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“As batalhas vencem-se através de carnificina e manobras. Quanto melhor for o general, maior é o seu contributo em manobras e menor a exigência em carnificinas”. A frase é de Winston Churchill e a história da invasão alemã de Creta, em 1941, confirma plenamente a sua justeza, pois a inépcia, a falta de rigor e foco e o desleixo foram responsáveis por milhares de mortes vãs e inglórias entre as forças em presença: a incompetência dos comandantes de ambos os lados fez pagar um elevado preço em carnificina. De como este misto de incompetência e rigidez e desprezo pelas vidas dos homens às suas ordens parece dominar a actuação de muitos comandantes militares dá testemunho o livro Creta 1941: A batalha por Creta e a resistência grega na II Guerra Mundial, agora editado em Portugal com tradução de Fernanda Oliveira – a editora é a Bertrand, que tem vindo a publicar outras obras fundamentais deste notável historiador britânico especialista na II Guerra Mundial (confiram-se Ardenas 1944, Stalingrado, Dia D: A batalha da Normandia, A queda de Berlim ou A II Guerra Mundial).

“Creta 1941”, de Antony Beevor (Bertrand)

Prólogo

A primeira pergunta que se impõe é: o que levou as tropas alemãs para Creta, quando os Balcãs não faziam parte dos planos de Hitler para 1941 e a sua atenção estava concentrada na preparação da invasão da URSS?

Antes de mais, o inenarrável misto de bravata e frouxidão do seu aliado italiano. Com ciúmes dos retumbantes êxitos militares de Hitler, Mussolini sentiu-se na obrigação de mostrar que não lhe ficava atrás e, entusiasmado com a facilidade com que derrotara e anexara a Albânia, em Abril de 1939, julgou que a Grécia seria presa igualmente fácil. A 28 de Outubro de 1940, 140.000 soldados italianos invadiram a Grécia a partir da Albânia, mas não só foram rechaçados como o contra-ataque grego penetrou em território albanês.

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A 9 de Março de 1941 seguinte, Mussolini lançou novas divisões em combate, mas os gregos continuaram a resistir ferozmente. Com os Balcãs em tumulto, os britânicos, que já lutavam com os italianos no Norte de África, julgaram prudente enviar algumas unidades para território grego, embora de forma discreta, pois o Governo grego não queria que tal fornecesse pretexto para uma invasão alemã. Os receios eram fundados: Hitler receava que os britânicos pudessem utilizar a Grécia como base para lançar raids aéreos contra os campos petrolíferos de Ploiești, na sua aliada Roménia.

Auxílio britânico à Grécia face à invasão italiana: Bombardeiro Bristol Blenheim no aeródromo de Menidi/Tatoi, Grécia, Abril-Maio de 1941

Para assegurar o domínio dos Balcãs e assegurar uma rota expedita para a invasão alemã da Grécia, Hitler pressionou a Jugoslávia a juntar-se ao Pacto Tripartido (a que já tinham aderido a Hungria, a Roménia e a Bulgária), mas quando o Governo jugoslavo cedeu à insistência alemã, gerou-se uma sentimento de descontentamento que resultou num golpe de Estado que depôs o Governo do príncipe regente Paulo, a 27 de Março. Hitler não perdeu tempo: a 6 de Abril, o exército alemão entrou na Jugoslávia e, num ápice, tomou conta do país. As tropas alemãs provenientes da Jugoslávia uniram-se às unidades lançadas a partir da fronteira búlgara (no mesmo dia da invasão da Jugoslávia) e entraram em Atenas a 27 de Abril.

Tropas alemãs entram em Atenas, Maio de 1941

As forças britânicas na Grécia acabaram por revelar-se suficientemente fortes para despertar a inquietação de Hitler, mas demasiado fracas para ajudar os gregos a fazer frente à Wehrmacht e tiveram de ser evacuadas atabalhoadamente pela Royal Navy, numa operação que foi concluída a 30 de Abril, deixando quase todos os seus veículos e armamento pesado nas praias gregas, numa reedição da evacuação de Dunquerque

Avanço alemão sobre a Jugoslávia e Grécia e evacuação das forças britânicas rumo à Baía de Skuda, em Creta

Pára-quedas sobre Creta

Apesar de a Operação Barbarossa ocupar cada vez a mais as atenções de Hitler, a presença britânica em Creta, agora reforçada por algumas das unidades evacuadas do continente, continuava a ser um incómodo, pois mantinha em aberto a possibilidade de ataques por bombardeiros de longo alcance contra Ploiești. A superioridade naval britânica no Mediterrâneo era incontestável – a marinha italiana, após várias derrotas esmagadoras, preferia não sair das suas bases – pelo que um desembarque por mar em Creta estava fora de questão. Foi assim que o general Kurt Student, o criador da Divisão Pára-quedista alemã, propôs ao Reichsmarschall Goering que a ilha fosse invadida pelo ar.

