A vida de Soares, parte II. Os 32 anos de combate ao Estado Novo

07 Janeiro 2017

Estado Novo. Foi preso e exilado, perseguido e derrotado. Soares combateu o regime de todas as formas: esteve no PCP, apoiou Delgado, escreveu livros e, em 1973, percebendo o que aí vinha, fundou o PS

Nasceu numa família em que a política se discutia à mesa de jantar. Numa casa onde figuras proeminentes do republicanismo e outros opositores ao regime do Estado Novo eram visita habitual. A resistência, a conspiração, o interesse pelos assuntos de Estado, tudo isso lhe era servido diariamente e se encrustou na sua natureza. Mário Soares sabia de política antes de saber sobre tudo o resto. Ambicioso, determinado e imodesto, o seu carácter intempestivo e a sua sede pela acção fez o resto: mais cedo ou mais tarde, a sua entrada na política ativa seria uma inevitabilidade. Foi cedo. No Verão de 1942, antes de completar 18 anos, assumiu o seu primeiro engagement político.

Numa colónia de férias do Colégio Moderno, na Foz do Arelho, Mário Soares contactou com Humberto Lopes, um estudante comunista que se destacara nas lutas académicas. A seu convite, integrou um grupo de discussão que, na prática, foi a antecâmara para a adesão de Soares às Juventudes Comunistas, à época conhecidas enquanto FJCP – Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas. Culto, conhecedor da política portuguesa e com conhecimentos pessoais inesperados para alguém da sua idade, Soares causou um forte impacto em Humberto Lopes, que, sabendo que Soares em breve frequentaria Letras na Universidade de Lisboa, o recrutou: disse que, uma vez na faculdade, contactasse o ativista número um do meio universitário de Lisboa – Jorge Borges de Macedo. Em Lisboa, Soares nem hesitou em cumprir com as indicações: chegou, apresentou-se e foi introduzido nas lutas académicas antifascistas (Vieira, 2013: 52-53). O seu percurso político começou aqui.

O comunista burguês

Na década de 40, Soares e quase todos os oposicionistas de esquerda viam com bons olhos a União Soviética (URSS), percepcionada como o único bloco político capaz de enfrentar o fascismo na Europa. Daí que a adesão a movimentos controlados pelo PCP, o partido satélite da URSS em Portugal, fosse encarada como normal e praticamente obrigatória. Na verdade, quase todos andaram por lá. Para Soares, essa adesão impôs-se, principalmente, para saciar a ânsia por acção política – já que as estruturas comunistas eram as únicas formas organizadas de oposição ao regime – e não tanto pela identificação ideológica.

Pouco mais do que adolescente, Soares não tinha um pensamento político consolidado, apenas a firme convicção de que importava, a todo o custo, abalar os alicerces do Estado Novo. Os tempos impunham Marx, Lenine, Estaline e Engels como leitura, e todos passaram pela sua cabeceira – mas nenhum entusiasmou o jovem, indiferente a leituras teóricas e densas (Vieira, 2013: 55). De resto, a ideia de uma ditadura do proletariado era contrária à sua natureza burguesa – e ele não o escondia. Soares não queria ideologia – “Nunca fui marxista no sentido ortodoxo do termo, aceitando a ‘cartilha marxista’ em sentido literal. Definia-me como um socialista de formação ou inspiração marxista” (Avillez, 1996: 117). O que Soares queria era acção, luta armada, insurreição. E, à época, apenas o PCP tinha recursos para tal. Anos mais tarde, sintetizaria: os comunistas “eram eficazes, ofereciam-me meios e canais para eu lutar contra a ditadura” (Avillez, 1996: 64). Isso era tudo o que precisava.

Mário Soares leu Marx, mas não ficou entusiasmado

Foi designado pelos comunistas como tradutor de propaganda soviética, para fins de distribuição clandestina pelo país. A função não o encantou. E, com o passar do tempo, foi ficando frustrado por este tipo de resistência ao regime, demasiado branda para o seu gosto. Mas a sua inteligência não passou despercebida e levou-o a subir degraus na hierarquia comunista. Em 1944, já muito respeitado entre os estudantes, foi indicado pelo partido para discursar em pequenos encontros conspirativos, cujo âmbito era a conversão de jovens para a causa antifascista. As suas intervenções ganharam eco e ampliaram a sua reputação. Os comunistas estavam satisfeitos com a oportunidade que Soares lhes dera: explorando o seu prestígio, fizeram dele a ponte dos estudantes para a luta antifascista. Soares, nesta fase, estava completamente mergulhado no PCP – o seu pseudónimo para fugir à vigilância do regime era “Fontes”. Ele, que desde jovem apreciou estar no centro da acção, assumia o protagonismo com gosto.

O prestígio que construiu levou-o, em 1945, a penetrar o MUD – Movimento de Unidade Democrática, cujo objectivo era organizar a oposição ao regime de modo a apresentar-se a eleições para a Assembleia Nacional. Tendo assumido a ligação com os estudantes, Soares cria o MAUD – Movimento Académico de Unidade Democrática, reunindo as figuras principais da resistência académica, entre as quais Francisco Salgado Zenha, com quem forjou ao longo da vida uma grande amizade. Mais tarde, foi também dele a responsabilidade da coordenação do MUDJ – Movimento de Unidade Democrática Juvenil, apesar do controlo dos comunistas através de Octávio Pato.

