Os prémios Tony 2019 explicados (e, se quiser, cantados) /premium

Os Tony são os prémios anuais do teatro dos EUA e são mais importantes do que os Óscares para alguns atores e fãs, principalmente de musicais. Há cerimónia esta noite e explicamos o que tem de saber.

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Nota: Este artigo não é só para ler, é também para ver e ouvir os vídeos que vão surgindo pelo meio dos parágrafos. Ler apenas sobre a Broadway sem ouvir e ver é como comentar futebol e nunca ter jogado. De qualquer forma, deixamos em cada vídeo uma breve explicação para não sentir que perdeu alguma coisa.

“Isto é para todos os que falham”. Foi assim que Sarah Bareiles e Josh Groban iniciaram — a cantar, obviamente — em 2018 a cerimónia dos Tony, em Nova Iorque. Os Estados Unidos da América têm por hábito mostrar-nos todos os anos, a nós europeus e ao resto do mundo, que sabem entregar prémios com números musicais bem elaborados. Os Óscares, os prémios do cinema, são praticamente conhecidos por todos, e já nos deram o Wolverine a cantar. Os Emmy e os Globos de Ouro — os “Golden Globes”, não aqueles da SIC –, que premeiam o melhor das séries também podem ser cada vez mais conhecidos. Contudo, para os fãs de teatro e musicais norte-americanos só um espetáculo interessa: os Tony. E é este domingo (segunda-feira de madrugada em Portugal) que decorre a 73ª cerimónia.

[O vídeo com a épica abertura dos prémios Tony de 2013, com Neil Patrick Harris como apresentador]

Esta cerimónia já premiou as músicas de “My Fair Lady”, que aprende as boas maneiras da alta sociedade, da orfã “Annie” que espera um amanhã melhor, ou de “Os Miseráveis” que querem uma França pós-revolução mais justa. Nos últimos anos, peças de teatro musical mais inusitadas e controversas têm tido as principais atenções.

Exemplo disso é a história dos dois jovens de “The Book of Mormon”, musical criado por Trey Parker e Matt Stone (responsáveis pela série de desenhos animados South Park) que leva o espetador para o Uganda numa missão mórmon retratada de forma mordaz. Ou, mais recentemente ainda (em 2016), a biografia cantada de “Hamilton”, primeiro secretário do Tesouro e um dos pais fundadores dos EUA. Esta peça de Lin-Manuel Miranda tem sido reconhecida como uma das obras-primas que mostra o melhor que a Broadway pode dar, com salas esgotadas pela cidades em que passa, comovendo Barack Obama na sua despedida de presidente dos EUA, e vaiando o eleito Mike Pence, atual vice-presidente do país.

[Em 2011, musical The Book of Mormon foi o vencedor. No palco, Andrew Rannells cantou a música “I Believe”. A peça é uma sátira à religião mórmon]

Apesar de, atualmente, os Tony terem um grande foco na música, premeiam igualmente o melhor do teatro nos Estados Unidos da América. Nos últimos anos, peças como “Carnage” (“O Deus da Carnificina”, em português), “Harry Potter and the Cursed Child” ou “War Horse” (“Cavalo de Guerra”, em português), foram distinguidas e mostram que não é só no cinema que os nomes conhecidos de Hollywood atuam. Também é nos palcos da Broadway. Por exemplo, e já que falamos de Harry Potter, o próprio Daniel Radcliff foi protagonista de um musical em Nova Iorque. E Hollywood vai ali beber: em 2011, estreou a versão cinematográfica da peça “War Horse”, realizada por Steven Spielberg. O contrário também acontece, com filmes como “Tootsie” a terem sido adaptados para musical este ano.

Ainda não está convencido e acredita que os Tony só são para uma audiência estereotipada? Não se feche em caixas e, como explicou — desculpem, cantou — Neil Patrick Harris, múltiplas vezes apresentador do espetáculo e vencedor de um destes prémios, a Broadway é para todos os públicos. E os Tony e a Broadway podem sempre ser maiores “na melhor noite do ano, num espetáculo lendário”, como foi cantado em 2013 (veja, e oiça — mesmo — , o primeiro vídeo até ao fim se ainda não o fez).

O que são os Tony e por que é que a edição de 2019 pode ser importante

Os Tony são menos conhecidos do que os Óscares ou os Emmy’s por um motivo muito prático: as peças que podem ser premiadas têm de ter estado em cena num dos 41 teatros que fazem a Broadway, em Nova Iorque, no ano prévio à cerimónia até 25 de abril. Ou seja, a não ser que vá a à cidade que nunca dorme bastantes vezes e tenha tempo — e dinheiro (os bilhetes costumam custar, no mínimo, cerca de 100 dólares, cerca de 86 euros) — o mais provável é que nem tenha ouvido falar de nenhum dos nomeados de 2019. Contudo, o mesmo pode acontecer às mais de duas centenas de milhões de norte-americanos que não vivem em Nova Iorque.

