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ANA MARTINGO/OBSERVADOR

ANA MARTINGO/OBSERVADOR

China e Estados Unidos enviam missões a Marte em julho. É o regresso da corrida espacial? /premium

Missão Tianwen-1 será lançada para Marte pouco depois do sucesso NASA-SpaceX e no mesmo mês que a missão Perseverance. É um capítulo do conflito China-EUA ou estamos perante a nova corrida espacial?

Vai ser um mês de julho quente para a exploração espacial. Os Estados Unidos, a China e os Emirados Árabes Unidos estão a poucos meses de, servindo-se da proximidade entre a Terra e o Planeta Vermelho, enviarem para Marte três missões planetárias. Para os árabes, é apenas uma aventura. Para os Estados Unidos, um regresso a casa. Para a China, um teste. E, pelo meio, uma luta de titãs.

Duas missões, um objetivo: a habitabilidade marciana

Comecemos pela missão norte-americana, a Mars 2020. A 17 de julho deste ano, os Estados Unidos vão enviar para Marte o rover Perseverance (“perseverança” em português) inspirado noutro veículo marciano da NASA, o Curiosity, mas com uma tonelada. É o maior rover a viajar para Marte. Na mesma viagem seguirá também um pequeno helicóptero batizado de Ingenuity (em português, “engenho”).

"Perseverance" terá uma tonelada e irá acompanhado por um mini-helicóptero

JPL/Caltech

Este helicóptero é a maior novidade desta missão da NASA a Marte, explicou ao Observador Rui Curado Silva, investigador no Departamento de Física da Universidade de Coimbra e coordenador do Grupo de Instrumentação Espacial do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP). É a primeira vez que um objeto voador de baixa altitude é enviado para o Planeta Vermelho. E este vai com um objetivo muito particular: colmatar a lentidão da comunicação entre a Terra e Marte.

Os sinais de rádio utilizados pelo rover para enviar informação para a Terra e para endereçar ordens de regresso ao veículo viajam à velocidade da luz. Mas, por causa da distância entre os planetas, eles podem demorar entre sete e 40 minutos a sair de Marte e chegar até nós e outros tantos para receber uma ordem. Este helicóptero “pode ajudar a sonda a tomar algumas decisões sozinha para superar esse atraso nas comunicações”, descreveu Rui Curado Silva.

Por causa da distância entre os planetas, eles podem demorar entre sete e 40 minutos a sair de Marte e chegar até nós e outros tantos para receber uma ordem. Este helicóptero "pode ajudar a sonda a tomar algumas decisões sozinha para superar esse atraso nas comunicações", descreveu Rui Curado Silva.

Além disso, o helicóptero desloca-se muito mais rapidamente do que o rover, que pode demorar dias a percorrer distâncias curtas. Apesar da preparação mecânica com que o Perseverance já está equipado, “o helicóptero pode fazer um reconhecimento do que está à volta, recolher imagens e enviar os dados para a sonda para que ela se desloque para as zonas potencialmente interessantes”. É certo que Marte já foi mapeado por outras sondas, mas nunca com uma resolução ao nível do centímetro, nota o astrofísico. E isso “permite ter uma melhor ideia do relevo para ajudar a sonda a deslocar-se”.

Quanto à missão chinesa, a Tianwen-1, é sobretudo “para testar instrumentos em construção”, descreve Rui Curado Silva. “Do ponto de vista científico, tendo em conta aquilo que já foi feito, potencialmente não fará coisas muito avançadas. Mas querem fazer provas de conceito, que é uma coisa muito utilizada no jargão da astronáutica — provarem a eles próprios que são capazes de enviar uma sonda”, prossegue o astrofísico.

Uma ilustração da agência espacial chinesa do lander que irá a Marte

CNSA

Esta será a segunda vez que a China tentará chegar a Marte. A primeira foi em 2009, quando o país decidiu enviar à boleia de uma missão russa uma sonda que deveria orbitar o Planta Vermelho. No entanto, a missão da Rússia falhou e a sonda chinesa perdeu-se. Agora, a China decidiu avançar com meios próprios, desta vez com um rover além da sonda.

