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Como a CIA e o KGB se tornaram nas superpotências da espionagem /premium

No segundo volume da história dos espiões, Christopher Andrew percorre o período entre a Primeira Guerra Mundial e a atualidade. O Observador faz a pré-publicação do novo livro.

A espionagem não começou no século XX mas é essencialmente sobre esse período que se debruça o livro de Christopher Andrew agora publicado em Portugal. É a segunda parte de “O Mundo Secreto”, que percorre os mais de cem anos que separam a Primeira Guerra Mundial da atualidade. Foi durante estas décadas que a espionagem se transformou numa arma essencial à recolha de informação, cujos resultados foram decisivos para a resolução de conflitos militares e diplomáticos.

Christopher Andrew, que foi historiador oficial do MI5 e tem um lugar de destaque entre os investigadores da Universidade de Cambridge, é o autor desta extensa recolha de factos históricos que retratam uma dimensão pouco conhecida da política internacional. O Observador faz a pré-publicação de um excerto, revelando parte do capítulo que conta como os serviços secretos dos EUA e da URSS — a CIA e o KGB — se transformaram nas superpotências da espionagem mundial.

“O Mundo Secreto: uma história da espionagem, da Primeira Guerra Mundial à atualidade”, de Christopher Andrew (Dom Quixote, à venda dia 16)

Na década de 1950, a espionagem e as relações internacionais foram dominadas por duas superpotências, os Estados Unidos e a União Soviética, que atuavam numa escala global. Na sua reforma, Truman teve dificuldade em reconciliar-se com o seu próprio papel na fase inicial da espionagem da Guerra Fria. “Quando fundei a CIA, nunca pensei”, afirmou, “que iria dedicar-se a operações de capa e espada em tempo de paz.” É de facto difícil imaginar que Truman autorizasse o desembarque na Baía dos Porcos em 1961 ou outras operações com o objetivo de derrubar Fidel Castro em Cuba. No entanto, é igualmente difícil levar a sério as suas tentativas posteriores para negar qualquer responsabilidade por operações secretas (com o objetivo principal não de recolher informações, mas de influenciar o curso dos acontecimentos). A função original atribuída à CIA pelo National Security Council incluía, para além da recolha e análise de informações, “outras funções e outros deveres relacionados com a espionagem que afetem a segurança nacional, ocasionalmente atribuídos pelo National Security Council”. O conselheiro especial de Truman, Clark Clifford, testemunhou mais tarde que essa fórmula intencionalmente vaga pretendia incluir operações secretas, embora “com âmbito e objetivos limitados”: “Nós não as referimos pelo nome porque sentimos que seria prejudicial para os nossos interesses nacionais divulgar o facto de que poderíamos envolver-nos nessas atividades.” Quando Truman mais tarde procurou negar qualquer responsabilidade por “operações de capa e espada em tempo de paz”, Allen Dulles (DCI entre 1953 e 1961) recordou-o em privado do seu “papel muito importante” nas suas origens.

A primeira operação secreta autorizada por Truman, em relação à qual ele tentou mais tarde negar responsabilidade pessoal, foi motivada pelo receio de uma vitória comunista nas eleições italianas de abril de 1948. O primeiro documento numerado, emitido secretamente pelo National Security Council, NSC 1/1 de 14 de novembro de 1947, advertiu: “O governo italiano, ideologicamente inclinado para a democracia ocidental, está a ser sujeito a ataques contínuos por um Partido Comunista forte.” O NSC recomendou, para além do apoio público americano ao governo italiano ameaçado, um programa para “combater ativamente a propaganda comunista em Itália através de um programa eficaz de informação dos EUA e por todos os outros meios possíveis, incluindo a utilização de financiamento secreto”. Mais de dez milhões de dólares capturados ao Eixo foram desviados para a campanha eleitoral italiana na primavera de 1948. Uma parte foi entregue secretamente ao primeiro-ministro democrata-cristão, Alcide de Gasperi, cujo partido elegeu 307 dos 574 deputados.

Durante a Guerra Fria, o principal autor ocidental de operações secretas continuou a ser a CIA. O aparente sucesso da intervenção secreta da CIA nas eleições italianas de 1948 levou à sua rápida expansão. Ao longo dos seis anos seguintes, a Guerra da Coreia e a eleição do entusiasta da espionagem Dwigth D. Eisenhower como presidente, entre 1953 e 1961, transformou as operações secretas numa componente importante da política externa dos EUA.

