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Os seis episódios da série documental da HBO não mostram só como Garrett McNamaram conquistou a onda. Mostram também, e sobretudo, como uma paixão foi transformada num fenómeno global

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Os seis episódios da série documental da HBO não mostram só como Garrett McNamaram conquistou a onda. Mostram também, e sobretudo, como uma paixão foi transformada num fenómeno global

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

"A Grande Onda da Nazaré". Como o sonho louco de um grupo de portugueses se transformou num fenómeno (à boleia de McNamara) /premium

Há uma nova série documental na HBO para contar a história do "canhão". Falámos com os destemidos visionários que transformaram a vila num local de culto para os devotos das ondas gigantes.

Garrett McNamara demorou muito tempo. Para sermos mais exatos, precisou de cinco anos para acreditar que as ondas da Nazaré eram realmente gigantes e dignas de uma visita. Tudo começou com uma imagem da Praia do Norte, enviada em 2005 por um português, Dino Casimiro. “Na altura não havia Facebook nem Instagram e, dos surfistas de ondas grandes, o Garrett era o único que tinha uma página oficial com um contacto”, conta ao Observador. Durante os anos seguintes foi havendo ligação entre os dois através de email. “Sempre que tirava fotos mais impressionantes, mandava-lhe.”

Em 2010, o surfista norte-americano viu, finalmente, com os próprios olhos, que as fotografias que tinha recebido não eram exageradas e que as ondas da Nazaré eram diferentes de todas as outras que já tinha conhecido. A partir daí começou uma jornada épica de dez anos que está agora compilada em “A Grande Onda da Nazaré”, uma série documental da HBO disponível na plataforma de streaming a partir desta segunda-feira, 19 de julho, e que tem um novo episódio a cada semana.

São seis capítulos que acompanham McNamara na busca incessante pela maior onda da sua carreira (uma onda de 100 pés, o equivalente a cerca de 30 metros) mas que também mostram como um grupo de portugueses, que começou por ser muito pequeno, se juntou e conseguiu transformar um sonho num projeto global que colocou o mundo inteiro a falar da Nazaré. “Demorou muito tempo até as pessoas acreditarem. Havia desconfiança de patrocinadores, de políticos. O próprio Garrett demorou tanto tempo a vir porque não acreditava”, recorda Dino Casimiro.

[o trailer de “A Grande Onda da Nazaré”:]

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Quando chegou à Nazaré, a única coisa com a qual McNamara teve de se preocupar foi com as ondas. Tirando isso, já havia uma estrutura montada para recebê-lo. Tinha onde dormir e comer, motas de água à disposição, uma equipa para captar imagens e pessoas para tratarem da comunicação. Porém, só foi possível chegar aqui graças à persistência de quatro homens, Dino Casimiro, Paulo Salvador, Paulo Caldeira e Pedro Pisco.

“O Paulo Caldeira foi a pessoa que desenhou o projeto das ondas gigantes. Apresentámos o ‘The North Canyon’ em outubro ou novembro de 2009 no lançamento da primeira pedra do Centro de Alto Rendimento da Nazaré”, diz Pedro Pisco ao Observador.

Garret McNamara: “Lidei de perto com a droga e com a violência doméstica”

A ideia de potenciar a localidade e colocá-la no mapa mundial através do surf só parecia incrível para “meia dúzia de malucos”, como descreve Paulo Caldeira. “A Praia do Norte era vista como um sítio de morte, aquilo que tínhamos entre mãos era muito inovador.” Não havia patrocinadores interessados em investir. “Andámos seis meses a bater a portas. Ouvimos muitos ‘não’”, conta Pedro Pisco.

Em 2009, Mike Stewart, bodyboarder havaiano, estaria na Nazaré para competir no Sumol Special Edition, competição dedicada à modalidade da qual é um dos maiores nomes — foi campeão do mundo por nove vezes. Convenceram-no a chegar uns dias antes para poderem mostrar-lhe tudo e, através dele, divulgar a Nazaré e as suas ondas inigualáveis (Stewart tem sido, ao longo dos anos, também um entusiasta das ondas gigantes). Mas todos queriam mais.

