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Candace Montgomery, à esquerda, confessou o homicídio de Betty Gore. Ainda assim foi considerada inocente. A atriz Elisabeth Moss vai protagonizar a sua história

Candace Montgomery, à esquerda, confessou o homicídio de Betty Gore. Ainda assim foi considerada inocente. A atriz Elisabeth Moss vai protagonizar a sua história

Matou a mulher do ex-amante à machadada, confessou e foi absolvida. Agora, a vida de Candy vai dar uma série /premium

Há 40 anos, Candace Montgomery, então com 30, matou a mulher do ex-amante à machadada, confessou, mas não foi condenada. Agora usa outro apelido, trabalha como terapeuta e vai ver a sua história na TV

Terá sido um dos casos extraconjugais mais ponderados — ou menos espontâneos, talvez seja este o adjetivo mais adequado — da história. Antes de, no dia 12 de dezembro de 1978, finalmente se fecharem num quarto de hotel e de se tornarem amantes, Candace Montgomery e Allan Gore discutiram durante meses sobre se deviam ou não envolver-se — ela chegou a recebê-lo em casa, para um almoço, e colou na parede da cozinha uma grande folha de papel com duas colunas por preencher: de um lado os prós, do outro os contras.

O que não faltavam eram motivos para que se mantivessem à distância e deixassem intacta a tímida relação de amizade, nascida nos bancos da Igreja Metodista de Lucas, a cidade suburbana do Texas, a cerca de 50 quilómetros de Dallas, nos arredores dos quais ambos moravam, com as respetivas famílias.

Ela era casada com Pat, um promissor engenheiro eletrotécnico a trabalhar na Texas Instruments, e tinha dois filhos pequenos, um rapaz e uma rapariga; ele era o marido de Betty, uma professora primária que tinha decidido justamente nessa altura que estava na hora de voltar a engravidar, para dar um irmão ou irmã à filha de 5 anos, Alisa.

Não estavam perdidamente apaixonados um pelo outro, mas já há muito tempo que ela, dona de casa com a agenda cheia de afazeres e compromissos domésticos, se sentia aborrecida. Tanto que tinha até pensado que a solução para animar os seus dias podia passar por arranjar um amante — um qualquer, não necessariamente Allan.

Sobretudo por intermédio das crianças e da igreja, os quatro, todos prestes a chegar à casa dos 30, mantinham uma relação cordial, muito à base de boleias, encontros no parque e dormidas das crianças, ora numa, ora noutra casa.

Nunca tinham propriamente conversado sobre nada a não ser trivialidades e não estavam perdidamente apaixonados um pelo outro, mas já há muito tempo que ela, dona de casa com a agenda cheia de afazeres e compromissos domésticos, se sentia aborrecida. Tanto que tinha até pensado que a solução para animar os seus dias podia passar por arranjar um amante — um qualquer, não necessariamente Allan.

Só na tarde em que, a meio de um jogo de voleibol no campo da igreja, no fim daquele verão, esbarraram um no outro e lhe sentiu o cheiro, Candy, como era conhecida na cidade, pensou pela primeira vez: “Porque não?”.

Uma semana mais tarde, depois de um ensaio do coro, correu atrás dele pelo parque de estacionamento e sentou-se no lugar do pendura, impedindo-o de arrancar. “Allan, há algum tempo que quero falar contigo, a propósito de uma coisa que me anda a incomodar. Tenho pensado muito em ti e isso incomoda-me muito e não sei sequer se quero ou não que faças alguma coisa a esse respeito. Sinto-me muito atraída por ti e estou cansada de pensar nisso e por isso queria dizer-te”, disparou, antes de voltar a sair do carro.

O par acabou não só  por se envolver, mantendo um affair secreto ao longo de vários meses, como teve um desfecho trágico: na noite de 13 de junho de 1980 o corpo da mulher de Allan, Betty Gore, foi encontrado no meio de uma poça de sangue e com sinais de extrema violência, dentro da despensa da casa da família.