José Augusto Matos, astrónomo, divulgador de ciência e colaborador da Associação de Física da Universidade de Aveiro, diz que este rover é mais robusto do que outros veículos desenvolvidas pelos chineses. Os dois veículos que a China enviou para a Lua tinham cerca de 140 quilogramas, mas o rover que viajará até Marte terá 240. O tempo de vida do rover está previsto para três meses, mas pode até durar mais: “Em 2003, quando a NASA enviou os rovers Spirit e Opportunity, na altura previa-se que durassem quatro meses, mas o Opportunity sobreviveu até 2019″, recorda o astrónomo.

Mas a maior dificuldade está na ténue atmosfera marciana, explica Rui Moura, do Instituto Geofísico e docente do Departamento de Geociências da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. “A atmosfera marciana é principalmente composta por dióxido de carbono e com uma densidade atmosférica baixíssima. Marte tem uma pressão atmosférica à superfície que nós temos dentro da estratosfera. É de seis milibares, enquanto a nossa atmosfera ao nível do mar é de mais de 1.000 milibares”.

A atmosfera de Marte vista pela sonda Viking em 1976

NASA

Quando um objeto entra na Terra e atravessa a densa atmosfera terrestre, a velocidade é atenuada pela fricção. Mas em Marte, como a atmosfera é muito pouco densa, os objetos não têm esse auxílio para abrandar até às velocidades de aterragem. “São precisos pára-quedas muito eficazes para suavizar a descida ou então devem ter motores que fazem propulsão no sentido inverso à que entram”, descreve Rui Moura.

Quando um objeto entra na Terra e atravessa a densa atmosfera terrestre, a velocidade é atenuada pela fricção. Mas em Marte, como a atmosfera é muito pouco densa, os objetos não têm esse auxílio para abrandar até às velocidades de aterragem.

Esse também é um desafio para o helicóptero da NASA, prossegue o especialista: mesmo conseguindo aterrar com sucesso em Marte, “o desafio é fazer voar naquela atmosfera um veículo com hélices, não propulsores, porque é preciso ar que crie tração para andar para trás ou para subir. Com as atmosferas como a de Marte, o mais eficaz é usar jatos”.

Aliás, há mais em comum entre a missão norte-americana e a chinesa do que pode parecer à primeira vista. O rover Perseverance tem um aparelho que perfura o solo marciano a uma profundidade nunca antes alcançada pelos outros instrumentos, guarda as amostras a alguns centímetros da superfície e mantém-nas seguras. “Ele tem um braço com uma broca que vai apanhar essas amostras, guardá-las em pequenos tubos e vai deixá-los em Marte para que no futuro possa lá chegar outra missão e recolhê-las”, descreve José Matos: “Vai preparar terreno para uma missão de retorno de amostras”.

O solo marciano fotografado pelo rover Spirit

Getty Images

Também a missão Tianwen-1 inclui um exercício de recolha de amostras caso a China sobreviva à atmosfera de Marte. “As missões robóticas chinesas utilizam uma técnica, uma espécie de geo-radar, que pode ajudar a saber mais sobre a estrutura do subsolo”, descreve Rui Moura: “O robô tem capacidade amostral. Se varrer uma determinada zona do subsolo com uma técnica não invasiva, pode-se escolher o local onde fazer o furo com alguns metros para recolher as amostras que devem ser quimicamente analisadas”.

De acordo com o investigador, isto pode permitir descobrir a origem dos sedimentos no subsolo marciano, inclusivamente se vieram de um corpo de água: “Imagine que querem confirmar a origem de um rio ou mar, podem determinar essa origem de acordo com a estrutura dos sedimentos no subsolo. Consegue perceber-se qual foi o processo geológico que esteve ali subjacente e que originou aqueles sedimentos”, indica Rui Moura.

