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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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A receita Temido: muita rua, muita conversa e o fator pandemia

Marta Temido arrancou campanha a dizer que não quer estar "quieta", com PS a dar tudo em ações de rua. Houve elogios ao papel na pandemia, mas pouco sobre Europa. E esteve em risco de cometer gafe.

Ainda mal são 7h30 da manhã deste primeiro dia de campanha eleitoral e Marta Temido, que parece ansiosa por começar a distribuir folhetos, já pergunta à comitiva socialista quando é que vão começar a passar mais pessoas na rua. Uns minutos depois as pessoas até passam, mas fazem-no em passo rápido, de cara fechada e focadas no barco que têm de apanhar, em Cacilhas, para chegar a Lisboa. Temido vai constatando que a estratégia não é eficaz e o contexto não ajuda — “as pessoas vão trabalhar e a última coisa que querem encontrar é um grupo a fazer campanha…” — e começa a assumir uma atitude mais pró-ativa, dando pequenas corridas à procura de quem aceite os seus panfletos. “Já sei que me mexi, mas vocês querem que eu faça campanha quieta, que é uma coisa impossível…”, justifica momentos depois à equipa.

A manhã começa assim, fria e lenta, mas gradualmente aquece e acelera. E Marta Temido, como prometido, não pára quieta um segundo. Na primeira manhã de campanha, faz quase cinco horas seguidas dos chamados momentos de “contacto com a população”, incluindo um que nem sequer estava na agenda. E destas cinco horas fica a impressão de que seria capaz de fazer conversa com uma pedra. Se é sobre Europa ou não, não importa: os socialistas dão-se por satisfeitos por ver que a candidata se mexe bem na rua e que tem sempre mais uma palavra simpática para dizer a quem passa. De volta, recebe palavras maioritariamente simpáticas também, com foco naquele que o PS espera que seja o trunfo da cabeça de lista nestas eleições: a experiência da pandemia.

Se dúvidas houvesse, algures a meio da manhã, quando a candidata já saiu da estação de Cacilhas para começar a percorrer as ruas de Almada, depois de andar no metro de superfície até ao Pragal, os ‘jotas’ que a seguem lançam ao ar um cântico sugestivo: “Venceu a pandemia/Com saber e empatia”. É uma espécie de ‘bingo’ das qualidades de Marta Temido que o PS quer destacar: tem a experiência como ex-ministra da Saúde, enfrentou tempos difíceis e é uma pessoa “empática”, que, como admitirá mais tarde, funciona melhor na rua do que em debates. Na rua também se fala menos de Europa — mas fala-se dos seus tempos como governante, e de tudo um pouco (o que dá espaço para potenciais gafes).

[Já saiu o segundo episódio de “Matar o Papa”, o novo podcast Plus do Observador que recua a 1982 para contar a história da tentativa de assassinato de João Paulo II em Fátima por um padre conservador espanhol. Ouça aqui o primeiro episódio.]

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O diálogo que tem com um homem que passeia pelas ruas de Almada é ilustrativo, e pouco difere de outros tantos que irá tendo ao longo do dia. “O meu voto vai para si pela forma como geriu a pandemia”, diz-lhe o eleitor prometido. “Fomos todos”, responde Temido. “Foi graças a si”, volta ele a contrariar. A candidata agradece e segue caminho. Minutos depois, volta a ouvir agradecimentos e assegura que “todos fizemos” um papel importante na pandemia. “Uns mais do que os outros”, responde a interlocutora.

Num café de Almada, a cena repete-se: um homem diz que “conhece” Marta Temido, ao que a número dois da lista, Ana Catarina Mendes, pergunta: “Quem é que não a conhece?”. O homem concorda: “Com a Covid, quem é que não a conhece…”, sentenciando que Temido é uma “heroína da Covid”. “Heróis somos todos”, volta a discordar a antiga governante, que na rua ainda ouve quem a trate por “ministra”, respondendo que já não é — e ouvindo de volta que “pode voltar a ser”.

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“Gratidão” e conversas com pouca Europa

Parte da estratégia do PS para estas eleições fica resumida aqui: a aposta em Marta Temido teve muito a ver com a notoriedade que ganhou na pandemia e a popularidade que, calcula o partido e jura-se há meses no PS Lisboa, alcançou nesses tempos. “Não é normal vermos este sentimento de gratidão para com um candidato em campanha eleitoral”, regista um elemento da caravana com o Observador.

E se há uma ou outra abordagem de quem lhe queira falar sobre temas europeus — acontece com um jovem que assume ter uma doença mental e pergunta por respostas europeias para este setor, ou com a funcionária de um café que lhe pede medidas para baixar o preço das rendas — a verdade é que a esmagadora maioria das conversas foge ao assunto.

No máximo, as pessoas que abordam Temido, ou que são abordadas pela candidata, ficarão com um panfleto para ler mais tarde e, com sorte, os itens de uma panóplia variada de brindes com o logótipo do PS — há as tradicionais canetas, mas também sacos de pano que frisam os papões que o PS quer agitar sobre a direita nestas eleições (“mais progresso, menos retrocesso”, dizem as letras vermelhas estampadas sobre fundo creme) e até uns abre-caricas azuis (“para abrirem as cervejinhas”, oferece o deputado por Setúbal André Pinotes Batista, que acompanha Marta Temido, Ana Catarina Mendes e a também candidata e autarca da Amadora, Carla Tavares, neste passeio).