O SIS também se envolveu mais ativamente do que nunca em operações secretas, em parte como resultado de assumir a responsabilidade pelo que restava do Special Operations Executive (SOE) do tempo da guerra, fundado em 1940 com a esperança otimista de “incendiar a Europa”. Um relatório do Ministério dos Negócios Estrangeiros de 1944 sobre o futuro do SIS, embora não esperasse que as operações secretas no pós-guerra tivessem um papel importante, concluía que seria “um erro abandonar o princípio de que em quase todos os países estrangeiros podem surgir ocasiões em que seja útil o governo de Sua Majestade recorrer ao suborno, etc., para a promoção da sua política externa (o que contrariava a prática rigorosa do SIS de apenas pagar dinheiro para a obtenção de informações)”. Attlee, o primeiro primeiro-ministro britânico da Guerra Fria, concordou. Sendo apoiante da operação VALUABLE do SIS, iniciada em 1948 numa tentativa fracassada de promover a rebelião na Albânia comunista, Attlee propôs o suborno como um dos métodos a utilizar. Pedindo uma “avaliação das personalidades albanesas”, perguntou: “Será que não estão à venda?” Embora o SIS não conseguisse identificar quem deveria subornar, o subsecretário permanente do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Sir William Strang, garantiu a Attlee que o suborno era “certamente um dos métodos secretos que teríamos em conta no momento oportuno”. O sucessor de Attlee, o debilitado Winston Churchill, era um entusiasta das operações secretas. Depois da operação conjunta da CIA e do SIS em 1953, que depôs o primeiro-ministro antiocidental do Irão, Mohammed Mossadeq, e repôs no trono o xá, Churchill convocou o responsável da CIA pela operação, Kermit Roosevelt (primo de FDR) ao seu quarto de cama no n.º 10 de Downing Street, onde estava a recuperar de um acidente vascular cerebral. Segundo Roosevelt, Churchill disse-lhe: “Jovem, se eu fosse alguns anos mais novo, aquilo de que eu mais teria gostado seria estar sob o seu comando nesta grande iniciativa.”

Durante a Guerra Fria, o principal autor ocidental de operações secretas continuou a ser a CIA. O aparente sucesso da intervenção secreta da CIA nas eleições italianas de 1948 levou à sua rápida expansão. Ao longo dos seis anos seguintes, a Guerra da Coreia e a eleição do entusiasta da espionagem Dwigth D. Eisenhower como presidente, entre 1953 e 1961, transformou as operações secretas numa componente importante da política externa dos EUA. O entusiasmo de Eisenhower pelas operações secretas resultou, em parte, de uma interpretação errada das lições da HUMINT da Segunda Guerra Mundial. A experiência durante a guerra do apoio aos movimentos de resistência na retaguarda das linhas alemãs não teve grande utilidade para as operações secretas de apoio aos opositores dos regimes comunistas na Europa da Guerra Fria, e todas fracassaram.

Entre 1951 e 1975, os EUA realizaram, segundo o relatório do Comité Church de 1976, cerca de 900 operações secretas importantes, bem como muitas outras operações com menos relevância. O relatório Doolittle, encomendado por Eisenhower em 1954, sublinhou a sua necessidade de uma forma arrepiante:

É agora claro que estamos perante um inimigo implacável, cujo objetivo declarado é dominar o mundo por quaisquer meios e a qualquer custo. Não há regras neste jogo. As normas de conduta até agora aceitáveis não se aplicam. Para a sobrevivência dos Estados Unidos, os velhos conceitos americanos de “jogo limpo” devem ser reavaliados.

Zhorzh («George») Koval: um espião atómico da Segunda Guerra Mundial, cuja identidade só foi revelada em 2007.

Eisenhower concordou e exagerou tanto o perigo do “domínio mundial” soviético como da eficácia das operações secretas dos EUA. O sucesso aparentemente rápido das operações secretas na deposição de regimes supostamente pró-soviéticos no Irão e na Guatemala durante os primeiros dezoito meses do governo de Eisenhower em 1953-1954 levou-o a ignorar os sinais de aviso de outras operações menos bem-sucedidas. Depois de uma tentativa falhada de depor o presidente Achmed Sukarno da Indonésia em 1958, o futuro diretor-adjunto da CIA para a espionagem (Director for Intelligence — DDI), Ray Cline, escreveu de forma profética: “O ponto fraco das operações secretas paramilitares é que um único problema que revele a ligação à CIA obriga os Estados Unidos a abandonar totalmente a operação ou a optar por uma política de intervenção militar declarada.” A incapacidade de compreender essa lição levou à humilhação pública. Depois da farsa inepta da “brigada cubana” composta por exilados anti-Castro com o apoio da CIA que foi derrotada na Baía dos Porcos em 1961, o presidente John F. Kennedy perguntou exasperado ao seu conselheiro especial, Theodore Sorensen: “Como pude ser estúpido ao ponto de os deixar avançar?” No entanto, o povo americano apoiou a sua bandeira e o presidente, e não ocorreu ao Congresso investigar o desastre.

