“A matemática é um jogo do qual se têm de aprender as regras”

01 Novembro 20152.123

“Se eu conseguir convencer alguém a não dizer que a matemática é um desperdício de tempo, já estarei a fazer alguma coisa para o futuro”, confessa o matemático Luca Gerardo Giorda.

Quis ser astronauta, como muitas crianças, mas também quis ser agricultor só para poder conduzir um trator. Mas Luca Gerardo Giorda acabou por ser matemático. Um matemático teórico com um trabalho tão abstrato que a própria mãe esperava que ele nunca tivesse de se preocupar com a aplicação da investigação que realizava, como contou ao Observador.

Mas agora preocupa-se. Luca Gerardo Giorda trabalha atualmente com modelos matemáticos aplicados às ciências da vida e lidera uma equipa no Centro Basco de Matemática Aplicada (BCAM, na sigla em inglês) – o único centro de matemática aplicada com o selo de excelência Severo Ochoa.

Severo Ochoa

Foi um físico e bioquímico espanhol, galardoado com o prémio Nobel 1959 por ter descoberto o mecanismo de síntese biológica do ácido ribonucleico e desoxirribonucleico (ARN e ADN).

O programa “Severo Ochoa Centros de Excelência” pretende distinguir as melhores unidades de investigação espanholas e é promovido pela Secretaria de Estado para a Investigação, Desenvolvimento e Inovação, do Ministério da Economia e Competitividade espanhol. Para o BCAM, o milhão de euros anuais significam 40% do orçamento do centro, o que lhes permite contratar pessoas e convidar investigadores estrangeiros para temporadas na instituição.

Luca Gerardo Giorda gosta da matemática porque pode criar mundos novos - D.R.

Luca Gerardo Giorda gosta da matemática porque pode criar mundos novos – D.R.

O que o levou a estudar matemática?

Quando entrei para a faculdade de matemática descobri um universo que era completamente abstrato e adorei. Naquela altura, a abstração pura para mim era incrível. Adorei a ideia de poder construir mundos que não significam nada. Porque um mundo matemático é verdadeiro, desde que se o derive logicamente e sem contradições, a partir de um pressuposto inicial. São os nossos próprios mundos, onde as as regras são aquelas que lhes impomos.

Escolher matemática foi bastante natural, mas houve uma coisa, em particular, que me fez avançar nessa direção. Havia um amigo da minha família, um matemático que deu aulas da faculdade de Turim durante muitos anos, que me confessou: “Digo-te apenas uma coisa: a matemática faz-nos viajar o mundo”. Era o que eu queria fazer. E faço. Já vivi em três locais diferentes em Itália, em Paris, em Atlanta e agora em Bilbau. E já viajei, em trabalho, para a costa ocidental dos Estados Unidos, para o México e para a Arábia Saudita. E eu adoro viajar.

E já gostava de matemática quando era criança?

Eu gostava da matemática naquela altura porque era divertido. Era um jogo com as suas regras e uma vez aprendidas essas regras, jogava-se. Na verdade, o meu maior êxito enquanto professor aconteceu quando eu tinha 14 anos. Uma amiga minha estava a ter notas muito más e eu expliquei-lhe as coisas da forma como eu as entendia. Ela achou tudo mais simples e acabou por perceber. E na prova oral teve uma nota muito boa. Até a nossa professora estava surpreendida com isso. Mas para mim foi apenas olhar para as coisas do ponto de vista mais simples.

"As crianças acreditam que a matemática é uma coisa complicada e que os professores não prestam, porque toda a gente lhes disse isso. E não é necessariamente verdade."

E foi ensinado a pensar dessa forma ou começou simplesmente a pensar assim?

Lembro-me que era bom a brincar com as tabelas de multiplicação na escola primária, porque, mais uma vez, se tratava de um jogo. Mas não me lembro de nenhum professor me ensinar a olhar para a matemática como um jogo. Além disso, nenhum dos meus pais frequentou a universidade e não tinha um historial de pessoas na minha família ligadas à ciência ou à matemática que me ensinassem ou decalcassem essa forma de pensar mais simples. De alguma forma, isso surgiu naturalmente. Acho que isso faz parte do talento individual.

Paralelamente ao trabalho de investigação, anda a promover a matemática nas escolas. Como se vê nesse papel?

Enquanto comunidade de matemáticos, nós devíamos fazer alguma coisa para as crianças serem expostas a formas diferentes de ensino da matemática desde a escola primária. Porque tem de ser um jogo.

