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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Como Santana ficou isolado depois de anunciar a saída do PSD. O jantar, os telefonemas e os abandonos /premium

Jantar há 15 dias juntou amigos da Santa Casa. De resto, não há santanistas que o sigam. Sentem-se "traídos". O seu ex-diretor de campanha "nem a uma chamada a dar uma satisfação" teve direito.

Quem achava que esta era só mais uma ameaça do enfant terrible para dar nas vistas em plena silly season, esta semana ficou a saber que era mesmo a sério: Pedro Santana Lopes rompeu com o PSD, onde começou militante pela mão de Francisco Sá Carneiro há mais de 40 anos, e vai formar um novo partido. Qual? Com quem? Para quando? Estas dúvidas não ficaram esclarecidas na carta de despedida que escreveu aos militantes do PSD, mas duas coisas são certas: os apoiantes de sempre e sobretudo aqueles que o apoiaram no último combate frente a Rui Rio sentem-se “traídos”, e Santana está aparentemente sozinho nesta deriva — sem apoiantes políticos. Há cerca de 15 dias, segundo apurou o Observador, o ex-primeiro-ministro e ex-provedor da Santa Casa da Misericórdia deu um jantar na casa da atual mulher, Dina Vieira, onde reuniu cerca de “dez a 12 pessoas” para afinar a estratégia. Acontece que nessa dezena de apoiantes não se encontrava ninguém com peso político, apenas homens de mão que trabalharam consigo na Santa Casa e que lhe devem lealdade.

Nomes como Fernando Angleu, Paulo Calado ou Ricardo Alves Gomes, quadros da Santa Casa, estiveram nesse jantar e poderão ser os ajudantes de Santana Lopes no processo de formalização do partido, tanto na recolha de assinaturas como na assessoria financeira e jurídica. Também esteve presente Tiago Sá Carneiro, militante do PSD muito ligado à máquina partidária de Passos Coelho e, depois, um dos principais homens de terreno de Santana na campanha das diretas, assim como a velha amiga Helena Lopes da Costa, militante social-democrata oriunda do barrosismo que trabalhou com Santana na câmara de Lisboa e depois na Misericórdia. Mas, ao que contaram ao Observador, deste leque de figuras pouco políticas, apenas Helena Lopes da Costa se manifestou diretamente contra a ideia, causando mesmo um momento de “grande tensão” durante o jantar. “Ela tentou demovê-lo”, ouve o Observador de uma fonte próxima. Sem sucesso.

"Está tudo a ser feito pela calada, aproveitando a silly season para ganhar algum relevo mediático, mas em setembro haverá avanços", afirma ao Observador uma fonte social-democrata próxima de Santana mas que não acompanha o novo movimento. O nome do novo partido ainda não está escolhido, mas segundo garantiu o próprio ao Observador aquando da divulgação da carta de despedida aos militantes, não se chamará Partido Social-Liberal (PSL). "Até gosto da ideia de social-liberalismo", disse.

“Está tudo a ser feito pela calada, aproveitando a silly season para ganhar algum relevo mediático, mas em setembro haverá avanços”, afirma ao Observador uma fonte social-democrata próxima de Santana mas que não acompanha o novo movimento. O nome do novo partido ainda não está escolhido, mas segundo garantiu o próprio ao Observador aquando da divulgação da carta de despedida aos militantes, não se chamará Partido Social-Liberal (PSL). “Até gosto da ideia de social-liberalismo”, disse, recusando contudo a ideia de ter uma entidade política com as iniciais do seu próprio nome, como em tempos quis. Mesmo sem nome, sem assinaturas recolhidas, sem programa e sem base de apoio, a verdade é que as sondagens já dão-lhe algum fôlego: primeiro, 4,8% dos 1011 inquiridos pela Eurosondagem, por telefone, em meados de julho, não excluem votar num partido de Santana Lopes; depois, uma sondagem da Aximage feita a partir de uma amostra de 600 entrevistas telefónicas, diz que o tal novo partido de Santana pode tirar eleitores ao PSD, CDS e até ao Bloco de Esquerda. Segundo essa mesma sondagem, quase um quarto dos inquiridos (24,4%) não afasta, à partida, a hipótese de pôr a cruz do boletim de voto no partido de Santana caso concorra às próximas eleições legislativas de 2019.