Devido à publicidade global dada a esses episódios, amplificada pelo sucesso das teorias da conspiração, pouca gente percebeu durante a Guerra Fria que o KGB levava a cabo operações secretas numa escala ainda maior do que a CIA. As operações secretas tiveram um papel fundamental no estabelecimento do Bloco Soviético na Europa de Leste e Central no pós-guerra. O líder comunista da Alemanha Oriental, Walter Ulbricht, anunciou ao seu círculo mais próximo depois de regressar do exílio em Moscovo a 30 de abril de 1945: “Tem de parecer democrático, mas temos de ter tudo sob o nosso controlo.” Como era necessário preservar uma fachada democrática em todos os Estados do novo Bloco Soviético, a utilização visível da força para excluir os partidos não comunistas do poder tinha, tanto quanto possível, de ser evitada. Em alternativa, os serviços de segurança controlados pelos comunistas, recém-criados à imagem do MGB (que mais tarde se tornou o KGB), supervisionados por “conselheiros” soviéticos, contribuíram para implementar as chamadas “democracias populares” na transição do pós-guerra, em grande parte através de uma intimidação de bastidores. Finalmente, os regimes estalinistas de partido único, tendo eliminado toda a dissidência visível, foram legitimados como “democracias populares” através de maiorias comunistas esmagadoras e fraudulentas em eleições manipuladas pelos seus serviços de segurança.

Uma das características distintivas das operações dos Serviços Secretos estalinistas durante a Guerra Fria, bem como durante grande parte da década de 1930, foi o facto de terem em grande parte sido dirigidas contra inimigos imaginários, para além dos adversários reais. A perseguição antes da guerra de trotskistas reais ou, mais frequentemente, imaginários foi igualada no pós-guerrra pelas operações de busca e destruição contra conspiradores partidários de Tito ou sionistas em grande parte imaginários. Estaline e o MGB consideraram a rutura entre Moscovo e a Jugoslávia do marechal Tito, em 1948, como parte de uma vasta conspiração imperialista para minar o Bloco Soviético. Algumas das alegações do envolvimento de Tito com os Serviços Secretos ocidentais faziam parte de uma tentativa deliberada para o desacreditar. Outras eram o produto das tendências paranoicas de Estaline e do Centro. Em última análise, estes dois aspetos tornaram-se indissociáveis.

Após a morte de Estaline, a 5 de março, os planos para assassinar Tito foram suspensos. Em maio, quando o dissidente soviético Alexander Orlov começou a publicar as suas memórias de Estaline e do NKVD na revista Life, Grigulevich foi rapidamente retirado para Moscovo. O Centro receou que Orlov, que tinha conhecimento das missões de sabotagem de Grigulevich antes e durante a Guerra Civil de Espanha, pudesse revelar a sua identidade.

No início da Guerra Fria, os conselheiros soviéticos mantiveram os serviços de segurança do Bloco Soviético com rédea curta. As caças às bruxas e os julgamentos encenados que depuraram os partidos comunistas no poder de supostos partidários de Tito e de sionistas foram orquestrados a partir de Moscovo. Um dos supostos cúmplices do ministro húngaro do interior, László Rajk, na inexistente conspiração de partidários de Tito, pela qual Rajk foi executado em 1949, referiu que durante o seu interrogatório os oficiais do serviço de segurança húngaro, o AVO (mais tarde AVH), “sorriam de forma servil e bajuladora quando os russos falavam com eles” e “reagiam às piadas sem qualquer graça dos oficiais [do MGB] com fortes gargalhadas”. O julgamento encenado de Rajk e de sete cúmplices em Budapeste em 1949 foi dedicado à elaboração de uma vasta teoria da conspiração que estabelecia uma ligação entre Tito e os esquemas subversivos dos serviços de informações ocidentais. O procurador judicial declarou no seu discurso de encerramento:

Este julgamento tem uma importância internacional… Não só Rajk e os seus associados estão aqui no banco dos réus, mas com eles se sentam os seus senhores estrangeiros, os instigadores imperialistas de Belgrado e Washington… A conspiração na Hungria, planeada por Tito e pela sua clique para ser posta em prática pela rede de espiões de Rajk, não pode ser compreendida fora do contexto dos planos internacionais dos imperialistas americanos.

A memória mais marcante de um dos conselheiros do MGB em Budapeste, Valeri Krotov, foram as últimas palavras de Rajk antes da sua execução: “Viva o comunismo!”

