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De Aristóteles a David Attenborough: como a História dos animais é uma fonte para a História do Homem /premium

A publicação de "Aventuras de um Jovem Naturalista" não é importante apenas por contar histórias da estrela da "televisão-animal": lembra-nos que entre animais e homens há elos impossíveis de ignorar.

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O modo de olhar para os animais diz muito da ideia que o Homem faz de si próprio. Não é justo, obviamente, tomar o naturalismo por uma antropologia, ou a antropologia por um simples subconjunto dentro do naturalismo; mas o Naturalismo esconde, de facto, uma antropologia.

A observação dos animais presente no Drake Manuscript é muito diferente daquela que nos dá a História dos Animais de Aristóteles; mais, a História dos Animais é um dos pontos de partida para a discussão sobre o valor do conhecimento antigo, em que Bacon tanto se empenhou, e a Origem das Espécies uma arma brandida por uma série de Naturalistas contra Deus. A partir da observação de animais já se contestou Deus e a lógica, já se pôs em causa o Homem e a sociedade. Nos últimos tempos, vieram a palco as lagostas, com Jordan Peterson, como anteriormente já vieram abelhas, pinguins, pelicanos e tudo aquilo que a heráldica, a literatura e a exegese decidiram resgatar ao mundo natural.

Sir David Attenborough, o famoso apresentador de programas de vida selvagem da BBC, não é propriamente um pensador, não se dedicou às inglórias experiências de Lamarck ou às pioneiras observações de Alexander Von Humboldt; no entanto, as suas expedições – e, sobretudo, estas primeiras expedições que saíram há poucas semanas em livro em Portugal – têm um colorido que rivaliza com qualquer descrição literária. Attenborough pode não ser o primeiro a retirar um caimão de um lago da Guiana; mas a surpresa, a tensão e todo o relato aventuroso têm o sabor da novidade que encontramos nas descrições dos descobridores quinhentistas. A observação de animais sempre foi importante para o Homem; no entanto, foi sendo importante por razões diferentes. Attenborough percebeu bem de que forma é que a televisão podia inaugurar uma nova etapa na forma de olhar para os animais, e de que forma é que não o estava a fazer.

“Aventuras de um Jovem Naturalista”, de David Attenborough (Temas e Debates)

Attenborough voltou a fazer dos animais um assunto central na vida do Homem. Podia não ter o arcaboiço teórico dos grandes naturalistas, a inventividade dos mais originais, ou a sorte de pisar território virgem; no entanto, tinha um instrumento que mais nenhum dos grandes naturalistas tinha, e que mudou a perceção popular da vida animal: a televisão.

De Aristóteles a Vasco da Gama

Que a observação de animais é tão antiga quanto o Homem, é fácil de prever. Qualquer pessoa já dedicou com prazer uns minutos livres a observar a complicada organização das formigas, ou a paciente preparação de uma osga para atacar um inseto. Daí que, desde as primeiras literaturas, os animais apareçam como um objeto de atenção privilegiado. A Geografia de Estrabão, por exemplo, fala da particularidade dos cavalos ibéricos — parecem “filhos do vento” tais as velocidades que atingem; no entanto, talvez nenhuma obra Antiga tenha atingido a celebridade da História dos Animais, de Aristóteles. Em primeiro lugar, porque a obra de Aristóteles é de uma imensidão admirável para um simples curioso. Aristóteles não só cataloga uma enorme quantidade de seres vivos, como tem a argúcia de classificar os comportamentos desses mesmos animais. Distingue os modos de reprodução ou de representação, de tal modo que alinhava as primeiras categorias para o estudo sério dos seus comportamentos.

Embora haja uma série de elementos fabulosos nas suas descrições, Aristóteles não está interessado pelos animais de um ponto de vista moral: nem no ponto de vista das fábulas, em que os animais adotam comportamentos humanos, nem no ponto de vista que será muito seguido depois pela heráldica, por exemplo, em que certos comportamentos dos animais são vistos como admiráveis. O pelicano torna-se um símbolo cristão (e também de D. João II) por se acreditar que o pelicano rasga o peito para alimentar os filhos com o seu próprio sangue, da mesma forma que o leão é visto como majestoso.

É claro que a obra enciclopédica de Aristóteles, por se debruçar sobre o comportamento dos animais, contribui para o conhecimento destes comportamentos, que serão depois interpretados de um ponto de vista moral; no entanto, a sua é uma obra de observação.

