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"As pessoas estão a conviver bem com esta situação que é perfeitamente atroz. Há uns meses era inimaginável construírem-se câmaras frigoríficas para guardar corpos à porta dos hospitais", diz Patrícia Pacheco
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"As pessoas estão a conviver bem com esta situação que é perfeitamente atroz. Há uns meses era inimaginável construírem-se câmaras frigoríficas para guardar corpos à porta dos hospitais", diz Patrícia Pacheco

Joana Jesus

"As pessoas estão a conviver bem com esta situação que é perfeitamente atroz. Há uns meses era inimaginável construírem-se câmaras frigoríficas para guardar corpos à porta dos hospitais", diz Patrícia Pacheco

Joana Jesus

Patrícia Pacheco, diretora de infecciologia do Hospital Amadora-Sintra: "O sistema de saúde não vai responder, vai morrer muita gente"

Na semana em que a rede de oxigénio do Amadora-Sintra falhou, a diretora de infecciologia é muito crítica. "A falta de honestidade e transparência é o pior que a liderança do Ministério da Saúde tem".

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Eram quase 23h quando, já em casa, Patrícia Pacheco, diretora do serviço de infecciologia do Hospital Fernando Fonseca, conseguiu finalmente parar durante uma hora para conversar com o Observador. Apenas dois dias depois de o seu hospital ter sido notícia por causa de uma falha na rede de oxigénio medicinal, que obrigou à transferência de várias dezenas de doentes Covid para outros hospitais, a médica lamentou a situação que, garante, podia muito facilmente ter sido prevista e prevenida pelo Ministério da Saúde e pela Autoridade Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, diariamente ao corrente do número de pacientes internados em cada um dos hospitais da área.

“O meu hospital, sendo um hospital periférico ou sendo um hospital pequeno para as necessidades — que já previamente era —, tem vindo a assumir um número brutal de doentes Covid, é o hospital com maior número de doentes internados do país. Para a dimensão que o hospital tem é um absurdo. Chegámos a ter 363 doentes internados”, explicou Patrícia Pacheco, de 51 anos, assegurando não perceber os critérios de distribuição de casos positivos pelos vários hospitais e centros hospitalares da região, mas garantindo também que nada disto resulta de qualquer falta de solidariedade ou de más relações entre hospitais. “É uma questão de falta de coordenação centralizada”, disse a diretora do serviço de infecciologia, para logo a seguir revelar que, apesar de dois dias antes várias dezenas de doentes terem abandonado as instalações do hospital junto à IC19, nessa noite já eram novamente 343 os infetados com o novo coronavírus lá internados.

Sem rodeios e com o discurso duro de quem viu o hospital onde trabalha ser “virado do avesso” para se transformar numa “amálgama de gente dedicada à Covid”, Patrícia Pacheco disse ainda que aquilo que mais se sente nos corredores do Amadora-Sintra é “frustração e indignação” e acusou o Governo de ter deitado tudo a perder, ao “mentir” aos cidadãos e fazer uma gestão “errática” da pandemia. “A falta de honestidade e de transparência perturba-me, acho que é o pior que um líder pode ter e é o pior que esta liderança do Ministério da Saúde tem — não ser transparente, desvalorizar sistematicamente os problemas que existem, em vez de os encarar, em vez de dizer de uma forma muito clara que nós temos limites e que não os devíamos ter ultrapassado”, argumentou. Depois, questionada sobre o impacto da variante inglesa do vírus, que tem sido utilizado pelas autoridades como justificação para o aumento sem precedentes dos números de novas infeções e de mortes no país, a infecciologista foi taxativa: “A variante inglesa não veio só para Portugal. Os outros países também têm a variante inglesa, mas tomaram medidas que nós não tomámos”.

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Quase um ano depois do início da pandemia, a especialista assegurou ainda que o pior ainda está por vir, e que, no prazo de duas semanas, o mais provável é que o sistema de saúde deixe de conseguir dar resposta a todas as solicitações. “As coisas hão-de melhorar, de forma muito penosa para todos nós, profissionais, e muito penosa para muitas famílias, porque vai morrer muita gente, mas isto vai ser ultrapassado. Eventualmente daqui a um mês já vamos estar numa fase descendente e em redução desta pressão.”

