Na tanoaria da Cockburn’s, em Vila Nova de Gaia, há ferramentas pesadas, cascos de madeira e arcos em ferro espalhados por todo o lado — em cima das mesas, encostados à parede e pousados no parapeito das janelas, que vão deixando a luz natural entrar. O barulho das máquinas e dos martelos vai enchendo o armazém, mas o que salta à vista são as várias pipas de madeira, colocadas estrategicamente de acordo com o seu estado. “Deste lado estão as ‘rotas’, ali à frente as que já estão prontas e aqui são as que estão a ser arranjadas”, explica António Sá, tanoeiro há mais de 30 anos.

É neste espaço que uma equipa de seis tanoeiros trabalha diariamente para manter e reparar as pipas onde o Vinho do Porto fica a envelhecer. É também aqui que se tenta manter viva uma arte que tem sofrido com o aparecimento de nova maquinaria e a mudança de prioridades nas empresas. Mas, garante António Sá, “os melhores vinhos estão em cascos” e será sempre preciso quem os proteja e arranje. Um ofício duro, importante para assegurar a qualidade do vinho, mas cada vez mais raro de se encontrar nos armazéns.

Atualmente, a tanoaria da Cockburn’s é a última em atividade na cidade “e a única no país que tem seis tanoeiros no ativo”, uma vez que a maior parte das casas de Vinho do Porto subcontrata tanoeiros para fazerem alguns trabalhos. Apesar deste cenário contrastar com os tempos em que só numa casa existiam 20 tanoeiros a trabalhar, há ainda resistentes que continuam a luta para não deixar este ofício morrer. Há cerca de quatro anos chegou sangue novo à Symington Family Estates (que detém a Cockburn’s e mais cinco marcas de Vinho do Porto), com a entrada de tanoeiros mais jovens. “Aprenderam as coisas a seu tempo e agora já caminham pelos seus próprios pés”, garante o tanoeiro chefe, que conhece este trabalho como a palma da sua mão.

António Sá aprendeu esta arte com 14 anos, quando foi “recrutado” pelo chefe do seu pai, que “estava a precisar de uns rapazitos novos para aprender” tanoaria. A partir daí nunca mais parou: “Comecei a aprender, passei também por barrileiro, casqueiro, tanoeiro de terceira e de segunda até chegar a tanoeiro de primeira e continuei a minha carreira até engrenar aqui, onde estou há 16 anos”. Agora, desconfia que passa mais tempo neste armazém do que em casa, tem nas mãos o reflexo da dureza do trabalho e só de olhar para os cascos de madeira de carvalho francês consegue perceber o que foi alvo de reparação.

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