A verdade é que já não há volta a dar. “Já não tem margem de recuo, deixou a porta demasiado aberta”, diz ao Observador um apoiante de décadas que não acompanha Santana nesta dissidência, considerando que “os partidos se mudam por dentro”, e não através de batidas com a porta, ainda por cima apenas oito meses depois de ter concorrido à liderança do partido que agora deixa para trás (e de ter perdido por uma margem estreita).

Santanistas descontentes. “E agora, com que cara olhamos para as pessoas?”

Na véspera de sair para as bancas a revista Visão, no final de junho, com Santana Lopes a dizer que a sua “intervenção política no PSD acabou”, Santana pegou no telefone para alertar algumas figuras próximas — amigos que o têm acompanhado na vida pessoal e política. Mas o telefonema não era esclarecedor, era apenas para dizer que estivessem atentos à entrevista que tinha dado. “Não me pediu opinião para nada antes de fazer aquilo, ligou-me a dizer para ler a entrevista, eu li, mas depois nem lhe liguei a dizer o que tinha achado”, afirma um velho apoiante. Certo é que, segundo ouviu o Observador de vários nomes próximos de Santana, a decisão de sair do PSD e de formar um novo partido foi tomada de forma totalmente “isolada”, o que provocou amarguras.

João Montenegro foi diretor de campanha de Santana Lopes na candidatura à liderança do PSD contra Rui Rio e afirma agora ao Observador que “nem a uma chamada a dar uma satisfação” teve direito, evidenciando o mau estar que a decisão causou junto da equipa que esteve diariamente ao lado dele no último combate com as cores do PSD. “Fiquei estupefacto, apanhou-me de surpresa”, diz outra fonte. “Se me tivesse pedido opinião eu diria para não o fazer, mas ele não quis envolver ninguém, o que acho errado porque a política faz-se em equipa”, acrescenta outra fonte que não quis ser identificada.

Nas diretas de janeiro, Santana Lopes teve 45,8% dos votos, perdendo para Rui Rio, que teve 54%

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O telefone daqueles que deram a cara por Santana Lopes nas diretas de janeiro não parou de tocar nos dias seguintes a ser conhecida a rutura. Alguns nem atendiam: “Eu nem atendia o telefone porque não sabia de nada, não tinha nada para lhes dizer”, diz um deles. João Montenegro, que foi diretor de campanha, tinha de atender. Do lado de lá da linha estavam “presidentes de câmara, presidentes de distritais, presidentes de secção, dirigentes que se mobilizaram, que o apoiaram, e que agora não sabem o que dizer às pessoas que convenceram a votar nele”. “Os primeiros telefonemas eram de desespero: ‘O que é que nos vai acontecer?’, depois já eram só de descontentamento”, afirma, garantindo que “de todas as pessoas com quem falei não encontrei ninguém que o quisesse acompanhar no novo partido”.

“Os que o apoiaram em janeiro sentem-se traídos, sentem-se usados”, diz ainda, acrescentando que, se por um lado, ninguém põe em causa a “amizade”, por outro, a ausência de comunicação com a equipa que o acompanhou nas diretas foi flagrante e deixou mossa. “Perderam a face” é uma expressão usada frequentemente para descrever o estado em que ficaram os dirigentes sociais-democratas que viraram concelhias e distritais para dar vitória a Santana em detrimento de Rio. Certo é que nem há oito meses, quase metade dos militantes do PSD estavam a votar Santana Lopes. No total foram 19.244 militantes, 45,8% dos votos, a escolher o ex-primeiro-ministro em vez do ex-autarca do Porto, que acabaria por ganhar com 54% dos votos. Foram 11 estruturas do PSD a votar em Santana, contra 12 que preferiram Rio.

"Os que o apoiaram em janeiro sentem-se traídos, sentem-se usados", diz ainda, acrescentando que, se por um lado, ninguém põe em causa a "amizade", por outro, a ausência de comunicação com a equipa que o acompanhou nas diretas foi flagrante e deixou mossa. "Perderam a face" é uma expressão usada frequentemente para descrever o estado em que ficaram os dirigentes sociais-democratas que viraram concelhias e distritais para dar vitória a Santana em detrimento de Rio.

