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Pedro Correia

Pedro Correia

Com o fim do Aleixo, a droga só mudou de bairro (e as rusgas da polícia não a conseguem travar) /premium

Na 3.ª feira, a PSP fez 9 detidos em bairros do Porto por tráfico de droga. Dois dias depois já todos tinham voltado. Com eles, um problema que as rusgas não resolvem e que piorou com o fim do Aleixo.

[Isabel, Marta e Gaspar são nomes fictícios escolhidos para proteger a identidade dos moradores]

Isabel entregou as chaves e esvaziou a alma. Já não aguentava mais viver ali. Não dormia, não abria as persianas do quarto, estava sempre com medo. “Andava a tirar matrículas e a tentar descobrir pessoas. Foi uma fase terrível”, conta. Vivia no bloco 10 do bairro Pinheiro Torres, um corredor para a venda e consumo de droga.

Quando, há um mês, falou ali com o Observador, eram constantes os olhares para a porta e para as janelas, sempre à espera de estar a ser vista. Dizia: “Sinto-me uma formiga abandonada no oceano, porque as ameaças são constantes, os gritos à noite não nos deixam dormir”. Falava do mercado da droga, que, desde o fim das torres do Aleixo, ganhou espaço na sua rua, dando azo a ameaças e mesmo a agressões.

Isabel diz que era ameaçada diariamente. Um dia, foi mesmo agredida. Fez queixa na polícia, mas, com medo “de ficar marcada”, retirou-a. Conta que os problemas começaram quando um dealer fez da entrada do prédio onde vivia uma loja ao ar livre. “Aí, pedi transferência para sair do bairro”. O processo durou anos.

Isabel escreve num papel, para não ter de falar alto, os nomes em código dos vendedores de droga.

Joana Ascensão/OBSERVADOR

“Há um dia em que eu chego a casa e fecho, como normalmente, a porta da rua. De repente, ouço dois murros com força. Assustei-me, claro. E ele vem gritar ao pé do meu nariz: ‘A porta é para estar aberta porque eu estou a trabalhar!’”. Isabel diz que só pediu desculpa. “Claro que eu tinha visto, mas pensava, na minha inocência, que tinha de fingir não ver o que estava a acontecer”, conta. O vendedor não se ficou e retorquiu: “Eu rebento-vos todos à pistola. A porta é para deixar aberta. Estão-me a estragar o negócio!”. Percebeu aí que tinha de acelerar o processo de transferência.

Um dia antes de entregar as chaves, a PSP tinha cercado o bairro, numa megaoperação de combate ao tráfico de droga, a 27 de agosto, que permitiu deter 9 pessoas. Um dia depois de Isabel sair, a 29, já todos os detidos tinham voltado ao Pinheiro Torres.

O tráfico de droga já existia no bairro Pinheiro Torres, mas o problema agravou-se com o fim do bairro do Aleixo (Pedro Correia/Global Imagens)

Pedro Correia

Para ir àquele bairro, é difícil não desaguar na Rua da Pasteleira, a artéria principal que dá acesso ao bloco 10, o mais problemático. É também difícil não sermos nada discretamente observados e chamados, aos berros, de “chapa nova”. Esta é a designação de código para alguém que aparece de novo. O nosso refúgio é a calma de Gaspar. Conhece o bairro como quem o adora e odeia ao mesmo tempo. Explica que é com aqueles códigos que “eles passam a mensagem uns aos outros”, como se faz no jogo do telefone. E logo sublinha: “Está com sorte. Isto hoje está calmo”.

Tinha chovido e cheirava a terra molhada quando Gaspar se sentou com o Observador, fechou a porta e abriu o jogo. “Há duas fases: a demolição das torres 4 e 5 do Aleixo, em que as zonas envolventes não sentiram grande diferença; e agora a demolição final”. O fim do Aleixo fez aumentar o consumo por ali, “de qualquer maneira”, desregulado, acompanhado pelo tráfico de droga, principalmente nos blocos 10 e 8 e na fronteira com o bairro da Pasteleira Nova.

“Quer ver?”. Vamos.