Na passada terça-feira, várias dezenas de doentes tiveram de ser transferidos do Hospital Amadora-Sintra, depois de uma falha na rede de oxigénio medicinal

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

É especialista em doenças infecciosas, num hospital que serve uma das maiores populações do país, em plena pandemia de um vírus respiratório. Como é que foi o seu dia hoje?
O meu dia foi igual aos dias que temos tido ao longo destas últimas semanas, meses. Diria mesmo ao longo quase de um ano os dias estão constantemente de volta desta pandemia que estamos a viver atualmente.

E isso quer dizer o quê? Que entra no hospital de manhã e que só sai à noite, que pelo meio vê dezenas de doentes? O que é que se passa exatamente?
Diria que a minha atividade, neste momento, é repartida entre várias áreas, portanto não estou necessariamente o dia inteiro a ver doentes. Uma parte significativa da minha responsabilidade está no controlo de infeção de todas as áreas do hospital, que neste momento é um ponto fulcral que nos está a preocupar bastante, atendendo à afluência desmesurada de doentes infetados. Temos de garantir diariamente a segurança dos outros doentes e também dos profissionais, portanto estamos numa fase particularmente dura a esse nível, em que, pela elevada prevalência do vírus na comunidade, os circuitos entre doentes que estão infetados e doentes não infetados são difíceis de manter. O risco de uma pessoa não infetada, ou teoricamente não infetada, vir a ficar infetada depois de ser admitida no hospital é real.

"Seguramente já tivemos quase 500 pessoas infetadas, num universo de 3.500. Desde março e até agora, tínhamos uma média mensal de 20 profissionais infetados — com um período que foi o nosso melhor, em agosto, em que só tivemos duas pessoas infetadas. Agora, nesta terceira onda, houve um aumento de 400% no número de profissionais infetados desde o início de janeiro"

Há cada vez menos espaço para os doentes, o que também tornará mais difícil o afastamento entre camas? Há algum surto neste momento?
O que os hospitais em Portugal têm — e é desde há muito e não foi alterado com esta epidemia — é um nível de instalações muito sofrível, os hospitais têm normalmente um distanciamento entre camas que não é o adequado, com risco maior de infeção. Não estamos em países do norte da Europa, em que houve um investimento enorme na estrutura hospitalar, em que os quartos são individuais e raramente há quartos duplos. Nós aqui temos quartos que no mínimo serão triplos, quando não são de seis camas. Perante uma situação de um vírus altamente transmissível, torna-se difícil de controlar a transmissão dentro do hospital.

Isso quer dizer que neste momento há algum surto no interior do hospital?
Felizmente neste momento os surtos no interior do hospital estão a ficar controlados, mas tivemos, sim. No início de janeiro, quando foi este aumento muito marcado da infeção na comunidade, tivemos vários surtos a ocorrer.

Como é que se controla uma situação destas? Os doentes têm de ser retirados de um lado para o outro? Houve profissionais infetados, também, presumo?
Este vírus tem um período de incubação que pode ir até 14 dias mas que, em regra, anda à volta de 7 ou 5 dias. Praticamente desde o início que adotámos a estratégia de testar toda a gente à entrada do internamento no hospital, mesmo que não seja um caso suspeito. Mais tarde, a partir de outubro, instituímos a regra de um teste ao quinto dia, porque percebemos que havia doentes que eram admitidos com teste negativo e passados dois ou três dias desenvolviam infeção, que ainda vinha da comunidade. Agora continuamos a ter vários positivos ao quinto dia, o que não traduz uma infeção no hospital, mas mesmo assim é insuficiente. Portanto vamos avançar com teste ao terceiro e ao quinto dia, e com testagem semanal de todos os doentes. O nível de infeção na comunidade é tão extraordinário que temos de ser muito agressivos no procedimento de testagem para mantermos a segurança dentro do hospital.

