Bloco de notas da reportagem na CDU. Dia 2. Ir ali e voltar, um tema europeu por dia e regressar aos locais onde já se foi (mais) feliz /premium

14 Maio 2019

A campanha de João Ferreira segue o guião e não arrisca. Fala de Europa de manhã, aparece na mudança de turno de uma empresa (pela segunda vez consecutiva) e depois há discursos.

De Lisboa a Vila Franca de Xira e depois de regresso a Lisboa. Três eventos apenas na agenda de campanha desta terça-feira. O candidato da CDU não ignorou o tema que marca a atualidade — a audição de Joe Berardo no Parlamento — e aproveitou-o para destacar uma das propostas da coligação para a Europa. “O país chocou-se com as declarações recentes de um banqueiro, mas a verdade é que esta promiscuidade entre o poder político e o poder económico assume expressões muito diversas, não apenas em Portugal como na União Europeia”, afirmou João Ferreira em declarações aos jornalistas durante a manhã, após uma arruada pelas ruas do centro histórico de Vila Franca de Xira.

Lembrando que o Governo português “contribuiu para impedir” a aprovação, no Conselho Europeu, de “uma lista de paraísos fiscais que permitiria aos países taxar transferências financeiras para jurisdições que constituam paraísos fiscais”, João Ferreira assegurou que a CDU continuará a “insistir nos próximos anos” nesta e noutras medidas.

Daquela arruada, João Ferreira seguiu para Alverca onde voltou a fazer uma ação de mudança de turno: aproveitou o período entre as 14h e as 14h30, nas OGMA, para distribuir panfletos de campanha e apelar aos trabalhadores da empresa para que dessem “mais força à CDU”, a única que “ajuda os trabalhadores”. Este é um modelo de que os comunistas não abdicam, mas já foi mais eficaz. Pouco interesse demonstrado, muito poucos os que abrandaram o ritmo para conversar com o candidato.

Ao final da tarde, em Lisboa, João Ferreira foi receber a manifestação pública de “apoios de peso”, como ele próprio começou por dizer. Numa sessão pública com dezenas de responsáveis sindicais, em que discursaram, além do candidato, o secretário-geral comunista, Jerónimo de Sousa, o secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, e a dirigente sindical Isabel Camarinha. A título simbólico, dois jovens apoiantes da CDU entregaram a João Ferreira uma caixa com 1.751 postais assinados por outros tantos responsáveis sindicais. Foi uma exibição de força, ao segundo dia de campanha. Mas não se tratou propriamente de um apoio surpresa.

“Fizeram mais os três eleitos da CDU do que todos os outros juntos”

João Ferreira socorre-se das estatísticas do Parlamento Europeu para mostrar que a produtividade dos deputados comunistas não tem rival. Fala com orgulho das perguntas que os comunistas têm feito às instituições europeias, mesmo que muitas se refiram a problemas locais portugueses. E se isso tem sido criticado pelos adversários (num dos últimos debates, Marisa Matias disse que havia quem trabalhasse para só as estatísticas enquanto outros trabalham para melhorar a vida das pessoas), João Ferreira acredita ter aqui uma mais valia eleitoral.

Baixo: Não se pode dizer que a CDU tenha andado estes dois dias de campanha em salas e salões, como tem sido apontado ao candidato do PS. Mas, mesmo na rua, a campanha não arrisca nada, não surpreende, segue o modelo e o roteiro do costume e chega a repetir ações praticamente iguais ao dia anterior. Dê-se a João Ferreira um molho de folhetos e uma mudança de turno numa fábrica e aí está ele a cumprir mais um ponto da curta agenda do dia. À porta das OGMA ou à porta da Autoeuropa, a campanha é sempre a mesma e com as mesmas frases de eficácia duvidosa para convencer eleitorado: “Boa tarde, mais força para a CDU, bom trabalho”, ou “Boa tarde, mais força para a CDU, bom descanso“.

Alto: Sem surpresas, Jerónimo de Sousa tem sido o ponto alto desta campanha. Aquilo que talvez falte a João Ferreira em empatia e à vontade é largamente compensado de cada vez que o secretário-geral do PCP aparece. É simpático, popular, e mantém o à vontade conquistado com muitos anos de estrada e de campanhas. Se é verdade que Jerónimo liga o piloto automático nos discursos, não perde eficácia por isso e domina a arte do soundbite noticioso. O problema é que Jerónimo de Sousa vai ter uma volta autónoma nesta campanha e nem sempre estará junto ao candidato.

Dinis LourençoJoana Nunes foram as estrelas do evento central da campanha da CDU desta terça-feira, quando se levantaram durante a sessão com os responsáveis sindicais para entregar a João Ferreira uma caixa com 1.751 postais, todos assinados por um dirigente ou delegado sindical, membro de uma comissão de trabalhadores ou representante dos trabalhadores para a segurança e saúde no trabalho. Em cada um dos postais, lê-se: “Pelas provas dadas pelos eleitos pela CDU no Parlamento Europeu, não temos dúvidas: quanto mais deputados elegermos pela CDU, melhor serão defendidos os interesses dos trabalhadores e do País”.

Ao Observador, Dinis explicou que fez parte do processo desde o início: “Contactar estruturas sindicais, contactar os trabalhadores no terreno, contactar os dirigentes sindicais, expôr-lhes as nossas propostas, da CDU, e pedir o seu apoio”. Ele foi apenas um de vários apoiantes da coligação que andaram a recolher assinaturas para os postais — e hoje foi um dos dois escolhidos para as entregar ao candidato. Quando perguntamos se o postal foi redigido em comum com os trabalhadores: “A redação é feita como todos os materiais de propaganda.”

Durante a arruada matinal pelas ruas de Vila Franca de Xira, João Ferreira foi entrando em vários estabelecimentos comerciais. Foi numa mercearia que um habitante o interpelou para lhe dizer que achava, pelo que via na comunicação social, que era a bloquista Marisa Matias quem fazia o melhor trabalho em Bruxelas. “Aquilo que respondi ao senhor foi que não há como ir à página do Parlamento Europeu (na Internet), que tem informação objetiva e rigorosa sobre o que cada deputado fez e veja por si próprio”, assegurou o candidato.

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

A campanha oficial ainda não começou a fazer a verdadeira rodagem. Depois de ter percorrido apenas 67 quilómetros no primeiro dia, desta vez a caravana saiu de Lisboa em direção a Vila franca de Xira e regressou à capital. 78 quilómetros neste segundo dia.

Total percorrido: 145 quilómetros

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