O fim do Aleixo enquanto “mecanismo desentupidor”

Em 2008, a demolição do bairro João de Deus já ia em estado avançado e as atenções já se desviavam para o Aleixo, era então presidente da câmara Rui Rio. Um ano depois, o autarca chamou-lhe “o principal centro de tráfico do Porto” e assumiu a demolição do bairro como bandeira. Foi assim que, em 2011, acabou a ver, a partir do rio Douro, a implosão da torre 5. Um ano depois, a história repetiu-se com a torre 4.

Estava assim desenhado o destino do Aleixo, o “pior bairro do país” — a demolição total. Rui Moreira herdou a decisão irrevogável e, em maio deste ano, sob a justificação das fracas condições de segurança dos edifícios, começou o desmantelamento das três torres resistentes. “Pois não tinha [condições]”, confirma o psicólogo Simão Mata, mas não sem explicar porquê: “Foram anos e anos a desinvestir nas estruturas e isso é criar as condições para depois alimentar uma ideia mediática. Não há escolas? Pois não, a escola foi desativada em 2008 e demolida em 2013. O mercado do Aleixo que existia, em 2013, também deixou de existir. Ou seja, houve pouco investimento do Estado naquelas zonas e este pouco investimento levou a que se construísse uma ideia”.

Estava Rui Rio a decidir acabar com o Aleixo e Simão Mata a entrar nele pela primeira vez, em 2009, enquanto estagiário de psicologia. Diz que fenómeno da droga sempre lhe interessou. Trabalhou vários anos no “triângulo da droga”: Aleixo – Pinheiro Torres – Pasteleira Nova. Trocava seringas, dava prata aos que faziam consumo fumado e conversava. Hoje prepara uma tese de doutoramento que é uma revisitação etnográfica destes bairros, antecedida pelo trabalho do orientador Luís Fernandes.

As últimas torres do bairro do Aleixo têm vindo a ser demolidas, depois de o terreno ter sido vendido (Joana Ascensão/OBSERVADOR)

Joana Ascensão/OBSERVADOR

“As demolições não vão reduzir o fenómeno. E, provavelmente, vão piorar as condições de vida das pessoas, como já aconteceu quando se demoliu numas zonas e o fenómeno transitou para outras”, reitera. É o que Luís Fernandes chama de “mecanismo desentupidor”. Simão explica: “Se tens algo a entupir a tua banca, pões lá o desentupidor, pressionas e o que está a entupir passa de estar num sítio para estar no outro. O fenómeno da droga é isto”. Por isso, não lhe sabe a novidade o crescimento do consumo e da venda nos bairros à volta do Aleixo.

Com o desmantelamento do bairro João de Deus,  em 2008, também o fenómeno se deslocou para bairros adjacentes das freguesias de Campanhã, do Lordelo, de Paranhos e de Ramalde. “Repetir a dose no Aleixo é mesmo um disparate”, confessa Manuel Pizarro. Médico e eurodeputado, tinha o pelouro de vereador da habitação e da coesão social na Câmara do Porto — onde foi aliado de Rui Moreira e, depois, adversário — quando encomendou um estudo para analisar a implementação de salas de consumo assistido na cidade. “Os resultados foram inequívocos”, conta ao Observador.

Quase todos (98%) os 576 consumidores e ex-consumidores entrevistados na rua se mostraram favoráveis à existência de uma sala de consumo assistida – 90% disseram que a utilizariam e 72% propuseram que fosse criada perto dos bairros de venda e consumo. E os resultados conseguidos pela equipa coordenada pelo médico Henrique Barros, presidente do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, não se ficaram por aqui. Em inquérito telefónico a 482 adultos da cidade do Porto, verificou-se que cerca de 70% também concordava com a implementação de uma sala de consumo assistido na cidade.

Em julho de 2019, a Assembleia Municipal do Porto aprovou unanimemente a criação destas salas. Mas, aí, já o Aleixo estava a vir abaixo. E, por isso, Manuel Pizarro aponta o dedo à câmara, por ter sido “rápida na desocupação do Aleixo, mas nada célere nas medidas de acompanhamento, que deveriam ter sido feitas o mais rapidamente possível”.