As missões robóticas chinesas utilizam uma técnica, uma espécie de geo-radar, que pode ajudar a saber mais sobre a estrutura do subsolo", descreve Rui Moura: "O robô tem capacidade amostral. Se varrer uma determinada zona do subsolo com uma técnica não invasiva, pode-se escolher o local onde fazer o furo".

Outra característica em comum entre as duas missões são os critérios utilizados para escolher o local da aterragem. “São sítios onde se podem encontrar pistas sobre a possibilidade de ter havido condições de habitabilidade em Marte no passado. São sítios onde se suspeita que já tenha havido água”, resume José Matos.

A missão da NASA “vai para uma cratera, mas é um local onde claramente tudo indica que teve água há entre 3.500 e 3.800 milhões de anos”: “Quando se olha à volta, há uma rede de canais que sugerem que ali desaguava água no estado líquido. Tem-se a ideia que a cratera era um grande lago, o que o torna extremamente interessante para explorar”, descreve o astrónomo.

A região onde o rover da NASA deverá aterrar. A verde estão indicadas as argilas

NASA

No caso da Tianwen-1, no entanto, a escolha final do local de aterragem ainda não foi tomada. Quando a missão chegar a Marte, a sonda vai começar a orbitar o planeta e fará um reconhecimento dos sítios possíveis que o rover aterre na zona mais interessante. Há dois locais na mira dos chineses. E, apesar de “a China não estar a fazer nada que não tenha sido feito pelos rovers americanos”, este veículo será enviado sempre para um local nenhum outro rover esteve, mas que também pode ter havido água: “É terreno inexplorado, o sítio que vai explorar será sempre uma novidade”, considera o especialista.

Depois há, claro, a data de lançamento em comum: tanto a China como os Estados enviarão as missões para Marte no mesmo mês, julho. O motivo nada tem a ver contudo com uma mais uma competição entre os dois países, mas sim com pura ciência: essa será a altura em que os dois planetas ficarão na menor distância entre si dos últimos dois anos — 54 milhões de quilómetros. “A janela de lançamento começa em julho e dura umas semanas até ao início de agosto. As viagens para Marte são sempre feitas de dois em dois anos pelo facto de a Terra passar perto de Marte”, descreve José Matos. Portanto, estas missões são lançadas “justamente para aproveitar essa aproximação” e chegar ao Planeta Vermelho em 2021.

Tanto a China como os Estados enviarão as missões para Marte no mesmo mês, julho. O motivo nada tem a ver com uma eventual competição entre os dois países, mas sim com pura ciência: essa será a altura em que os dois planetas ficarão na menor distância entre si dos últimos dois anos — 54 milhões de quilómetros.

Esta aproximação também será aproveitada pelos Emirados Árabes Unidos para lançar uma sonda que deverá chegar ao Planeta Vermelho mesmo a tempo de celebrar a independência em relação ao Reino Unido, em dezembro do próximo ano.

Indicação das regiões em que a missão chinesa a Marte poderá aterrar

D.R.

A ESA e a Roscosmos também estavam na corrida para lançar a missão ExoMars, cujos principais objetivos serão determinar se já houve vida em Marte e como evoluiu a história daquele planeta, principalmente no que diz respeito à presença de água, mas adiou o envio para 2022. Em última análise, tanto as três missões agendadas para este verão como aquela que foi adiada querem descobrir um dos maiores mistérios em torno do Planeta Vermelha: se já houve vida em Marte.

É uma tarefa “muito arriscada”, adjetiva o investigador. A Europa já tentou duas vezes enviar dois instrumentos para a superfície marciana e nunca correu bem porque se despenharam, sobrando apenas as sondas em órbita do planeta. A Rússia nunca teve muito sucesso em Marte, tanto que se diz na comunidade científica que “Vénus é dos russos, Marte é dos americanos”. Por isso, a China escolheu um caminho apertado para testar as suas capacidades logo na primeira viagem do país ao planeta.