Soares apreciou a importância crescente que os comunistas lhe atribuíram, mesmo que fosse clara a instrumentalização por Cunhal. Soares foi permitindo que isso acontecesse porque gostava daquela vida, mas aplicou sempre limites na sua relação com o PCP: nunca aceitaria viver na clandestinidade, pois o anonimato e a vida austera de quem não pode dar nas vistas eram incompatíveis com a sua natureza burguesa – “Eu disse que não queria ir para a clandestinidade. Com o meu temperamento, não dava. Queria ter gajas, ir ao cinema, viajar. Tinha ambições várias, ambições literárias…” (Vieira, 2013: 68, a partir de uma entrevista a Mário Soares a 21 de Dezembro de 2009).

A primeira prisão de Soares, em 1946, deveu-se à oposição do MUD à adesão de Portugal às Nações Unidas. Quando libertado, Soares, para que constasse, fez questão de assinalar ter sido muito bem tratado – nas prisões que se seguiram ao longo da vida, não foi sempre assim.

Com o prestígio nos meios oposicionistas do mundo académico, Soares ganhou entrada definitiva no radar da PIDE, a polícia política do Estado Novo. O entusiasmo que os seus discursos geraram nas sessões do MUD (que, entretanto, desistiu de ir a votos), a boa imagem de que gozava junto dos principais nomes do movimento republicano, a sua associação aos mais jovens – tudo isso fez soar os alarmes do regime. Até porque Soares, nos seus discursos, nunca se inibiu de criticar abertamente as posições da União Nacional, o partido único. As meias-palavras não eram com ele.

Assim, se este período foi fundamental para a sua formação pessoal e para a sua afirmação política, ele marcou também o seu primeiro contacto com as prisões do regime e os interrogatórios da PIDE. A primeira prisão de Soares, em 1946, deveu-se à oposição do MUD à adesão de Portugal às Nações Unidas, no pressuposto de as Nações Unidas só terem espaço para democracias – o que, evidentemente, Portugal não era. Toda a Comissão Central do MUD foi presa. Quando libertado, Soares, para que constasse, fez questão de assinalar ter sido muito bem tratado – nas prisões que se seguiram ao longo da vida, não foi sempre assim (Vieira, 2013: 69-71).

Esta primeira experiência prisional teve dois efeitos imediatos. O primeiro foi assustar a família, em particular o pai, que, embora orgulhoso das lutas políticas do filho Mário, não aprovava a adesão ao PCP e temia que a sua crescente notoriedade o conduzisse à deportação. Por isso, inscreveu Soares num estágio em Lausanne, na Suíça, e convenceu-o a ir. Como o próprio Mário Soares reconheceu posteriormente, “o meu Pai era um homem ultratolerante e aberto: apreciava o meu empenhamento e o meu entusiasmo na luta antifascista, mas olhava de soslaio a minha militância comunista. (…) Afirmava-me que eles não sabiam o que era a liberdade, criticava-os e criticava-me” (Avillez, 1996: 43).

33. Álvaro Cunhal afinal também fumava. Mas na URSS e nos anos 50. (foto in Alvaro Cunhal no país dos Sovietes)

Álvaro Cunhal tentou impedir que Mário Soares saísse do país

Ora, o segundo efeito surgiu em exacto sentido contrário. No PCP, Cunhal tomou conhecimento de que Soares ponderava abandonar o país e entrou em palco: Mário Soares era demasiado útil para os comunistas o deixarem partir. Cunhal tentou demover Soares, alertando-o de que, se saísse para Lausanne, estaria a trair os camaradas que nele confiaram. O argumento colheu, Soares ficou, embora contrariado – a “traição” ao PCP era um preço demasiado elevado a pagar. Pouco depois, voltou a ser preso, desta vez em Caxias, numa experiência que se revelou mais longa do que a anterior (4 meses) e muito menos agradável. Era um sinal da intensificação da repressão do regime. Nas universidades, até professores foram dispensados por suspeitas de ligações à Oposição, sob protesto da MUD. Inevitavelmente, o próprio MUD acabou ilegalizado, sob pretexto das suas ligações ao Partido Comunista (Vieira, 2013: 73-74).

Um burguês que já não queria ser comunista

A ilegalização do MUD lançou um debate na Oposição: cumprir a lei ou agir e viver em clandestinidade. Para Soares, a escolha era fácil – clandestinidade, nunca! Mas, para muitos outros, cumprir a ilegalização do MUD representava uma cedência inaceitável ao arbítrio da ditadura. A troca de argumentos foi acesa e só interrompida pela urgência de preparar as eleições presidenciais de 1949 – era fundamental a oposição ao regime seleccionar um candidato forte e agregador. O escolhido foi o general Norton de Matos, com Mário Soares a ser designado secretário da sua candidatura – um cargo de importância institucional que muito lhe agradou – e, também, ao Partido Comunista, que encontrou em Soares um instrumento de controlo da candidatura (Vieira, 2013: 85).

Esse controlo chegou ao ponto de exigir a Soares que informasse Norton de Matos da sua militância, com o objectivo de vincar o papel institucional do partido na sua candidatura. Soares, ao princípio, rejeitou – viu nessa ordem uma forma de o obrigarem a viver na clandestinidade, efeito imediato caso a sua militância fosse tornada pública. Mais tarde, cedeu à pressão de Álvaro Cunhal, por lealdade, mas avisou: era o seu último acto de obediência ao Partido Comunista. Quando informado, Norton de Matos afastou Soares do seu círculo. A candidatura acabou por cair, contra a vontade do candidato, mas por pressão dos comunistas, que decidiram não legitimar o regime com uma candidatura destinada a perder em eleições forjadas. O regime, contudo, não se comoveu e prendeu vários dirigentes da campanha eleitoral de Norton de Matos – incluindo Soares (Vieira, 2013: 91).