“Se olharmos para o tráfico em termos médicos e se considerarmos que o tráfico de droga e o consumo são uma espécie de cancro, a ideia de que o assunto se resolve desmantelando um bairro só mistisfica a doença, só a faz evoluir.” É como uma operação a um tumor? “Mas mal feita”.
Manuel Pizarro, médico, eurodeputado e vereador da Câmara do Porto pelo PS

Quem vai ao Aleixo, já pouco nota “o mercado da droga” de outrora. Muitos carros passam e olham para as torres cortadas na vertical. Na 1, um quadro da Monalisa sobressai no piso onze, mas Fátima, antiga moradora do bairro agora desabitado, nem reparou. Está ali, na Rua do Progresso, para apanhar o autocarro 209, que antes dava a volta ao Aleixo e hoje passa em linha reta para a Arrábida, por causa das obras. Aos 16 anos, vivia na terceira torre. “Deixa sempre saudades. Ainda na semana passada vim sozinha por ali acima a olhar, a olhar. Sentávamo-nos ali todos na rua, agora de verão”.

Fátima ainda fica a olhar para os destroços das torres do Aleixo, bairro onde vivia desde os 16 anos.

Joana Ascensão/OBSERVADOR

Fátima gosta de ver os trabalhos que vão desfazendo as torres aos poucos — numa das máquinas que ali está lê-se “new beginning” (em português, “novo começo”) —, como se precisasse todos os dias de se conformar. “Eu ainda andei a dormir aqui sem luz e sem água, porque o meu filho não queria sair daqui. Ainda andei duas semanas a dormir no chão”. E não se convence que foi a droga a tirá-la dali. “O problema foi as vistas que isto tem, que são espectaculares. A droga continua em todo o lado. Antes acabasse isso de uma vez”.

“Compram aquilo da colher e vão consumir para um sítio que eu já lhe vou mostrar”

Quem acompanha Gaspar pelo bairro Pinheiro Torres vai ouvindo gritar “tá-se bem!”, sinal de que o morador é bem conhecido. E nesse passeio com o Observador entre os prédios, é impossível não passar novamente pela Rua da Pasteleira, a que está colada ao bloco 10. A dada altura, pára um táxi e de lá sai uma rapariga loira, com um saco de desporto pesado. Como que escoltada por dois homens, entra na zona dos prédios. Trazia produto? “Pois claro que trazia”.

Depois de muitos anos a ser coveiro em cemitérios, Gaspar veste sempre preto. Habituou-se a passar despercebido por aquelas ruas. Certifica-se de que não há cadernos nem telemóveis a olho nu e avança. Quer explicar que é um engano pensar que a droga é coisa de pobres: “É ali que os senhores da gravata param os carros — mas cada carro! Compram aquilo da colher e vão consumir”. “Ali” é por baixo de umas árvores onde passa um ribeiro.

“Um pessoa que passa os dias no bairro, dificilmente consumirá heroína em pó. Isso é para outro tipo de cliente, o que não quer ter grande visibilidade no mercado, que até se desloca lá mas pára à entrada, paga a um “capiador” para lhe ir buscar produto e dá-lhe 20 euros para ele ir comprar para ele”.
Simão Mata, psicólogo e investigador

Noutro local, há duas cadeiras encostadas a uma árvore — e um homem por perto a rondar. Olha de esguelha e continua o trabalho, tem um horário a cumprir.

“Pode entrar de manhã e ‘trabalhar’ das 9h às 13h. Depois, alguém o vai render. Normalmente são consumidores e são pagos com droga. É a forma de poderem consumir”. O psicólogo Simão Mata retrata os “vigias”, um dos elementos da fechada hierarquia do mercado da droga. Sabem o que têm de fazer “e é bom que não saiam muito daí, senão corre-lhes mal”, avisa o investigador.

Simão Mata conhece bem as funções da hierarquia. O “capiador” é como um marketeer: publicita um vendedor. Para além destes, entre o vendedor, ou dealer, e o consumidor, há também o “enfermeiro”. Ao contrário do “capiador” e do “vigia”, o enfermeiro trabalha para o consumidor que não tem coragem de se injetar. Normalmente, também é pago em droga.

