CDU em campanha. João Ferreira quer a União Europeia a pensar outra vez no pleno emprego

14 Maio 2019

João Ferreira recebeu quase dois mil postais de apoio de dirigentes sindicais. De manhã, disse aos eleitores que os eurodeputados da CDU fazem mais do que os outros todos juntos.

Artigo em atualização ao longo do dia

João Ferreira chegou às OGMA (antigas Oficinas Gerais de Material Aeronáutico), em Alverca, alguns minutos antes das 14h desta terça-feira, hora marcada para a segunda ação de campanha do dia. A hora não foi escolhida por acaso. Era mudança de turno e o candidato comunista às eleições europeias foi alternando entre os “boa tarde, mais força para a CDU, bom trabalho” e os “boa tarde, mais força para a CDU, bom descanso“.

A comitiva era pequena — pouco mais de uma dezena de pessoas, ao sol — e o momento não durou muito tempo, uma vez que foram poucos os trabalhadores que abrandaram a marcha de entrada ou de saída das instalações das OGMA para falar com João Ferreira. De uma coluna pousada no chão ouviam-se, em loop, as propostas da CDU ao som da “Carvalhesa” — coluna que seria, mais tarde, devidamente embelezada com panfletos de campanha e com uma bandeira da coligação.

A comitiva da CDU ao início da tarde em frente à entrada das OGMA, em Alverca (JOÃO FRANCISCO GOMES/OBSERVADOR)

Aos jornalistas ali presentes, João Ferreira apontou o dedo ao Governo PSD/CDS que, em 2005, aprovou a privatização de mais de metade da OGMA. A empresa “seguiu o caminho que outras empresas privatizadas seguiram: diminuição do emprego, diminuição, sobretudo, dos direitos, da qualidade do emprego, uma generalização da precariedade laboral e diminuição da produção, da atividade da empresa”, afirmou.

“Há muitos anos que a UE deixou de falar no pleno emprego”

Lembrando o exemplo da Autoeuropa, que a campanha da CDU visitou na segunda-feira, João Ferreira defendeu que “aquilo que se impõe é, ao mesmo tempo que valorizamos a produção, dinamizamos e aumentamos a produção, temos de criar as condições para valorizar também os direitos e os salários, e combater a precariedade que está generalizada nestas empresas”.

Enquanto os restantes elementos da comitiva iam distribuindo o resto dos panfletos aos trabalhadores que ainda saíam da fábrica após o fim dos turnos, João Ferreira falava “da importância do princípio, que defendemos, da não regressão ao nível da União Europeia, de forma a não permitir retrocessos no plano dos direitos sociais“.

Para isso, a CDU defende a “criação de um pacto para o progresso social e de emprego na Europa, que substitua o atual Pacto de Estabilidade e Crescimento, e que fixe objetivos de pleno emprego na Europa”. “Há muitos anos que a União Europeia deixou, pura e simplesmente, de falar no pleno emprego“, lamentou João Ferreira.

“Nós temos de retomar o objetivo do pleno emprego na Europa, e de convergência de normas e direitos sociais. Este pacto cuidaria de critérios de convergência no plano social para obtermos essa convergência no progresso de normas sociais. No fundo, criando condições para que à escala europeia se avance no plano dos direitos sociais“, acrescentou o candidato comunista.

Questionado sobre o facto de 80 mil pessoas já terem assinado a petição que pede o encerramento dos shoppings ao domingo (o número de subscritores cresceu exponencialmente após as declarações do bispo do Porto, D. Manuel Linda, sobre o assunto), João Ferreira garantiu que a CDU nunca abandonou esse objetivo.

“Excluindo alguns setores que respondam a necessidades sociais imperativas e que obriguem a que o trabalho tenha lugar aos domingos, todos os outros setores não se justifica que os trabalhadores sejam obrigados a trabalhar aos domingos. Até podemos dizer mais, como ontem disse, que sejam obrigados a trabalhar por turnos”, afirmou João Ferreira.

João Ferreira esta tarde a entregar panfletos de campanha aos trabalhadores das OGMA, em Alverca (JOÃO FRANCISCO GOMES/OBSERVADOR)

Sublinhando que esta é “uma área que está na esfera de competências dos Estados”, a União Europeia tem vindo a “dirigir recomendações” que “vão no sentido precisamente oposto”. “Desregulação de horários de trabalho, aumento da idade da reforma, tudo um caminho que vai ao contrário das possibilidades que o avanço no plano da ciência nos permite trilhar: reduzir jornada de trabalho sem perda de salário e reduzir a idade da reforma”, rematou João Ferreira.

Chegou o correio: o postal de apoio dos sindicatos

De Alverca, João Ferreira seguiu para o centro de Lisboa para uma sessão pública com a presença de Jerónimo de Sousa e de diversos dirigentes sindicais — incluindo o secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, e a dirigente do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal, Isabel Camarinha.

Quem encheu a sala de conferências do Hotel Roma, em Lisboa, chegou em autocarros e ficou à porta do hotel à espera da chegada de Jerónimo de Sousa, que entrou na sala acompanhado por um cortejo de apoiantes e entre gritos de apoio à CDU. A sessão, na qual intervieram Isabel Camarinha, Arménio Carlos, João Ferreira e Jerónimo de Sousa, serviu essencialmente para uma “reafirmação do apoio dos representantes dos trabalhadores” à CDU, o que foi feito através da entrega a João Ferreira de 1.751 postais assinados por outros tantos responsáveis sindicais a manifestar apoio à coligação.