Allan, incrédulo, manteve-se calado e sem reação. Durante uma semana inteira, não lhe disse nada. Até que, depois de mais um jogo de vólei, acabou por arranjar coragem para lhe perguntar o que tinha ela em mente. “Estarias interessado em ter um caso?”, foi como Candy lhe respondeu. “Acho que não poderia fazer isso, Candy. Não seria uma coisa sensata a fazer, porque eu amo a Betty. Uma vez, quando vivíamos no Novo México, ela teve um caso que me magoou muito, não gostaria de lhe fazer isso.”

O par acabou não só por se envolver, mantendo um affair secreto ao longo de vários meses, como teve um desfecho trágico: na noite de 13 de junho de 1980, o corpo da mulher de Allan, Betty Gore, foi encontrado no meio de uma poça de sangue e com sinais de extrema violência, dentro da despensa da casa da família, no subúrbio de Wylie, a 11 quilómetros de Lucas.

Na altura, Allan, que já tinha decidido por um ponto final no caso com Candy, estava fora em trabalho, algures no estado do Minnesota. A autópsia revelou que a professora, então com 30 anos, foi morta com golpes de machado — 41 no total.

40 anos depois, a mini-série com Elisabeth Moss

A história, que foi contada em pormenor em janeiro de 1984 pelos jornalistas Jim Atkinson e John Bloom, primeiro na Texas Monthly, depois no livro Evidence of Love: A True Story of Passion and Death in the Suburbs (Prova de Amor: Uma História Real de Paixão e de Morte nos Subúrbios), foi transformada em telefilme logo em 1990 e vai agora ser adaptada novamente à televisão, mas em modo mini-série. Elisabeth Moss, protagonista premiada da aclamada “The Handmaid’s Tale” (“A História de uma Serva”), foi a escolhida para representar Candy Montgomery, que entretanto se divorciou e regressou ao nome de solteira — bem longe do Texas.

Apesar de, em tribunal, ter confessado (e de forma detalhada) o homicídio de Betty Gore, Candy foi considerada inocente por um júri de 9 mulheres e 3 homens, em outubro de 1980 — “legítima defesa”, foi como justificaram o veredito alcançado em pouco mais de quatro horas de deliberação.

A atriz Elisabeth Moss foi a escolhida para protagonizar o papel de Candy Montgomery. Série vai ser produzida pela UCP e ainda não tem nenhuma plataforma de streaming associada

Getty Images for MTV

Quatro décadas depois de ter saído do tribunal, livre de algemas, mas sob vaias da população, ainda em choque pela brutalidade do crime — “Assassina! Assassina!” —, Candace Wheeler é terapeuta de saúde mental e diretora de uma clínica especializada no apoio a vítimas de trauma, onde trabalha com a filha mais velha, Jenny, a melhor amiga de infância de Alisa Gore.

Ao contrário da irmã, Bethany, então com apenas 11 meses, era em casa dos Montgomery que Alisa estava no dia em que a mãe morreu. Ao fim da tarde, enquanto se divertia com os Montgomery no drive-in local, a ver o “Império Contra Ataca”, o segundo filme da saga Star Wars, acabado de estrear, a irmã bebé estava sozinha em casa — e a mãe jazia morta algumas divisões ao lado desde o meio da manhã.

Apesar de estar longe e por demais desesperado, Allan Gore foi o primeiro suspeito considerado pelas autoridades. Bastou-lhe revelar aos inspetores que até há bem pouco tempo tinha mantido um caso com Candy Montgomery, ainda para mais a última pessoa a ter visto Betty com vida, para a investigação mudar de rumo.