Ora, se uma das justificações que Santana deu aos militantes na carta de despedida do PSD foi a queixa de não ser ouvido pelo partido, é precisamente essa justificação que não colhe junto dos santanistas. “O que constatei foi que o PSD gostava muito de ouvir os meus discursos, mas ligava pouco às minhas ideias”, diz Santana, acrescentando que se “não conseguimos fazer vingar ideias e propostas que consideramos cruciais para o bem do nosso país”, então o melhor é sair e tentar noutro lado. Mas entre os apoiantes mais próximos ouve-se dizer que “não tem razão” — e que dizê-lo é até, de certa forma, uma falta de respeito para aqueles mais de 19 mil militantes que votaram no seu programa há oito meses. “Não tem razão quando diz que o PSD não o ouve, porque não só ouve como gosta de ouvir e como precisa de ouvir. Prova disse são as pessoas que se mobilizaram para trabalhar com ele e por ele durante três meses, não pode dizer que o partido não o ouve”, indigna-se um santanista que prefere não ser identificado em conversa com o Observador.

Santana Lopes sai do PSD e despede-se com carta aos militantes: “Tenho muita pena”

Resumindo, nem o mais santanista dos santanistas equaciona sair do PSD para acompanhar Santana. Todos tendem a concordar com Marcelo Rebelo de Sousa, que diz que os partidos são famílias. Pedro Pinto, presidente da distrital de Lisboa que sempre foi próximo do ex-primeiro-ministro, já tinha dito ao Expresso que agora ele e Santana estavam “em clubes diferentes” e reafirma ao Observador que “não acompanha” esta deriva.

Também Manuel Frexes, líder da distrital de Castelo Branco e fiel santanista, prefere gastar poucas palavras com o assunto. Ao Observador, limita-se a dizer que já falou com Santana, já disse o que tinha a dizer, a “amizade perdurará”, mas nada mais. “Sou do PSD e vou continuar a ser”, afirma. Telmo Faria, ex-presidente da câmara de Óbidos e figura há muito associada a Santana Lopes recusa fazer declarações públicas sobre o tema. Ao Expresso, no final de junho, já tinha dito, contudo que não tinha “nenhuma intenção de sair do PSD ou de participar num projeto alternativo”. “Não é à luz de uma mera conjuntura que se coloca o PSD de lado”, disse na altura.

Um outro santanista ainda tem, por estes dias, uma conversa marcada com Santana Lopes — quer ouvir o que ele tem para dizer. Mas questionado sobre se há alguma coisa que possa dizer que o faça acompanhá-lo no novo projeto, não tem dúvidas de que não. “Não há nada que ele possa dizer que me faça encorajar a sair do PSD”, diz, afirmando que o modo de atuar do PSD é “combater por dentro, e se for caso disso, substituir a liderança”. Mesmo entre aqueles que estão a ajudar Santana neste novo processo, há quem diga que “no momento em que, para continuar aqui, tiver de deixar a militância do PSD, então deixo de estar aqui [ao lado de Santana Lopes]”, ouve o Observador.

Na campanha das diretas vários foram os nomes de peso no PSD que estiveram ao lado de Santana: Rui Machete (à esquerda) foi presidente da comissão de honra da candidatura

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Um novo Macron? Com 62 anos de idade e 40 de política, nem que quisesse muito

A história portuguesa não joga a favor da formação de novos partidos políticos. Tentativas tem havido muitas, e para o próximo ciclo eleitoral de 2019 há a promessa de várias novas forças e movimentos a surgir no boletim de voto, mas a verdade é que os casos de sucesso, que conseguem de facto implementação na sociedade, são raros. O último terá sido mesmo o Bloco de Esquerda, em 1999, e todas as tentativas, sobretudo à direita, não deram frutos. “Em muitas democracias, as leis eleitorais foram desenhadas para evitar muitos partidos, ou seja um sistema partidário fragmentado, mas não foi o caso português. No nosso caso, com 3% ou 4% e voto concentrado chega-se ao Parlamento. Até agora, crises de confiança e outras não deram origem a novos partidos. Aparentemente, os portugueses preferem a abstenção ao voto de protesto”, explicou o politólogo António Costa Pinto em declarações ao Jornal Económico, numa tentativa de perceber o que explica a dificuldade de um novo partido singrar em Portugal.