As crianças acreditam que a matemática é uma coisa complicada e que os professores não prestam, porque toda a gente lhes disse isso – incluindo as suas famílias. E não é necessariamente verdade, mas quando chegamos ao ciclo com esta ideia é difícil mudá-la. Depois há outro problema: os professores da escola primária têm de ensinar todas as matérias e a matemática não costuma estar entre as suas preferidas.

Mas se eu conseguir convencer alguém – ou seja, as crianças – a não dizer que a matemática é um desperdício de tempo, já estarei a fazer alguma coisa para o futuro. E pode ser em relação à matemática ou em relação a qualquer outra ciência. Uma vez aprendidas as regras, podemos criar os nossos próprios mundos.

Modelo da geometria cerebral reconstruída a partir de uma ressonância magnética - BCAM/www.bcamath.org

Modelo de propagação de uma onda condicionada pela geometria cerebral – BCAM/www.bcamath.org

 

Começou como matemático teórico, mas agora está numa área mais aplicada. O que o fez mudar?

Primeiro pensava apenas na teoria, mas depois comecei a tentar computar as soluções. Precisava de encontrar algoritmos adequados para o computador e com esses algoritmos conseguia calcular as soluções para os problemas. Portanto, comecei a trabalhar neste tipo de coisas. Depois comecei a ver pessoas a trabalhar em coisas mais aplicadas e senti que também gostava de o fazer.

Naquela altura tive a sensação de estar a usar um martelo e um parafuso para tentar solucionar os algoritmos. E já não era divertido. Onde é que está a criatividade nisso? Se o nosso carro não está a funcionar, levamo-lo ao mecânico, mas eu não queria ser um mecânico, queria ser aquele que desenhava o motor. Por isso é que precisei de mudar. E comecei a trabalhar em dinâmicas populacionais, epidemias.

Que trabalho desenvolveu com epidemias?

Estávamos a tentar desenvolver um cenário, uma estratégia, para responder a uma epidemia. E estávamos a considerar todas as ligações possíveis entre as localidades, como as linhas aéreas ou de comboios, de forma a associar a probabilidade de um passageiro transmitir o vírus de uma localidade para outra. Foi a única altura em que estive a trabalhar com epidemias humanas, porque com as pessoas do departamento de biologia da Universidade de Emory [Atlanta, Estados Unidos] estava a trabalhar mais em epidemias ecológicas.

Estudámos, por exemplo, os surtos de raiva em texugos. Foi uma forma interessante de tentar combinar dados de observação e os modelos teóricos. Conhecendo os dados históricos destas epidemias, conseguimos determinar a qualidade da monitorização dos diferentes distritos do estado de Nova Iorque e, no fim, criámos um mapa de acordo com esse nível de eficácia. Assim, o departamento de proteção ambiental pode decidir como distribuir os fundos para a monitorização, porque não há fundos ilimitados.

"Antes era matemático porque gostava de criar universos estranhos, mas agora gosto de resolver problemas."

E agora em Bilbau, o que está a fazer?

Em Bilbau, estamos a aplicar a matemática a problemas médicos. Estamos a trabalhar com um cardiologista em Barcelona para criar um modelo computacional de um elétrodo para otimizar a posição deste elétrodo e estamos a trabalhar com neurocientistas para tentar perceber se há alguma relação entre a geometria do córtex cerebral e a ocorrência de enxaquecas.

Também fazemos algumas simulações médicas em geometrias reais. E já vimos que, de facto, existe uma relação. Agora temos de perceber se é possível evitar as enxaquecas agindo sobre a geometria.

E a última coisa que estamos a fazer é emparelhar o modelo da atividade metabólica com a atividade elétrica nos neurónios, das células cerebrais. Estamos a tentar construir uma ponte, porque as pessoas que estão, atualmente, a trabalhar acerca do cérebro concentram-se ou na atividade elétrica dos neurónios ou na atividade metabólica, mas as duas coisas estão interligadas.

Faz alguma ideia para onde vai a seguir?

Não sei quando é que me vai surgir a necessidade de mudança outra vez, mas sei isso vai acontecer. Tem a ver comigo e não com o facto de ser um matemático. Eu sou um matemático porque gosto de resolver problemas. Antes era matemático porque gostava de criar universos estranhos, mas agora gosto de resolver problemas. E nós gostamos de fornecer aos médicos não apenas uma resposta, mas a resposta mais provável conforme a informação disponível. Por isso, há todo um novo universo que terá de ser desenvolvido. Ou talvez decida que já chega para mim e abra um bar algures, na costa do México… [Risos]

O Observador esteve na conferência de comunicação de ciência 100xCiencia, onde foram apresentados os centros de investigação com Selo Severo Ochoa, a convite da organização do evento.

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