Segundo instruções de Estaline, foram preparados planos para o assassinato de Tito com o mesmo cuidado dos de Trotsky uma década antes. O assassino escolhido pelo MGB, o residente ilegal Iosif Romualdovich Grigulevich, que desempenhara um papel importante na primeira tentativa, que falhou por pouco, para assassinar Trotsky na Cidade do México em maio de 1940, dirigira um grupo de sabotagem na América Latina durante a Segunda Guerra Mundial, e em 1951, assumindo a identidade de cidadão da Costa Rica, “Teodoro Castro”, tornara-se o encarregado de negócios da Costa Rica (mais tarde ministro plenipotenciário) em Roma. Como a Costa Rica não tinha uma missão diplomática em Belgrado, Grigulevich (na altura com o nome de código de MAKS) conseguiu obter o cargo de enviado não residente na Jugoslávia. O MGB relatou a Estaline em fevereiro de 1953: “No cumprimento dos seus deveres diplomáticos na segunda metade do ano de 1952, [MAKS] visitou duas vezes a Jugoslávia, onde foi bem recebido. Teve acesso a um grupo social próximo da equipa de Tito e foi-lhe prometida uma audiência pessoal com Tito.” Num encontro secreto com agentes do MGB em Viena no início de fevereiro de 1953, Grigulevich discutiu uma série de métodos de assassinato, ou na audiência ou na receção diplomática, envolvendo a utilização de uma pistola com silenciador, veneno ou gás venenoso. O recurso a um diplomata credenciado da América Central para assassinar Tito pretendia ocultar tão eficazmente quanto possível a intervenção do MGB. Utilizando o seu pseudónimo “Teodoro Castro”, Grigulevich redigiu uma carta de despedida para a sua mulher mexicana, para ser publicada e reforçar o seu disfarce como cidadão da Costa Rica no caso de ser capturado ou morto durante o assassinato. Cerca da meia-noite de 1 de março, Estaline leu um relatório sobre os progressos da operação para “apagar” Tito. Talvez tenha sido o último documento que viu antes de sofrer um acidente vascular cerebral fatal na madrugada de 2 de março.

O representante americano nas Nações Unidas, Henry Cabot Lodge Jr. mostra um aparelho de escuta implantado numa réplica de madeira do Grande Selo, oferecida por jovens alunos russos e que estivera pendurada no gabinete do embaixador americano em Moscovo de 1946 a 1952.

Após a morte de Estaline, a 5 de março, os planos para assassinar Tito foram suspensos. Em maio, quando o dissidente soviético Alexander Orlov começou a publicar as suas memórias de Estaline e do NKVD na revista Life, Grigulevich foi rapidamente retirado para Moscovo. O Centro receou que Orlov, que tinha conhecimento das missões de sabotagem de Grigulevich antes e durante a Guerra Civil de Espanha, pudesse revelar a sua identidade, embora, neste caso, ele não o tenha feito. No que respeita ao confuso Ministério dos Negócios Estrangeiros da Costa Rica e ao corpo diplomático em Roma, “Teodoro Castro” e a sua mulher simplesmente desapareceram. Uma nota no dossiê do KGB em 1980 refere que aparentemente os serviços de informações ocidentais nunca tinham identificado o diplomata desaparecido Castro como o agente ilegal Grigulevich. Em Moscovo, Grigulevich, com o seu verdadeiro nome, fez um doutoramento e teve uma nova carreira bem-sucedida na Academia das Ciências como especialista e escritor sobre a América Latina. Vários dos seus livros foram traduzidos para inglês e adquiridos por bibliotecas de universidades britânicas e dos EUA.

As operações dos Serviços Secretos serviram, de diversas formas, tanto para estabilizar como para desestabilizar a Guerra Fria. É impossível avaliar se os Serviços Secretos contribuíram para evitar que a Guerra Fria se transformasse na guerra quente que alguns previam e muitos temiam sem uma análise contrafactual na qual a maioria dos académicos não quer envolver-se. Só imaginando, pelo menos em traços gerais, qual seriam as políticas dos dois blocos se não tivessem tido acesso a informações fiáveis sobre as capacidades militares (sobretudo nucleares) dos seus adversários é impossível avaliar a importância do papel estabilizador dos Serviços Secretos. Imaginar como teriam sido as políticas dos EUA durante a Guerra Fria a partir do final da década de 1950 com poucas informações fiáveis sobre a capacidade nuclear soviética é relativamente simples, porque no início e em meados da década de 1950, os Estados Unidos estavam precisamente nessa situação. O efeito desestabilizador dessa ignorância dá uma compreensão essencial da importância das informações de muito melhor qualidade a que em seguida houve acesso com regularidade.

