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Anadolu Agency via Getty Images

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Minneapolis está a arder (e o Presidente está a deitar mais gasolina na fogueira) /premium

Um homem negro morre às mãos da polícia e os motins explodem na América. A história não é nova, mas, à beira de eleições e com o voto afro-americano em disputa, ganha nova relevância.

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I can’t breathe” — “Não consigo respirar”. Foi uma das últimas frases ditas por George Floyd, o homem negro de 46 anos que morreu deitado no chão, com o joelho de um agente da polícia em cima do seu pescoço, detido por alegadamente ter tentado usar uma nota falsa de 20 dólares numa loja em Minneapolis, no estado do Minnesota. “I can’t breathe” foi também uma das últimas frases ditas antes de morrer por Eric Garner, outro afro-americano morto durante uma detenção, desta vez em Nova Iorque, em 2014. O Minnesota foi também o estado onde outros jovens negros morreram na sequência de interações com polícias, como Philando Castille, parado numa simples operação de trânsito que acabou com o homem de 32 anos atingido a tiro por ter tentado abrir o porta-luvas.

Outras formas haveria de ligar esta história a outros nomes do passado como Freddie Gray (Baltimore, 2015) ou Tamir Rice (Cleveland, 2015). Quase todos deram origem a motins como aqueles que se registam em Minneapolis desde terça-feira, dia em que foi tornado público o vídeo da sua detenção. A esquadra do agente em causa foi incendiada e várias lojas destruídas e assaltadas. O governador pediu a intervenção da Guarda Nacional para patrulhar as ruas. Uma equipa da CNN foi detida enquanto fazia o seu trabalho, sem qualquer explicação, embora se tenha predisposto a cumprir todas as regras.

Jornalista da CNN detido em direto enquanto cobria protestos em Minneapolis

Cenas semelhantes aconteceram, por exemplo, em Ferguson (Missouri) aquando da morte do adolescente Michael Brown, em 2014, incidente que deu origem ao movimento ativista Black Lives Matter e que trouxe o tema da brutalidade policial contra os negros para a ordem do dia. Também na altura, os motins arrasaram a cidade durante dias, a Guarda Nacional foi chamada e um repórter foi detido sem explicação aparente. Desta vez, porém, há dois fatores diferentes nesta equação: o agente responsável pela morte de George Floyd foi detido e acusado em tempo recorde, nesta sexta-feira; e o Presidente já não é Barack Obama, mas sim Donald Trump.

Michael Brown e Lesley McSpadden, os pais de Michael Brown, jovem de 18 anos morto a tiro por um polícia em Ferguson, em 2014

Getty Images

“O peso visual da morte de Floyd” acordou para uma realidade antiga

Perante o vídeo onde se vê a morte de George Floyd, a maioria dos responsáveis políticos do Minnesota condenou de imediato a ação do agente, sem grandes margens para dúvidas. O presidente da câmara de Minneapolis, Jacob Frey, interrogou-se ao fim de 36 horas, “porque é que o homem que matou George Floyd não está detido?”, em público. O governador do estado do Minnesota, Tim Waltz, disse na tarde desta sexta-feira que a cidade “está a arder”, mas que compreendia a origem dos motins, acrescentando que “as cinzas são o símbolo de décadas e gerações de dor e de angústia nunca escutadas”.

[O vídeo que se segue contém conteúdo sensível que pode chocar alguns leitores]

“Infelizmente, este problema não é novo. A raça é a fissura mais profunda deste país. Porque é que nem toda a gente consegue ver isso? Não entendo”, comentou ao Observador Alex Kotlowitz, jornalista norte-americano e autor de várias obras de não-ficção como There Are No Children Here e An American Summer (sem edições em português), acerca da violência exercida sobre a comunidade afro-americana. “O caso de Minneapolis parece tão escandaloso não só porque foi filmado, mas porque o próprio agente parecia estar numa atitude de desafio. Tanto que outras pessoas da mesma área já condenaram o caso, como o chefe da polícia de Chicago, que insistiu em que os agentes da sua força vissem o vídeo para saberem aquilo que não devem fazer”.

Frases que não surpreendem quando se olham para os dados, que revelam que os homens negros têm uma probabilidade três vezes maior de serem atingidos a tiro pela polícia do que os brancos. E, particularmente no estado do Minnesota, as disparidades raciais são bem reais: de acordo com o The New York Times, os afro-americanos no estado têm salários em média correspondentes a 1/3 do salário dos residentes brancos, têm menor probabilidade de concluir o ensino secundário e maior probabilidade de ficarem desempregados. Tudo isto num estado onde os níveis de qualidade de vida são superiores à média de todos os Estados Unidos, o que levou o académico Samuel L. Myers Jr. a cunhar o termo “o paradoxo do Minnesota”.