Mesmo assim, esta noite, e como habitualmente, um dos principais canais de televisão dos EUA, a CBS, vai transmitir às oito da noite de Washington D.C. (duas da manhã de Lisboa) o espetáculo. Ao todo, vão ser três horas com muitos prémios, discursos e números musicais (já falamos melhor sobre esta última parte). Os premiados são escolhidos por 831 pessoas ligadas às principais associações de entretenimento e teatro dos EUA.

Brian Cranston no Belasco Theater, em janeiro deste ano, aplaude a marcha das mulheres

Getty Images

Este ano o anfitrião volta a ser James Corden, o humorista que está à frente do talk show “The Late Late Show”. Corden volta ao palco dos Tony, muito provavelmente, por nos últimos 10 anos ter estado à frente da cerimónia com maior audiência (8,7 milhões de pessoas, só nos EUA). À semelhança dos Óscares, os Tony têm perdido audiências, apesar de não ser uma descida tão constante – também nunca foram audiências tão grandes. No passado, além de Corden e Patrick Harris, houve apresentadores como Kevin Spacey, em 2017 (sim, o antigo protagonista de House of Cards acusado de assédio sexual), Hugh Jackman ou Whoopi Goldberg.

A sigla Tony deriva de “Antoinette Perry Award for Excellence in Broadway Theatre” (em português, prémio Antoinette Perry de excelência em Teatro na Broadway). Perry foi uma encenadora e atriz norte-americana co-fundadora da American Theatre Wing, uma organização com sede em Nova Iorque que promove o teatro e a alcunha que tinha — Tony — apelida estes galardões.

Dançarinos esperam nos bastidores da 72ª cerimónia dos Tony, que se realizou no Radio City Music Hall, em Nova Iorque

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Na Europa também há os prémios britânicos Laurence Olivier, que premeiam o melhor de West End, e os franceses Molière, que distinguem o melhor do teatro em França. Mas nenhum tem a componente de espetacularidade que os norte-americanos sabem imprimir a qualquer cerimónia. Aqui celebra-se a Broadway como tendo o melhor teatro do mundo e, seguramente, o mais lucrativo.

Não se pense, por isso, que mesmo nos EUA o teatro é olhado como uma arte menos nobre. Para os atores de televisão e cinema, ganhar um Tony pode ser tão ou mais importante do que ganhar um Óscar. Exemplo disso são algumas das nomeações deste ano para melhor ator: Bryan Cranston, conhecido pelo papel de pai de Malcom na série Malcom in the Middle e por interpretar Walter White, personagem principal de Breaking Bad, é um dos favoritos.

Os números de abertura que inspiram e as cenas da Broadway que são levadas para o ecrã

Da mesma maneira que um artigo de jornal que é pouco cativante no início não segura o leitor, também estas cerimónias precisam de começar em grande. Luzes, coreografias elaboradas e extravagantes, vozes afinadas e entre notas musicais com uma pitada de humor olha-se para o último ano a cantar. Provavelmente, esta segunda-feira, será este o momento que vai ser partilhado nas redes sociais. Graças ao poder da Internet, os número de abertura dos Tony, ao contrário das peças, chegam a milhões de pessoas em todo o mundo. Além disso, para quem só vai ouvindo as músicas por serviços de subscrição ou CD’s, é das poucas formas de ver o que acontece nos palcos da Broadway à distância.

De Elton John no palco dos Tony a cantar as canções da peça Billy Elliot, passando por James Corden a contar a sua vida em formato musical ou à Bruxa Malvada do Oeste a “desafiar a gravidade” na voz de Idina Menzel (um nome tão estranho que John Travolta o pronunciou como Adele Dazeem, mas se calhar conhece-a como a voz inglesa de “Let it Go”, do filme da Disney “Frozen”), o espetáculo é garantido. A melhor forma de o mostrar é deixar os exemplos abaixo.

[O número de abertura da edição de 2009 dos Tony, há 10 anos, com interpretações de cenas de nove musicais da Broadway: “Billy Elliot the Musical”, “Guys and Dolls”, “Hair”, ” Next to Normal”, “Rock of Ages”, “Shrek the Musical” (sim, fizeram um musical baseado no filme),  “West Side Story”, “9 to 5”, “Jersey Boys”]

Já viu o filme Dreamgirls, com Beyoncé e Jennifer Hudson nos papéis principais? Em 1982, era Jennifer Holliday quem dava a voz e cara na interpretação de “And I am Telling You”. O musical foi adaptado ao cinema em 2006.