“Durante três ou quatro meses vivíamos para aquilo. Acordávamos às quatro da manhã para preparar os jet skis. Às duas ou três da manhã ainda estava a mandar emails para a comunicação social e a preparar o dia seguinte”, lembra Paulo Caldeira.

“Pensámos: temos de redimensionar isto e dissemos ao Dino: ‘Manda um email ao surfista que conheces’”, recorda Pisco. “Concordámos: temos de trazer cá alguém que nos diga que estas ondas têm realmente o tamanho certo”, acrescenta Paulo Salvador. “Na primeira surfada do Garrett percebemos que tínhamos ali qualquer coisa especial”, conta. Em 2010 houve apoio do Turismo do Oeste e um pequeno investimento da Câmara Municipal da Nazaré. “Acho que tivemos cerca de 12 mil euros para tudo”, diz Paulo Salvador.

“Durante três ou quatro meses vivíamos para aquilo. Acordávamos às quatro da manhã para preparar os jet skis. Às duas ou três da manhã ainda estava a mandar emails para a comunicação social e a preparar o dia seguinte”, lembra Paulo Caldeira.

Em Portugal, o tow-in [técnica que permite ao surfista ser rebocado por uma mota de água para que apanhe as ondas mais cedo] era proibido. “Por isso, em conjunto com a capitania local, criámos um despacho especial para ser permitido na Nazaré com determinadas condições e a máxima segurança”, diz Pedro Pisco.

A primeira imagem que McNamara viu da Nazaré (@Dino Casimiro); Jantar de Thanksgiving de 2010, com McNamara a cozinhar (@Jorge Leal/Wilson Ribeiro); Martin Štěpánek, McNamara e Andrew Cotton (2012)

No primeiro ano filmaram tudo com uma Sony A7 e duas Go Pro. No inverno seguinte, já havia helicópteros a captar imagens. Tudo porque entretanto foi fechado um contrato com a então ZON (agora NOS) e o projeto passou a chamar-se “ZON North Canyon Show by Garrett McNamara”. “Tentámos maximizar a imagem dele para dar destaque à Nazaré. Não lhe pagávamos um ordenado mas, desde que saía dos EUA, as despesas eram por nossa conta”, revela Pedro Pisco.

Depois foram convidados outros surfistas, como o irlandês Andrew Cotton. “Quando cheguei, fiquei impressionado com a paixão de todos os envolvidos. O Garrett tinha a experiência do surf mas havia uma equipa na retaguarda que sabia o que a Nazaré tinha para oferecer e que estava a tentar ter as pessoas certas para divulgar isso. Para mim era uma grande família. E continua a ser”, diz ao Observador.

Em novembro de 2011, Garrett McNamara bateu o recorde do mundo com aquela que foi considerada a maior onda jamais surfada. Tinha 24 metros. “Foi aí que me caiu a ficha. Em Portugal ninguém sabia o que estava a acontecer e a Nazaré já estava em todos os canais norte-americanos. Nesse momento, chegámos onde queríamos porque, do outro lado [nos EUA], havia muita desacreditação das nossas ondas. Diziam que eram ‘mushy [moles, fracas]’”, conta Paulo Salvador, que nesse momento era chefe de segurança.

Antes de entrar no mar, Hugo Vau toca na água, dá um beijo na mão, olha para cima e pensa na mãe. É um ritual que serve de proteção, mas a 11 de fevereiro de 2020 não foi suficiente. Com o companheiro de equipa viu-se envolvido num acidente devastador que quase lhes custou a vida.

“Nesse dia eu não estava na praia”, lembra Dino Casimiro, “mas estávamos em contacto permanente. Eu estava em casa com a minha filha bebé e do outro lado do telefone estava tudo aos gritos a dizer que o Garrett tinha surfado uma onda incrível”.

Os momentos chave da última década estão contados na nova série documental da HBO, que tem depoimentos da maioria dos envolvidos, desde os surfistas à parte da logística, passando pelo atual presidente da Câmara Municipal da Nazaré, Walter Chicharro. “Desde que cheguei à Câmara que o meu objetivo tem sido alavancar as ondas gigantes e a sua divulgação. Acredito totalmente neste fenómeno. Sou nazareno e até tenho sobrenome de peixe”, explica ao Observador.