A esquadra do agente que provocou a morte de George Floyd foi incendiada por alguns dos manifestantes em Minneapolis

Star Tribune via Getty Images

Sekou Franklin, professor de Ciência Política da Universidade Estatal do Tennessee, especializado em questões raciais, tenta explicar porque razão este caso ressoou em mais pessoas nos EUA, apesar de não ser de todo novidade: “O peso visual do vídeo da morte de Floyd é inegável para a maioria das pessoas”, aponta ao Observador. “Mas este tipo de brutalidade policial existe nos EUA desde sempre. A diferença entre agora e o que se passava há 20 anos é que agora há câmaras por todo o lado”. O que não significa, diz, que tal tenha feito desaparecer “as divisões profundas entre brancos e negros”.

“As pilhagens” e “os tiros”, a guerra contra o Twitter e um Presidente em campanha

O Presidente Donald Trump também anunciou na quarta-feira uma investigação do FBI e do Departamento da Justiça ao caso, garantindo aos “amigos e família” de Floyd que “será feita Justiça” e repetindo várias vezes no Twitter que é importante honrar a memória do homem que morreu. Mas declarações suas mais recentes sobre os motins em Minneapolis parecem ter feito mais para incendiar os ânimos do que para os acalmar, com Trump a ameaça enviar mais membros da Guarda Nacional e declarando que “as pilhagens levam a tiros”.

Trump esclareceria horas mais tarde, já depois de o agente policial filmado no vídeo de Floyd ter sido detido e acusado, que estava apenas a constatar um facto, apontando para incidentes de violência que se registaram em Minneapolis ao longo da semana, associados aos motins. Os tweets originais —  onde dizia que “estes RUFIAS estão a desonrar a memória de George Floyd” e que “em caso de dificuldade assumiremos o controlo, mas quando começam as pilhagens, começam os tiros” — foram sinalizados pelo Twitter como um conteúdo sensível por “glorificarem a violência” e ficaram apenas acessíveis a quem clique para lá dessa mensagem. Foi mais um episódio da guerra que se abriu esta semana entre o Presidente norte-americano e a mudança de postura desta rede social face ao que ali publica Trump.

A guerra entre Trump e o Twitter que pode mudar a internet

Mas apesar de ter sido sinalizada pelo Twitter, a referência à expressão que liga “pilhagens” a “tiros” continua presente. Foi usada em 1967 precisamente por um chefe da polícia de Miami conhecido pelas suas táticas policiais agressivas sobre a comunidade negra local, numa conferência de imprensa onde ainda acrescentou o seguinte: “Não nos importamos de ser acusados de brutalidade policial. Eles ainda não viram nada”, declarou o agente Walter E. Headley.

É por isso que analistas como o professor Franklin dizem não ter dúvidas de que o uso por parte do Presidente de frases como esta não acontece por acaso: “Aquilo que ele está a tentar fazer com estes tweets é mobilizar a sua base eleitoral”, diz “Trump está a olhar para o plano geral, que tem muito pouco a ver com Minneapolis”. Ou seja, para o académico, em causa estão as eleições presidenciais de novembro e as perspetivas de o Presidente ser reeleito. E, perante uma situação em que a economia está em queda e à medida que milhares morrem infetados com Covid-19, Trump quer garantir que não perde pelo menos os seus eleitores mais fiéis — geralmente mais conservadores e associados a movimentos de defesa dos polícias.

O Presidente Donald Trump na conferência de imprensa de sexta-feira, onde não referiu a situação em Minneapolis

Getty Images

Kotlowitz também não se surpreende com a retórica e afirma mesmo que é simplesmente o culminar de uma série de ações que este governo tem levado a cabo nesta matéria: “Esta administração tem-se oposto ativamente à fiscalização federal de departamentos policiais com problemas. É por exemplo o caso da minha cidade, Chicago, onde há anos se vivem experiências de abuso policial contra minorias sem haver responsabilização”, conta.

“No início do seu mandato, Trump sugeriu que não havia problema que os agentes tivessem ações físicas para com as pessoas que estavam a deter. Uma e outra vez, Trump tem sugerido que não há problema em o Estado — ou a polícia — atacar os seus próprios cidadãos.” Ao mesmo tempo, acrescenta o autor, o Presidente incentiva manifestantes brancos, ligados a milícias armadas, como os que invadiram o Capitólio do estado do Michigan, exigindo o fim das medidas de confinamento ligadas à Covid-19. “É isto a América?”, questiona-se.

