Itamar Vieira Junior: “A falta de educação é estruturalmente planeada pelo estado brasileiro” /premium

03 Março 2019278

"Torto Arado", o primeiro romance de Itamar Vieira Junior, fala sobre a ruralidade do Brasil, onde os trabalhadores vivem num estado de servidão igual ao da escravatura. Falámos com o Prémio Leya.

“A devorante mão da negra morte
acaba de roubar o bem que temos,
até na triste campa não podemos
zombar do braço da inconstante sorte:
qual fica no sepulcro,
que seus avós ergueram, descansado;
qual no campo, e lhe arranca os frios ossos
ferro do torto arado.”

— De “Marília de Dirceu”, de Tomás António Gonzaga

Quando tinha 16 anos, Itamar Vieira Junior começou a escrever um romance. A história girava em torno de duas irmãs, Bibiana e Belonísia, nascidas com um ano de diferença que nas suas cabeças não fazia diferença nenhuma. O pai trabalhava numa fazenda no sertão da Bahia, para onde tinha migrado muitos anos antes à procura de um lugar para trabalhar e para viver. O seu percurso era igual ao de muitos outros homens, antes e depois dele. Itamar escreveu 80 páginas, que acabou por perder numa mudança. E ainda bem. Com apenas 16 anos, não tinha maturidade para escrever um romance.

Os anos foram passando, a vida foi dando muitas voltas, mas a história de Bibiana, Belonísia e da sua família no sertão da Bahia nunca saiu da cabeça do escritor brasileiro, geógrafo de profissão. Foi, no entanto, preciso que Itamar Vieira Junior vivesse de perto a realidade do campo, que enquanto menino da cidade nunca tinha conhecido, para que sentisse que estava preparado para retomar o romance da adolescência, que foi beber inspiração às grandes obras regionalistas brasileiras. O título seria o mesmo que tinha escolhido aos 16 anos: Torto Arado, palavras de um verso de Tomás António Gonzaga.

Torto Arado venceu o Prémio Leya em 2018 e marcou a estreia de Itamar no romance. Antes do lançamento da obra, no início deste ano, o escritor tinha-se dedicado apenas ao conto (e chegou a ser finalista do Prémio Jabuti com uma das suas coletâneas). Na decisão final, o júri do galardão atribuído a um trabalho de ficção não publicado em língua portuguesa elogiou a “solidez da construção, o equilíbrio da narrativa e a forma como” a obra “aborda o universo rural do Brasil, colocando ênfase nas figuras femininas, na sua liberdade e na violência exercida sobre o corpo num contexto dominado pela sociedade rural patriarcal”.

A história de Torto Arado é uma história de violência, mas de uma violência silenciosa que não diz apenas respeito às mulheres mas a todos. As personagens que enchem o livro, trabalhadores explorados do sertão brasileiro, são descendentes de escravos que nunca deixaram de viver num contexto de escravatura. O Brasil nunca criou condições para eles, então “permaneceram ali, migrando de um lugar para o outro, procurando trabalho”. Os grandes fazendeiros aproveitaram-se da sua fragilidade e levaram-nos para as suas fazendas onde passaram a viver em casas de barro que ia ruindo com o tempo. Não eram autorizados a construir com tijolo. A sua escravidão transformou-se numa servidão.

Esta “permanece até aos nossos dias”, como explicou Itamar Vieira Junior, que falou com o Observador na Póvoa de Varzim, para onde se deslocou para participar no festival literário Correntes d’Escritas. A conversa passou pelo Brasil de antes, que não é muito diferente do de agora, a eleição de Jair Bolsonaro, as incertezas e o medo que isso trouxe e o perigo da extrema-direita, que paira sobre tudo e sobre todos. Neste momento de instabilidade, Itamar sabe apenas que é preciso manter a vigilância: “Se não estivermos vigilantes, tudo pode voltar novamente”.