O Homem não precisa da lógica para chegar ao caso particular; o caso particular é precisamente aquilo que pode caucionar através da observação. O grande problema da lógica passa por chegar ao enunciado geral. E, com isto, Bacon faz dos animais um importante ponto na sua caminhada para a lógica indutiva.

É, por isso, curioso que esta História dos Animais esteja no centro da polémica moderna sobre a lógica, a escolástica e o conhecimento antigo.

O processo de desvalorização do conhecimento medieval é longo e dá-se em várias frentes. No entanto, um dos seus pontos fortes é o Novum Organon, de Bacon, que conhece uma enorme popularidade e causa fortes polémicas. Bacon aproveita os erros mais flagrantes na História dos Animais para atacar a famosa lógica Aristotélica, isto é, a lógica dedutiva. É da ideia de que de enunciados gerais se pode deduzir uma sentença particular que vêm os grandes erros da História dos Animais. Se Aristóteles, em vez de confiar na dedução, se dedicasse à observação, estaria sempre mais próximo da verdade. O Homem não precisa da lógica para chegar ao caso particular; o caso particular é precisamente aquilo que pode caucionar através da observação. O grande problema da lógica passa por chegar ao enunciado geral. E, com isto, Bacon faz dos animais um importante ponto na sua caminhada para a lógica indutiva.

A lógica de Bacon terá uma série de problemas e presta-se a uma enorme quantidade de objeções; no entanto, na História da observação dos animais terá uma certa importância. Bacon não será o único responsável, mas dá o fundamento teórico para a nobilitação de uma atividade que os Descobrimentos tornaram mais necessária, mais acessível e mais fascinante.

A verdade é que os descobrimentos trouxeram aos olhos da Europa todo um novo mundo. E, antes de ser analisado, esse mundo tinha de ser descrito. Havia todo um terreno novo para os exploradores do mundo animal.

Drake e um mundo novo por descobrir

Os Descobrimentos trazem, então, um novo modo de escrever sobre animais que é, obviamente, filho da abundância. As grandes obras são descritivas, muitas vezes sucintas, dado que há uma enorme quantidade de informação a que o leitor não está acostumado. Claro que alguns animais, como o famoso Rinoceronte de Lisboa, causaram mais sensação; no entanto, os séculos XVI e XVII estão cheios de deslumbrantes obras quase dicionarísticas que, como o Colóquio dos Simples  de Garcia de Orta fez com as plantas, nos dão a conhecer os animais dos Novos Mundos. Um dos mais fascinantes é, com certeza, um códice do século XVII, conhecido como Manuscrito Drake, com desenhos da fauna e flora das caraíbas.

Sir Francis Drake (1540-1581)

O manuscrito, na verdade, é anónimo, e Drake só lhe dá o nome por um daqueles processos de eucaliptização típicos da História: como Drake é a pessoa mais conhecida a ter pisado as Caraíbas por essa altura, fica como presuntivo autor dos desenhos.

As obras deste tipo, aliás, são imensas no período dos descobrimentos, e não só a respeito dos animais. As descrições etnográficas, a relação de drogas e plantas, tudo isso, de Garcia de Orta ao Padre Luís Froes, obedece a esta fórmula típica do primeiro olhar: uma cobertura geral e atenta de todas as diferenças e de tudo o que é pinturesco.

Esta fórmula, aliás, contribuirá bastante, numa fase mais tardia, para uma ideia de excecionalidade cara ao Humanismo. Da mesma forma que a concentração etnográfica nas diferenças dos povos foi um contributo importante para as teses relativistas, a acentuação das diferenças no estudo dos animais contribui para desligar o Homem da Natureza. É só muito mais tarde, com um renovado interesse pelo naturalismo, que a fronteira volta a estreitar.

Darwin, Lamarck e outras experiências

O século XIX trouxe um renovado interesse à observação dos animais. As origens deste interesse podem ser várias, desde a independência dos países Americanos, que os obriga a um maior desenvolvimento e, por isso mesmo, maior exploração, à doutrina saída da conferência de Berlim, de que só os territórios explorados seriam considerados pertença dos colonizadores. Os esforços Europeus para penetrar o interior não se viram, apenas, nas campanhas de pacificação ou nas grandes companhias económicas; a Travessia de Ivens, Capelo e Serpa Pinto, patrocinada pela Sociedade de Geografia, ou as obras de Charles de Foucauld são já um sinal de que o conhecimento da Natureza é também uma forma de legitimação política. Veremos o mesmo fenómeno a dar-se, mais tarde, quando o território ultramarino português começa a ser ameaçado: as grandes obras sobre a fauna da África portuguesa, como o Da Vida e da morte dos bichos ou a Seara dos Tempos datam desta altura.