"O que é importante aqui referir é que estas redes de distribuição de oxigénio não estão, de um modo geral, preparadas para as necessidades que estes doentes apresentam. Em média, na maior parte dos casos, o consumo habitual de oxigénio pode ir até aos 10 ou 15 litros por doente, mas nos doentes Covid podemos ter oxigénio de alto fluxo em consumos muitíssimo mais elevados, de 50 litros"

Tem ideia de quantos profissionais já estiveram infetados no Amadora-Sintra desde o início da pandemia?
Seguramente já tivemos quase 500 pessoas infetadas, num universo de 3.500. Desde março e até agora, tínhamos uma média mensal de 20 profissionais infetados — com um período que foi o nosso melhor, em agosto, em que só tivemos duas pessoas infetadas. Agora, nesta terceira onda, houve um grande aumento no número de profissionais infetados, 40% de todas as infeções foram registadas durante janeiro. Para além de terem o risco de se infetarem no seu local de trabalho, os profissionais também têm família e também se infetam muito em casa, como acontece na comunidade. O que tivemos no hospital desde 1 de janeiro foi reflexo de toda esta transmissão comunitária; não deixámos de saber usar os EPI, nem de saber fazer os procedimentos. Este aumento exponencial de infeções entre os profissionais está a dificultar ainda mais a situação no hospital, em termos de recursos humanos disponíveis para esta fase.

Ouça aqui a entrevista na íntegra.

“O que veio estragar isto tudo foi uma gestão errática desta pandemia”

A falha de oxigénio no Amadora-Sintra e as críticas ao Ministério da Saúde

"Isto não aconteceu sem ser previsto. O Ministério, a ARS, todos os dias tem um briefing com os conselhos de administração, todos os dias sabe quantos doentes estão em cada hospital, portanto por que motivo é que não se distribuiu antecipadamente esta carga enorme sobre determinado hospital? Quando os doentes foram transferidos para os outros hospitais, aquilo que me contaram foi que foram os próprios hospitais a telefonar, a serem solidários e a darem vagas. Não é uma questão de más relações entre os hospitais, é uma questão de falta de coordenação centralizada"

Escreveu há alguns meses, justamente numa crónica publicada aqui no Observador, sobre aquilo a que chamou “ficção hospitalar”, que será a ideia romanceada — e errada — que a maior parte dos portugueses tem sobre como funciona um hospital. O Amadora-Sintra esta semana foi notícia por causa de uma falha na rede de oxigénio medicinal. O que aconteceu ao certo? E como é que funcionam este tipo de redes, que tenho a certeza de que os comuns dos mortais nem sequer sabiam que existiam? 
De um modo muito simples, nós temos dois tipos de distribuição de gases medicinais, de oxigénio: um é aquele a que chamamos rampas, as rampas de oxigénio que vêm de reservatórios externos e que através de tubagens ligadas aos quartos fazem a distribuição diretamente da parede para cada cama; e temos as tradicionais garrafas ou botijas de oxigénio, que neste momento são apenas um sistema de recurso. Por uma questão de segurança, há muitos anos que já não existem por regra nos hospitais, a não ser como sistemas de recurso para alguma necessidade extra.

Como a que aconteceu esta semana.
Como a que terá acontecido obviamente nesta semana. O que é importante aqui referir é que estas redes de distribuição de oxigénio não estão, de um modo geral, preparadas para as necessidades que estes doentes apresentam. Em média, na maior parte dos casos, o consumo habitual de oxigénio pode ir até aos 10 ou 15 litros por doente, mas nos doentes Covid podemos ter oxigénio de alto fluxo em consumos muitíssimo mais elevados, de 50 litros. Ou seja, cada doente consome um volume muito grande de oxigénio e este oxigénio tem de ser mantido com pressão suficiente para chegar a todas as camas. Não é só uma questão de existir oxigénio, mas de a pressão ser adequada para chegar às várias áreas onde é necessário. O meu hospital, sendo um hospital periférico ou sendo um hospital pequeno para as necessidades — que já previamente era —, tem vindo a assumir um número brutal de doentes Covid, é o hospital com maior número de doentes internados do país. Para a dimensão que o hospital tem, é um absurdo. Chegámos a ter 363 doentes internados. Vários doentes foram distribuídos por outros hospitais, quando houve aquela situação, mas ao dia de hoje já temos 343 outra vez.