General Kurt Student, 1941

Goering, que, após o fiasco da Batalha de Inglaterra, precisava de um triunfo espectacular para provar a superioridade da sua Luftwaffe, “vendeu” a ideia a Hitler. Este, embora costumasse abraçar facilmente novas formas de fazer a guerra, mostrou-se, inesperadamente, reticente e previu que a ofensiva teria um elevado número e baixas. Mas Goering tanto insistiu que, a 25 de Abril, o Führer acabou por dar luz verde à Operação Mercúrio.

Na preparação para o ataque, a Luftwaffe lançou repetidos ataques contra Creta e limpou os aviões britânicos dos céus. Porém, a destruição de infra-estruturas resultante da guerra na Grécia e a dificuldade em fazer chegar combustível aos aeródromos da Luftwaffe forçaram a adiar a invasão da ilha para 20 de Maio.

Pára-quedistas alemães, Creta, Maio de 1941

A principal vantagem de um ataque por pára-quedistas é a surpresa. Ora, no caso de Creta não só a possibilidade de uma invasão pelo ar era considerada pelos britânicos logo desde o ataque italiano à Grécia, em Outubro de 1940, como tinham mesmo provas indesmentíveis do que os alemães estavam a preparar, com detalhes sobre datas, objectivos e forças envolvidas, graças à intercepção e decodificação das mensagens encriptadas dos alemães através do sistema Ultra, com sede em Bletchley Park.

Em contrapartida, os alemães nada sabiam sobre as defesas do seu alvo: os seus péssimos serviços de informação julgavam que as unidades britânicas evacuadas da Grécia continental tinham seguido todas directamente para o Egipto e os voos de reconhecimento foram realizados com tal displicência que não tinham identificado as baterias e defesas camufladas dos britânicos: para eles a ilha estava praticamente deserta. Para mais, convenceram-se de que seriam bem recebidos pelos cretenses, um equívoco que só podia resultar do absoluto desconhecimento do orgulhoso sentido de independência dos cretenses e do historial de tenaz resistência a invasores.

Pára-quedistas alemães, Creta, Maio de 1941

Porém, o lado britânico pouco uso fez da “informação privilegiada” que permitiria armar uma cilada mortal aos pára-quedistas: na ilha reinava a desorganização e o desleixo de que é paradigmático o testemunho de um oficial recém-chegado, que viu um grupo de soldados a pintar uma ponte enquanto outro grupo se preparava para a demolir. Um oficial do Special Operations Executive (SOE) escreveu num relatório para Londres. “O nosso pessoal parecia sofrer de uma total inércia. Nem sequer tinham feito os preparativos mais elementares. Embora já estejamos há seis meses em Creta, não há uma única estrada de Caneia [uma das principais cidades, na costa norte, onde fora instalado o quartel-general britânico] para a costa sul”. Perante os ataques constantes da Luftwaffe aos aeródromos na costa norte, a RAF não manifestou qualquer iniciativa para improvisar aeródromos alternativos nas zonas montanhosas do interior, menos expostas aos ataques alemães – limitou-se a entregar o domínio dos ares aos alemães: na véspera da invasão, a presença da RAF na ilha estava reduzida a seis caças Hurricane e 17 aviões obsoletos. A componente naval britânica não dava indícios de maior aprumo e diligência: “não havia um extintor de espuma na baía de Suda, embora esta fosse uma base naval há seis meses”, lia-se noutro relatório. O pior, escreve Beevor, eram as comunicações: “os telefones de campanha dependiam de cabos lassos estendidos ao longo dos postes telegráficos […] Os aparelhos de rádio disponíveis […] eram pouco fiáveis e escassos” e o general Bernard Freyberg, o neo-zelandês que comandava a Creforce (a força mista britânica, australiana, neo-zelandesa e grega em Creta), “nem sequer mencionou rádios na sua lista de necessidades urgentes enviada para o cairo […] As lanternas de sinalização não tinham pilhas” e as que se podiam ligar a uma tomada não eram de voltagem compatível. E “embora os últimos caças da RAF [tivessem] sido retirados […] o quartel-general da Creforce rejeitou as recomendações para dinamitar ou bloquear as pistas de aterragem”.