Norton de Matos 1916 Ministro da Guerra

Soares era militante do PCP quando participou na candidatura de Norton de Matos à Presidência da República

A prisão, a quarta em quatro anos, desgastou-o muito. Soares encheu-se de dúvidas e hesitações – valia a pena o sacrifício, tinha a sua resistência efeito relevante que a justificasse? Afinal de contas, a sua situação pessoal não estava fácil, com um pai transtornado com a prisão, uma mãe doente, um curso de Letras inacabado e uma oposição ao regime desmoralizada após o fiasco da candidatura presidencial de Norton de Matos. Pela primeira vez desde que deu o primeiro passo na vida política, Soares vacilou no rumo a seguir. Estava desiludido – o regime provou-se mais resistente do que ele esperava. Como explicou anos depois, “desde o fim da II Grande Guerra até 1949, data da criação da NATO, sempre estive convencido da debilidade profunda do regime salazarista e da sua ‘inevitável’ queda, a curto prazo. Como depois compreenderia, Salazar e Franco foram salvos pela traição das democracias ocidentais, que aceitaram e conferiram respeitabilidade às ditaduras ibéricas, por medo cego do comunismo” (Avillez, 1996: 45-46).

Para além de aproveitar a prisão para acomodar as ideias, Soares arrumou a sua vida pessoal. Foi nesse período que Mário Soares casou com Maria de Jesus Barroso – por procuração. Na verdade, não lhe era possível esperar, pois Maria de Jesus estava grávida e, à época, o sexo pré-matrimonial era alvo de censura social. O casamento tinha de acontecer o quanto antes. Soares foi libertado no Verão de 1949, a tempo de ver nascer o seu primeiro filho, João Soares, a 29 de Agosto.

Maria Barroso Mário soares

Mário Soares casou-se com Maria Barroso por procuração

Saído da prisão, os comunistas logo sondaram Soares para integrar o recém-formado MND – Movimento Nacional Democrático, que substituiu os ilegalizados MUD e MUNAF – Movimento de Unidade Nacional Antifascista. Soares concordou em apoiar o movimento, mas rejeitou integrar os seus quadros. Alegou precisar de uma pausa da política. A justificação não convenceu os comunistas e o comportamento de Soares passou a ser visto como ambíguo – teria ou não rompido em definitivo com o partido? O tempo respondeu à questão, com o afastamento progressivo de Soares a ser cada vez mais notório, opção que o PCP não lhe perdoou: em Outubro de 1950, Soares foi expulso do partido e, na edição de Fevereiro de 1951 do “Avante!”, ele e os seus próximos foram qualificados de oportunistas e criticados impiedosamente. A ruptura de Soares com o PCP e o MND estava completa (Vieira, 2013: 97).

Do deserto à social-democracia

A ruptura com o PCP e o consequente ataque na edição do “Avante!” tiveram consequências directas na vida de Soares – a influência dos comunistas nos meios oposicionistas era tão grande que Soares se tornou persona non grata e ficou isolado. Enquanto figura pública de relevo na oposição ao regime, perdeu quase toda a influência. Soares nunca se esqueceu da lição (e não foi a única vez que o PCP lhe deu essa lição): aos comunistas não bastava a discordância ou a ruptura, havia que castigar – o que tentaram por todos os meios fazer, inclusive testando a solidez do seu casamento (Vieira, 2013: 100-101). Sem grandes alternativas, Soares aceitou o isolamento e retomou a sua vida pessoal, a começar pela licenciatura.

A 30 de Julho de 1951, Mário Soares concluiu o curso de Letras. Ponderou o ensino, mas não teve paciência para os cursos de formação para a docência, em que se inscreveu mas que nunca realmente frequentou. Viajou para Paris. Deambulou. Viveu às custas do pai mas, passado pouco tempo, apercebeu-se da insustentabilidade da situação. Resolveu, assim, regressar à universidade, desta vez para o curso de Direito, cujo prestígio facilitaria a obtenção de emprego e as suas actividades políticas. Completou-o no tempo previsto, em 1957, sem se ter empenhado particularmente – Soares nunca foi um aluno aplicado. Começou, então, a dar aulas no Colégio Moderno, onde já havia assumido funções administrativas – contudo, a experiência foi curta, pois Soares não desenvolveu apetência pelo ensino. Paralelamente, iniciou a sua carreira de advogado, no escritório de Gustavo Soromenho, na Baixa de Lisboa.

Anti-situacionista convicto, Soares afastou-se do comunismo e cada vez mais desconfiava da União Soviética. Mas faltava-lhe uma via alternativa que, à esquerda, constituísse uma resposta democrática à ditadura do Estado Novo. 

Num ritmo brando em termos de actividade oposicionista, foram estes os anos ao longo dos quais Mário Soares repensou e redefiniu o seu pensamento político. Anti-situacionista convicto, afastou-se do comunismo e cada vez mais desconfiava da União Soviética. Mas faltava-lhe uma via alternativa que, à esquerda, constituísse uma resposta democrática à ditadura do Estado Novo. Foi com essa preocupação em mente que, com alguns amigos mais próximos, formou um pequeno grupo de discussão a que chamou Resistência Republicana (RR) e que, progressivamente, o foi aproximando à social-democracia, à Europa e aos oposicionistas moderados – que, em 1956, o convidaram a ingressar no DDS – Directório Democrata-Social, convite que Soares aceitou e viu como uma oportunidade para estabelecer contactos com oposicionistas da ala direita, aos quais não tinha antes acesso (Vieira, 2013: 113).