Só quando três vizinhos, alertados por Allan, a vários estados de distância, finalmente arrombaram a porta, descobriram o cenário macabro e chamaram a polícia, é que Bethany foi resgatada. Estava há mais de 12 horas no berço, sem comer nem beber, com a fralda suja e já sem forças sequer para chorar — ao longo da tarde, vários outros vizinhos e amigos, a pedido do marido, tinham passado por lá e tocado à campainha, sem sucesso, mas como ouviam a bebé chorar e os cães, no jardim das traseiras, a ladrar, tinham partido do princípio de que Betty estava ocupada e não podia atender. A única pessoa que disse a Allan ter visto Betty no dia do crime foi Candy: “Estava bem. Parecia que estava com pressa que eu me fosse embora. Deve ter ido ter com amigos”, desvalorizou.

Apesar de estar longe e por demais desesperado — foi ele quem percebeu que algo de errado se passava, depois de ter ligado inúmeras vezes para casa sem que Betty levantasse o auscultador do telefone —, Allan Gore foi o primeiro suspeito considerado pelas autoridades. Bastou-lhe revelar aos inspetores que até há bem pouco tempo tinha mantido um caso com Candy Montgomery, ainda para mais a última pessoa a ter visto Betty com vida, para a investigação mudar de rumo.

Traição à hora de almoço

Antes de trocar as roupas do dia-a-dia pelo negligée cor de rosa, pelos tornozelos, com que recebeu Allan na fatídica hora de almoço de dezembro de 1978 em que experimentaram ter sexo pela primeira vez, Candy escreveu uma série de regras.

Iam encontrar-se de quinze em quinze dias, às terças ou às quintas, num quarto de hotel perto do escritório de Allan, na cidade vizinha de Richardson. Candy tratava da logística, que incluía comida e bebida, para não perderem tempo e poderem aproveitar bem as duas horas de interrupção que ele tinha no trabalho, mas todas as despesas seriam divididas pelos dois.

Se algum deles quisesse parar, a relação acabava — “No questions asked”. Se alguém se envolvesse demasiado emocionalmente, o caso acabava; se começassem a correr riscos desnecessários, o caso acabava. Não tinha como correr mal.

Depois de comerem, sentados na cama do quarto 2-13 do hotel Continental Inn, o almoço de frango marinado com salada de alface, tomate cereja e pedaços de bacon que ela tinha preparado nessa manhã — para acompanhar levou vinho branco e para a sobremesa fez um cheesecake —, Candy e Allan consumaram finalmente a traição.

A descrição de Atkinson e Bloom, feita através de entrevistas aos dois, será um bom exemplo do que foi o caso que mantiveram — pelo meio, Betty engravidou, Candy organizou-lhe um baby shower, Allan e a mulher fizeram terapia de casal e Pat e Candy tomaram conta das filhas deles durante o fim de semana que passaram fora, em retiro.

“O sexo era suave, convencional e satisfatório. Também era breve. No início, Candy ficou espantada com a ingenuidade de Allan como amante. Quando ela enfiou a língua na boca dele, percebeu que ele nunca antes tinha dado um beijo à francesa. A boa notícia era que ele aprendia depressa”, escreveram os jornalistas na primeira parte da reportagem que publicaram na Texas Monthly. “Por seu turno, Allan foi positivamente levado. Candy era tão ativa e enérgica — mexeu-se tanto — que Allan considerou a experiência sexual mais excitante que alguma vez tivera. Era bom para ele porque parecia ser muito bom para ela. Não aguentou durante muito tempo, mas lembrou-se da sensação durante dias”, detalharam.

Depois de comerem, sentados na cama do quarto 2-13 do hotel Continental Inn, o almoço de frango marinado com salada de alface, tomate cereja e pedaços de bacon que ela tinha preparado nessa manhã — para acompanhar levou vinho branco e para a sobremesa fez um cheesecake —, Candy e Allan consumaram finalmente a traição.

Durante uns meses, continuaram a encontrar-se regularmente no Como Motel, também nas imediações do escritório de Allan, mas mais barato e com um ambiente bas-fond que acentuava a ilicitude que os unia e, de alguma forma, divertia.  Mas, apesar da euforia inicial, o sexo nunca foi uma parte preponderante do caso que mantiveram durante mais de um ano. Tanto que, a dada altura, até decidiram saltar essa parte para terem mais tempo para conversar sobre as respetivas vidas e para, pelo meio, flirtar um com o outro — era isso que os unia.