O general Bernard Freyberg, Creta, Maio de 1941

Toda esta displicência, que seria difícil de aceitar numa estância de férias, tinha lugar numa ilha em pé-de-guerra que aguardava a invasão iminente por um inimigo temível e implacável e cujos defensores sabiam que do zelo colocado nos preparativos podia significar a diferença entre a vida e a morte ou um cativeiro duríssimo (e ainda há quem se espante por ser tão fácil roubar material de guerra de bases militares portuguesas em tempo de paz…).

Batalha de Creta: o primeiro dia de combates, 20 de Maio de 1941

Beevor escreve que “poucos comandantes na História beneficiaram de informações secretas tão precisas sobre as intenções, calendário e objectivos do seu inimigo” como Freyberg. Porém, como escreveu um brigadeiro do estado-maior britânico, Freyberg era um “urso de cérebro pequeno” (“sereno, mas obtuso” opinou o escritor Evelyn Waugh, que também estava em Creta por aquela altura) e, entre outras demonstrações de pouco discernimento, interpretou mal as informações que lhe foram transmitidas e meteu na cabeça que o grosso do ataque alemão se faria por mar. Assim sendo, reteve junto à costa várias unidades que poderiam ter facilmente esmagado os pára-quedistas alemães, acaso tivessem sido movimentadas oportunamente. Quando as largadas de pára-quedistas começaram, na manhã de 20 de Maio, Freyberg tomava o pequeno-almoço na sua moradia – consultou o relógio, comentou “Chegaram mesmo na hora” e retomou placidamente a sua refeição, como se todos os preparativos tivessem sido feitos e bastasse aguardar pela inevitável derrota alemã.

Pára-quedista alemão sai de um planador, Creta, Maio de 1941

Verdade seja dita que o desleixo e desorganização no lado alemão quase comprometeram a Operação Mercúrio: os atrasos na partida forçaram muitas centenas de pára-quedistas a ficar retidos em terra, a artilharia anti-aérea britânica semeou a destruição entre os lentos Junkers Ju-52, muitos pára-quedistas foram lançados nos locais errados e rapidamente exterminados pelas tropas britânicas ou pelos habitantes locais, que despacharam sem piedade os que ficavam pendurados nas árvores e linhas telefónicas.

Os pára-quedistas sofreram perdas pesadíssimas e não atingiram nenhum dos objectivos designados para o primeiro dia e um comboio de pequenas embarcações com reforços e material foram implacavelmente afundadas pela Royal Navy, em boa parte porque o mau planeamento da viagem fez com que a noite descesse muito antes de chegarem à costa grega (a Royal Navy raramente se atrevia a operar durante o dia, devido à superioridade da Luftwaffe, mas de noite não tinha oponentes).

Pára-quedistas alemães aprisionados pelos britânicos, Creta, Maio de 1941

A Operação Mercúrio estava na iminência de ser abortada quando os britânicos, num momento de descoordenação e desnorte, em boa parte resultante das dificuldades de comunicações e falta de liderança, retiraram de Maleme, o único aeródromo que estava (timidamente) ameaçado pelos alemães. Estes, mal conseguindo crer no que viam, apressaram-se a chamar os reforços da 5.ª Divisão de Montanha, que começaram a ser desembarcados na pista pelos Junkers Ju-52 a um ritmo frenético.

Tropas da 5.ª Divisão de Montanha preparam-se para embarcar nos Junkers Ju-52

Não tardou que fossem em número suficiente para fazer recuar os ingleses e as tentativas da Royal Navy para auxiliar as tropas em terra resultaram em pesadas perdas de navios que dissuadiram os britânicos de navegar no raio de alcance da Luftwaffe durante o dia.

Efeitos de um raid da Luftwaffe sobre os navios britânicos na Baía de Suda, Creta, Maio de 1941

A 26 de Maio, quando o desfecho da batalha pendia já para o lado alemão, os aliados italianos lá se decidiram a agir e desembarcaram tropas no lado oriental de Creta (à semelhança da sua “intrépida” intervenção na invasão da França, em 1940). As tropas britânicas, australianas e neo-zelandesas tiveram de empreender uma penosa fuga para sul, através de pedregosos caminhos de montanha, a fim de serem evacuados pela Royal Navy a partir do porto de Skafia – uma espécie de “Dunquerque parte 3”. Mas a agressividade da Luftwaffe e a rapidez do avanço alemão forçaram a suspensão da operação de evacuação no dia de Junho, quando ainda havia 12.000 soldados aliados na ilha.