Esses contactos levaram-no a apoiar a candidatura do general Humberto Delgado à Presidência, em 1958. Soares, inicialmente, nem sequer o considerou o melhor candidato – a sua preferência recaiu em Azevedo Gomes e, depois, em Jaime Cortesão (Vieira, 2013: 116) – mas, confrontado com a popularidade do “General Sem Medo”, com uma capacidade mobilizadora contra o regime nunca antes vista, Soares ganhou-lhe um enorme respeito (Vieira, 2013: 118).

humbertodelgado

Soares acreditava que Humberto Delgado podia ter derrubado Salazar durante a campanha presidencial de 1958

O momento-chave dessa viragem foi o episódio do regresso de Delgado a Lisboa, após discursar no Porto, quando uma multidão imensa o foi aguardar e aclamar à estação de Santa Apolónia, desencadeando uma carga policial sobre os manifestantes. Para Soares, “o regime não acabou nesse dia porque Delgado teve uma fraqueza: quando se apeou do comboio do Porto, o chefe da polícia bateu-lhe uma continência, invocou motivos de segurança e pediu-lhe que se metesse no carro com ele, o que o general aceitou, ficando, assim, completamente cortado da população lisboeta, um mar de gente entusiasta e incontível. Se ele se tem posto à cabeça daquela manifestação e tem rumado a São Bento, derrubava o Salazar!” (Avillez, 1996: 130).

Apesar dessa fraqueza, Soares percebeu que Humberto Delgado era um caso sério e que a sua candidatura poderia realmente abalar o regime. Integrou a Comissão de Honra da candidatura (por via do seu papel no DDS), mas não conseguiu assumir nela um papel de relevo. E, após o episódio de Santa Apolónia, a candidatura desorientou-se e perdeu fulgor. No acto eleitoral, a única vez em que eleições presidenciais no Estado Novo tiveram um candidato da oposição, Delgado perdeu debaixo de inúmeros indícios de fraude. Os seus apoiantes, desiludidos, abandonaram-no. Soares, não. Foi, aliás, a partir desse momento que ele e o general estabeleceram uma real aproximação.

Apesar da derrota, tratou-se de um momento-chave na história do regime. “Como Salazar lhe chamou, com propriedade, Delgado era um ‘génio da agitação’. O regime sofreu um golpe fatal. Nada ficou igual ao que era antes” (Soares, 2011: 85). A lição que Mário Soares retirou da candidatura de Delgado foi, então, simples: era possível aglomerar diferentes correntes da oposição numa candidatura contra o regime. Ele decidiu assumir essa missão, a de fazer de ponte entre as várias sensibilidades políticas dos oposicionistas. Por um lado, pôs os seus talentos de advogado ao serviço dos que lutavam contra o regime, aceitando defender todos aqueles que fossem presos políticos – incluindo comunistas, como Octávio Pato, a quem reconheceu o mérito e a bravura. Sobre ele, Soares afirmara, mais tarde, que “Octávio Pato portou-se como um herói não somente perante os interrogatórios e as torturas da PIDE, como no próprio tribunal, onde foi barbaramente espancado por elementos da PIDE e arrastado à força da sala de audiências, perante os meus protestos, gritados com a maior indignação” (Soares, 2011: 69).

Em 1961, num regime a sentir-se cada vez mais atacado em várias frentes, com dissidências nas forças armadas e guerra em Angola, a repressão endureceu: Soares ficou seis meses preso (a sua prisão mais longa) sem ter sido sequer acusado. Mesmo depois de libertado, cada ameaça sentida pelo regime levava à sua prisão e a um longo interrogatório

Por outro lado, pretendeu fixar os termos políticos comuns das várias oposições, num “Programa para a Democratização da República”, que com Azevedo Gomes, Piteira Santos e outros começou a desenvolver. Afinal de contas, a desorganização da oposição (nos métodos, nas políticas, nos objectivos) era o argumento principal do Estado Novo quanto à inviabilidade de alternativas políticas – e tinha de ser rebatido (Vieira, 2013: 122). Por isso, Soares garantiu que todos faziam parte do grupo de trabalho, desde o seu pequeno grupo RR à Seara Nova e aos republicanos liberais centristas. O documento foi apresentado publicamente em Maio de 1961, para grande surpresa e desagrado da PIDE, que não desconfiava de nada e que, no dia seguinte, prendeu os seus 62 subscritores. Num regime a sentir-se cada vez mais atacado em várias frentes, com dissidências nas forças armadas e guerra em Angola, a repressão endureceu: Soares ficou seis meses preso (a sua prisão mais longa) sem ter sido sequer acusado. Com o nome de Soares a circular em abundância nos bastidores políticos, a PIDE agiu em conformidade: mesmo depois de libertado, cada ameaça sentida pelo regime levava à sua prisão e a um longo interrogatório – como aconteceu a 15 de Fevereiro de 1962, tendo sido libertado a 8 de Março (Vieira, 2013: 122-125).

Soares, contudo, não se intimidou. Inspirado pela reacção do regime ao “Programa para a Democratização da República”, ele insistiu no desenvolvimento de uma alternativa política através da social-democracia europeia. Alterou o nome do seu pequeno grupo de reflexão – de RR para RRS (Resistência Republicana Socialista) – e tirou proveito da crise académica de 1962 para recrutar (ou pelo menos aproximar-se de) mais talentos jovens – entre eles estarão Jorge Sampaio e José Medeiros Ferreira (Vieira, 2013: 127).

