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Deus foi o primeiro a cair no Palácio de Belém, quando Mário Soares e Jorge Sampaio – o primeiro diz que não acredita em Deus, mas que não é contra, e o segundo identifica-se como agnóstico – assumiram o cargo mais alto da Nação, mas agora, outros estereótipos do que deve ser a figura presidencial estão prestes a cair, já que entre os principais candidatos há duas mulheres, divorciados (também à direita) e até um padre que trocou a Igreja por um partido de extrema-esquerda. O país estará mesmo a mudar?

Até agora, o ocupante cimeiro da Presidência da República correspondeu a um perfil específico de homens que se distinguiram na vida pública através de feitos militares (Ramalho Eanes) e feitos políticos (os três restantes), mas que na vida pessoal também partilhavam semelhanças: todos os Presidente até hoje eram casados e as suas mulheres, de uma forma ou de outra, tiveram o papel informal de primeira-dama. “Aqueles que se referem às pessoas de esquerda e às de direita tendem a ligar-se à forma caricaturada com que habitualmente se descrevem as pessoas que não fazem parte do nosso grupo de pertença. É, porém, um facto que os ‘estilos de vida’ tradicionalmente divergiam de acordo com a afinidade político-ideológica dos indivíduos”, considera Daniel Francisco, professor assistente convidado da Universidade de Coimbra, em declarações ao Observador, acrescentando que “o casamento e a religião era um forte marcador das diferenças ideológicas, tal como a relação com a propriedade ou com a educação dos filhos”.

Atualmente, entre os 10 candidatos e especificamente entre os que apresentam mais possibilidades de ganhar ou até de vir a disputar uma segunda volta, as histórias pessoais divergem. As generalizações de que um católico deve ser casado e de direita, enquanto uma pessoa de esquerda não é religiosa e não acredita no casamento, são desmentidas por estas eleições. Marcelo Rebelo de Sousa, o candidato mais destacado nesta corrida a Belém assume-se como católico, é o primeiro candidato presidencial de direita divorciado – afirmou até que não ter conseguido manter o seu casamento foi “a sua grande falha” – e mantém há vários anos um relacionamento com Rita Amaral Cabral, apesar de nunca se terem casado. Os dois acreditam que o sacramento do matrimónio é para a vida.

Maria de Belém Roseira é casada pela segunda vez, embora não se alargue sobre o tema. Apesar de uma militância no PS de mais de 40 anos, Maria de Belém também se assume como católica, mostrando que a filiação política não interfere com a vivência da sua fé. Se for eleita, seria a primeira Presidente socialista que acredita em Deus. “Para mim a relação com Deus é uma relação em função da ordem universal. É uma coisa que para mim é natural. É tudo. Está connosco sempre, está nas dúvidas, nas angústias”, declarou a candidata em novembro no ciclo de conferências “Conversas com Deus” na Capela do Rato.

Caso algum destes candidatos chegue ao Palácio de Belém, porém, não será o ou a primeiro/a Presidente divorciado. Jorge Sampaio também casou uma primeira vez e divorciou-se, casando-se em seguida com Maria José Ritta, com quem teve dois filhos.

Portugal, uma sociedade “híbrida”

Mas verdades absolutas que vigoraram durante vários anos não parecem imperar na generalidade da população com mais de 70 divórcios por 100 casamentos, como indicam os dados relativos a 2013 divulgados pelo INE e publicados no PORDATA, e travando assim algumas destas associações. “Cada vez mais, porém, essa visibilidade da diferença ideológica está difícil de perceber. Desde logo, há um número crescente de pessoas que não inscreve claramente as suas ideias ou preferências na dicotomia esquerda/direita. Seja porque tem ideias e valores de ambos os referenciais, seja porque os muda ao longo do tempo, seja porque não reconhece essa classificação como válida”, indicou ainda o sociólogo.

Sampaio da Nóvoa é casado,  mas já afirmou ter vivido afastado da mulher durante alguns períodos. A mulher do candidato, no entanto, acabou por entrar na campanha no último fim de semana, algo que inicialmente não estava previsto. “Sempre tivemos vidas muito independentes, desde o nosso casamento aos 19 anos. Casámo-nos no meio da revolução. Se me pergunta porquê, não sou capaz de lhe dizer”, explicou o candidato em entrevista ao Diário de Notícias, acrescentando que houve “períodos de vidas separadas” e que compreende que a mulher “não queira exercer as funções tradicionais de primeira-dama e que queira continuar a sua vida profissional”.

Já Marisa Matias e Edgar Silva, os candidatos apoiados por partidos mais à esquerda nesta eleição, são casados, mas os seus cônjuges também não participam ativamente na campanha. “As sociedades contemporâneas, e a portuguesa parece não ser exceção, tendem a ser universos mais ‘híbridos’, onde a uma ainda forte rigidez das desigualdades e das diferenças sociais correspondem formas de consciência político-ideológica mais voláteis”, descreveu o Daniel Francisco.

Edgar Silva, que foi padre, mas saiu da Igreja, filiando-se em 1998 no Partido Comunista e sendo um militante ativo do partido na Madeira com assento no Comité Central, ilustra a diversidade de percursos de vida dos candidatos.

Entre os principais concorrentes a Belém, nenhum pretende ter ao seu lado o cônjuge caso venha a exercer funções como Presidente, dispensando-se até o funcionamento do gabinete de apoio ao cônjuge previsto pela lei e que atualmente trabalha com Maria Cavaco Silva.

O fim do preconceito? Os portugueses já estão a fazer esse trabalho

Esta eleição, mais focada no indivíduo e no percurso pessoal de cada um dos candidatos, está a mostrar as tendências da própria sociedade portuguesa, segundo Daniel Francisco, mas não significa a rutura total com preconceitos e estereotipos associados às figuras políticas. A candidatura de duas mulheres nestas eleições ilustra a feminização dos locais de trabalho e o número crescente de mulheres que chega ao ensino superior – e que já ultrapassa o número de homens -, mas a eleição de uma mulher não significa o fim das dificuldades para o género feminino na política portuguesa – recorde-se que atualmente, num Governo composto por 17 ministros (incluindo primeiro-ministro), apenas há quatro mulheres, e que em 2015 foi batido um recorde de mulheres eleitas para a Assembleia da República, onde há 76 mulheres em 230 deputados.

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“É difícil dizer que é por via de uma determinada eleição de uma determinada figura do Estado que certos preconceitos desaparecerão. Aquilo que estará a fazer desaparecer certos preconceitos na sociedade portuguesa (e provavelmente a erguer outros) são as experiências quotidianas nas famílias (divórcios, famílias monoparentais, homossexualidade…), nas empresas (feminização do trabalho, lugares de chefia ocupados, com sucesso, por mulheres), na sociedade em geral (sociabilidades entre pessoas de várias origens sociais, geográficas, étnicas…)”, considera Daniel Francisco, indicando que esta é a “mudança qualitativa” na sociedade portuguesa.

No entanto, o foco e escrutínio das individualidades que concorrem a Belém é difícil de afastar, especialmente quando todos defendem que as suas candidaturas são independentes, uma vez que depende do desejo de cada um chegar a chefe de Estado. Sendo assim, a vida pessoal de cada candidato entra nas considerações dos votos depositados nas urnas no dia 24 de janeiro, assim como os seus percursos profissionais e políticos.