Trump defende manifestantes que tentaram entrar armados e à força em assembleia do Michigan: “São muito boas pessoas, mas estão zangadas”

Trump, Biden e a luta pelo voto afro-americano

Uma posição divisiva que se está a acentuar agora e que contrasta até com as ações discretas, mas recentes, que Trump e os que lhe são mais próximos têm vindo a tomar em relação aos afro-americanos. Em fevereiro, o genro e conselheiro do Presidente, Jared Kushner, deixou claro numa entrevista ao Washington Post que a campanha de reeleição de Trump iria procurar obter mais votos de cidadãos negros do que os que tinha conseguido em 2016: “Nunca vamos ter os votos se não os pedirmos”, afirmou Kushner. “Da última vez dizíamos ‘O que é que vocês têm a perder?’. Agora mostramos-lhes o que ganharam com Trump Presidente”.

Em causa estavam sobretudo o baixo nível de desemprego entre a comunidade afro-americana, que atingiu níveis históricos durante esta presidência, a par da evolução favorável da economia norte-americana no geral. Com isso em mente, Kushner e outros estrategas de Trump puseram em marcha ações como uma campanha publicitária milionária dirigida a afro-americanos no intervalo da Super Bowl e criaram uma série de centros em determinados estados com o nome de “Vozes Negras por Trump” — que durante a pandemia evoluíram para uma série de conversas online onde o Presidente é elogiado por pessoas da comunidade.

“Ganhar uma eleição é uma questão de centímetros”, reconheceu o analista democrata Cornell Belcher à Bloomberg, dizendo que seria “negligente” por parte do Partido Democrata ignorar esta tendência da campanha de Trump.

Mas, com a chegada do novo coronavírus, esta estratégia parece ter tido o seu fim. Não só já era difícil convencer o eleitorado afro-americano a olhar com outros olhos para Trump — com as sondagens repetidamente a apontarem este segmento da população como um que considera o Presidente “racista” —, como a Covid-19 tratou do resto. Os afro-americanos são atualmente um dos grupos raciais mais atingidos pela pandemia nos EUA, muitas vezes associada aos elevados níveis de pobreza dentro da comunidade. Com a Covid veio o desemprego e a crise económica, que tende a afetar ainda mais os afro-americanos e a prejudicar as possibilidades do Presidente junto deles.

Perante este cenário, o professor Franklin especula que a tática do Presidente terá mudado e recuado à da campanha de 2016: “A ideia por trás dessa campanha dele e dos apoiantes dele, sobretudo no Twitter, era a de convencer os negros de que para eles não haverá qualquer diferença seja ele ou um Presidente democrata”, ilustra. “Deixar os afro-americanos tão desiludidos com a política para que eles não votem quando chegar novembro”.

Um ângulo que não é descabido se tivermos em conta que a abstenção dos afro-americanos em 2016 foi um dos fatores que contribuiu para a eleição de Trump, já que Hillary Clinton não conseguiu ter nem de perto o mesmo apoio que Barack Obama tinha tido por parte deste segmento do eleitorado. Um exemplo: em Detroit, Clinton registou em 2016 menos 46 mil votos de afro-americanos do que aqueles que tinham sido alcançados por Obama em 2012.

Joe Biden e Barack Obama comentaram ambos as desigualdades raciais nos EUA esta sexta-feira

Samir Hussein

É por isso fulcral para o candidato democrata à Casa Branca manter consigo o eleitorado negro. Joe Biden é popular entre a comunidade, muito graças ao facto de ter sido vice-presidente de Obama, mas não a pode tomar como garantida. Gaffes como a que levou a cabo há apenas alguns dias, quando disse numa entrevista que se alguém tem dúvidas ao escolher entre ele ou Trump “é porque não é negro”, podem ter um efeito contrário ao esperado. E a situação em Minneapolis pode ser forte o suficiente para condicionar a sua escolha de uma candidata a vice-presidente mulher (como já garantiu que iria ter): Amy Klobuchar, uma das favoritas, é senadora precisamente no Minnesota e não só é branca como não tem um currículo estelar no que diz respeito a agressões de polícias a negros no estado.

Talvez por isso, tanto Biden como o próprio Obama se apressaram a falar sobre o caso de George Floyd esta sexta-feira, com o candidato a anunciar que falou com a família de Floyd. Obama deu mais uma ajuda: “Temos de nos recordar que, para milhões de americanos, se tratado de forma diferente por causa da sua raça é trágica, dolorosa e insanamente ‘normal’”, escreveu o ex-Presidente — no Twitter.

Na sua conferência de imprensa diária desta sexta-feira, Trump não abordou a morte de George Floyd, a acusação do agente da polícia em causa ou as “pilhagens” na cidade. Em vez disso, voltou à carga contra a China e a Organização Mundial da Saúde, anunciando corte oficial de relações com a OMS, sem nunca referir o nome “Minneapolis”. Mas Alex Kotlowitz considera que é importante não esquecer o que o Presidente norte-americano fez com um simples tweet, esta sexta-feira de manhã, ao “usar a animosidade racial como uma arma política”. “Ele sempre fez isto”, diz o jornalista. Só que agora a situação é muito mais “volátil” do que em 2016: “Trump criou um barril de pólvora”.

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