"Acho que se as pessoas têm cabeça é para pensar e acho que todos nós temos a inteligência suficiente para perceber — mesmo que não sejamos os mais eruditos neste assunto, nem tenhamos o conhecimento que eu, enquanto infecciologista posso ter — que houve aqui uma gestão muito errática e que isso teve consequências, que estão à vista"

Dois dias depois…
Continuamos a ter um volume exagerado para as dimensões do hospital, quer em termos de recursos humanos e, agora, infelizmente, também ficou visível, em termos estruturais. Aquilo que acho, e penso que é muito triste no meio desta situação, é que isto não aconteceu sem ser previsto. O Ministério, a ARS [Administração Regional de Saúde], todos os dias tem um briefing com os conselhos de administração, todos os dias sabe quantos doentes estão em cada hospital, portanto por que motivo é que não se distribuiu antecipadamente esta carga enorme sobre determinado hospital? Seja sobre o meu, que tem o maior número de camas, seja sobre os outros hospitais de outras áreas mais periféricas da cidade que também estão extraordinariamente sobrecarregados para a sua dimensão. Não houve nenhum movimento para evitar esta sobrecarga. E pelos vistos continua a não haver, porque hoje já lá estão 343.

Apesar da carta que os Conselhos de Administração desses hospitais escreveram a reclamar disso mesmo.
O que não entendo é como é que é preciso uma carta formal dos presidentes dos conselhos de administração dos vários hospitais, como é que é preciso terem de dar este grito de alerta para os doentes serem distribuídos de uma forma mais equilibrada entre toda a estrutura. Porque é que o Ministério e a ARS não funcionam atempadamente, é sempre no limite? A senhora ministra deu então ordem a todos os hospitais para se elevarem no nível máximo do seu plano de contingência — ora, nós já ultrapassámos muitíssimo o nosso plano de contingência. Acho que há realmente falta de coordenação central. Quando os doentes foram transferidos para os outros hospitais, aquilo que me contaram foi que foram os próprios hospitais a telefonar, a serem solidários e a darem vagas. Não é uma questão de más relações entre os hospitais, é uma questão de falta de coordenação centralizada.

Ainda em relação a este incidente de terça-feira, foi dito que em nenhum momento os doentes correram risco de vida. Foi mesmo assim? Por causa das tais garrafas de oxigénio que existem para essas eventualidades?
Penso que sim. Pelo menos não tenho relato nenhum de que tenha sido de forma diferente.

Médicos frustrados e indignados, num hospital que é uma “amálgama de gente dedicada à Covid”

"A falta de honestidade e de transparência perturba-me, acho que é o pior que um líder pode ter e é o pior que esta liderança do Ministério da Saúde tem — não ser transparente, desvalorizar sistematicamente os problemas que existem, em vez de os encarar, em vez de dizer de uma forma muito clara que nós temos limites e que não os devíamos ter ultrapassado. Agora justificar que foi a variante inglesa que veio estragar isto tudo... Não! O que veio estragar isto tudo foi uma gestão errática desta pandemia"

Disse numa entrevista recente que o sistema “já entrou em rutura há muito tempo” e que não é de agora que os profissionais de saúde estão “a viver situações inimagináveis”. Na sua experiência pessoal, por que situações já passou que nunca imaginou viver como médica?
Quando falei relativamente à situação inimaginável, não me referia a uma situação em relação ao doente, não é inimaginável no sentido do tratamento do doente. É inimaginável no sentido de estarmos virados do avesso. Um hospital é uma estrutura altamente diferenciada que presta cuidados altamente diferenciados; dentro de um hospital temos especialistas de várias áreas e é isso que o caracteriza, um hospital não é um conjunto de médicos generalistas. E neste sentido, nos hospitais, ou pelo menos no meu hospital e em hospitais que estão tão assoberbados e ocupados com a área Covid, esta diferenciação foi anulada. Neste momento trabalhamos todos juntos e em colaboração uns com os outros, mas já é outra coisa. Temos enfermarias onde estão os médicos que tradicionalmente tratariam os doentes com patologia Covid — pneumologia, medicina interna, infecciologia — e temos enfermarias multidisciplinares em que, para tratar este volume enorme de doentes, temos de contar com a colaboração de todos. E de todos, é de todos.

