235kWh poupados com o Logótipo da MEO Energia Logótipo da MEO Energia
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica. Saiba mais

Logótipo da MEO Energia

Poupe na sua eletricidade com o MEO Energia. Simule aqui.

i

Em 2016, Bob Dylan foi o 113.º vencedor do prémio máximo literatura, "por ter criado novas expressões poéticas na tradição da canção americana"

Michael Ochs Archives

Em 2016, Bob Dylan foi o 113.º vencedor do prémio máximo literatura, "por ter criado novas expressões poéticas na tradição da canção americana"

Michael Ochs Archives

Literatura premiada: Bob Dylan, Winston Churchill e outros parasitas /premium

Galardoar Dylan com o Prémio Nobel foi reafirmar que a literatura não está, como tristemente se anuncia, pelas horas da morte, mas antes a transferir-se, como sempre fez, de um sítio para o outro.

[Depois de, na primeira parte deste artigo, se ter discutido a importância de prémios literários e de, na segunda, se ter analisado os problemas de representação que os acompanham, esta terceira parte irá, a partir da atribuição, em 2016, do Prémio Nobel da Literatura a Bob Dylan, debruçar-se acerca das fronteiras da literatura]

Em 2016, quando nada o fazia prever, Bob Dylan venceu o Prémio Nobel da Literatura. Naturalmente, uma escolha tão inusitada causaria ondas de choque e levantaria dúvidas sobre a legitimidade da decisão.

Há, desde logo, dois bons motivos para contestar esta escolha que devemos ter em consideração:

Por um lado, atribuir um galardão monetário tão prestigiado como este a uma personalidade como Bob Dylan pode tornar o prémio em grande medida inútil, desprezando a sua importante tarefa social. Ainda que não possamos ter a certeza de que foi esta a intenção original de Alfred Nobel ao instituir o prémio, o Nobel, como aliás qualquer outro prémio literário, serve quase exclusivamente para, de alguma forma, estimular o interesse pelos livros e para garantir que os premiados recebam, normalmente perto do fim da sua vida, uma quantia monetária não desprezável e um aumento significativo das suas vendas.

A atribuição deste prémio a um músico como Dylan não serve nenhum desses interesses: ainda que as vendas dos seus livros tenham disparado após a atribuição do Nobel, o valor que daí advém não será decerto comparável aos lucros que Dylan faz em qualquer uma das suas digressões mundiais. Evidentemente, a vida de um músico com o sucesso de Dylan é, nos dias que correm, consideravelmente mais desafogada do que a vida de qualquer escritor e o interesse pelas artes musicais não parece precisar de ser tão estimulado como o interesse pelas artes escritas. Mesmo em casos extremos como o de Leonard Cohen que, aos setenta anos, foi burlado e se viu obrigado a regressar aos palcos, a recuperação económica foi bastante mais simples do que teria sido fosse Cohen apenas um poeta. Nesse aspeto, é possível argumentar que a distinção concedida a Bob Dylan possa ter sido um passo em falso.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Ao nomear Bob Dylan vencedor do Nobel, a Academia Sueca parece sugerir que, pela primeira vez, um letrista suplantou a elite dos escritores

WireImage

Por outro lado, atribuir-se um Nobel a Dylan parece até um exercício de sobranceria por parte da Academia Sueca, em tudo semelhante, por exemplo, à atribuição do Óscar de Melhor Filme a “Parasitas”, em 2019, ou, em menor escala, à distinção em 2018 de DAMN, de Kendrick Lamar, com o prémio Pulitzer para a música, um prémio que nunca antes fora concedido a um artista pop (muito menos a um artista de hip-hop).