[O vídeo de “And I am Telling You”, do musical Dreamgirls, com o elenco original da Broadway, interpretado na cerimónia dos Tony de 1982] 

Josh Groban e Sara Bareilles foram os apresentadores de 2018 dos Tony. Nunca ganharam um destes prémios e, por isso, levaram para palco os nomeados de outros anos que também nunca foram premiados.

[O número de abertura de 2017 dos Tony, com Josh Groban e Sara Bareilles]

Os momentos preferidos de cada cerimónia podem nem sempre ser os números de abertura, durante o espetáculo de cada ano há também atuações como a do musical Matilda (baseado no clássico infantil de Roald Dahl que também teve direito a filme com o mesmo nome), em que o elenco, composto maioritariamente por crianças, mostra que não é preciso ser adulto para estar nomeado para um Tony.

[O elenco de Matilda cantou várias músicas do musical que esteve em cena na Broadway na cerimónia de 2013]

A peça “Fun Home”, que venceu o Tony de Melhor musical em 2015, é um dos exemplos como uma história que nem sempre é divertida de contar chega à Broadway. O título é uma expressão norte-americana para referir uma casa funerária e é baseado na obra autobiográfica da cartoonista Alison Bechdel. Com três atrizes a interpretar as várias fases da vida da escritora, o musical conta a história de como assumiu e descobriu a sua homossexualidade, a do pai e de como isso magoou a sua mãe e família.

[Em 2015,  Sydney Lucas, com 11 anos, surpreendeu a audiência ao cantar a música “Ring of Keyes”, sobre a homossexualidade da personagem que interpretou]

Por fim, a atuação de James Corden em 2016, na primeira vez que apresentou a cerimónia dos Tony. É mais uma homenagem aos melhor do teatro musical e a musicais passados, além de elogiar o principal nomeado desse ano, Hamilton.

[O número de abertura de 2016, com James Corden a apresentar]

Os musicais nomeados em 2019

Falámos de “Fun Home” ou “Hamilton” e podíamos ter falado de outros musicais vencedores, como “Dear Evan Hensen”, que têm conquistado as audiências. Depois de 2018 ter tido um vencedor pouco inspirado, este anos os nomeados para melhor musical são: “Ain’t Too Proud — The Life and Times of the Temptations”, “Beetlejuice” (baseado, lá está, no filme de Tim Burton com o mesmo nome); “Hadestown: The Myth” (baseado no álbum com o mesmo nome da opera folk de Anaïs Mitchell); “The Prom” (o baile de finalistas); e “Tootsie” (baseado no filme com o mesmo nome de 1982).

[Indina Menzel ganhou o Tony de melhor atriz num musical em 2004. Esta foi a interpretação que fez em palco. A peça ainda está na Broadway]

Os melhores atores nomeados de um musical são: Brooks Ashmanskas (The Prom), Derrick Baskin (Ain’t Too Proud — The Life and Times of the Temptations), Alex Brightman (Beetlejuice); Damon Daunno (Rodgers & Hammerstein’s Oklahoma!), Santino Fontana (Tootsie). Já as melhores atrizes nomeadas são: Stephanie J. Block (The Cher Show); Caitlin Kinnunen (The Prom); Beth Leavel (The Prom), Eva Noblezada (Hadestown); e Kelli O’Hara (Kiss Me, Kate).

As peças de teatro nomeadas em 2019

Escrevemos bastante sobre musicais, mas os Tony também são teatro tradicional. É sobretudo nestas peças que passam na Broadway que os atores que brilham no grande e no pequeno ecrã sobem a palco. Este ano já falámos de Brian Cranston, mas Jeff Daniels (da série “The Newsroom”), também é um dos nomeados. Durante a cerimónia também há interpretações das principais peças de cada ano e, esta noite, não deve ser diferente.

Adam Driver, Robin Dearden, Bryan Cranston, Jeff Daniels, e Kathleen Rosemary Treado, alguns dos atores nomeados este ano

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Este ano, os nomeadas para o Tony de melhor peça são: “Choir Boy”; “The Ferryman”; “Gary: A Sequel to Titus Andronicus”; “Ink”; e “What the Constitution Means to Me”. Já os atores são: Paddy Considine (The Ferryman); Bryan Cranston (Network); Jeff Daniels (To Kill a Mockingbird); Adam Driver (Burn This); e Jeremy Pope (Choir Boy). As atrizes nomeadas são: Annette Bening (Arthur Miller’s All My Sons); Laura Donnelly (The Ferryman); Elaine May (The Waverly Gallery); Janet McTeer (Bernhardt/Hamlet); Laurie Metcalf (Hillary and Clinton); e Heidi Schreck (What the Constitution Means to Me).

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