“Somos Dirigentes e Delegados Sindicais, Membros de Comissões de Trabalhadores e Representantes dos trabalhadores para a Segurança e Saúde no Trabalho que nos locais de trabalho organizamos os trabalhadores para a luta em defesa dos seus interesses de classe”, lê-se no postal, que, em cinco parágrafos, elenca os motivos para o apoio à coligação: a “exploração e regressão social” promovida pela UE, os ataques à democracia e à soberania e a “ofensiva geral” contra os trabalhadores.

No menu dos discursos serviram-se, claro, críticas ao trio PS, PSD e CDS. Todos, segundo Jerónimo de Sousa, tendo feito parte de “governos de política de direita que, indistintamente, assumiram, pacote atrás de pacote de medidas, a concretização da vulgata neoliberal para impor o reino da flexibilidade, um mundo de precariedade e arbítrio, o nivelamento por baixo dos direitos sociais e condições laborais”.

E se era preciso exemplos, o secretário-geral do PCP lembrou as propostas comunistas para revogar normas da legislação laboral que foram chumbadas: que foram “A opção do PS de se unir na votação ao PSD e CDS, e estes ao PS, no chumbo das iniciativas do PCP e da CDU, confirma a sua convergência em questões estruturantes da política de direita e seus compromissos com os interesses do grande capital”.

Já Arménio Carlos criticou a “propaganda” europeia que “insiste em apresentar virtudes que a vida desmente”, e pediu aos apoiantes que não esquecessem “quem subscreveu, apoiou e executou o programa da União Europeia e da troika” que, “para manter os Berardos, pôs o povo a viver abaixo das suas possibilidades”.

João Ferreira seguiu uma linha de discurso marcadamente anti-UE, classificando a União Europeia como um “processo de integração capitalista” que, “com as mais diversas roupagens, com uma suavidade enganadora, ou com a brutalidade evidente nos anos da troika” promove ” a contenção e redução de salários, as desigualdades e injustiças, a desregulação dos horários, os vínculos precários, a adopção de legislação laboral com normas que fragilizam os direitos, o ataque aos direitos coletivos, nomeadamente o direito à greve”.

“Fizeram mais os três eleitos da CDU do que todos os outros juntos”

De manhã, durante uma ação de campanha em Vila Franca de Xira, João Ferreira dedicou-se a explicar aos eleitores que os eurodeputados da CDU têm trabalhado mais na Europa do que os outros 18 eurodeputados portugueses todos juntos. Durante a arruada matinal no centro histórico de Vila Franca, o cabeça-de-lista da CDU foi interpelado por um cidadão, numa mercearia, que lhe disse ter ficado com a perceção, através da comunicação social, de que o melhor trabalho em Bruxelas e Estrasburgo tinha sido efetuado pela sua concorrente do BE, Marisa Matias.

Em resposta, João Ferreira desafiou-o a visitar a página do Parlamento Europeu na Internet e a explorar a atividade parlamentar de cada eurodeputado. “Há sempre confusões nestas alturas. Aquilo que respondi ao senhor foi que não há como ir à página do Parlamento Europeu (na Internet), que tem informação objetiva e rigorosa sobre o que cada deputado fez e veja por si próprio. Aliás, é um convite que tenho feito aos jornalistas. Está lá o trabalho feito pelos 21 (eurodeputados portugueses) ao nível de intervenções em plenário, relatórios, pareceres, perguntas à Comissão, Conselho e Banco Central Europeu“, afirmou João Ferreira.

João Ferreira esta manhã durante a arruada no centro de Vila Franca de Xira

O eurodeputado comunista disse que “quem fizer esse trabalho, com rigor e objetividade, não poderá senão chegar à conclusão de que os deputados da CDU se destacam não apenas do ponto de vista quantitativo, do volume, mas também qualitativo”, pois “é importante olhar para o conteúdo de cada intervenção e ver que são perguntas relacionadas com a realidade nacional“.

“Portanto, não tememos comparações, pelo contrário. Desejamos que elas se façam. É normal, nestas alturas, haver todo o tipo de desinformação e rankings com critérios subjetivos e não explicados para transmitir uma imagem diferente do que se passou”, continuou. João Ferreira resumiu mesmo a sua convicção: “Fizeram mais os três eleitos da CDU do que todos os outros 18 deputados portugueses juntos“.

Questionado sobre se o objetivo da CDU nas eleições de 26 de maio passa por obter mais um lugar europeu, ou se a perda de algum mandato do atual trio seria uma derrota, o candidato recusou formular metas eleitorais, a não ser “o reforço da CDU”. O eurodeputado expressou “confiança na batalha eleitoral” e a aspiração legítima de “ver reforçada a presença da CDU no Parlamento Europeu”. “O reforço pode acontecer de múltiplas formas: em número de votos, percentagem, mandatos, pode ser nisto tudo, mas não especificámos em que é que esse reforço se deve traduzir”, concluiu.

Com Agência Lusa

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