Não foi isso que eu disse. As contradições, avanços e recuos dos protagonistas da greve dos motoristas

14 Agosto 2019

A ANTRAM anuncia, o Governo desmente. Os sindicatos dizem uma coisa e algumas horas depois o seu contrário. Em três dias de greve já houve espaço para desmentidos, avanços e recuos de todas as partes.

Os três primeiros dias de uma greve convocada por tempo indeterminado têm sido uma espécie de batalha entre dois protagonistas: de um lado a ANTRAM (Associação Nacional de Transportes Públicos Rodoviários de Mercadorias), representada por André Matias de Almeida, do outro o SNMMP (Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas) com Pedro Pardal Henriques a tomar o palco e os microfones, claro. Pelo meio vai estando o Governo, numa tentativa de minorar os efeitos da greve sentidos pelos portugueses e de manter a paz social.

O discurso de parte a parte não tem, no entanto, sido coerente. Talvez a quantidade alucinante de vezes que falam ao país esteja a contribuir para algumas imprecisões, que levaram por exemplo o Governo a desmentir a informação da ANTRAM sobre o risco de falhas nos transportes para os hospitais e a informação dos motoristas sobre os tanques do aeroporto de Lisboa. O primeiro recuo veio do SNMMP, ainda mal tinha raiado o sol no primeiro dia de greve.

"As pessoas que aqui estão estão revoltadíssimas, já não vão sair, não vão sequer fazer os serviços que estavam escalados porque não vale a pena continuar assim"
Pedro Pardal Henriques cerca das 08 horas, 12 de agosto

Depois de passar a madrugada em Aveiras, na Companhia Logística de Combustíveis (CLC), Pedro Pardal Henriques avançava com a informação de que os serviços mínimos decretados pelo governo “não seriam cumpridos” contrariando a declarações do presidente do sindicato, Francisco São Bento, nos dias que antecederam o início da greve. Francisco São Bento tinha garantido que os serviços mínimos iam ser “estritamente cumpridos” e durante algum tempo, o porta-voz do sindicato — Pardal Henriques — convenceu toda a gente que talvez não fosse bem assim.

Mas umas horas bastaram para que Pardal Henriques surgisse, num tom mais suave, a tentar aligeirar a incitação ao boicote dos serviços mínimos: “Há pessoas que não são escaladas e dizem-lhes que têm de cumprir serviços mínimos e não têm — e, depois, saem daqui escoltadas”, disse, não conseguindo, no entanto, apagar da memória dos portugueses as primeiras declarações do dia, apelando ao boicote: “Os serviços mínimos não seriam cumpridos”.

Pedro Pardal Henriques, advogado e porta-voz do SNMMP, fala aos jornalistas na CLC em Aveiras DIOGOVENTURA/OBSERVADOR

“Acho que o Estado devia ver os prejuízos que esta situação está a ter. O que vai acontecer nas situações que relatei [trocas de combustível em descargas feitas por militares em Sesimbra, Peniche e Nazaré] é a necessidade de se esvaziarem os tanques”
Pedro Pardal Henriques à agência Lusa cerca das 20h30, 14 de agosto

Durou pouco tempo a ideia de que os militares responsáveis pelos abastecimentos tinham cometido erros em três postos do país. Pedro Pardal Henriques alertava ao início da noite para as falhas nos abastecimentos em Sesimbra, Nazaré e Peniche, mas menos de cinco horas depois o Ministério da Defesa emitia um comunicado a desmentir essa informação.

“O Ministério da Defesa Nacional esclarece que são falsas as informações veiculadas sobre a existência de três situações de trocas de combustível em descargas feitas em Sesimbra, Peniche e Nazaré, por militares das Forças Armadas”, esclarecia o Ministério liderado por João Gomes Cravinho num comunicado enviado à agência Lusa. Estava desmontado um argumento de Pardal Henriques, às primeiras horas da madrugada do terceiro dia de greve, o segundo depois de decretada a requisição civil.

"[Ninguém vai] fazer absolutamente nada hoje [quarta-feira]"
Pedro Pardal Henriques cerca das 07h30, 14 de agosto

Foi com números que o Governo contrariou o sindicato na manhã do terceiro dia de greve. Pedro Pardal Henriques começou o dia a afirmar que “ninguém iria fazer nada”, mas os números do Executivo, divulgados antes das 12h, contrariaram-no. “Esta quarta-feira entre as 6h e as 10h, saíram pelo menos 71 camiões cisterna de Aveiras de Cima”, escreveu o Governo num comunicado enviado à agência Lusa. De acordo com a nota, os camiões estavam a ser “conduzidos por motoristas de empresas e sem escolta de militares”.

Motorista sai da Companhia Logística de Combustível, em Aveiras, na quarta-feira. DIOGOVENTURA/OBSERVADOR

"É mentira, tem [combustível] pelo menos para dois dias, o que representa pouco mais de 50%"
Ministro João Pedro Matos Fernandes, em conferência de imprensa pouco depois das 13h30. 14 de agosto

O ministro do Ambiente e da Transição Energética também foi peremptório neste outro desmentido: a informação que os motoristas tinham dado de que os tanques de combustível do Aeroporto de Lisboa estavam cheios era falsa. Durante a manhã de quarta-feira, sete camiões regressaram a Aveiras e, recusando-se a acabar o seu turno, os motoristas juntaram-se aos colegas que estavam à porta da CLC.