O mundo esteve mais perto de um conflito nuclear do que na época se percebeu. Sem o conhecimento de Washington, as escoltas submarinas que acompanhavam as embarcações soviéticas de superfície que se aproximavam do bloqueio naval dos EUA em torno de Cuba estavam armadas com torpedos nucleares. Devido aos problemas de comunicação com os submarinos, os comandantes tinham autoridade para disparar os torpedos sem autorização de Moscovo.

Os estudos sobre a Guerra Fria esquecem com frequência a verdade da afirmação de Eisenhower de que a espionagem sobre “aquilo que os soviéticos não tinham” era muitas vezes tão importante como as informações sobre aquilo que tinham. A ignorância sobre um adversário temido leva invariavelmente a uma sobrestimação da sua força. A escassez de informações fiáveis no início da década de 1950 gerou o perigoso mito americano da inferioridade em termos de bombas, rapidamente seguido pelo mito da inferioridade em termos de mísseis — a ilusão de que a União Soviética tinha uma superioridade cada vez maior tanto em bombardeiros de longo alcance como em mísseis balísticos intercontinentais. Em 1955, as estimativas dos serviços de informações da Força Aérea dos EUA calculavam que, no final da década, a Força Aérea soviética de longo alcance seria mais poderosa do que o Comando Aéreo Estratégico dos EUA, cujo chefe, o general Curtis LeMay, se sentiu perigosamente atraído pela ideia de um ataque preventivo para impedir que a União Soviética alcançasse a superioridade nuclear. O facto de cada superpotência ter sido capaz, nos anos intermédios da Guerra Fria, de monitorizar a força de ataque nuclear da outra, dependeu fundamentalmente de uma revolução ocorrida na espionagem imagética (IMINT), que teve início com o contrato ultrassecreto estabelecido entre a CIA e a Lockheed em dezembro de 1954 para a construção do U-2, o primeiro avião espião de grande altitude do mundo, com o equipamento fotográfico de maior definição existente. A introdução do U-2 em 1956, seguida quatro anos depois pelo lançamento dos primeiros satélites espiões, deu origem à IMINT que convenceu o governo Eisenhower de que a força de ataque nuclear soviética não estava na realidade a ultrapassar a dos Estados Unidos. As missões dos U-2, escreveu Eisenhower, “forneceram provas de que os horrores da suposta inferioridade em termos de bombas e mísseis não passavam de fantasias imaginativas e irresponsáveis”. Sem a revolução da IMINT, a política dos EUA em relação à União Soviética teria sem dúvida continuado a ser confundida por outros mitos desestabilizadores sobre a extensão da capacidade nuclear soviética. O desenvolvimento da crise dos mísseis de Cuba em 1962 poderia também ter sido bastante diferente. Se não fosse a IMINT dos U-2 (cuja interpretação se deveu em grande parte a documentos ultrassecretos fornecidos por um agente britânico-americano no GRU, Oleg Penkovsky), Khrushchev teria quase certamente concretizado a sua ambição de ocultar a construção de bases de mísseis até que estas estivessem totalmente operacionais. A opção de declarar uma “quarentena” (bloqueio) naval americana em torno de Cuba na esperança de impedir o transporte do material necessário para concluir as bases não teria assim existido. O mundo poderia ter estado ainda mais próximo da guerra termonuclear.

No entanto, o mundo esteve mais perto de um conflito nuclear do que na época se percebeu. Sem o conhecimento de Washington, as escoltas submarinas que acompanhavam as embarcações soviéticas de superfície que se aproximavam do bloqueio naval dos EUA em torno de Cuba estavam armadas com torpedos nucleares. Devido aos problemas de comunicação com os submarinos, os comandantes tinham autoridade para disparar os torpedos sem autorização de Moscovo. Quando a frota dos EUA começou a lançar cargas de profundidade de treino, com o objetivo de obrigar os submarinos soviéticos B-59 do tipo Foxtrot a vir à superfície para identificação, o capitão do submarino quis lançar um torpedo nuclear. Isso teria acontecido se não fosse a presença a bordo do comandante da flotilha, que se recusou a autorizar o lançamento.

O chefe de Estado da Jugoslávia, marechal Tito (à esquerda), recebe o enviado da Costa Rica, «Teodoro B. Castro», em 1953, ignorando o facto de «Castro» ser um soviético (o seu nome verdadeiro era Iosif Grigulevich), ilegalmente no país, com planos para o assassinar – missão abortada após a morte de Estaline.

