O porquê de amarmos “Twin Peaks” em cinco razões

21 Maio 2017431

A icónica série de David Lynch e Mark Frost está de regresso 26 anos depois (este domingo nos EUA, dia 28 em Portugal). Porque é que dizemos isto e os nossos corações batem logo mais depressa?

Foi um sucesso há mais de um quarto de século – e depois foi um fracasso. Teve uma primeira temporada memorável de oito episódios e uma sofrível segunda que se arrastou durante 22. Ao longo de meses, dominou as conversas – e depois caiu esquecida no fundo das tabelas de audiências, até acabar retirada do ar, pela ABC, no longínquo Verão de 1991. E, no entanto, é um ícone, parte inegociável do património cultural do fim do século XX, referência obrigatória para os amantes das séries, bem antes de ser intelectualmente respeitável gostar muito de séries.

Depois de muitos percalços que incluíram a saída e o regresso de David Lynch aos comandos do projecto, a Showtime estreia este domingo (nos EUA) a terceira temporada, ambientada no mesmo lugar, com muito do elenco original e assumindo as rugas – isto é, que passaram 25 anos sobre os acontecimentos das temporadas um e dois. Em Portugal, o primeiro episódio vai para o ar daqui a uma semana, dia 28, na TV Séries. “Twin Peaks” foi um sucesso, um flop e, em qualquer caso, um marco da televisão. Mas, afinal, porque é que este regresso é tão importante? O que é que o “Twin Peaks” tem? Nós explicamos tudo – em apenas cinco razões.

[um trailer da nova temporada de “Twin Peaks”:]

O mundo

Há uma superstição bem conhecida entre argumentistas que diz que, se tivermos de pôr por escrito o mundo de uma série é porque ele, certamente, já morreu. No projecto – a “bíblia” de uma série, como se diz no calão dos guionistas – põe-se por escrito tudo o resto: história, personagens, décors… nunca o mundo. E o que é o mundo? O mundo é aquele todo impalpável onde mergulhamos quando uma boa ficção nos envolve. É o ambiente, o tom, as regras não escritas de comportamento, o ritmo, a respiração, a atmosfera, o factor x, a quintessência que acaba por determinar a coerência interna de tudo, do tipo de linguagem das personagens à textura da fotografia e que faz com que saibamos imediatamente quando uma coisa cheira ou não cheira, soa ou não soa, pertence ou não pertence àquele universo.

“Twin Peaks” era (é?) talvez o mais exemplar caso da aplicação desta lei na história da televisão. De pormenores do enredo poucos se recordarão para além de que rodava em torno da investigação à morte da jovem Laura Palmer, mas quantos terão esquecido aquela atmosfera?

“Twin Peaks” era, acima de tudo, um lugar. Um lugar para onde éramos levados no demorado genérico inicial, estrada fora, até nos perdermos no interior americano entre esquias árvores bravas e montanhas escarpadas. Em que o protagonista Kyle MacLachlan, aliás, o agente especial do FBI Dale Cooper, era os nossos olhos e o nosso entendimento médio do mundo, desterrado num enigma que tinha de decifrar sozinho, cercado que estava por uma estranha cidade, algures entre o absurdo e a conspiração.

O cadáver

Num primeiro nível, “Twin Peaks” era um whodunnit clássico, a que acrescia depois uma camada soap opera quase adolescente, alimentada pela complexa teia de relacionamentos e traições entre as personagens da comunidade. A Laura Palmer que estava no eixo da história e que figurava no título português do filme que David Lynch rodou depois de cancelada a série (“Twin Peaks – Os Últimos Dias de Laura Palmer”) não era mais do que uma mera figurante contratada para fazer de cadáver no episódio-piloto e que a produção contactou depois para aparecer nalguns flashbacks.

Lynch gostou tanto do trabalho da jovem em questão – cuja graça, a propósito, é Sheryl Lee – que inventou o papel de Maddy, uma prima da falecida Laura, para lhe dar. Só que não era, realmente, preciso: a imagem do rosto pálido da jovem morta, no primeiro episódio, pairaria sobre toda a série – e, na verdade, sobre estes 26 anos de interrupção.

O corpo nu, gelado, envolvido em plástico translúcido e abandonado à beira da praia. O rosto belo e misterioso, que nós, público, e o agente Cooper olhávamos desesperadamente em busca de respostas e que nunca no-las poderia dar. O corpo de Laura Palmer era a materialização do mistério e da impossibilidade, um totem que nos lembrava que havíamos chegado tarde de mais; a mudez inultrapassável do passado.

A história da primeira temporada era só esta: como, quando e porque foi ali parar aquele corpo? Ou, por outras palavras, quem matou Laura Palmer? E acabava sem uma resposta. Pressionado pela produção e por causa da queda livre nas audiências, Lynch revelou a solução a meio da segunda temporada – mas ninguém ficou verdadeiramente convencido.