Feridos britânicos evacuados de Creta desembarcam em Alexandria, 31 de Maio de 1941

Rescaldo

A vitória dos pára-quedistas de Student em Creta foi pírrica: as forças alemãs tinham registado, entre 20 de Maio e 2 de Junho, 4000 mortos e desaparecidos e 2600 feridos, correspondendo metade destas baixas apenas ao primeiro dia de operação dos pára-quedistas.

Pára-quedista alemão morto, Creta, Maio de 1941

O general Student foi chamado à Toca do Lobo, o quartel-general de Hitler na Prússia Oriental, para ser condecorado com Cruz de Ferro e para Hitler lhe comunicar que “não voltaremos a fazer outra operação com tropas aerotransportadas. Creta provou que os dias das tropas pára-quedistas chegaram ao fim”. A dizimada Divisão de Pára-quedistas foi enviada para a frente russa como força terrestre e não voltaria a ser usada na sua qualidade de força aerotransportada.

Pára-quedistas alemães frente a sepulturas de camaradas, Creta, Maio de 1941

Os Aliados parecem ter tirado lição oposta da Batalha de Creta: britânicos e, depois, norte-americanos, investiram fortemente na criação de forças aerotransportadas.

Das tropas aliadas retidas em Creta, uns foram feitos prisioneiros e outros juntaram-se à guerrilha cretense. Esta revelou extraordinária tenacidade, tirando partido na topografia acidentada, da ausência de vias de comunicação decentes e da coragem e determinação da população local, que deu abrigo e assistência aos guerrilheiros (andartes) e raramente colaborou com o ocupante. O livro de Beevor está cheio de detalhes, uns cruentos, outros pitorescos, sobre a forma como a guerrilha foi conduzida e sobre a fabulosa galeria de personagens excêntricas nela envolvidas (uns cretenses, outros operacionais do SOE). Na prática, o controlo alemão só era efectivo nas cidades e as patrulhas só raramente se aventuravam nas zonas montanhosas.

A ocupação, sobretudo quando foi dirigida pelo general Friedrich-Wilhelm Müller (“o carniceiro de Creta”) foi conduzida de forma brutal e muitos dos ataques dos guerrilheiro resultaram em represálias implacáveis, que passavam pelo fuzilamento em massa de civis e pela destruição sistemática de aldeias.

São factos que ajudam a compreender a forma vigorosa como muitos gregos reagiram às imposições alemãs durante a recente crise das dívidas soberanas europeias.

Implicações no desenrolar da guerra

Há muito que os historiadores discutem se a invasão alemã dos Balcãs e o ataque a Creta terão atrasado a Operação Barbarossa e terão desviado dela recursos que poderiam ter determinado outro desfecho dos eventos.

O rumo da História seria diferente se a Operação Barbarossa tivesse sido desencadeada não a 22 de Junho mas no início de Maio? Há quem sugira que a invasão de Jugoslávia e Grécia terá custado preciosas semanas que poderiam ter sido cruciais para que a Wehrmacht tivesse tempo para conquistar Moscovo e vibrar um golpe ainda mais pesado nas forças soviéticas, antes de o Inverno imobilizar as suas divisões e impedir a actuação da Luftwaffe.

Outra teoria sustenta que não teria sido possível lançar a Operação Barbarossa antes de 22 de Junho, ou por a meteorologia não ser propícia. Outros historiadores sugerem que a Barbarossa foi retardada por problemas logísticos: ou a acumulação das formidáveis reservas de combustível, ou a preparação dos aeródromos na Polónia ocupada ou a lentidão na distribuição pelas várias unidades alemãs dos meios de transporte mecanizado, muitos deles capturados aos franceses em 1940.

Beevor aponta que a perda de 350 aviões alemães na Batalha de Creta (150 dos quais eram aviões de transporte Junkers Ju-52) terá representado um rombo significativo no poderio aéreo disponível na frente russa.

Talvez não menos importante tenha sido a sensação de falsa confiança que a ofensiva balcânica da Alemanha instilou em Stalin: este terá ficado convencido de que Hitler tinha como próximo objectivo o Canal do Suez e, quiçá, o petróleo do Iraque e da Pérsia – o que diga-se de passagem, seria estrategicamente bem mais atilado e talvez tivesse permitido à Alemanha nazi assenhorar-se do Mundo.