O romance de Itamar Vieira Junior foi publicado em fevereiro pela Leya

Torto Arado é o seu primeiro romance. Antes dele, tinha escrito apenas contos. Foi fácil fazer esta transição?
Alguns críticos [no Brasil], que escreveram sobre os meus livros de contos, disseram que eram extensos e [que] tinham uma densidade típica do romance, com muita ação e personagens. Então, creio que não foi difícil. Foi uma evolução natural.

Este romance tem uma história antiga. Como é que surgiu?
Sim, é uma história antiga. Na adolescência, éramos obrigados a ler [na escola] os romances modernistas e regionalistas brasileiros, que têm uma temática muito parecida com essa [de Torto Arado], que trata do mundo rural. [Autores como] Jorge Amado, Guimarães Rosa, Raquel de Queiroz, José Lins do Rego, Graciliano Ramo. Tinha um interesse especial por esses livros, e comecei a escrever um romance. Tinha esse mesmo título, porque na época li um poema do Tomás António Gonzaga chamado “Marília de Dirceu” e encontrei esta expressão, que achava que dizia respeito àquela realidade. A história era basicamente essa — de duas irmãs, da relação que elas tinham com o pai e a própria propriedade onde moravam. Escrevi 80 páginas numa máquina de escrever. Perdi-as numa mudança, quando [nos] mudámos do estado de Pernambuco para a Bahia. Ainda bem, não tinha maturidade para escrever um livro com 16 anos. Que bom eu perdi! Mas a história sempre ficou. Sempre alimentei de alguma forma a vontade de um dia a retomar. E foi o que aconteceu recentemente. Por acaso, trabalhei [durante] 12 anos com comunidades rurais e pude construir, pouco a pouco, a riqueza desse universo. Nasci e cresci na cidade, não tinha muito contacto com o mundo rural, mas o trabalho me levou para lá. É um universo muito particular, muito próprio. Rico.

O livro segue várias gerações da mesma família. Fala de um tempo antigo, mas a realidade que descreve não é datada, pois não?
Gostaria muito de dizer que esta é uma história datada, histórica, mas não é. Essa é a realidade do país hoje. Ele [o romance] terminaria no nosso tempo. Você observe que aparece a televisão.

Que ainda é a preto e branco.
Sim. Na década de 1990, isso ainda era uma realidade. [A televisão] começou a chegar nessa época, principalmente quando falamos no Nordeste [brasileiro]. Aparece uma motocicleta, que vem substituir os animais, que faziam o transporte das pessoas, que é também um fenómeno recente no campo brasileiro. Mas é um livro que, apesar de terminar nos dias de hoje, trata uma história de quase oito décadas. Por exemplo, a chegada do pai àquela terra, muito jovem, fugindo da seca e dos problemas fundiários, onde eles se estabelecem e onde outros trabalhadores chegam com uma história muito semelhante, com a mesma trajetória, e que fazem parte como trabalhadores da fazenda e que, por fim, se sentem como um grupo, parte de uma comunidade.

E que sentem que a terra também lhes pertence, apesar de não ser deles.
Burocraticamente não pertence, mas afetivamente é a terra [deles] porque nascem muitas gerações ali. O próprio Zeca [Chapéu Grande, uma das personagens,] tem os filhos [naquela propriedade], nascem ali os netos e provavelmente os bisnetos. Já se encontram ali há muitas gerações, têm uma ligação afetiva muito forte com a terra.

“Os grandes fazendeiros precisavam de trabalhadores porque muitos não os puderam substituir (...) e transformaram essa relação de escravidão numa de servidão. E essa servidão permanece até aos nossos dias.”
Itamar Vieira Junior, Prémio Leya 2018