O nervosismo americano com o “sonho do espaço” chinês

Ao que parece, “os chineses estão a tentar fazer numa missão um bocadinho de tudo”, descreve Rui Moura: “Tentam fazer um pouco de tudo o que a NASA fez em cinco décadas numa só missão”, além de tencionarem alcançar coisas que nem a ESA conseguiu cumprir. Ambicioso? Na opinião do astronauta-cientista, “muito ambicioso” até.

Mas a verdade é que a Administração Espacial Nacional da China (CNSA), a agência espacial chinesa, já deu provas de que não deve ser menosprezada. “A China está a aparecer como um ator espacial importante porque vemos que estão em várias áreas”, considera o astrónomo José Matos: “Estão no voo espacial tripulado e têm planos que, claramente, têm por objetivo final a Lua”.

"A China está a aparecer como um ator espacial importante porque vemos que estão em várias áreas", considera o astrónomo José Matos: "Estão no voo espacial tripulado e têm planos que, claramente, têm por objetivo final a Lua".

Segundo o divulgador de ciência, é muito provável que a China consiga colocar um humano na Lua já na próxima década: “Eles estão muito apostados nisso”. Nisso e não só: a China tem investido tempo e dinheiro na exploração planetária — como prova a missão Tianwen-1, mas também a aposta na exploração robótica para a Lua.

Uma Super Lua em Pequim, China.

Visual China Group via Getty Ima

E a juntar à nova estação espacial, há outra missão em desenvolvimento em território chinês: “Daqui a uns anos podem lançar duas sondas para explorar o limite exterior do Sistema Solar. Vão para fora dos planetas. A NASA tem a Voyager ou a Pioneer, mas a missão chinesa também tem o objetivo de investigar o limite da helioesfera e alcançar o espaço interestelar depois de passar por Júpiter e Neptuno”. É território que só os americanos conhecem.

Os Estados Unidos estão bem cientes do progresso chinês e do interesse numa supremacia espacial. O sumário executivo do último relatório anual da Comissão de Revisão Económica e de Segurança Estados Unidos-China sugere até que a exploração espacial pode ser usada pelo país como estratégia para catapultar os poderes em terra: “O governo e as forças armadas da China estão determinados a cumprir metas ambiciosas de liderança espacial, senão de domínio, e a China ligou o seu programa espacial às ambições mais amplas para se tornar um líder terrestre no poder político, económico e militar”.

O rover chinês Yutu-2 na Lua fotografado pela sonda Chang'e 4

AFP via Getty Images

O mesmo documento afirma que os Estados Unidos continuam na frente, pelo menos no que diz respeito às parcerias internacionais e conhecimentos técnicos e organizacionais. No entanto, também admite que “a China está bem posicionada para assumir um papel de comando numa futura economia espacial, dado que os seus passos para dominar os setores de lançamento comercial global e setores de satélites por meio de subsídios generosos e outras vantagens já ameaçaram esvaziar a base industrial espacial dos Estados Unidos”.

Ou seja, os planos chineses — o “sonho do espaço”, como lhe chamam em Pequim — “prejudicam outros interesses dos Estados Unidos e ameaçam minar muitas das vantagens para que o país tem trabalhado por tanto tempo para estabelecer”. A comissão até já estabeleceu o momento em que a China pode mesmo “substituir os Estados Unidos como parceiro padrão de muitos países no voo espacial humano”: se a estação espacial chinesa prosseguir e a Estação Espacial Internacional entrar na reforma.

A comissão refere-se ao programa Tiangong. A primeira fase do programa remonta a 2011, quando, após 19 anos de desenvolvimento, a China lançou uma estação espacial provisória para órbita terrestre. Quando reentrou de forma descontrolada na atmosfera terrestre, em abril de 2018, a estação desintegrou-se parcialmente e os destroços vieram a cair ao largo da costa do Chile. Nessa altura, já a Tiangong-2, outra estação provisória, orbitava a Terra há dois anos, mas também ela foi destruída, desta vez de forma controlada, em julho de 2019.