Não há nenhum serviço que não tenha sido chamado?
Não há nenhum serviço que não tenha sido chamado. Nisso acho que o hospital está a ter uma resposta interna muito boa, há uma união grande entre toda a gente. Porque dentro de um hospital não há só o tratamento direto do doente, há todo um conjunto de atividades que a patologia Covid veio trazer e tudo isto só é possível perante uma união grande, que é aquilo que nós estamos a viver. O sentido de coisas inimagináveis é este: como é que um hospital se transformou numa amálgama de gente que está praticamente, diria que em 80%, dedicada à patologia Covid?

E é uma amálgama de gente que deve estar exausta. Como é que estão as pessoas que trabalham consigo?
Frustradas, diria que é a sensação geral. É uma frustração muito grande chegar aqui e perceber que se fez tanta coisa de errado. Não devíamos estar aqui, não devíamos estar neste ponto. É uma sensação de frustração, de indignação quase. As pessoas podem estar cansadas mas não é por isso que a população vai deixar de ter cuidados médicos. Nós estamos cansados, mas acho que resistiríamos melhor se víssemos um fim à vista, se víssemos que esta epidemia tinha sido conduzida de outra forma.

"Foi um erro crasso, também, não terem adiado a abertura das aulas. No primeiro período já havia indícios de que as infeções estariam a aumentar na comunidade escolar, a situação era mais do que previsível. Saímos de uma altura em que há um convívio muito grande entre as pessoas e em que se espalhou o vírus ao longo de todo o território nacional e a seguir mandámos milhares de crianças e jovens para as escolas"

A ideia com que fiquei é que acredita que não tinha de ser assim. Nos últimos dias temos ouvido da parte das autoridades a justificação de que a estirpe britânica é muito mais transmissível e que a ela se deve o estado em que estamos agora…
Cada um acredita no que quiser, cada um acredita nas desculpas que lhe quiserem dar. Só posso falar por mim, não sou porta-voz de ninguém, nem dos meus colegas, mas acho que se as pessoas têm cabeça é para pensar e acho que todos nós temos a inteligência suficiente para perceber — mesmo que não sejamos os mais eruditos neste assunto, nem tenhamos o conhecimento que eu, enquanto infecciologista posso ter — que houve aqui uma gestão muito errática e que isso teve consequências, que estão à vista. A falta de honestidade e de transparência perturba-me, acho que é o pior que um líder pode ter e é o pior que esta liderança do Ministério da Saúde tem — não ser transparente, desvalorizar sistematicamente os problemas que existem, em vez de os encarar, em vez de dizer de uma forma muito clara que nós temos limites e que não os devíamos ter ultrapassado. Agora justificar que foi a variante inglesa que veio estragar isto tudo… Não! O que veio estragar isto tudo foi uma gestão errática desta pandemia, a variante inglesa não veio só para Portugal. Os outros países também têm a variante inglesa, mas tomaram medidas que nós não tomámos.

O que é que devia ter sido feito feito e quando? Em que altura é que se perdeu o controlo que parecia que estávamos a ter sobre a pandemia?
O controlo que estávamos a ter sobre a pandemia atingiu-se em agosto. Foi a única altura do ano em que realmente, em Portugal, as coisas estavam bem encaminhadas. Nessa altura dever-se-ia ter feito o máximo de esforço para, aproveitando a fase de decréscimo, tentar reduzir os números ao máximo, para depois iniciar as aulas em segurança e abrir o resto da economia. Nessa altura não aconteceu nada, não se preparou depois o plano outono-inverno, e acabámos por ser “surpreendidos” com a segunda vaga a partir do mês de outubro, novembro — que foi difícil mas conseguimos superar. Depois chegámos àquele período que antecedeu o Natal e as pessoas voltaram a achar que não havia problema nenhum e tomou-se uma medida política, de querer ser simpático e popular, e permitiu-se a circulação entre concelhos e um Natal como é normal em Portugal. Acho que foi um erro crasso que veio precipitar isto tudo. Foi um erro crasso, também, não terem adiado a abertura das aulas. No primeiro período já havia indícios de que as infeções estariam a aumentar na comunidade escolar, a situação era mais do que previsível. Saímos de uma altura em que há um convívio muito grande entre as pessoas e em que se espalhou o vírus ao longo de todo o território nacional e a seguir mandámos milhares de crianças e jovens para as escolas. Quanto a mim este foi um dos motivos pelos quais esta velocidade de transmissão ocorreu. Obviamente não quero desvalorizar aqui o papel da nova variante, com certeza que sim, a transmissão é muito mais rápida, mas criaram-se condições para que essa transmissão ocorresse.