Após dez anos de estudo intensivo de terreno, materializados no próximo ano numa tese de doutoramento, para o psicólogo é evidente “a gama de indivíduos” com funções diferentes que existe neste mercado, como existirá em qualquer outro. “Estar ali, para aquelas pessoas, é também poderem sentir brio no que fazem. Trabalham para o ‘tal’ com uma função ‘x’”.

Os moradores do bairro Pinheiro Torres queixam-se que o tráfico de droga — e o consumo — são feitos à vista de todos (Pedro Correia/Global Imagens)

Pedro Correia

De há vinte anos para cá, realça as semelhanças na organização do território e na forma como as substâncias são transacionadas, “o que é muito curioso”. “Durante vinte anos, houve imensa repressão policial, houve dealers a irem presos e a deixarem filhos em casa. Porque é que o fenómeno se cristalizou?”.

O investigador também foi em busca das pessoas que, vinte anos antes, o seu orientador, Luís Fernandes, tinha estudado no terreno. E, nessa procura, descobriu um dado importante: a elevada mortalidade e morbilidade. “Mortes na casa dos 50 e 60 anos por sida, hepatites e cancros, o que só significa que estes indivíduo não tiveram respostas de redução de danos”.

Não se alterou a forma de consumir, mas mudaram-se as substâncias. Enquanto que, nos anos 90, Luís Fernandes começou a encontrar a “base”, hoje ela é o produto mais comum dos bairros, a par com “alguma heroína”. Trata-se de cocaína misturada com “traço”, uma substância de corte que se mistura com a droga pura, com a finalidade, para o dealer, de vender mais produto, mas mais fraco e mais barato.

Essas substâncias poderão ser, por exemplo, bicabornato de sódio, ou “bica”, como eles dizem. ‘Olha, a base tem muita bica’, significa que a base não presta. Os consumidores já desenvolvem estratégias para reconhecer o que é uma “boa base” ou uma base mais fraca”.

Gaspar fuma cigarros e come palavras. Durante a volta ao bairro, pouco fala. Não nos quer expor. Pelo caminho, também lá está Marta, de sorriso e conversa fáceis, que cedo começou a desbobinar. Já abandonou o bairro há quatro anos, mas passeia por lá quase diariamente. Saiu quando “as coisas se estavam a complicar” e, nessa altura, o Aleixo ainda estava de pé.

“Não vamos só culpar a demolição das torres do Aleixo. Aqui também existia. Foi há cerca de sete anos que aqui começou… e atrás de uns vieram outros. Mas, com a demolição do Aleixo, isto piorou bastante. Eles não se escondem de ninguém. Nós passamos e eles apregoam, vendem à nossa frente. Os moradores, se vão à janela, são insultados, porque são custos e chibos”
Marta, nome fictício

Há 40 anos, garante, era um bairro “muito sossegado”. Lá criou três filhos e um neto. Ninguém a obrigou a sair, mas não aguentava viver no meio. Hoje, tem pena de quem ali vive “há 50 anos e se está a sentir obrigada a abandonar as casas por causa desta situação”.

Talvez tenha sido pela emoção de Marta, mas Gaspar também começou a apontar culpados. “Temos de pôr os nomes nas coisas e o nome é este: políticos. Todos os presidentes de câmara desde há 15 anos se marimbaram para isto. Cada um que vinha empurrava o problema com a barriga e depois quem viesse a seguir que resolvesse”.

Vive no bairro há 12 anos e nunca foi ameaçado. Talvez por não ter medo, aprendeu melhor que Marta e Isabel a viver com a realidade dos tempos e não quer sair. Fica para ser a força da mudança. “Antes de se começar a demolir [o Aleixo], deveria ter-se olhado para o consumo. Devia ter-se encaminhado as pessoas para as tais salas de consumo, que ainda não existem, mas já se falam há 18 anos”.