Depois de vários avanços e recuos, em que ela quis parar por ter medo de se apaixonar e em que ele pôs o caso em pausa para poder mais assistência à mulher, que tinha acabado de ter uma bebé, colocaram finalmente um ponto final na relação, mais de um ano depois de se terem envolvido pela primeira vez. A iniciativa partiu de Allan mas foi Candy, mais uma vez por inércia dele, quem acabou por dizer as palavras em voz alta. “Allan, pareces estar a deixar isso para mim. Por isso decidi, não vou telefonar. Não vou tentar ver-te. Não vou incomodar-te mais”, rematou de forma segura, escassos minutos depois de ter admitido não estar preparada para deixar de ver o amante. Semanas mais tarde, Betty Gore estaria morta.

Hipnose, confissão e veredicto: inocente

Na manhã em que tudo aconteceu, Alisa tinha acordado em casa dos Montgomery e Allan tinha ido para fora, em trabalho. Meses mais tarde, Candy contaria em tribunal que só passou por casa do ex-amante para pedir autorização a Betty para ficar com a criança durante mais uma noite — e para ir buscar o fato de banho dela, para a poder levar à natação. Terá sido Betty, revelou também, quem a afrontou: “Candy, estás a ter um caso com o Allan?”, terá perguntado a professora, que depois de ouvir a resposta terá deixado a sala de estar para ir buscar a roupa da filha e voltado, em vez disso, com um machado na mão.

Defendida em tribunal por Don Crowder, um advogado que conhecia da igreja, que nunca tinha tido um caso de sangue em mãos e que, anos mais tarde, se viria tragicamente a suicidar, Candy foi avaliada por um psiquiatra e hipnoterapeuta — que acabou por determinar toda a estratégia da defesa: Candy não só não teria premeditado o crime como se teria limitado a reagir à agressão da amiga e mulher do ex-amante.

“Bati-lhe. Bati-lhe. E bati-lhe. Ela caiu devagar, quase para uma posição sentada. Continuei a bater-lhe. E a bater-lhe… Senti-me tão culpada, tão suja. Senti-me tão envergonhada”, admitiu Candy Montgomery, perante uma sala de audiências horrorizada na sexta-feira dia 24 de outubro de 1980. Na quarta-feira seguinte seria considerada inocente de todas as acusações.

Sob hipnose, antes do início do julgamento, Candy, então com 30 anos, contaram os jornalistas Jim Atkinson e John Bloom, regrediu às frustrações da infância e reviveu o momento em que, com 4 anos apenas, perdeu uma corrida com um amigo e ficou de tal forma zangada que descarregou toda a sua ira numa jarra da própria mãe — que a repreendeu com um “shhhh”.

Esse “shhhh”, defendeu Crowder em tribunal, depois de ter chamado Candy a depor, foi o “gatilho” que deu origem a tudo o que aconteceu — e que justificaria os 41 golpes de machado com que a dona de casa matou e desfigurou a amiga, bem como o facto de ter deixado uma bebé durante mais de 12 horas sozinha numa cena de crime. Tudo porque Betty, já prostrada e com ferimentos provavelmente fatais, depois de uma pretensa luta corpo a corpo que deixou Candy apenas com um corte num dedo do pé esquerdo, terá emitido esse mesmo som: “shhhh”.

“Bati-lhe. Bati-lhe. E bati-lhe. Ela caiu devagar, quase para uma posição sentada. Continuei a bater-lhe. E a bater-lhe… Senti-me tão culpada, tão suja. Senti-me tão envergonhada”, admitiu Candy Montgomery, perante uma sala de audiências horrorizada na sexta-feira dia 24 de outubro de 1980.

Na quarta-feira seguinte seria considerada inocente de todas as acusações. A decisão nunca viria a ser alterada.

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