Estas populações são descendentes de escravos que vivem como escravos numa altura em que já não existe escravatura. Como é que isto se explica?
O Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão, mas não deu nenhuma condição para essas pessoas estabelecerem uma vida nova. Não tinham terra, não tinham nenhum tipo de incentivo do governo e, além de tudo, como a maioria não pôde ser alfabetizada, não tinham condições de encontrar trabalho na cidade. Permaneceram ali, migrando de um lugar para o outro, procurando trabalho. Os latifundiários, os grandes fazendeiros, precisavam de trabalhadores porque muitos não os puderam substituir pelos imigrantes que chegavam no Brasil com mais consciência dos seus direitos, e transformaram essa relação de escravidão numa de servidão. E essa servidão permanece até aos nossos dias. Que é uma situação de exploração contínua, só mudou o nome. Eles são explorados, de alguma forma escravizados. Muitos trabalhadores hoje no Brasil, principalmente na zona rural e até na cidade, são resgatados pela Justiça, pelo Ministério do Trabalho, e se constata que eles vivem numa situação análoga à escravidão. Ou seja, essa é uma realidade muito presente no Brasil ainda. Mais de 130 anos depois da abolição da escravatura, as pessoas ainda vivem dessa forma.

A única diferença é que os castigos corporais desapareceram?
Sim, mas existem de outras formas. Se alguém discordar [dos donos da propriedade ou de quem detém o poder], essa pessoa pode ser ameaçada,pode sofrer diversas formas de violência. Não precisa de estar documentado, manda-se alguém fazer, manda-se alguém bater. O Brasil é um dos países que mais mata quem luta contra estas injustiças. Só no ano de 2017, tivemos a morte de 71 trabalhadores rurais. Sabemos isso isso porque existem organizações civis que cuidam de o contabilizar. Uma das principais está ligada à Igreja Católica, a Comissão Pastoral da Terra, e faz essa contagem porque presta assistência jurídica a essas pessoas. Até aos dias de hoje o Brasil vive essa violência, que é uma coisa crescente. Só para dar um exemplo de um caso que teve grande repercussão no mundo, no ano passado — o assassinato da vereadora Marielle Franco, que era uma política ligada às questões sociais. Até hoje não existe solução para esse crime, mas há um forte indício de que ela foi morta por miliciantes por se ter envolvido na regularização da terra de um bairro na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. Ela ouvia os moradores, sobretudo mulheres, as associações de bairro. Já tinha feito discursos contra as injustiças e estava a tentar regularizar a situação das famílias que ali viviam. Estes grupos [que a terão matado] foram defendidos pela família Bolsonaro, que hoje está no poder. Foram homenageados quando o filho [mais velho de Jair Bolsonaro, Flávio] fazia parte da Assembleia do Estado do Rio de Janeiro. O próprio Bolsonaro, quando era deputado, defendeu a milícia como forma de combater outros crimes. Estes grupos são semelhantes à máfia. São formados por agentes do Estado, polícias que não atuam como polícias, até porque ninguém sabe quem são os miliciantes. [Atuam] na calada da noite, cobram pela segurança dos bairros, pela Internet, pelo telefone, pelo gás. Detêm o controlo de diversos comércios e impõem uma lei muito própria. Para estas pessoas [que vivem nestes bairros dominados pelas milícias] existe pena de morte porque eles fazem execuções sem que haja um julgamento. E olhe que no Brasil não existe pena de morte.

A violência está muito presente no seu livro, embora não explicitamente. A cena mais violenta é talvez a do corte da língua, com que abre o romance.
Sim, e no meio do romance [há] alguma violência contra a mulher.

Mas não existe nenhuma cena de agressão.
Essa violência é contada, narrada. Quando pensei neste trabalho, pensei justamente nessa violência que é muitas vezes silenciosa, não aparente, que é estrutural e que tem muito a ver com o passado escravagista do Brasil. Com essa violência patriarcal que atravessou os séculos, que vem desde o Brasil colonial até aos nossos dias e que não dá muito sinal de que esteja para acabar. Essa violência é quotidiana. Não está somente no ato, está em tudo.