A verdade é que a sondagem da Aximage, feita em meados de julho, inclui uma pergunta no sentido de perceber quantos inquiridos disseram que votariam de certeza no partido de Pedro Santana Lopes — e a resposta é 1,9%, o suficiente para que o ex-presidente da Câmara de Lisboa se elegesse, pelo menos a si, para o Parlamento. Resta saber que partido é este. Entre os santanistas, as dúvidas são muitas. “Quem são as pessoas que tem? Para partir para um movimento destes tem que ter estrutura. Um partido não se monta do nada. Que programa vai apresentar? O que é que vai dizer assim de tão diferente do que defendeu quando se candidatou há meses à liderança do PSD?”, questiona uma fonte ouvida pelo Observador.

Terminado o congresso, vencedor e derrotado negociaram a lista ao Conselho Nacional, que acabaria encabeçada por Santana Lopes. Mas Santana nunca marcou presença nas reuniões e logo abdicou do lugar

MIGUEL A. LOPES/LUSA

No rescaldo do anúncio sobre a rutura, Santana foi dando algumas luzes sobre as suas intenções. Primeiro, reestruturação da dívida: “Há um trabalho de nova consolidação da dívida, para não lhe chamar reestruturação, que tem de ser feito”, disse ao Expresso. Depois, euroceticismo: “Há quem defenda a saída do euro, eu há muito tempo que defendo o euro a duas velocidades”, acrescentou ao mesmo jornal. Mais: nacionalismo. “Distingo-me do PSD na política de saúde por ser mais propenso a uma presença muito forte do Estado em todo o país”. Em suma: “O centro-direita precisa de renovação: um partido mais prudente nos entusiasmos europeus, mais atento à realidade do país, das empresas, à realidade social, menos dogmático”. Em que se traduz isto? Não se sabe bem.

Um dos seus apoiantes contactado pelo Observador revelou-se cético. “A política não é uma ciência exata mas não acho que haja espaço para um novo partido neste espectro político”. Ou pelo menos, não faz falta. “Os novos partidos que têm surgido na Europa são movimentos populistas/moralistas que surgem por falência dos partidos tradicionais, muito associados a casos de corrupção, mas em Portugal isso não tem acontecido”, diz, lembrando que quando explodiu o caso Sócrates, nem o próprio PS foi propriamente prejudicado nas urnas ou nas sondagens. A mesma fonte dá até um outro exemplo: o de Marcelo Rebelo de Sousa, que é oriundo do PSD mas que consegue o apoio popular sem ser populista. Na sua ótica, era isto que Santana podia conseguir no PSD, mantendo os valores do partido, defendendo um programa e propostas sociais-democratas mas alargando a base popular com características de liderança associadas aos afetos e à proximidade.

"Não há motivos ideológicos que justifiquem esta cisão, ele não pode aparecer com uma nova cartilha depois de ter sido candidato há oito meses, não pode defender coisas completamente diferentes", diz, lembrando que num momento de campanha eleitoral o escrutínio é grande e tudo fica registado, o que faz com que seja muito fácil apanhar contradições. "Não percebo o objetivo", conclui um dos seus apoiantes.

Que programa vai Santana Lopes defender num novo partido social-liberal que seja assim tão diferente do programa que defendeu há oito meses num partido social-democrata é a pergunta para um milhão de euros. Um dos seus antigos apoiantes é muito crítico desta opção. “Não há motivos ideológicos que justifiquem esta cisão, ele não pode aparecer com uma nova cartilha depois de ter sido candidato há oito meses, não pode defender coisas completamente diferentes”, diz, lembrando que num momento de campanha eleitoral o escrutínio é grande e tudo fica registado, o que faz com que seja muito fácil apanhar contradições. “Não percebo o objetivo”, conclui.

Para esta mesma fonte, uma coisa é certa: se Santana Lopes quer ser o novo Emmanuel Macron da política portuguesa — que apesar de ter militado no partido socialista francês e ter feito parte de governos socialistas, criou o seu próprio partido com um discurso muito assente na liberalização da economia francesa, na promoção do Estado-social e no apoio a medidas consideradas progressistas — que tire o cavalinho da chuva. “Não se pode ser um Macron com 62 anos de vida e 40 e tal de política ativa”, afirma. Que é como quem diz, não se pode apagar o passado. Emmanuel Macron tem 41 anos, para que conste.

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