"Há uma apatia na população em geral que eu acho assustadora. As pessoas habituaram-se a viver com esta ideia de que há uma pandemia, morrem 200 ou 300 pessoas por dia e nada se passa. As pessoas têm medo, mas não é um medo por aí além, e estão a conviver bem com esta situação que é perfeitamente atroz. Eu nunca vivi situações com uma mortalidade como nós temos. Há uns meses era inimaginável construírem-se câmaras frigoríficas para guardar corpos à porta dos hospitais"

Apesar de tudo, apesar do estado em que estamos, de todas as reportagens, de todas as entrevistas de médicos e enfermeiros, de todos os alertas, continuamos a ter notícias de cafés que estão fechados com pessoas lá dentro, de festas privadas em barracões, de restaurantes que se recusam a deixar de servir às mesas. Como é que vê esta atitude por parte de uma franja da população e o que é que acha que está a falhar aqui? É uma questão de cansaço, de comunicação? 
Existe uma apatia que me perturba. Há uma apatia na população em geral que acho assustadora. As pessoas habituaram-se a viver com esta ideia de que há uma pandemia, morrem 200 ou 300 pessoas por dia e nada se passa. As pessoas têm medo, mas não é um medo por aí além, e estão a conviver bem com esta situação que é perfeitamente atroz. Eu nunca — e penso que os meus colegas também não e acho que ninguém que esteja vivo — vivi situações com uma mortalidade como nós temos. Há uns meses era inimaginável construírem-se câmaras frigoríficas para guardar corpos à porta dos hospitais. Parece que as pessoas só começam a olhar quando existem filas à porta do Hospital de Santa Maria com as ambulâncias. Posso estar enganada, mas penso que a própria estratégia de comunicação tem muito impacto em tudo isto.

A estratégia de comunicação das autoridades?
Das autoridades. E a própria comunicação social não é isenta de também ter ido na onda de algum facilitismo, quando foi a altura do levantamento das restrições do Natal e depois com aquela euforia toda que houve à volta da vacinação… Nessa altura, então, acho que as pessoas acharam mesmo que a vacina chegava logo ali no Ano Novo e que depois éramos todos vacinados e isto estava tudo ultrapassado. Mas penso que a estratégia de não dizer a verdade influencia muito. Acho que se as pessoas perceberem que nós não vamos ter capacidade… — já não estamos a ter, não morrem 300 pessoas por dia porque está tudo a funcionar lindamente, claro que não está.

Este aumento das mortes tem a ver também com a incapacidade de prestar cuidados de saúde tão…
Claro. Claro que tem. Isso é óbvio. Há muitas pessoas infetadas mas há uma sobrecarga do sistema hospitalar. Não há capacidade de atender as pessoas da mesma forma que num sistema que não está em sobrecarga. Quer seja na urgência hospitalar, as horas que as pessoas podem estar antes de serem atendidas, as horas que podem estar entre serem atendidas, fazerem análises e serem reavaliados. Tudo isto está gravemente comprometido.

O Hospital Amadora-Sintra tinha esta quinta-feira 343 doentes internados com Covid-19

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

E já não partíamos de uma base muito favorável.
As urgências hospitalares de um modo geral já eram muito sobrecarregadas e com grandes tempos de espera, mas agora tudo isso se agravou muitíssimo. Estes doentes são doentes graves e portanto também não toleram assim tanto tempo de espera como outros que eventualmente existiam antes. Acho que ter dito em dezembro que existem 19 mil camas preparadas para esta epidemia, que existem não sei quantos mil profissionais de saúde que foram contratados, que o sistema está robusto, que está tudo a funcionar lindamente, leva a que as pessoas achem que, mesmo que o vírus se propague mais, têm o conforto de saber que o sistema de saúde vai responder.