A dependência para além do químico

No final de julho, Rui Moreira decidiu ver com os próprios olhos o “supermercado da droga” no Pinheiro Torres. Desconcertado, propôs no dia seguinte em reunião de câmara garantir às forças policiais mais segurança jurídica para poderem intervir em cenários de tráfico de droga, porque era preciso “criar a sensação de segurança que se perdeu”.

Ninguém ainda sabe qual a data para a instalação das salas de consumo. O que Manuel Pizarro sabe é que “sem o foco principal no apoio social e no apoio de saúde, não é possível minorar significativamente esta situação. As autoridades podem ter uma eficácia razoável no combate ao tráfico, mas não são elas que resolvem o problema dos doentes consumidores de droga”.

Podemos recordar-nos da descriminalização do consumo de drogas nos anos 90 em Portugal. A medida teve sucesso e foi, anos depois, imitada por várias países do mundo. Na génese, a ideia de que quem consome drogas deve ser tratado e não punido. Nos inquéritos de opinião, bastaram dez anos para aquele que era um problema no topo de lista das preocupações da população passar a nem constar nos dez maiores.

Alguns dos moradores do bairro Pinheiro Torres recusam desistir e abandonar o local onde viveram toda a vida (Joana Ascensão/OBSERVADOR)

Joana Ascensão/OBSERVADOR

É na mitigação da ideia de um mundo livre de drogas que as opiniões do médico e do psicólogo desta história se assemelham. Para Manuel Pizarro, “em vez de imaginarmos um cenário idílico que não vai acontecer, temos que desenvolver uma data de coisas que, de forma prática, permitam resolver uma parte dos problemas e atenuar outros”. As salas de consumo assistido, como o reforço das equipas de rua organizadas com psicólogos, enfermeiros, médicos e assistentes sociais, são algumas das medidas propostas pelo socialista e especialista em medicina interna.

Muitas vezes, o combate é infrutífero. Se é verdade que “a ressaca não tem folgas”, como se diz no terreno, também pode acontecer que a resposta não esteja nos químicos. Já é possível, como sublinha Pizarro, suspender o uso de drogas pesadas sem sofrimento físico para os toxicodependentes. Então porque voltam?

“Eu notava às vezes que aquelas pessoas ressacavam o bairro”. Gostavam daquilo, conta Simão Mata. É aquilo que chama “dependência para além do químico”.

“Como é que se explica que um indivíduo que injeta heroína na escarpa do Aleixo ressaca mais do que se o fizer ali em minha casa? Como é que a mesma substância no mesmo indivíduo em contextos diferentes gera efeitos diferentes? Isto destrói qualquer argumento biomédico."
Simão Mata, psicólogo e investigador

A explicação é que as substâncias também significam o contexto à volta delas. A “moca” é o estar, o preparar, o ritual do conversar: “Isto é que é a dependência. O químico explica muito pouco”. E, por isso, a trajetória dos toxicodependentes é em “io-io”. “Saem do tratamento e vão para o bairro. No bairro, há droga. Os amigos estão metidos porque, se calhar, não fizeram o mesmo tratamento. A probabilidade de recaída é muito grande”, sintetiza o psicólogo.

Simão Mata considera as salas de consumo assistido essenciais, mas sem se esquecer de apontar o que considera ser o verdadeiro foco do problema: o desinvestimento na requalificação dos bairros — como no Aleixo onde vivia Fátima, em que “os elevadores das torres de 13 andares funcionavam mal”, mesmo com idosos a viverem lá.

É também por isso que Gaspar insiste e fica. Não é de desistir. Baixa os olhos azuis quando se lembra do neto a dizer que um dia, quando sair de casa, o avô ainda lá vai ficar sozinho. Mas paga 78 euros por um T2 — “Para onde é que eu vou?”. No dia em que ofereceu “sopa de vagens” ao Observador, entrou em casa e descalçou os sapatos pretos, enquanto levantava as persianas da janela que dá para o jardim. Dali ainda se veem as árvores com as cadeiras dos “vigias”.

À noite, come só sopa. Num cabide atrás da porta, tem três casacos, todos pretos. O dia acaba e amanhã volta a dar a volta ao bairro — e a passar despercebido. Como fazia antes, entre os mortos.

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