Ao longo da última década foi-se gerando um fenómeno global. Em 2020 a Praia do Norte recebeu o Nazaré Tow Surfing Challenge e o mar encheu-se de surfistas de todo o mundo. Em prova estava também a equipa portuguesa, composta por Alex Botelho e Hugo Vau. Já em 2007, quando fez parte da segurança do campeonato de bodyboard, Vau percebeu que era um “sítio muito especial”. “A logística montada era uma coisa ímpar, cá em Portugal não havia nada assim”, afirma ao Observador. No entanto, a Praia do Norte é também “o sítio mais desafiante para surfar e também para motas de água. A forma como as ondas rebentam, como se cruzam e amplificam… têm muita potência”.

Nazaré, novembro de 2020: "Todas as vezes na Nazaré são assustadoras, não estás ali para conquistar nada", diz Andrew Cotton

Pablo Garcia

Antes de entrar no mar, Hugo Vau toca na água, dá um beijo na mão, olha para cima e pensa na mãe. É um ritual que serve de proteção, mas a 11 de fevereiro de 2020 não foi suficiente. Com o companheiro de equipa viu-se envolvido num acidente devastador que quase lhes custou a vida.

Ainda a recuperar e com limitações num dos pés, Hugo Vau não descarta a possibilidade de voltar. “A Nazaré deu-me esta má experiência, mas deu-me outras duas mil coisas boas. Quero regressar pelas razões certas, quando sentir que devo, para estar com amigos, para me divertir, pelo gosto pelo mar.”

Também Andrew Cotton voltou depois de ter sofrido outro acidente aparatoso em novembro de 2017. Mas o momento que o fez perceber a magnitude da Praia do Norte aconteceu em 2013. “Todas as vezes na Nazaré são assustadoras, não estás ali para conquistar nada. Estive com o Garrett o dia inteiro no mar, com ondas gigantes. Tivemos um par de wipeouts [cair da prancha depois de empurrado pelas ondas] que vi de perto. Para mim foi transformador ver ao que podíamos sobreviver enquanto humanos e a pura potência, energia e beleza das ondas. Tenho a certeza que havia ondas incríveis espalhadas por Portugal mas a beleza da Nazaré naquele dia e o facto de ninguém estar ali foi um momento de mudança para mim”, conta.

Andrew Cotton tem uma relação especial com a Nazaré, que começou a surfar quando ainda se dividia entre o mar e o outro emprego, o de canalizador. O futuro deverá, até, passar por Portugal. “Tenho algumas dificuldades a falar português, mas estou a aprender remotamente com uma tutora de Cascais. A minha pronúncia é tão má mas a dada altura adorava mudar-me para Portugal. Talvez não me instalasse exatamente na Nazaré mas há sítios à volta de que gosto muito também, praias bonitas.”

Hugo Vau em plena onda da Nazaré em outubro de 2016: "Quero regressar pelas razões certas, quando sentir que devo, para estar com amigos, para me divertir, pelo gosto pelo mar"

Pedro Agostinho Cruz

É para cativar surfistas como Cotty (é assim que é conhecido no meio) que o município está já a preparar o campeonato de ondas gigantes do próximo inverno. “Estamos em fase de contactos com a WSL [World Surf League]”, revela o presidente da Câmara, Walter Chicharro.

Quando essa competição começar, Paulo Salvador, Paulo Caldeira, Pedro Pisco e Dino Casimiro já não terão de acordar às quatro da manhã para preparar as motas de água — o prestígio da Nazaré cresceu tanto que as equipas envolvidas na logística de cada prova são agora substancialmente maiores.

“Achamos que o nosso objetivo, que era divulgar e potenciar a Nazaré, foi alcançado, mas é verdade que há um sentimento agridoce. Ao longo dos anos não houve o reconhecimento de tudo o que estava por detrás do Garrett McNamara”, lamenta Paulo Caldeira. Ainda assim, e apesar de “A Grande Onda da Nazaré” estar centrada no surfista de renome mundial, esta é a oportunidade de ver além disso. Porque o crédito de terem acreditado num sonho louco que toda a gente ignorava, esse ninguém o tira a estes quatro portugueses.

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