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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Manuel matou o genro para vingar a morte da filha. Se for condenado, será o recluso mais velho do país /premium

Matou o genro e sentou-se num banco ao lado do corpo. Ainda de caçadeira na mão, esperou que a GNR chegasse. Confessou e disse que sofria de violência doméstica. O julgamento começa esta quarta-feira.

Esperou duas horas, sentado num banco à porta da sua casa. Em punho, uma caçadeira carregada com dois cartuchos. Escondido pelo muro da residência, controlou dali, das 19h00 às 21h00, o portão do quintal por onde entraria o genro, António Veríssimo, de 68 anos, quando regressasse do café. Lá dentro tinha deixado a mulher, acamada devido uma doença oncológica.

Assim que a vítima atravessou o portão, Manuel Garcia “levantou-se” e “empunhou a caçadeira”. Não disse uma única palavra ao genro. “Apontou a arma ao seu peito e disparou dois tiros”, lê-se na acusação do Ministério Público, citada pela agência Lusa. Um atingiu Manuel no punho direito. O outro foi fatal: acertou no lado direito do peito.

“Levantou-se, empunhou a caçadeira e, sem trocar uma palavra, apontou a arma ao seu peito e disparou dois tiros, atingindo-o no punho direito e peito do lado direito”
Acusação do Ministério Público

Foi detido logo de seguida e posto em prisão preventiva. Se vier a ser condenado, Manuel “Açoriano” — como também é conhecido na aldeia de Furadouro, na cidade de Torres Vedras — será o recluso mais velho do país. Embora inicialmente as notícias fossem contraditórias — algumas diziam que o suspeito teria 60 a 70 anos –, Manuel tinha 89 anos na noite do crime, 6 de julho de 2018. Agora, prestes a fazer 90, vai começar a ser julgado no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa Norte, na cidade de Loures.

O arguido responde por um crime de homicídio qualificado e outro de detenção de arma proibida. Além destes, pode ainda ser condenado a uma pena acessória de interdição de detenção, uso e porte de armas. Para já, estão marcadas duas sessões de julgamento. A primeira acontece já esta quarta-feira. A outra está agendada para 27 de fevereiro.

Manuel vai começar a ser julgado esta quarta-feira no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa Norte, na cidade de Loures (Foto: Gustavo Bom / Global Imagens)

Gustavo Bom / Global Imagens

Homicídio por vingança

A filha de Manuel Garcia tinha morrido há quatro anos. Testemunhas dizem que sofria de violência doméstica e que acabou, por isso, por cometer o suicídio, mas também há quem garanta, como avançaram alguns jornais na altura, que a mulher tinha morrido na sequência de um ataque cardíaco.

Certo é que Manuel culpava o genro por aquela morte e terá querido vingança. Na altura do crime, ele e a mulher, que estava acamada na sequência de uma doença oncológica, viviam naquela casa, na aldeia de Furadouro, com António Veríssimo — que se mudou para lá com o filho de 30 anos, após a morte da companheira. Ali sofreriam, também eles, de violência doméstica por parte do genro. “Sempre se deu muito mal com os sogros, até havia pancadaria, e desde que a filha morreu tudo piorou, até porque começaram a viver todos juntos”, contou um vizinho na altura, ao Correio da Manhã. A situação, em casa, não era fácil e também António sofria de cancro.

"Sempre se deu muito mal com os sogros, até havia pancadaria, e desde que a filha morreu tudo piorou, até porque começaram a viver todos juntos"
Vizinho

Após a morte da filha, o relacionamento de Manuel Garcia com o genro piorou e “era pautado de grande agressividade verbal e mesmo física”, escreve o MP na acusação. Horas antes de o idoso ter disparado contra António, terão discutido. O arguido terá mesmo ameaçado o genro de morte. “Não me prejudiques que eu te mato”, terá dito, de acordo com o mesmo documento.

Aquela não era, porém, só uma ameaça. Manuel aproveitou o facto de o genro se ausentar naquele fim de tarde de verão e “formulou o propósito de o matar”. Foi buscar a caçadeira de António Veríssimo e carregou-a com dois cartuchos — os dois cartuchos com que viria a atingi-lo: um no punho, outro no peito. A seleção do Brasil e a da Bélgica jogavam nesse dia e o genro — ou Tonho como era conhecido ali — tinha ido ver o jogo do Mundial de Futebol de 2018. “Estivemos a ver a bola e depois ele foi para casa. Já o tínhamos avisado para ter cuidado: o Açoriano já tinha dito que o matava e tinha arma por ser caçador”, disse o mesmo vizinho.

Depois do crime, continuaram os três na casa: o genro no chão, onde acabaria por morrer devido a lesões no tórax provocadas pelos disparos; a mulher no quarto, onde estava acamada; e Manuel Garcia ao lado do corpo, onde aguardou que o viessem deter. O neto de 30 anos não estaria na casa nessa noite. Depois de cometer o crime, o homem de 89 anos sentou-se novamente no banco onde tinha aguardado, horas antes, pela chegado do genro. Continuou de caçadeira na mão, à espera para se entregar.

Manuel ficou em prisão preventiva, na prisão anexa às instalações da sede da PJ, em Lisboa (Foto: JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Foram os vizinhos que, apercebendo-se dos tiros e tendo ido ao local por isso mesmo, chamaram a ambulância, na esperança de ainda poderem salvar António Veríssimo, e a GNR. O alerta foi dado às 21h50. Por volta das 10h da noite, os militares chegaram à habitação, onde Manuel os aguardava para se entregar. Foi detido e acabou por confessar o crime. O genro foi assistido de imediato, mas acabaria por morrer ainda no local. O corpo só foi retirado depois da meia-noite, uma vez finalizadas as diligências da Polícia Judiciária (PJ).

Manuel Garcia ficou em prisão preventiva, na cadeia anexa às instalações da sede da PJ, em Lisboa, que viria, depois a investigar o caso. Um caso “pouco complexo”, segundo fonte desta força policial ao Observador, que justifica: “O senhor confessou, sabíamos qual era a arma do crime, sabíamos o móbil”. A medida de coação foi depois reavaliada para que o homem de 89 anos fosse institucionalizado num lar, até julgamento. Essa mudança ainda não foi cumprida. 

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