos em 2050.

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O relatório “Health at a Glance 2022”, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), revelava que 5% de todas as mortes na União Europeia em 2019 estavam relacionadas com a demência e que o número de mortes por doenças relacionadas com a idade tinha mais do que duplicado na década anterior.