Também admite que "a China está bem posicionada para assumir um papel de comando numa futura economia espacial, dado que os seus passos para dominar os setores de lançamento comercial global e setores de satélites por meio de subsídios generosos e outras vantagens já ameaçaram esvaziar a base industrial espacial dos Estados Unidos".

Agora a China está a apostar na terceira fase do programa Tiangong: a criação de uma estação espacial em redor da Terra, desta vez permanente e constantemente tripulada, inspirada no Mir — o antigo laboratório espacial russo. A Tiangong-3 devia ser enviada este ano para coincidir com a data prevista para o fim da Estação Espacial Internacional, mas o lançamento foi adiado para 2022 e, de resto, também a Estação Espacial deverá ficar viva e habitada até meados desta década.

Ainda assim, os avanços da China deixavam os norte-americanos nervosos em novembro do ano passado: “Mantendo-se os planos de lançar o seu primeiro módulo de estação espacial de longo prazo em 2020, a China terá acompanhado a progressão de quase 40 anos dos Estados Unidos, desde o primeiro voo espacial humano até ao primeiro módulo de estação espacial, em menos de 20 anos”, pode ler-se no parecer da comissão. É que “Pequim tem planos específicos não apenas para explorar o espaço, mas para dominar industrialmente o espaço dentro da órbita lunar da Terra”.

"Mantendo-se os planos de lançar o seu primeiro módulo de estação espacial de longo prazo em 2020, a China terá acompanhado a progressão de quase 40 anos dos Estados Unidos, desde o primeiro voo espacial humano até ao primeiro módulo de estação espacial, em menos de 20 anos", pode ler-se no parecer da comissão.

Hong Kong, uma “brecha” espacial entre China e EUA

Hong Kong, protagonista do mais recente episódio do arrefecimento diplomático entre Estados Unidos e China, também faz parte desta disputa. De acordo com a comissão, esta região tem sido usada por Pequim para ter acesso às capacidades espaciais norte-americanas: “O governo e as forças armadas chinesas usam empresas com sede em Hong Kong para explorar brechas legais e fiscalização desigual nos controles de exportação dos Estados Unidos para obter acesso a recursos espaciais que a lei dos Estados Unidos proíbe a Pequim de comprar imediatamente”.

Vista aérea de Hong Kong

Corbis via Getty Images

São proibições impostas pelo Congresso dos Estados Unidos, que, desde 2011, impede todos os investigadores da NASA de colaborarem com cidadãos chineses ou com o governo da China. Segundo a Lei 112-55, “nenhum dos fundos disponibilizados por esta lei pode ser usado para a NASA ou o Escritório de Política Científica e Tecnológica [OSTP] desenvolver, projetar, planear, promulgar, implementar ou executar uma política bilateral, programa, ordem ou contrato de qualquer tipo para participar, colaborar ou coordenar bilateralmente de qualquer forma com a China”.

Há, no entanto, uma exceção a esta lei: “Não se aplicará a atividades que a NASA ou o OSTP certifiquem que não correm risco de resultar na transferência de tecnologia, dados ou outras informações com implicações de segurança nacional ou económica para a China ou uma empresa de propriedade chinesa”. Foi à luz desta alínea que, em 2019, a NASA se envolveu na missão Chang’e 4. A agência espacial norte-americana concordou monitorizar a nave espacial chinesa, assim como a sonda Yutu 2, através do Lunar Reconnaissance Orbiter — uma sonda robótica, esta da agência espacial americana, que orbita a Lua.

Mas, fora desta exceção, os dois têm colaborado mais do que os norte-americanos pretendiam. Apesar dos regulamentos rígidos por parte dos Estados Unidos, as entidades chinesas conseguiram obter participações em empresas americanas no ramo aeroespacial sediando companhias em Hong Kong e mascarando assim a presença de Pequim.