É Pinotes Batista quem a certa altura lança o desafio a uma funcionária de um café: “Ela é tão simpática como parece na televisão, não é?”. (A funcionária confirma com um aceno de cabeça). Temido esforça-se ao máximo para provar que a fama de simpatia e de empatia é justificada. Mete conversa com tudo e todos, sobre todos os assuntos possíveis. Tenta adivinhar o peso de um bebé (“quantos quilinhos estão aí?”), encontra pais ou avôs que classifica como “babados” em cada esquina, pergunta pelo conteúdo dos sacos de supermercado que quem passa carrega, quer saber se levam fruta para casa, nota ao entrar numa churrasqueira que “estão os frangos a assar”, admira o aspeto de um tomate numa banca de legumes, pergunta a uma costureira se tem feito muitas bainhas.

Quando a caravana segue silenciosa, Temido, qual piloto da operação, informa os companheiros sobre o tempo (“esta semana vai aquecer, podemos chegar aos trinta graus!”). Nestas horas de passeio pelas ruas do distrito de Setúbal, a candidata socialista ainda entra num cabeleireiro e reconhece que até já tem umas pontas para cortar (mas a cabeleireira não tem vaga). Tem a experiência de saber que convém posicionar-se para as fotografias e fâ-lo quando vê que os fotojornalistas se focam em si — a certa altura aponta para cima, numa pose “à Taylor Swift”, resume.

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A “pergunta malandra” e o café da sorte que ia provocando uma gafe

O que o PS quer fazer de Temido é, de facto, uma espécie de popstar, o que não invalida que uma campanha não seja feita apenas de rua. Mas é neste terreno que Temido se sente melhor, como reconhece, deixando implícito que sabe que os debates não são a sua praia. Aliás, assim que ouve uma jornalista perguntar-lhe se a rua lhe corre melhor do que os debates, sentencia que essa é uma “pergunta malandra”. “Achamos que os debates correram em crescendo e ainda não acabaram. Naturalmente cada um tem maior facilidade naquilo em que tem mais treino. Eu tenho maior facilidade em lidar com pessoas”, explica.

A facilidade em falar com pessoas, e em falar muito no geral, também pode trazer gafes e mal entendidos, e o primeiro risco dá-se logo nesta primeira manhã da campanha, numa das pausas para café. O terreno é favorável: Temido está num café no Pragal onde António Costa costumava parar em campanha, prometendo lá regressar se vencesse (e cumpria, asseguram as funcionárias). Embalada e “entusiasmada” pelo momento vivaço de campanha, enquanto as senhoras a recebem com alegria e começam a servir os dez cafés que pediu para a comitiva, concorda que “dez” seria um bom número de eurodeputados a eleger (o PS tem, atualmente, nove).

Passado uns minutos Temido corrige-se, para que não haja “casos”, garantindo que se “entusiasmou” mas que estava a falar apenas sobre cafés, sem outras analogias. E recusa estabelecer uma fasquia mais específica do que a vitória: “Seria pôr-me fora de pé”, admite a candidata, dizendo mesmo que se sentirá “nervosa” e “angustiada” se colocar a fasquia lá no alto. (No café, como Costa, garante que voltará “daqui a quinze dias”, se se confirmar que tomar ali a bica dá sorte, até porque copiar os passos do antigo líder do PS é “estar no bom caminho” — a funcionária declara que “vão ganhar de certeza, limpinho!”).

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Outro momento de risco acontece quando é confrontada na rua por uma mulher que, revoltada por estar desempregada, a receber 407 euros em apoios e com uma filha “retirada pelo tribunal”, começa a queixar-se dos turistas, dos “ciganos” e dos “brasileiros”. Sobre políticos também há queixas, apesar de ter “gostado muito” de Temido enquanto ministra: “São todos cínicos e hipócritas”.

Temido ouve até ao fim, deixa registado que “não concorda” com a forma como a mulher se referiu a pessoas de outras etnias e nacionalidades, pergunta se a interlocutora se “lembra” de quando os portugueses emigraram para outros países (a própria, descobre-se momentos depois, também foi emigrante em França) e ouve como resposta: “Lembro-me de si no Covid”.

Depois de a mulher se emocionar e de a comitiva garantir que tentará ajudá-la com apoios a nível local, Temido abraça-a. “Estamos cá para a ouvir também. Esteja descansada que eu não me vou embora”. A fórmula vai, neste caso, além da simpatia e segue o guião que Pedro Nuno Santos tem traçado para que o PS tente ouvir os descontentes, para que não se deixem seduzir por discursos populistas. Mas mais uma vez a conversa acaba com a interlocutora a reconhecer o papel de Temido na pandemia e a pedir-lhe um beijinho, porque simpatiza com a ex-governante. Resta saber se esses dois aparentes trunfos, visíveis neste primeiro dia de campanha oficial, se traduzirão em votos.

 
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