“Quando pensei neste trabalho, pensei justamente nessa violência que é muitas vezes silenciosa, não aparente, que é estrutural e que tem muito a ver com o passado escravagista do Brasil.”
Itamar Vieira Junior, Prémio Leya 2018

É por isso que as personagens principais são todas mulheres? A violência doméstica é um problema grave no Brasil.
Sim, muito grande. E vejo que vocês aqui em Portugal estão muito comovidos com o crescente número de feminicídios. Foram 11 [desde que o ano começou], se não me engano. No Brasil, esse número é muito maior, porque o país é maior mas também pela fragilidade das instituições brasileiras, que não julgam nem condenam e, se o fazem, demoram a fazê-lo. No Brasil, existe uma lei, a Lei Maria da Penha [de 2006], que é um marco no sistema jurídico brasileiro, que criminaliza a violência contra mulher e que tipificou o que é um feminicídio, que antes não existia. É um crime de maior gravidade, que hoje é considerado de maior gravidade pela Justiça porque envolve essa relação desproporcional de poder do patriarcado. Mas o facto de as personagens do livro serem mulheres é porque quis fazer um retrato mais fiel da realidade do campo brasileiro, especialmente dessas regiões mais pobres, onde os homens muitas vezes precisam de migrar para trabalhar. Por exemplo, num evento de seca, sem nenhuma assistência do governo, eles precisam de procurar trabalho noutras regiões, geralmente em latifúndios. No corte de cana, na colheita do café ou noutras atividades. As mulheres é que permanecem nesses vilarejos — nos povoados, nas comunidades — e fazem a condução política do grupo. Não é à toa que as protagonistas vão-se envolvendo politicamente com as necessidades da comunidade. E elas são levadas a isso pela ausência do homem. E o homem muitas vezes viaja ou morre.

Itamar Vieira Junior foi finalista do Prémio Jabuti, o mais importante de literatura brasileira, com o livro de contos "A Oração do Carrasco"

Isso acontece inclusivamente com a mulher de Zeca Chapéu Grande, que sempre viveu à sombra do marido. É depois de ele morrer que ela começa a falar.
O Zeca Chapéu Grande é uma personagem que ainda não se tinha conseguido libertar da relação de servidão. Ele achava que se se libertasse, estaria a ser ingrato para com quem lhe deu a permissão para morar [naquela propriedade], embora trocasse isso por uma quantidade desproporcional de trabalho. Ele não se consegue libertar disso mas, ao mesmo tempo, protege aquelas pessoas de uma violência maior da parte dos donos do lugar. Quando ele morre, essas mulheres ganham protagonismo, principalmente a mulher dele. Ela passa a falar sobre as coisas, a contar histórias, envolve-se politicamente juntamente com o genro, que é sobrinho também. Começa a ver que naquilo que ele diz, que na sua visão do mundo, existe uma verdade e como são desiguais as relações de trabalho, a relação deles com a terra. Porque uns têm um título, e podem considerar-se donos e retirá-los dali a qualquer momento, enquanto eles, que nasceram, viveram ali e que conhecem aquele lugar como ninguém, não podem estabelecer esse tipo de relação. Então, ela envolve-se nisso também e passa a contar as histórias que vão empoderando o grupo, essas famílias, politicamente.

As histórias que ela contam são uma espécie de mitologia. Falam das origens daquelas pessoas.
Ela conta inclusivamente a história da sua família, que veio de lugar conhecido como Bom Jesus da Lapa, onde tinham apagado a memória da escravidão porque ali não havia senhores. E um dia chegou a Igreja, que começou a marcar as árvores, as casas, com o “BJ” do Bom Jesus e lhes disse que, apesar de já terem apagado essa memória, eles eram escravos de Jesus. Antes disso, não sabiam o que era a escravidão. Algumas pessoas devem ter fugido para essa área [na Bahia, onde ainda existem várias comunidades quilombolas] e conseguido viver em relativa paz por algum tempo. Acabaram por a saber o que era a escravidão quando a Igreja chegou.