Apesar dos regulamentos rígidos por parte dos Estados Unidos, as entidades chinesas conseguiram obter participações em empresas americanas no ramo aeroespacial sediando companhias em Hong Kong e mascarando assim a presença de Pequim.

Uma delas é a Global IP, uma startup norte-americana que recebeu um financiamento de 200 milhões de dólares (177 milhões de euros) da China Orient Asset Management Co. para construir um satélite da Boeing. A empresa estava, na verdade, sediada em Pequim e tinha sido fundada por Charles Yiu Hoi Ying, um empresário chinês que abriu nas Ilhas Virgens Britânicas uma offshore para ocultar a conexão do dinheiro com o governo da China. Como Charles Yiu Hoi Ying tinha passaporte de Hong Kong, aproveitou as vantagens de exportação para contornar a regulamentação americana e transferir o investimento da China Orient para a Global IP. O negócio foi cancelado porque o dinheiro nunca chegou aos Estados Unidos, até porque a Boeing se recusou a participar na operação.

Um Ariane 5 leva um satélite da Boeing para a órbita terrestre

AFP via Getty Images

Outro exemplo é o da Cloud Constellation Corporation, uma startup norte-americana dedicada ao estabelecimento de uma rede de servidores de computação em nuvem. A Cloud Constellation recebeu um compromisso de financiamento na ordem dos 100 milhões de dólares (88,4 milhões de euros) do Haier Group  — um gigante da eletrónica na China e que pode ter ligações ao governo — através de uma subsidiária sediada em Hong Kong, a HCH Group.

Ou seja, por mais rigorosa que seja a regulamentação imposta pelos Estados Unidos, a relação mais flexível com Hong Kong abre pontos de fuga. A AsiaSat, um operador de satélites sediado naquela região no sul da China mas propriedade do Citic Group (Pequim) e do Carlyle Group (Washington D.C.), é uma das empresas que consegue tirar proveito da banda larga dos satélites norte-americanos apesar de o consumidor final ser o governo chinês.

O que a AsiaSat faz é alugar largura de banda de satélites a empresas estatais de telecomunicações, que depois distribuem essa largura de banda a entidades militares e de espionagem. Este esquema já foi utilizado, por exemplo, para assegurar as comunicações governamentais em 2008 e 2009 durante a repressão de Xinjiang e Tibete, assim como para fornecer acesso à internet às bases militares da China em regiões disputadas do Mar da China Meridional em 2016.

O que a AsiaSat faz é alugar largura de banda de satélites a empresas estatais de telecomunicações, que depois distribuem essa largura de banda a entidades militares e de espionagem. Este esquema já foi utilizado, por exemplo, para assegurar as comunicações governamentais em 2008 e 2009 durante a repressão de Xinjiang e Tibete.

A CMMB Vision comporta-se de forma semelhante. É uma empresa sediada em Hong Kong, mas que o governo chinês apoia, e que em 2015 contratou a Boeing para construir um satélite. O instrumento está a ser desenvolvido com a supervisão de uma empresa parceira da CMMB Vision em Nova Iorque, mas, de acordo com a Comissão de Revisão Económica e de Segurança Estados Unidos-China, o plano é que depois seja alugado a Hong Kong para consolidar o sistema de navegação de satélites BeiDou.

Anúncio do lançamento com sucesso do foguetão Shenzhou-10

AFP via Getty Images

E se Marte puder unir a China e os Estados Unidos?

É desta relação que, para Rui Curado e Silva, surge o incómodo dos Estados Unidos com o progresso espacial chinês. “Tem a ver com esta desconfiança militar, não creio que acreditem que a China tem um plano secreto para os ultrapassar. É mais uma questão de os controlar e ter sob vigilância”, analisa Rui Curado Silva. Sabendo da capacidade chinesa para mimetizar tecnologia, os americanos querem evitar a todo o custo que os chineses copiem produtos dos americanos, sobretudo quando falamos do espaço, uma vez que pode ter aplicações militares.