Ao atribuir-se pela primeira vez na história um Óscar de Melhor Filme a um filme não falado em inglês, a Academia de Hollywood não estava a reconhecer mérito ao cinema feito fora dos Estados Unidos, mas precisamente a retirar-lho, dizendo que, pela primeira vez na história da sétima arte, uma longa-metragem feita fora da sua jurisdição havia sido a melhor do ano. Seria, evidentemente, preferível que a Academia não reclamasse para si a capacidade de designar os melhores filmes do universo e procurasse apenas premiar os melhores (supondo que é isso que de facto está ali a acontecer) de entre os realizados no seu território. Da mesma forma, ao nomear Bob Dylan vencedor do Nobel, a Academia Sueca parece sugerir que, pela primeira vez, um letrista suplantou a elite dos escritores. Evidentemente, a partir do momento em que Dylan vence o Nobel, torna-se absurdo não considerar como putativos vencedores autores como Nick Cave, Patti Smith ou até Morrissey.

Tendo tudo isto em conta, convém então tentar compreender os argumentos a favor desta decisão. Antes de mais, não se tratou da primeira vez em que o vencedor não foi nem um romancista nem um poeta, no sentido mais restrito e literal do termo. Antes de Dylan, já Churchill recebera em 1953 um Nobel que não se ficara propriamente a dever ao seu romance (Savrola) descrito pela Academia Sueca em 1946 como sendo desprovido de qualquer mérito literário, mas antes pela sua biografia do Duque de Marlborough e, acima de tudo, pela capacidade oratória que evidenciava nos seus discursos.

Premiar Dylan é, então, recordar que, por mais importantes que os livros sejam (e são), não serão nunca tão essenciais como a nossa capacidade de ver, de ouvir e, acima de tudo, de nos espantarmos diante deste mundo incompreensível.

Em 2005, o Nobel fora atribuído a Svetlana Alexievich também em honra do seu trabalho documental acerca do mundo soviético e pós-soviético, da guerra do Afeganistão e do desastre de Chernobyl. Mesmo a descrição de Dylan como o primeiro letrista a vencer o Nobel só é aceitável se considerarmos que, em 1913, Rabindranath Tagore fora premiado pelos seus romances e poemas e não pelas mais de duas mil canções que escreveu. Aliás, não deixa de ser bizarro que se critique a ousadia e o exagero modernista desta atribuição quando a Academia estava, afinal, apenas a regressar às origens da poesia, a Homero e a Safo, como Sara Danius, secretária permanente da Academia Sueca, bem explicou aquando da comunicação de tão polémica escolha.

Se, pelo que acima se explicou, até pode ser compreensível a contestação a Dylan feita nestes termos, a vitória de alguém que escreveu obras-primas como “Shelter From the Storm”, “Don’t Think Twice, It’s All Right” ou “Ballad of a Thin Man” não pode deixar de ser absolutamente meritória a partir de qualquer critério que valorize a mestria na composição escrita. Assim, não é de espantar que nenhum dos críticos desta atribuição a tenham contestado a partir do talento literário de Dylan.

Antes de Dylan, já Churchill recebera em 1953 um Nobel que se ficou a dever sobretudo à capacidade oratória que evidenciava nos seus discursos

Wikimedia Commons

Não o fizeram, aliás, por dois motivos: em primeiro lugar, porque o talento de Dylan é visível a quilómetros de distância. E em segundo lugar, porque nunca são os méritos literários que estão em discussão nestas controvérsias corriqueiras, o que faz com que a escolha de um autor sem grande competência ou génio seja sempre tida como mais consensual (caindo dentro da jurisprudência dos gostos que não se discutem) do que a de alguém que não caiba nas categorias que nós, tão generosamente, lhes preparámos.

Contudo, ao atribuir-se a Dylan um prémio desta importância, está-se também a dizer algo de absolutamente fundamental e que deve ser repetido. Galardoar Dylan foi reafirmar que a literatura não está, como tristemente se anuncia, pelas horas da morte, mas antes a transferir-se, como sempre fez, de um sítio para o outro. Premiar Dylan é, então, recordar que, por mais importantes que os livros sejam (e são), não serão nunca tão essenciais como a nossa capacidade de ver, de ouvir e, acima de tudo, de nos espantarmos diante deste mundo incompreensível, em que you know something’s happening here, but you don’t know what it is.

joaopvala@gmail.com

Recomendamos

A página está a demorar muito tempo.