Cem anos depois, Attenborough trouxe aos programas o que Huxley julgava que Darwin tinha tirado ao mundo: finalidade. O animal é imprevisível, e a imprevisibilidade atrai; mas não se pode ser imprevisível quando do outro lado não se está à espera de nada.

Ora, à disponibilidade política para as explorações naturalistas junta-se, ainda no século XIX, aquela sensação própria de certos tempos, de que alguma descoberta importante está prestes a acontecer. Basta ler os primeiros capítulos da Origem das Espécies para perceber a quantidade de naturalistas que já andavam, de uma maneira ou de outra, perto das ideias de Darwin.

Há experiências mais técnicas e mais próximas, mas as tentativas de Lamarck são um bom exemplo disso mesmo. Também Lamarck andava perto da ideia de Evolução, embora apostasse as fichas naquilo que parecia um pormenor dentro do quadro da evolução, mas que se viria a revelar essencial. Lamarck queria provar que aquilo que se torna desnecessário tem tendência a desaparecer – e, pelo mesmo princípio, aquilo que é necessário tenderia a aparecer. Darwin, porém, demonstrou que aquilo que é desnecessário, mas não prejudicial, tem tendência a estabilizar, da mesma forma que a necessidade não produz as ferramentas para a satisfazer – embora, caso estas apareçam, tenham tendência a sobreviver.

A força explicativa da Evolução e da Seleção Natural andavam na mente de todas as Sociedades Científicas, de tal modo que quando saiu a Origem das Espécies, com os seus relatos ao mesmo tempo informados e cândidos das observações feitas a bordo do Beagle, o debate foi enorme. Mais uma vez, era da observação dos animais que surgia um dos passos mais importantes do pensamento da época. A controvérsia foi tanto maior quanto, com Thomas Huxley à cabeça, um grupo de naturalistas via em Darwin o paladino de um ataque definitivo ao finalismo e à religião. A Evolução, como Huxley a via, matava a ideia de alma, de milagre humano e de um Homem criado à imagem de Deus.

Charles Darwin

O processo de nascimento das emoções e da consciência humana recuperavam-no para a Natureza, depois de séculos de demarcação das diferenças. Claro que os resultados da eugenia temperaram algum fervor nas interpretações do Darwinismo; no entanto, o êxito de Konrad Lonrenz, por exemplo, seria impossível dois ou três séculos antes. O olhar para a sociedade a partir dos modos de organização dos animais implica um processo já feito de aproximação entre os homens e os animais.

Attenborough: porque também gostamos do bicho Homem

Quando Sir David Attenborough começa a aparecer na televisão, já existe há muito a ideia de fazer programas com animais. A Inglaterra é um país que preza o contributo que deu ao mundo através do Naturalismo, e com um temperamento fadado para a observação deste tipo: pouco especulativa, assente na experiência, com gosto pela ideia de aventura. Os programas de televisão sobre animais anteriores a David Attenborough satisfazem algumas destas características, mas outras nem tanto. Há programas em que, tirados do jardim zoológico, os animais são apresentados em estúdio, fora do seu ambiente, e há programas de pura filmagem da vida natural, sem a mínima intervenção humana.

Ora, David Attenborough transformou os programas, juntando-lhes um ponto essencial na atração pelo naturalismo: a expedição. Um bom programa sobre animais teria a procura pelo animal, fosse nas florestas sul-africanas, fosse na Indonésia, a sua observação no ambiente próprio, e uma posterior explicação em estúdio. Cem anos depois, Attenborough trouxe aos programas o que Huxley julgava que Darwin tinha tirado ao mundo: finalidade. O animal é imprevisível, e a imprevisibilidade atrai; mas não se pode ser imprevisível quando do outro lado não se está à espera de nada. Attenborough, ao buscar o animal, transformou o seu comportamento natural num jogo da imprevisibilidade contra o desejo. Há tensão, o animal escondido está a criar um problema ao enredo, não é apenas um vazio de imagem. Que Attenborough aproximou a vida animal das pessoas, isso é claro; no entanto, não o fez apenas por mostrá-los; fê-lo, também, por adequar os nossos anseios próprios ao comportamento animal. Os programas de Attenborough não são apenas sobre animais, são também sobre a vida de um naturalista. E há nisto um lado humano que nenhuma vida animal, por si, conseguiria preencher.

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