Esse esforço resultou, a 7 de Abril de 1964, em Genebra (Suíça), na fundação da ASP – Acção Socialista Portuguesa, que substituiu a RRS e que foi a incubadora que levou ao nascimento do Partido Socialista. Esse objectivo a longo prazo – a criação de um partido político – era cristalino na cabeça de Soares, mas não era partilhado por todos os elementos do grupo, que receavam as consequências (quem pertencia a partidos tinha, forçosamente, de viver na clandestinidade). Daí que alguns estivessem contra a fundação da ASP (Vieira, 2013: 139). Mas, nesta fase, não era esse o objectivo de Soares, mas sim vincar contactos internacionais com outras organizações e partidos da social-democracia europeia. Para ele, nessa altura, não resistiam dúvidas de que, apesar de em alguns países os sociais-democratas viverem em clandestinidade, era esse o caminho do futuro – e, como tal, ele teria todo o interesse em fazer parte dele desde o início.

O líder da oposição morreu, viva o líder da oposição!

Decidido pela social-democracia, Soares não deixou de contactar com personalidades das repúblicas soviéticas. Visitou Praga, cujo ambiente cinzento e opressivo detestou. Esteve em Cuba, para onde viajou encantado. “A revolução cubana incendiara de entusiasmo toda a esquerda europeia. Apareceu como um fenómeno insólito e original, que demonstrava a debilidade das ditaduras retrógradas, então apoiadas por Washington. Fidel e Che Guevara apareciam, aos nossos olhos, como heróis românticos e puros, de uma nova época!” (Avillez, 1996: 176). Saiu de Havana desiludido, convicto de que a revolução se converteria em ditadura. Deslocou-se a Belgrado, numa tentativa de comprar equipamento para uma luta armada (Vieira, 2013: 150). Pragmático, sabia que a social-democracia era o caminho, mas também que a via eleitoral parecia não funcionar e que todas as vias para derrubar o regime deveriam manter-se abertas.

Nesse ano de 1964, em Praga, Soares encontrou-se com Humberto Delgado, em convalescença após uma cirurgia, e mais tarde outra vez em Paris, ainda em recuperação. Delgado estava exilado desde a eleição presidencial que perdeu e, também por motivos da sua doença, afastara-se da realidade nacional. Mas, ainda reflexo da sua campanha nas eleições presidenciais e do contacto com a imprensa estrangeira, o estatuto de líder da oposição ao regime era seu.

Ora, em Fevereiro de 1965, Delgado desapareceu junto à fronteira de Badajoz. Semanas depois o seu cadáver foi localizado e o homicídio confirmado. O regime deu-o como assassinado pelos oposicionistas, numa alegada luta interna pelo poder. Mas era óbvio para todos (incluindo no estrangeiro) que Delgado havia sido raptado e morto pela PIDE. A sua viúva solicitou apoio a Mário Soares, que se constituiu como advogado da família – o caso tinha, afinal, contornos políticos mas também sociais, visto que Delgado havia sido assassinado na companhia da sua amante. E Soares tinha todas as condições (técnicas, jurídicas, mediáticas e políticas) para pegar no caso – “Eu era uma referência legal, visível, da luta da Oposição Democrática. O meu escritório de advogado era um baluarte, frequentado por toda a Oposição, pelas famílias dos presos políticos, pelos correspondentes da imprensa estrangeira que queriam saber notícias, mesmo por alguns secretários de certas embaixadas” (Avillez, 1996: 142).

Soares aceitou e, com o alongar do caso debaixo dos holofotes da imprensa internacional, o seu prestígio cresceu exponencialmente na Europa, nomeadamente entre os sociais-democratas europeus. Na prática, a morte de Humberto Delgado, o líder da oposição, permitiu a Mário Soares ascender a essa posição de destaque, com todos os privilégios inerentes – acesso à imprensa internacional, vários convites políticos, mais contactos estabelecidos no estrangeiro (Vieira, 2013: 165).

Inevitavelmente, para além de privilégios, o destaque trouxe-lhe problemas, em Portugal, nomeadamente uma vigilância mais apertada pela PIDE. E, em 1967, quando uma notícia do britânico Daily Telegraph sobre o escândalo sexual “Ballet Rose” indicou Mário Soares como fonte, o seu destino ficou traçado: três meses de prisão em Caxias, em condições particularmente duras. Foi mau, mas o pior veio de seguida: face ao seu estatuto de alegado líder da oposição, o regime optou por uma posição de força e deportou-o para São Tomé, em Março de 1968. Uma decisão arrasadora para ele e para a família, mas também simbólica da importância de Soares à época – há anos que o regime não deportava ninguém. No dia do seu embarque, família, amigos, universitários (entre eles, Jaime Gama) e simpatizantes apareceram para se despedir. O regime respondeu com uma carga policial (Vieira, 2013: 166-167).

À chegada à ilha, Mário Soares foi informado de que não estava preso, apenas confinado, pelo que tinha liberdade de movimento. Para o governador de São Tomé, contudo, a estadia de Soares foi uma dor de cabeça constante, já que a sua presença atraiu jornalistas de toda a Europa. Rapidamente, passado o choque inicial, Soares começou a viver na ilha como vivia em Lisboa – em contactos constantes. A PIDE local, menos habituada a estas agitações, sentiu-se incapaz de o controlar e impediu-o de abandonar a cidade sem autorização. A vigilância tornou-se tão apertada que as gentes da ilha, até então tão amistosas com Soares, optaram pela distância. Nessa fase, já só quatro ou cinco pessoas falavam com ele, e Soares acusou a solidão, só atenuada com a chegada da mulher e, depois, dos filhos, em férias (Vieira, 2013: 177-179). A estadia na ilha não tinha data para terminar e, aos poucos, Soares sentiu-se sem horizonte e sem futuro.