A dada altura, Belonísia, uma das duas irmãs que protagonizam a história, que nunca se interessou muito pela escola, pensa que as aulas de História que costuma ter não lhe interessam porque os reis, rainhas e princesas, não lhe dizem nada. A realidade destas pessoas era, e sempre foi, outra.
O que ensinavam na escola não tinha qualquer relação com eles. Eram ensinados a ler enquanto aprendiam sobre a uva, que é uma fruta que nem sequer é cultivada na região. Não havia relação com o quotidiano, com a história deles, com a vida a deles. Com o modo de vida deles. Ela acha muito mais interessante estar com o pai [a trabalhar no campo], porque aprendia mais. Isso não quer dizer que rejeite a educação, ela rejeita a educação que lhe é oferecida. Tanto que, quando a irmã volta, e a irmã volta como professora de crianças pequenas, e traz alguns livros, a Belonísia lê esses livros e se envolve. Ela tem muito interesse pelo que o Severo e a irmã dizem, e aos poucos ganha esse poder também porque vai tomando também consciência do que é viver numa servidão.

O analfabetismo é ainda hoje um problema no Brasil.
Ainda temos um número grande de analfabetos.

Porque é que isso ainda acontece? A educação não chega a todos? Ou há um desinteresse da parte da população?
Há de tudo. O desinteresse é provavelmente um dos problemas, mas também há pouco investimento do estado brasileiro em educação básica. E creio que muito por interesse dos governantes, que querem manter essas pessoas dessa forma, que é uma maneira de as limitar e de evitar que saibam o que está a acontecer à sua volta, que passem a exigir os seus direitos e a lutar por mais coisas. Creio que essa falta de educação é estruturalmente planeada pelo estado brasileiro para que essas pessoas permaneçam condicionadas.

“Creio que essa falta de educação é estruturalmente planeada pelo estado brasileiro para que essas pessoas permaneçam condicionadas.”
Itamar Vieira Junior, Prémio Leya 2018

Isso ajuda a explicar o que se passa hoje no Brasil? Jair Bolsonaro chegou à presidência também com o apoio das classes mais baixas.
Acredito que muitas pessoas que vivem nessa realidade podem ter-se iludido e votado nele por falta de conhecimento, por não saberem muito bem. Por falta de educação mesmo, educação básica. Por não saberem diferenciar as propostas, por não saberem entender que ele dizia que queria mudança mas sem apresentar propostas concretas para o país. Podem ter caído numa cilada. Porque este é um governo que não pensa nessas pessoas, muito pelo contrário. O Bolsonaro, durante a campanha presidencial mas também durante toda a sua vida parlamentar, disse que não daria um centímetro de terra para a regularização de comunidades quilombolas [descendentes de africanos escravizados], para a regularização dos territórios indígenas. Ou seja, ele não enganou ninguém. Na campanha, ele disse no que é que acreditava. E mesmo assim as pessoas se iludiram, e ele terminou sendo eleito. Existe um problema educacional no Brasil muito grande. Acho que muitas pessoas foram incapazes de interpretar o que ele estava a dizer.

Mesmo que o tenha dito com tanta clareza?
Sim. A mim não me enganou em nenhum momento porque, durante a campanha, já dizia estas coisas. Por exemplo, houve um discurso bem polémico que ele fez no clube Hebraica do Rio de Janeiro em que comparou quilombolas a animais. Isto em 2017. Ele disse que tinha visitado uma comunidade de quilombolas e que esses quilombolas não serviam nem para procriar, que o mais leve pesava não sei quantas arrobas. Nós pesamos o gado em arrobas. É uma unidade de medida em que não se pesa o ser humano, e ele fez essa declaração. A Procuradoria-Geral da República fez uma denúncia contra ele pelos crimes de racismo e injúria racial no Supremo Tribunal Federal, [que foi depois rejeitada,] porque ele gozava de foro privilegiado como deputado. Ou seja, ele não foi em nenhum momento desonesto. Já estava muito claro a quem é que ele servia e qual era o projeto de governo que ele tinha, embora ainda não o tivesse apresentado. E mesmo assim as pessoas se iludiram e o elegeram presidente.