O controlo que os Estados Unidos tentam manter sobre os passos asiáticos chega ao ponto de, mesmo quando há chineses nas equipas de investigação e desenvolvimento da NASA, esses elementos terem de ser continuamente monitorizados dentro das instalações. “Estou a colaborar num projeto com a NASA e na última vez que estive lá encontrei um chinês na equipa. Mas ele nunca podia estar sozinho numa sala ou num espaço da NASA. Tinha sempre de ter alguém a acompanhá-lo”, conta o astrofísico.

Vehicle Assembly Building (VAB) no Centro Espacial Kennedy, Estados Unidos

Getty Images

Mas no que toca à corrida espacial, o astrofísico diz não acreditar numa competição entre os dois países: “Não há fundamento para isso. A China não está ao nível da NASA, que tem um programa muito vasto de missões em todas as áreas. Aquilo que conheço da tecnologia chinesa é que está muito atrás da que foi desenvolvida na Europa e nos Estados Unidos”, descreve o astrofísico.

É verdade que a ambição chinesa é recuperar da evolução tecnológica que tem acontecido nos últimos anos e que não tem reflexo longe dos grandes centros urbanos. É, aliás, uma tarefa em que tem trabalhado desde finais do milénio passado. Mas o caminho é longo e a China sabe disso: “Cheguei a estar numa cidade em que eu era a única pessoa com as calças e a t-shirt lavadas e passadas a ferro. Todas as outras pessoas tinham a roupa toda suja e não havia canalização”, recordou Rui Curado Silva: “A China tem muita ambição, mas uma coisa é ter a ambição, outra é saberem a realidade”.

"Não há fundamento para isso. A China não está ao nível da NASA, que tem um programa muito vasto de missões em todas as áreas. Aquilo que conheço da tecnologia chinesa é que está muito atrás da que foi desenvolvida na Europa e nos Estados Unidos", descreve o astrofísico.

Na verdade, Marte até pode vir a ser a missão que unirá os dois países — e, quiçá, muitas outras empresas e agências espaciais: “Há problemas extremamente difíceis de resolver. Um deles é a viagem por causa da exposição à radiação e outra é, na chegada a Marte, os astronautas conseguirem caminhar porque hão de estar com o músculo quase inoperacional. O esforço que será necessário para um dia chegarmos a Marte vai requerer que as agências espaciais se unam“.

A NASA é presença obrigatória, mas não conseguirá chegar a Marte sozinha, acredita o especialista. Será preciso que “pelo menos” a Agência Espacial Europeia se junte à missão, assim como a japonesa. “De preferência também com os russos e, se puder ser, os chineses”, acrescenta Rui Curado Silva: “Se temos a ambição de fazer chegar a Marte, esta será a coisa mais importante”.

Uma fotografia de Marte visto a partir da Terra

Getty Images

Guerra Fria não, mas sim “uma corrida espacial 2.0”

Rui Moura também assistiu em primeira mão à abertura científica chinesa. “Fui convidado para participar numa conferência numa escola em Oeiras, que fez uma parceria com a Embaixada da China. Fizeram uma entrevista por videoconferência com o primeiro taiconauta. E ele até expressou gostar de estar a falar com estudantes de um país tão distante como o nosso“, recorda o investigador.

Após uma conversa com um capitão que assistiu ao evento em representação da embaixada, Rui Moura acabou por enviar uma carta ao taiconauta. Já durante a fase de confinamento, recebeu a resposta: “Uma carta muito bonita em que ele me convidou para ir lá visitar o centro de treinos de astronautas na China. Veio tudo escrito em caracteres chineses, embora viesse acompanhado com uma tradução, mas no fim ele rematou: ‘Com os melhores cumprimentos’“.