Até que, no dia 7 de Setembro desse ano de 1968, a notícia chegou inesperadamente pela rádio: Salazar caíra da cadeira e tivera de ser operado por uma equipa de neurocirurgiões. Soares percebeu imediatamente o que estava em causa – com quase 80 anos, seria impossível Salazar voltar a ter condições para exercer o poder, pelo que teria de ser substituído. Em alto e bom som, decretou o fim do salazarismo (Vieira, 2013: 198). E, a partir desse dia, tudo se alterou na sua vida em São Tomé. As pessoas voltaram a falar com ele, a relação com o governador melhorou, a vigilância abrandou. A oportunidade de abrir o regime à democracia estava ali tão perto e Soares tão longe do país. Era necessário encurtar a distância, para afirmar o seu lugar enquanto figura maior da oposição. Começou, assim, a escrever a sua autobiografia política, que anos mais tarde foi publicada sob o título Portugal Amordaçado. Entretanto, já na Presidência do Conselho, Marcelo Caetano fixou o prazo de deportação em um ano desde a acusação, o que significava a permanência de Soares na ilha durante mais três meses, até Dezembro. Contudo, a pretexto dos 90 anos do pai, Mário Soares conseguiu antecipar o regresso em um mês. O líder da oposição estava de regresso à pátria.

A primavera (marcelista) dos destroços

Mário Soares regressou a Lisboa entusiasmado com o discurso de posse de Marcelo Caetano, que deu sinais de alguma abertura política. A “primavera marcelista” parecia anunciar o princípio do fim da repressão e um discreto passo rumo à transição democrática (Vieira, 2013: 204). Mas, logo após a chegada, Soares apercebeu-se de que tudo estava como antes. “Verifiquei, ao chegar, que, no essencial, Caetano não tocara em nada: as estruturas do regime e o seu aparelho repressivo mantinham-se intactos, com ligeiras alterações formais: a PIDE passou a chamar-se DGS, a Censura tomou o nome de Exame Prévio, e o partido único, a União Nacional, veio a chamar-se Acção Nacional Popular” (Avillez, 1996: 209). Não perdeu tempo: colocou o regime sob pressão com o seu “Manifesto à Nação”, que propunha a abertura do regime ao diálogo com as várias correntes e a aceitação do pluralismo político, preparando assim as eleições de 1969 à Assembleia Nacional.

Soares tinha os olhos no regime, mas os problemas que lhe surgiram vieram de onde não contava. Popular mas distanciado do PCP e do “socialismo totalitário” (expressão que usou no seu Manifesto), os comunistas elegeram-no como alvo a abater e boicotaram a sua primeira intervenção pública desde o regresso de São Tomé, no Porto, a 31 de Janeiro de 1969. No fundo, o PCP receava que Soares lhe roubasse o protagonismo na organização da oposição ao regime, logo agora que o regime estava à beira de cair ou de se transformar. Como tal, a máquina de propaganda comunista fez de tudo para difamar Soares, acusando-o mesmo de estar feito com Marcelo Caetano (Vieira, 2013: 209). O socialista ficou irritadíssimo com a atitude do PCP – “os acontecimentos do 31 de Janeiro de 69, no Porto, foram seguramente dos que mais profundamente me irritaram e magoaram. (…) Pela estupidez e pela má fé que revelavam” (Avillez, 1996: 215).

Soares ficou arrasado com o desfecho das eleições de 1969 e, embora mantivesse legítimas dúvidas acerca da fiabilidade dos resultados, sentiu-se humilhado publicamente. Mais ainda, Soares receou que estas eleições pusessem em risco todo o seu trabalho político.

A oposição dividiu-se, com muitos oposicionistas a ficarem do lado do PCP, contra Soares. Tornando-se impossível concertar listas conjuntas para as eleições, a oposição surgiu com listas separadas em Lisboa, Porto e Braga, e juntas nos restantes círculos. De um lado, Soares e a sua CEUD – Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, que incluía até monárquicos e católicos. Do outro, as candidaturas preparadas nas CDE – Comissões Democráticas Eleitorais, que contavam, entre outros, com Jorge Sampaio e Medeiros Ferreira. Era a primeira vez que listas da oposição se apresentavam a eleições para a Assembleia Nacional. O facto em si já era uma vitória. No resto, foi uma derrota estrondosa: no país, a União Nacional recolheu 86% dos votos e preencheu a totalidade das cadeiras na Assembleia Nacional. Em Lisboa, Soares (que encabeçava a lista da CEUD) obteve 5,2% – o que foi menos de um terço do que conseguiu a CDE (18,5%) (Vieira, 2013: 221). Para Soares, o resultado não poderia ter sido pior.

As férias e o exílio

Soares ficou arrasado com o desfecho das eleições e, embora mantivesse legítimas dúvidas acerca da fiabilidade dos resultados, sentiu-se humilhado publicamente. Mais ainda, Soares receou que estas eleições pusessem em risco todo o seu trabalho político. Como reconheceu anos mais tarde, “percebi que diante de mim estava uma travessia do deserto e que, no país, o horizonte se fechara; que seria fácil ao regime destruir a CDE, por causa da presença dos comunistas; que nós, socialistas, talvez viéssemos a ter pouca audição internacional, porque os meus amigos da Internacional Socialista – que haviam sido expulsos – poderiam concluir que não tínhamos, afinal, o peso que eles julgavam; e que Marcello iria tirar o partido que pudesse desses desaires. Foi depois de reflectir sobre isto que pensei que teria de hibernar um tempo e decidi partir para uma longa viagem” (Avillez, 1996: 228). Soares seguiu de férias, para espairecer, deixando tudo para trás – opção que a sua mulher lhe criticou duramente na correspondência que com ele manteve (Vieira, 2013: 221-222). Soares percorreu o mundo. Enquanto isso, o projecto de fundar um partido socialista ficou trancado na gaveta.