O motivo? À Rádio Observador Pedro Pardal Henriques afirmou que nenhum dos motoristas teria conseguido descarregar os camiões. No entanto, outra fonte, presente no piquete de greve, afirmava que todos tinham conseguido descarregar o combustível no aeroporto, o único problema seria que a espera para o fazer era longa porque a quantidade de camiões presentes era o que dizia ser de um dia normal e não de um dia de greve.

Pouco depois Pedro Pardal Henriques já dizia que apenas alguns dos motoristas que teriam ido descarregar ao aeroporto teriam voltado com a carga ainda no camião.

Na conferência de imprensa de balanço da greve, o ministro Matos Fernandes foi bastante claro e acrescentou ainda que, dos serviços mínimos decretados no país, Aveiras era o único local onde os números do cumprimento dos serviços estavam abaixo do esperado pelo Governo.

Os abastecimentos a hospitais das zonas de Lisboa, Leiria e Coimbra “ficam, nas próximas 24 horas, seriamente comprometidos”
Advogado da ANTRAM André Matias de Almeida cerca das 13 horas, 13 de agosto

Antes do desmentido do Ministério da Saúde, enviado pouco depois das 16 horas à TSF, foram os hospitais e a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) quem se apressou a desmentir o alerta da ANTRAM, em declarações à Rádio Observador. Lisboa, Coimbra e Leiria não tinham registo de qualquer dificuldade nos abastecimentos de hospitais e centros de saúde e não havia motivo para alarme. Mais tarde, a tutela esclareceu: “O abastecimento aos hospitais e centros de saúde está garantido através do acesso à REPA. Está ainda garantido o acesso de todas as entidades, definidas como prioritárias, que prestem serviços de emergência médica e de transporte de medicamentos e dispositivos médicos, nos termos previstos na RCM n. 134/A/2019 de 9 de Agosto”. Ainda na mesma nota o Ministério da Saúde esclarecia que “todas as unidades estavam a funcionar normalmente”.

"O representante do sindicato tem de sair da mesa de negociações"
André Matias de Almeida, advogado da ANTRAM, à TSF cerca das 09h45, 12 de agosto

Quem ouviu André Matias de Almeida nesta quarta-feira de manhã na Rádio Observador a negar veementemente alguma vez ter pedido o afastamento do porta-voz do SNMMP das negociações entre os patrões e os trabalhadores pode até duvidar da própria memória, mas a verdade é que, no primeiro dia de greve, o porta-voz da ANTRAM foi bem claro ao pedir o afastamento de Pardal Henriques do processo de negociação.

Além de declarações à TSF na primeira manhã da greve, repetiu, minutos depois, o mesmo pedido à Rádio Observador: “Este conflito só pode ser resolvido ou com Pardal Henriques fora da mesa das negociações ou com outra postura deste sindicato relativamente àquilo que têm sido as suas declarações públicas, e que se são verdade que por uma vez apresente uma prova e um documento”. O advogado da Associação repetiu o pedido algumas horas mais tarde, na RTP: “Ou o Dr. Pardal Henriques sai das negociações e aparece alguém com quem seja possível conversar ou então se quer ficar tem que mudar, reconhecer o erro, voltar atrás e numa postura de humildade, dizer que não esteve bem quando mente descaradamente na televisão e acusa os empresários”. É certo que o ambiente entre as partes estava crispado com a incitação ao boicote dos serviços mínimos feito por Pardal Henriques, mas custa a crer que André Matias de Almeida não se recorde daquilo que pediu, pelo menos, por duas vezes, em dois momentos diferentes.

“A ANTRAM pede ao Governo uma requisição civil urgente. A situação a que neste momento chegamos é dramática. Em Sines, o incumprimeito dos serviços mínimos é de 100%, no Aeroporto de Lisboa é de 75%. Na Petrogal deveriam ter saído 225 cargas, saíram 48”
André Matias de Almeida cerca das 15h30, 12 de agosto

Também na requisição civil o Governo provou que a ANTRAM não estava completamente certa nos números que avançava para justificar o pedido de “requisição civil urgente”. A requisição civil decretada, ao final da tarde de segunda-feira, tinha por objetivo assegurar o cumprimento dos serviços mínimos que garantam o abastecimento dos aeroportos, da região sul a partir de Sines e da Rede de Emergência de Postos de Abastecimento (REPA), bem como das unidades autónomas de gás natural. A refinaria da Petrogal, em Leça da Palmeira, não está abrangida na requisição civil decretada, não tendo até esta quarta-feira sido necessária a intervenção de qualquer militar para substituir motoristas de matérias perigosas. Na refinaria da Petrogal, o coordenador do Sindicato dos Motoristas de Matérias Perigosas Manuel Mendes garantiu ao Observador, na segunda-feira, que os serviços mínimos estavam a ser cumpridos com “mais de 100 camiões” que já tinham realizado “segundas e terceiras cargas”.

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