Depois da crise dos mísseis de Cuba, as informações disponíveis para ambos os blocos sobre a extensão e a disposição da força de ataque nuclear dos seus adversários tornou-se um elemento essencial para a estabilização da Guerra Fria. Segundo Robert Gates, cuja carreira de um quarto de século na CIA e na equipa da Casa Branca culminou na sua nomeação como DCI entre 1991 e 1993:

A grande força e sucesso continuado dos analistas da CIA e dos serviços de informações foi na descrição com extraordinária precisão, desde o final da década de 1960 até ao colapso soviético, da força e das capacidades militares da União Soviética… E o facto de esses números e capacidades serem considerados fiáveis pelo Poder Executivo (incluindo o Departamento da Defesa), o Congresso e os nossos aliados, tanto nas negociações de controlo de armamento como no planeamento militar.

Sem aquilo que se designou de forma eufemística por “meios técnicos nacionais” (national technical means — NTM), baseados numa conjugação da IMINT e da SIGINT, a verificação dos acordos de controlo e limitação de armamento do final da Guerra Fria teria sido impossível. A importância fundamental dos NTM foi explicitamente reconhecida pelo tratado START de 1989, que, além de reduzir os arsenais nucleares estratégicos em 30%, exigia que os Estados Unidos e a União Soviética “não interferissem nos meios técnicos nacionais de verificação da outra Parte” e “não recorressem a medidas de dissimulação para impedir a verificação pelos meios técnicos nacionais”. Um protocolo estabelecia condições pormenorizadas com o objetivo de permitir a cada um dos lados monitorizar sem restrições a telemetria de mísseis do outro.

O mais bem-sucedido agente do KGB que operou nos Estados Unidos nos anos intermédios da Guerra Fria foi o bolseiro Fulbright Oleg Danilovich Kalugin. Do primeiro grupo de dezoito bolseiros Fulbright soviéticos selecionados para estudar nos EUA em 1958, metade eram agentes do KGB ou do GRU que tinham assumido a identidade de estudantes; quanto aos restantes, “podia contar-se que cooperassem” com eles. Quatro dos dezoito foram para a Universidade de Columbia. Dois (incluindo Kalugin) eram do KGB, um era do GRU e o quarto, Alexander Yakovlev, que mais tarde foi membro do Politburo com Mikhail Gorbachev, tornou-se conhecido como o “padrinho da glasnost”. Provavelmente, tal como os outros três bolseiros Fulbright ficou inicialmente assombrado com a experiência de viver em Nova Iorque:

Nas primeiras semanas, caminhei incessantemente por Manhattan, fascinado pela sua energia, beleza e movimento. A capital soviética — que na altura se assemelhava mais a uma enorme aldeia do que a uma das grandes cidades mundiais — não tinha nenhum edifício mais alto do que a Universidade Estatal de Moscovo, com trinta andares. Aos meus olhos pouco sofisticados, o Empire State Building e outros arranha-céus de Manhattan pareciam criações magníficas e do outro mundo.

No final de 1967, o sargento-mor John Anthony Walker, suboficial de comunicações da equipa do comandante das forças submarinas dos EUA no Atlântico (COMSUBLANT), entrou na embaixada soviética e anunciou: "Sou oficial da Marinha. Gostava de ganhar algum dinheiro e posso dar-vos informações genuínas em troca."

Kalugin também teve um certo impacto em Nova Iorque. Um perfil sobre ele no The New York Times classificou-o como “um miúdo com personalidade”. Tornou-se o primeiro (e possivelmente o último) agente do KGB a exercer funções no Conselho de Alunos da Universidade de Columbia.

Os anos que Oleg Kalugin passou em Columbia lançaram-no numa carreira de sucesso nos serviços soviéticos de informações no estrangeiro. Entre 1965 e 1970, ocupando oficialmente o cargo de adido de imprensa da embaixada, Kalugin foi colocado como residente do KGB em Washington, onde era o responsável pelas informações políticas e a segunda figura dos residentes. Em setembro de 1965, um funcionário da NSA, Robert Lipka, de 20 anos, causou uma grande comoção aos residentes ao chegar à embaixada soviética na Rua Dezasseis, a alguns quarteirões de distância da Casa Branca, e anunciar que o seu trabalho na NSA era destruir documentos confidenciais. Recrutado por Kalugin como o agente DAN, Lipka foi provavelmente o mais jovem agente soviético com acesso a informações de alto nível desde que Ted Hall, com 19 anos, oferecera os seus serviços em Los Alamos em 1944. Ao longo dos dois anos seguintes, até terminar a sua colocação na NSA, Lipka forneceu, a troco de dinheiro, documentos altamente confidenciais que se absteve de destruir, cerca de duas vezes por mês, através da colocação dos materiais em “caixas postais secretas” (locais previamente combinados), contactos repentinos ou encontros com o seu agente supervisor. Kalugin passou o que afirmou serem “horas intermináveis” no seu pequeno gabinete do núcleo de residentes, examinando todo o material e selecionando os documentos mais importantes para transmitir telegraficamente para o Centro antes de enviar o resto por mala diplomática.