Até hoje, Laura é um corpo por resolver. Um misto de crime e castigo, culpa e inocência, a perversa eterna juventude do rosto privado da hipótese de envelhecer. Como o poderíamos ter esquecido?

A música

Não dá para fingir que não: uma pessoa diz “Twin Peaks” e começa, instantaneamente, a ouvir a música. “Falling”, o tema de abertura, era responsável por pelos menos, vá, um terço do sortilégio da série. Caso maior da colaboração entre Angelo Badalamenti e David Lynch, foi escrito para Julee Cruise, uma daquelas vozes femininas frágeis e sensuais a um só tempo, tão ao gosto do realizador. Na versão sem voz principal, abria e encerrava os episódios de “Twin Peaks”, acabando celebrada com o Grammy para melhor performance pop instrumental de 1991.

“Falling” era a expressão acabada de tudo quanto nos prendia a “Twin Peaks”: metia medo e atraía, era banda sonora para o luto e para a sedução. Era misteriosa, quente, negra, nocturna. Levava-nos para dentro, lenta mas inapelavelmente, para uma perdição qualquer.

As louras

Fala-se muito das balzaquianas e das louras de Hitchcock e tal, e pouco ou nada das de David Lynch. As louras de Lynch, que na verdade também podem ser as ruivas ou as morenas, mas que têm sempre belos lábios vermelhos, ocupam um lugar fundamental nas suas peças. Carregam o desejo e o perigo; são frágeis, mas nunca inocentes; não estão lá para salvar nem para serem salvas, mas fazem sempre parte do pacto do que está para além das palavras. É assim ali e é assim no mundo, mas David Lynch é particularmente bom a dizê-lo.

Em “Twin Peaks”, a assombração começa e acaba na já citada Sheryl Lee, na dupla qualidade de Laura Palmer e Madeleine Ferguson. Pelo meio, passa por uma então desconhecida Lara Flynn Boyle, no papel da angelical Donna, a melhor amiga da falecida, por Mädchen Amick, a amante do namorado da malograda Laura, por Sherilyn Fenn, a fogosa Audrey que se envolvia com Cooper, ou por Peggy Lipton, a encantadora Norma, empregada no café.

E os anões

Quinta e última razão marada para amar “Twin Peaks”: os anões, evidentemente. Foi com “Twin Peaks” que se inaugurou a moda de sinalizar os sonhos com anões contra a qual Peter Dinklage se insurgiria em “Living in Oblivion” (Tom DiCillo, 1995): qualquer coisa como “mas vocês alguma vez sonharam com anões? Nem um anão sonha com anões!”

Em “Twin Peaks”, a qualquer momento poderia aparecer um anão, ao virar de uma esquina, no fim de um labirinto de cortinas vermelhas e chão em mosaico. Mas quem diz anões diz outra coisa. Tomamos aqui os anões como arquétipo de algo maior: o surrealismo de David Lynch que se transformaria em conceito próprio – o lynchianismo, logo declinado no adjectivo “lynchiano”, como quem antes dizia “kafkiano”.

Naquele lugar inventado algures no coração do estado de Washington, oscilávamos, sem fronteira, entre sonhos e vigília, visões e alucinações, jogos de espelhos e enganos. Naquele mundo pequeno-burguês do interior americano, onde todos estavam romanticamente envolvidos com todos e em que sobravam as suspeitas e os álibis, o agente Cooper procurava respostas para o cadáver de Laura Palmer entre mulheres de pala, gente que falava de trás para a frente, cabeças de veado decepadas, lamas dentro da sala de estar e senhoras que tinham por melhor amigo um tarolo de lenha. Tudo acentuado e deformado pela invulgar escolha de ângulos de câmara de Lynch, pelo recurso constante aos planos picados e contrapicados e uso de grandes angulares.

O lynchianismo não começou nem acabou em “Twin Peaks”, mas foi, provavelmente, ali que a maioria de nós primeiro tomou contacto consistente com ele. Foi com “Twin Peaks” que aprendemos que as perguntas são sempre mais interessantes do que as respostas. Que nem sempre a história era tudo o que importava; que havia outros autores, mais do domínio das artes plásticas do que das narrativas, que tinham coisas importantes para nos dizer.

“Twin Peaks” tornou-se um fracasso quando, depois do êxito inicial, a ABC quis esticar a corda e pôs os autores a prolongarem artificialmente uma história que já não tinha mais para dar. Mas, 26 anos depois, o medo, o fascínio, a confusão e a curiosidade que então sentimos, permanecem intocáveis.

Afinal, e já que começámos com uma lei do guionismo, terminemos com uma do marketing: as pessoas podem ou não lembrar-se do que lhes dissemos, mas nunca – nunca – se esquecem de como as fizemos sentir.

Alexandre Borges é escritor e guionista. Assinou os documentários “A Arte no Tempo da Sida” e “O Capitão Desconhecido”. É autor do romance “Todas as Viúvas de Lisboa” (Quetzal)

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