Soares, mesmo em passeio pelo mundo, continuava obsessivamente político. Nos EUA, onde chegou depois de atravessar o Brasil, a Venezuela e o México, tomou conhecimento da prisão de Salgado Zenha e de Jaime Gama. Aproveitou mais um sinal da repressão do regime para, numa conferência de imprensa perante um leque alargado de jornalistas, criticar o regime e, em particular, o colonialismo de Caetano. No dia seguinte, os jornais americanos reproduziram as suas acusações. Em Lisboa, ao descobrir a operação mediática de Soares, a PIDE ameaçou os seus mais próximos para o incentivar a parar. Indiferente às pressões, Mário Soares prosseguiu nas críticas e na viagem, instalando-se em Paris e desfrutando dos prazeres da cidade. Enquanto, em Lisboa, o seu casamento estava em crise, em Paris Soares sentiu-se absolutamente integrado. Considerou-se exilado, mas formalmente estava de férias, estabelecendo contactos políticos numa ou noutra ocasião e, assim, montando uma rede de apoios – em Genebra, por exemplo, quando se encontrou com Medeiros Ferreira.

Alertado para não voltar a Portugal, Soares não abdicou de estar presente no funeral do pai e usou a imprensa estrangeira como escudo, anunciando a sua viagem – no seu plano, a PIDE ficaria de mãos atadas, impossibilitada de o prender sem causar má imagem ao regime. O plano funcionou.

Ora, com tempo disponível, Soares pesou a hipótese de retomar a sua autobiografia política, inacabada e à qual não acrescentava uma palavra desde o regresso de São Tomé. Encontrou em Alain Oulman (francês nascido em Portugal) um editor interessado, e o projecto arrancou. Oulman, percebendo que Soares era incapaz de se focar no trabalho enquanto estivesse em Paris, persuadiu-o a instalar-se num retiro nos arredores da cidade, de modo a concentrar-se em exclusivo na obra – mas Soares encontrava sempre distracções, nomeadamente femininas: “Ao fim de duas semanas, eu disse que não tinha escrito uma linha porque ali só havia mulheres de várias nacionalidades (até uma pintora russa) que me distraíam das minhas tarefas” (Vieira, 2013: 230, citando a entrevista que fez a Mário Soares, a 15 de Janeiro de 2010).

Oulman levou-o, então, para os arredores de Roma, onde estaria realmente isolado, protegido de tentações e com condições de trabalho. Foi aí que ficou uns meses e onde os seus filhos o visitaram nas férias de Verão, subitamente canceladas – à chegada a Roma, os filhos foram informados por telefone da morte do avô e, no reencontro com o seu pai, transmitiram a má notícia a Mário Soares. Alertado para não voltar a Portugal, onde o prenderiam, Soares não abdicou de estar presente no funeral do pai e usou a imprensa estrangeira como escudo, anunciando a sua viagem – no seu plano, a PIDE ficaria de mãos atadas, impossibilitada de o prender sem causar má imagem ao regime (Vieira, 2013: 233). O plano funcionou – Soares não foi preso.

O que Soares não antecipou foi que, dias mais tarde, seria convocado à PIDE e avisado de que tinha quatro horas para abandonar o país e que, esgotado esse prazo, seria preso. Hesitou e consultou os amigos. Zenha e Maria Barroso aconselharam-no a deixar-se prender, tirando proveito da inevitável campanha mediática que se montaria e no pressuposto de que o regime não estava para durar e que, portanto, a prisão seria de breve duração. Os restantes amigos sugeriram que partisse. Foi o que fez, levando a sua família consigo, de carro, até Paris. Desta vez, chegaria à cidade formalmente exilado, intrigado pela hipótese que o regime lhe dera de fugir à prisão. “Perguntei-me, na altura, frequentemente: por que razão Marcelo Caetano, em vez de me prender ou deportar, como fez Salazar, me expulsou de Portugal? Cheguei à conclusão de que ele pensava que eu no exílio me poderia tornar num centro de conflitos, com os maoístas, os trotskistas, os comunistas e os simples anti-fascistas que viviam sempre a discutir uns com os outros, principalmente os fugidos às guerras coloniais. Não lhe fiz a vontade” (Soares, 2011: 156).

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Soares procurou reorganizar a sua vida. Desta vez, não estava de férias e havia que trabalhar para pagar as contas. Como tal, assumiu pequenos trabalhos enquanto advogado e começou a dar aulas de Civilização Portuguesa, na Universidade de Vincennes. A experiência bem-sucedida abriu-lhe portas também na Universidade de Rennes, para onde iria um dia e meio por semana. Contudo, a sua actividade principal era, como nunca deixara de ser, a política. Entrou na maçonaria francesa, na expectativa de obter bons contactos, estabeleceu ligações com socialistas de toda a Europa, manteve uma relação privilegiada com a imprensa internacional (Vieira, 2013: 241-243). E agarrou-se à sua autobiografia, que finalmente concluiu. Publicada em 1972 em francês, Portugal Amordaçado projectou Soares política e mediaticamente – entrevistas televisivas, reportagens, longos artigos de jornal, debates organizados à volta do seu livro. Cumprindo o seu objectivo de ampliação de notoriedade e prestígio, o livro ajudou Soares a tornar-se, no início da década de 70 uma figura incontornável da política europeia (Vieira, 2013: 245). Em retrospectiva, Soares lembrou que estes “foram anos em que, pela força das coisas, fui sendo empurrado para a política – em virtude das sucessivas prisões, deportação e exílio – e comecei a sentir a política como paixão e destino, assumindo-me paulatinamente, quase sem dar por isso, como líder político do meu grupo, a ASP e, depois, o PS” (Soares, 2011: 109).