Apenas alguns meses depois de Lipka deixar a NSA e a sua carreira como agente do KGB chegar ao fim, o núcleo de residentes de Washington recrutou outro agente espontâneo com acesso a SIGINT de alto nível. No final de 1967, o sargento-mor John Anthony Walker, suboficial de comunicações da equipa do comandante das forças submarinas dos EUA no Atlântico (COMSUBLANT), entrou na embaixada soviética e anunciou: “Sou oficial da Marinha. Gostava de ganhar algum dinheiro e posso dar-vos informações genuínas em troca.” Apesar da sua baixa patente, Walker tinha acesso a informações de alto nível, incluindo os principais parâmetros dos códigos navais dos EUA. O lote de amostras de material que ele trouxe para a embaixada foi examinado com incredulidade por Kalugin e pelo residente em Washington, Boris Aleksandrovich Solomatin. Segundo Kalugin, “os olhos de Solomatin arregalaram-se quando folheou os papéis de Walker. “Quero isto!”, gritou.” Walter, concluíram mais tarde, era o tipo de espião que aparece “uma vez na vida”. Possibilitar que os decifradores soviéticos decifrassem os códigos navais dos EUA, acreditava Kalugin, dava à União Soviética “uma enorme vantagem de informações”, permitindo-lhe monitorizar os movimentos da frota americana. Durante os seus dezoito anos como espião, Walker formou a sua própria rede de espiões, recrutando o seu filho, o seu irmão mais velho e um amigo da Marinha, Jerry Withworth. Para Kalugin, a maior surpresa dos casos de Lipka e Walker foi descobrir “quão extraordinariamente descuidada era a segurança em algumas das instalações ultrassecretas dos Estados Unidos”. A glória resultante destes dois casos viria a valer a Solomatin a Ordem da Bandeira Vermelha e, mais tarde, a promoção a vice-chefe de informações no estrangeiro do KGB. A carreira de Kalugin também beneficiou. Em 1974, tornou-se no mais jovem general soviético dos serviços de informações no estrangeiro.

A utilização, pela primeira vez e em tempo de paz, da espionagem imagética na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 25 de outubro de 1962: o embaixador dos EUA, Adlai Stevenson (sentado à direita), mostra imagens tiradas por aviões U-2, da construção de bases de mísseis soviéticos em Cuba.

Os casos de Lipka e Walker destacaram também as alterações em termos de motivação dos agentes soviéticos na América desde o início da Guerra Fria. Antes e durante a Segunda Guerra Mundial, os agentes mais valiosos tinham sido espiões ideológicos. No entanto, a atração ideológica de Estaline e dos seus sucessores para os radicais americanos diminuíra rapidamente após a Segunda Guerra Mundial. Não houve uma nova geração de agentes ocidentais como os Cinco de Cambridge e os espiões atómicos, inspirada na crença de que a União Soviética poderia criar uma nova civilização. Tal como Walker, a maioria dos espiões da Guerra Fria nos Estados Unidos queria “ganhar algum dinheiro”. O recruta mais valioso do KGB na CIA, Aldrich Ames, um espontâneo como Lipka e Walker, ganhou uma quantia recorde de dinheiro. Nos nove anos depois de ser recrutado, em abril de 1985, o KGB e o organismo pós-soviético que lhe sucedeu pagaram-lhe pelo menos 2,5 milhões de dólares (provavelmente mais do que a qualquer outro agente na história da Rússia) e prometeram-lhe outros dois milhões.