Meros detalhes? Para o astronauta-cientista português, “demonstra que a parte espacial serve para mostrar não só o músculo, mas também para fazer diplomacia” e que, “com ações deste género, a China utiliza estas missões e estes eventos como um cartão de visita cultural”. “Os chineses gostam da exploração espacial para mostrar a sua tecnologia, para estarem na vanguarda dessa tecnologia de aplicação fundamentalmente científica mas que podem ter aplicações comerciais. Para além disso, uma façanha destas é sempre uma amostra cultural do país”, continua.

Yang Liwei, o primeiro taiconauta do mundo

AFP via Getty Images

Para o astronauta-cientista português, "demonstra que a parte espacial serve para mostrar não só o músculo, mas também para fazer diplomacia" e que, "com ações deste género, a China utiliza estas missões e estes eventos como um cartão de visita cultural".

Por isso é que, analisando a relação espacial entre a China e os Estados Unidos, Rui Moura não acredita num conflito comparável com o que o mundo assistiu durante a Guerra Fria, entre os norte-americanos e a União Soviética. “Não tenho a ideia de que os cientistas na área da exploração espacial competem uns com os outros. Do ponto de vista científico, a China tem alguma abertura em partilhar resultados com a comunidade científica internacional. Há sempre um interesse genuíno em partilhar conhecimento científico”, considera ele.

Certo é que, em pouco tempo, a China conseguiu feitos que outras agências espaciais demoraram décadas a conquistar. Estão prestes a colocar uma terceira estação espacial no espaço, já colocaram dois robôs na superfície lunar e agora não é impossível que sejam mesmo bem sucedidos em Marte, já que “já aprenderam muito com o que correu mal no passado, como é natural “: “A China tem esta capacidade de copiar aquilo que funciona, mas também tem o engenho de melhorar as que não correm tão bem”, descreve Rui Moura.

Mesmo “trepando em cima dos ombros dos gigantes”, essa cultura de “fazerem muito em pouco tempo” é de louvar para o investigador português. Por isso é que, para os Estados Unidos, os avanços chineses podem despertar atenção: “Claro que um país que consiga fazer este tipo de feitos grandiosos, do ponto de vista moral e político, para consumo interno e internacional, é sempre uma excelente bandeira“, termina.

Zhang Kejian, o administrador da agência espacial chinesa.

picture alliance via Getty Image

Índia, o país que pode florescer das ambições americanas e chinesas

Mas o astrónomo José Matos acredita que “a China obviamente que se está a posicionar como uma potência rival dos americanos”. No entanto, a esfera de influência desta competição pode acelerar a ascensão de outra agência espacial: a da Índia, considera o especialista. “Há uma rivalidade histórica entre a Índia e a China, não são propriamente grandes aliados. E a Índia também tem ambições espaciais no voo tripulado”, nota.

Mas o astrónomo José Matos acredita que "a China obviamente que se está a posicionar como uma potência rival dos americanos". No entanto, a esfera de influência desta competição pode acelerar a ascensão de outra agência espacial: a da Índia, considera o especialista.

Na verdade, a Índia até já tem uma sonda à volta de Marte enquanto a China ainda não se estreou no Planeta Vermelho. “Os indianos têm motivação para ir mais longe e enviarem astronautas para o espaço. Já têm instrumentos na Lua e tentarão enviar mais, até porque já se fala de enviar um rover para lá”, descreve José Matos.

Pouco tempo depois de a SpaceX ter provado pela primeira vez ser capaz de enviar missões tripuladas à Estação Espacial, “a Rússia deixou de fazer sombra aos Estados Unidos”, até porque os dois países já têm anos de colaboração no laboratório espacial, mas a Rússia não participa na exploração lunar ou planetária. “Neste momento, os Estados Unidos não têm outra potência que lhes possa incomodar. Mas a China está a posicionar-se para isso”, terminou José Matos.

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