A fundação do Partido Socialista

Ainda desiludido com o fracasso eleitoral de que foi protagonista, Soares defendia todos os tipos de acção política que visassem o derrubar do regime do Estado, instigando mesmo à luta armada e aceitando a violência da LUAR – Liga de Unidade e Acção Revolucionária. Mas, do seu lado, nunca abandonou a ideia de formar um partido, que estava na base da sua ASP e da contínua actividade de recrutador entre exilados – Soares sabia perfeitamente o quanto era fundamental ter massa crítica para formar um partido político, e precisava de todos os que estivessem dispostos a alinhar nos princípios da social-democracia contra o regime do Estado Novo.

No início de 1973, concluiu que o momento havia chegado e levou a proposta à ASP, mesmo sabendo que vários discordavam da oportunidade – entre os quais Zenha (Vieira, 2013: 265). A questão era, fundamentalmente, logística: um partido requeria gente, organização própria, funcionários e militantes. O sucesso da iniciativa dependia, portanto, da força política que o partido demonstrasse, que lhe permitisse aguentar, por exemplo, uma tentativa de destruição pelo regime do Estado Novo. Para evitar atritos, Soares preparou tudo nos bastidores e convocou uma reunião da ASP para as férias da Páscoa, em Bad Münstereifel, à qual compareceram 27 filiados (15 dos quais exilados). Foi esse pequeno congresso da ASP que Soares aproveitou para discutir a fundação do PS, passando ao lado das ausências de peso. A sua proposta foi aprovada no limite – os do Porto e Coimbra votaram a favor, os de Lisboa votaram contra (incluindo Maria Barroso), alegando o risco de repressão da PIDE num regime que poderia ter ainda uma longevidade assinalável (Vieira, 2013: 269-271). Soares conseguiu, mais uma vez, levar a sua de vencida. A partir daquela altura, era líder informal de um partido político e, como tal, a sua voz seria ainda mais importante nos círculos dos socialistas europeus.

Convicto de que era uma mera questão de tempo até o regime ser abalado ou derrubado pelos militares, que iam sucessivamente tentando golpes, Soares iniciou um périplo de contactos e reuniões políticas, já sob o estatuto de líder partidário. 

A 19 de Abril de 1973 foi assinada a acta da reunião e da votação. O Partido Socialista (PS) havia nascido. E nasceu com regras bem definidas. As escritas, como os estatutos e o Programa, para o qual a busca de consensos alargados dificultou em muito a redacção. E as não-escritas, nomeadamente a de que, por mais debate que houvesse, quem impunha a sua vontade era sempre Soares – como fez com o Programa, cujo texto alterou sozinho antes da sua impressão (Vieira, 2013: 273).

Convicto de que era uma mera questão de tempo até o regime ser abalado ou derrubado pelos militares, que iam sucessivamente tentando golpes, Soares iniciou um périplo de contactos e reuniões políticas, já sob o estatuto de líder partidário. Encontrou-se com o PCP e com Cunhal, e argumentou a favor da luta armada, insistindo que a via eleitoral era já irrelevante para o derrubar do regime – as eleições de 1973, sem candidatos da oposição, revelaram bem a descrença com que os oposicionistas olhavam para os actos eleitorais (Vieira, 2013: 277-278). Soares tentou ainda convencer Cunhal a negociar um Programa Comum, mas em vão. Nesta altura, as ambições para o futuro do país eram muito diferentes entre o PS e o PCP – e praticamente já não eram compatíveis.

A oposição continuava desunida, mas o regime também revelava sinais do seu enfraquecimento. Uma das suas maiores feridas foi a publicação do livro do general Spínola, Portugal e o Futuro, uma crítica feroz à estratégia do governo para as colónias, e que legitimou as dúvidas do país quanto ao colonialismo. Em choque com as forças armadas, o regime foi sendo sucessivamente alvo de golpes fracassados – como o de 16 de Março de 1974, quando uma coluna militar rebelde saiu do quartel das Caldas da Rainha em direcção a Lisboa (Vieira, 2013: 279), numa insurreição falhada mas que deixara o aviso de que os militares estavam definitivamente de costas voltadas para o regime.

Até que, a 25 de Abril de 1974, foi de vez. Pela mão dos militares, o regime caiu aos pés do povo lisboeta, que, nas ruas da capital, celebrou o fim da ditadura. A guerra de Soares contra o Estado Novo durou 32 anos (1942-1974) e estava agora vencida. Travaria, no entanto, toda uma nova guerra a partir desse dia – a da transição para a democracia.

Referências bibliográficas:
AVILLEZ, Maria João (1996), Soares: Ditadura e Revolução, Público, Lisboa
SOARES, Mário (2011), Um Político assume-se, Círculo de Leitores, Temas e Debates, 2.ª edição, Lisboa
VIEIRA, Joaquim (2013), Mário Soares: uma vida, A Esfera dos Livros, Lisboa

Fonte para a infografia: “Mário Soares — uma Fotobiografia”, de Maria Fernanda Rollo e M. M. Brandão de Brito, Bertrand Editora, 1995

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