Como é que encara esta situação? Como é que olha para o futuro?
É difícil pensar no futuro. Para mim, pelo menos. Prefiro pensar no que acontecerá nos próximos dias. Este começo de governo tem sido tão conturbado que não sabemos de facto o que vai acontecer. Estamos mais assustados do que antes da eleição.

Damares Alves anunciou uma nova era em que "menino veste azul e menina veste rosa" quando assumiu o cargo de ministra dos Direitos Humanos

Ainda agora houve a primeira baixa no governo. O ministro da Secretaria-Geral, Gustavo Bebianno, foi demitido há uns dias.
Sim, houve uma demissão e por interferência do filho dele, [Carlos Bolsonaro, vereador no Rio de Janeiro], que não tem nenhum cargo no governo. Temos dificuldade em entender quem está realmente a mandar. Uma coisa que considero muito perigosa e muito temerária — acho que temerária é a melhor palavra — é que existe uma presença muito forte dos militares no governo. Dos 22 ministros, oito são militares. Há cerca de 50 militares contabilizados, até ao momento, em altos cargos de todos os ministérios. Parece que a população ao votar fez uma intervenção branca dos militares no estado brasileiro. Para nós que vivemos uma ditadura militar tão recentemente, que chegou ao fim há pouco mais de 30 anos, é muito recente, e nada justifica a presença de tantas militares em postos chaves do governo. Vejo com muito temor [tudo isso], porque parece que estão a tutelar este governo.

Sentem que está tudo a acontecer outra vez?
Sim, principalmente quando se descobre o que eles pretendem fazer quando se manifestam. A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos [Damares Alves] é uma mulher evangélica, um tanto fundamentalista, que traz este manual de regras e costumes da sua igreja para o governo e que acha que deve ser aplicado a toda a sociedade. Como ela, há outras pessoas que estão postos-chave que têm uma visão muito distorcida da nossa realidade. Por exemplo, o ministro da Educação [Ricardo Vélez Rodríguez]. Ele é colombiano, vive há 30 anos no Brasil e tem laços fortes com os militares porque foi professor na Escola do Exército. Há umas semanas, chamou o brasileiro de canibal e disse que roubava objetos quando viaja para fora do país. Apresentou o projeto Escola sem Partido, que seria uma espécie de vigilância das escolas contra a doutrinação. Os professores não teriam liberdade de cátedra e poderiam ser denunciados por qualquer aluno que considerasse que eles estavam tentar passar o seu pensamento político. Para mim, é uma coisa inimaginável porque fere a liberdade de expressão, de cátedra. É realmente assustador, porque ninguém sabe o que vai acontecer.

Como já referi, este romance começa com um corte na língua, uma imagem muito forte, que deixa o leitor inquieto. O que é que significa? Não pode ser apenas um corte…
Não, não é apenas um corte. Penso nele de forma simbólica. Essa ausência de língua, seria a ausência da voz, da voz que qualquer ser humano tem e que pode levantar para reclamar os seus direitos. Penso que esse corte também diz muito sobre como essas populações estão tolhidas dessa capacidade de se manifestarem. Elas não podem dizer o que pensam, o que querem para si. Esse corte aconteceu, mas tem um significado também. Ele não é suficiente para silenciar a personagem que é ferida e que não pode voltar falar — ela encontra outras maneiras de comunicar e de se manifestar. E a força dela vem daí também.

“O presidente da república pode atingir-me e ferir-me com os seus discursos, mas posso transformar isso num instrumento para pensar um país melhor, um mundo melhor, quando o confronto com a minha humanidade.”
Itamar Vieira Junior, Prémio Leya 2018

E depois há a faca que fez o corte, presente do início ao fim do livro. É também um símbolo de esperança?
Também, porque ela pode ferir mas também pode libertá-los da situação em que se encontram.