Em meados da década de 1970, o KGB e a CIA tinham imagens púbicas profundamente diferentes. O KGB permanecia imune a críticas dentro da URSS. A estátua do seu fundador, Felix Dzerzhinsky, em frente à sua sede perto da Praça Vermelha, era a mais alta de Moscovo e um monumento importante. O ambicioso dirigente do KGB, Yuri Andropov, aumentou progressivamente o seu poder político após a sua eleição para o Politburo em 1973. Quando morreu Leonid Brezhnev, em 1982, foi o primeiro chefe de um serviço de informações a converter- -se no líder soviético. A CIA, pelo contrário, no seguimento da Guerra do Vietname e do Caso Watergate, confrontou-se com críticas públicas sem precedentes. As revelações sensacionais ao longo de 1975, o “Ano da Espionagem”, dos “truques sujos” da CIA — entre eles as conspirações para assassinar estadistas estrangeiros (nomeadamente Fidel Castro) e espionagem ilegal a cidadãos dos EUA durante a operação CHAOS — provocaram uma indignação generalizada da opinião pública. O DCI, William Colby, afirmou, provavelmente com razão, que no rescaldo destas revelações “a CIA ficou sob um escrutínio público mais atento e severo do que provavelmente qualquer outro serviço deste tipo, não só neste país, mas em qualquer parte do mundo”. O senador Frank Church, presidente do Comité Especial do Senado estabelecido para investigar estas transgressões, declarou: “A CIA poderá ter estado a comportar-se como um elefante com mau caráter e descontrolado.” Um relatório posterior do Congresso concluiu mais precisamente que a CIA, “longe de estar descontrolada”, fora “totalmente recetiva às instruções do presidente e do assessor do presidente para as questões de segurança nacional”. No entanto, a culpa pelos truques sujos oficialmente autorizados foi atribuída à CIA e não à Casa Branca.

Embora as revelações do "Ano da Espionagem" tenham sem dúvida revelado abusos graves, deram também origem a teorias da conspiração de grande sucesso, sendo a principal a afirmação infundada de que a CIA fora responsável pelo assassinato de John F. Kennedy.

Juntamente com revelações exatas de operações clandestinas da CIA, surgiram durante a década de 1970 outras alegações sem fundamento de truques sujos da CIA, que devido à sua repetição frequente adquiriram credibilidade e continuam a figurar em trabalhos sobre a história da guerra fria que de resto são fiáveis. É do conhecimento comum que o presidente Nixon disse à CIA para procurar impedir a eleição do presidente marxista do Chile, Salvador Allende, e para sabotar a economia chilena. No entanto, tal como demonstrou o Dr. Kristian Gustafson, as afirmações regularmente repetidas de que a CIA orquestrou a queda de Allende (e mesmo a sua morte) em 1973, e a ascensão do seu sucessor, o general Augusto Pinochet, estão erradas:

… A junta militar chilena estava muito empenhada em não ser associada aos EUA… Um boletim de informações da CIA a seguir ao golpe referiu o comentário privado de Pinochet de que “ele e os seus colegas, deliberadamente, não deram qualquer indício aos EUA sobre a sua determinação em agir”. O amor-próprio dos militares chilenos teria ficado ofendido com a ideia de que precisavam que os EUA organizassem um golpe por eles. Era preferível e mais simples, do ponto de vista chileno, manter a CIA à distância e receber algumas informações ocasionais, mas para além disso mantê-los na ignorância.

Embora as revelações do “Ano da Espionagem” tenham sem dúvida revelado abusos graves, deram também origem a teorias da conspiração de grande sucesso, sendo a principal a afirmação infundada de que a CIA fora responsável pelo assassinato de John F. Kennedy. Se a CIA tivesse estado envolvida na morte do seu próprio presidente, seria razoável concluir que não havia limites ao que poderia fazer para subverter regimes estrangeiros e assassinar outros estadistas que lhe desagradassem.

As “medidas ativas” (operações de influência) do KGB promoveram com sucesso a crença de que os métodos que a CIA utilizara para tentar matar Castro e desestabilizar o seu regime estavam a ser empregues contra governos “progressistas” em todo o mundo. Uma operação de influência soviética no Médio Oriente em 1975 identificou quarenta e cinco estadistas que tinham, supostamente, sido vítimas de tentativas de assassinato da CIA, com ou sem sucesso, ao longo da última década. Indira Gandhi fazia parte de uma série de líderes do Terceiro Mundo preocupados com supostas conspirações da CIA contra eles. Em novembro de 1973, disse a Fidel Castro: “O que eles [a CIA] fizeram a Allende querem também fazer-me a mim. Há aqui gente ligada às mesmas forças estrangeiras que atuaram no Chile, que gostaria de me eliminar.” A crença de que Allende fora assassinado a sangue-frio e de que a CIA a selecionara para o mesmo destino tornou-se algo semelhante a uma obsessão. Ignorando as afirmações americanas verdadeiras de que Allende disparara contra si mesmo durante a invasão do seu palácio, a senhora Gandhi declarou: “Quando eu for assassinada, vão dizer que fui eu própria a organizar isso.” Tragicamente, a senhora Gandhi deu mais atenção à ameaça imaginária de uma conspiração da CIA para a assassinar do que à ameaça real dos seus próprios guarda-costas, que a mataram em 1984.

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