Isso acontece com a avó das duas irmãs, mas também com Belonísia e Maria Cabocla.
A faca que fere pode tornar-se num instrumento de luta e de defesa, simbólico. Podemos transformar a coisa que nos fere numa esperança de um mundo melhor. A mesma coisa com a palavra que me fere. O presidente da república pode atingir-me e ferir-me  com os seus discursos, mas posso transformar isso num instrumento para pensar um país melhor, um mundo melhor, quando o confronto com a minha humanidade.

Podemos então dizer que Torto Arado é também um romance sobre a força do ser humano e sobre a capacidade que este tem de superar as situações mais difíceis?
Sim, e aí penso na última narradora, que é um espírito que atravessou os séculos e que pôde presenciar toda a violência secular contra essas populações e o país. Ela vai muito nesse sentido — de transformar, de clarear. Precisava de alguém que iluminasse, que mostrasse que a história é contínua, não começa e termina com a vida de Bibiana e Belonísia. Essa história é muito mais ampla — é mais ampla do que eu, do que você. Somos fruto do passado, do que os nossos ancestrais passaram. Quis dar essa visão mais ampla para iluminar alguns aspetos que permanecem nebulosos na história [do romance], e acho que teve uma função interessante. Ao mesmo tempo, essa é uma personagem que está a ser esquecida por essas pessoas. É isso que acontece — as tradições vão-se transformando, vão sendo esquecidas, as novas gerações vão nascendo e ela vai-se enfraquecendo, e incomoda-se com isso. Ela diz: “Estou ser esquecida”. Então, antes que a esqueçam, decide mudar o que está ali, soprar a sua força para eles, para que as coisas se modifiquem.

Li uma entrevista da Dulce Maria Cardoso em que ela diz que a memória social se assemelha à memória do nosso corpo, à memória humana, e que parece que a memória social dos últimos 70 anos se está a esquecer dos horrores da Segunda Guerra Mundial e o que se passou com o nazismo, com o holocausto, o fascismo. Se não estivermos vigilantes, tudo pode voltar novamente. O mundo tem eleito líderes com esta ideologia da extrema-direita, e vemos com muito temor o fascismo a ressurgir no mundo. Então, penso nisso: precisamos de estar vigilantes para preservar a memória. Precisamos cada vez mais de arte, de museus, de história, de educação, para não repetirmos os erros do passado. O mundo está à sombra de tudo isto, que pode voltar a acontecer outra vez.

Considera que os escritores, os artistas, têm um papel importante nesta época negra que estamos a atravessar?
Não é apenas o papel do escritor e do artista. Nós, humanos, somos políticos e vivemos como seres políticos. Acredito muito nisso. Fazemos política todos os dias. Isto que a gente está aqui a fazer é política. Acredito que todo o ser humano tem a missão de se movimentar para modificar o que está à sua volta, para preservar a memória, contra as injustiças. A Declaração dos Direitos Humanos fez 70 anos e parece que as pessoas se esqueceram de tudo o que levou a ela e que corremos o risco de retroceder. Já estamos retrocedendo em alguns [pontos]. Este é o papel do artista mas também de qualquer cidadão. Acho que este envolvimento político é papel nosso. Foi o vazio que fez com que o fascismo ressurgisse no mundo, talvez por não estarmos envolvidos politicamente. O papel do escritor é simplesmente dar um testemunho do seu tempo e, ao fazê-lo, está a fazer política. Alguns podem dizer que é engajamento, mas não vejo isso dessa forma. É algo absolutamente natural. Para mim, qualquer escritor é um escritor político. Pode estar ou não estar envolvido diretamente, mas ele faz política quando escreve.

Acho que muitos escritores não concordariam consigo.
E que bom que pensamos de forma diferente! Mostra que ainda  preservamos o espírito democrático e crítico, e que posso dizer que “sim” e que outro pode dizer que “não”, e que podemos conviver pacificamente. O mundo é isso, é essa diversidade de ideias, de pensamentos. Não há nada mais humano do que isso.

Fotografias de Itamar Vieira Junior: © CMPV 2019; fotografias de

O Observador viajou até à Póvoa de Varzim a convite do Correntes d’Escritas

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