Não vai?
Não vai, claro que não vai. É que não vai mesmo e isto vai ser muito duro. Tanto não vai mesmo que neste momento já se fala em pedir ajuda internacional, o que é vergonhoso. É vergonhoso quando não se preparou. Agora estamos a pedir aos médicos na reforma para virem trabalhar, então e as tais 19 mil camas e os milhares de profissionais de saúde que tínhamos em dezembro? Se realmente os tínhamos era bom que agora se mostrasse onde estão. Dizer o contrário é iludir, é mentir às pessoas e sobre isso eu não posso, enquanto médica, ficar calada e ser conivente com essa irresponsabilidade.

“Se tivesse um acidente, ao dia de hoje não ficaria sem socorro. Daqui a duas semanas provavelmente ficará”

"Se tivesse um acidente, ao dia de hoje, não ficaria sem socorro. Daqui a duas semanas provavelmente ficará. Porque o número de novas infeções tem sido extraordinariamente elevado. Este é um processo cumulativo: os doentes que estão hoje nos hospitais não vão ter todos alta dentro de duas semanas, muito pelo contrário, muitas vezes há sequelas e o doente tem de permanecer, as situações são complexas. Portanto, daqui a duas semanas, vamos estar perante uma situação em que o número de internamentos hospitalares vai continuar a crescer"

Como é que estão as enfermarias do seu hospital? O que é que pode acontecer às pessoas se tiverem o azar de ir parar a um hospital?
As pessoas tendem a pensar que o doente crítico é o doente de unidade de cuidados intensivos e medem um bocadinho pelo número de doentes internados nessas unidades e depois pelo número enorme de doentes internados em enfermaria. E de alguma forma pensam que o doente que está em enfermaria é um doente que está tranquilo, que é o tradicional doente de enfermaria, que não necessita de uma vigilância muito apertada. Isto é profundamente errado. Nós temos nas nossas enfermarias os doentes que, segundo a norma da DGS, estariam já todos em unidades de intensivos. Um doente sujeito a ventilação não invasiva é teoricamente um doente de unidade de nível 2 de intensivos, mas como, obviamente, esses recursos não existem estes doentes estão em enfermaria. Uma enfermaria no nosso caso tem à volta de 30 doentes e grande parte deles estão em ventilação não invasiva. Isto não é, como já ouvi dizer, estar a receber oxigénio por óculos nasais. Ventilação não invasiva é um aparelho, as pessoas respiram com uma ajuda de pressão contínua, que empurra o oxigénio para dentro dos pulmões. Entrar numa enfermaria a meio da noite, passar entre as camas, e ouvir o barulho que as pessoas fazem a respirar é quase como se estivéssemos numa nave espacial.

Impressionante. E estes doentes também têm de estar acompanhados 24 sobre 24 horas, que é outra coisa que não acontece em enfermaria normal.
Não acontece numa enfermaria normal e o número de pessoas envolvidas para tratar estes doentes, que precisam de uma vigilância 24 sobre 24 e que as equipas, quer médicas, quer de enfermagem, estejam presentes, consome muitos recursos humanos. Ao aumentar muito o número de doentes que precisam destes recursos, é natural que o nível de cuidados possa descer, e foi por isso também que tivemos a necessidade de recrutar todas as especialidades para vir ajudar na resposta.

E aqui estamos a falar em doentes Covid. Podemos extrapolar para os outros? Imaginemos que hoje à noite saio de casa de carro e tenho um acidente, posso chegar ao hospital e não ter cuidados imediatos? Posso ficar sem socorro?
No momento atual, ao dia de hoje, não ficaria. Daqui a duas semanas provavelmente ficará. Porque o número de novas infeções tem sido, permanentemente e há quase um mês, extraordinariamente elevado. Este é um processo cumulativo: os doentes que estão hoje nos hospitais não vão ter todos alta dentro de duas semanas, muito pelo contrário, muitas vezes há sequelas e o doente tem de permanecer, as situações são complexas. Portanto, daqui a duas semanas, vamos estar perante uma situação em que o número de internamentos hospitalares vai continuar a crescer. E à medida que cresce a patologia Covid, decresce a capacidade de resposta em patologia não Covid, quanto mais não seja por espaço físico.

"Mesmo que, por artes mágicas, amanhã tivéssemos uma taxa de infeção zero, os internamentos continuariam a galopar. Os internamentos refletem sempre aquilo que foram as infeções nos últimos 14 dias. É expectável que nas próximas duas semanas os internamentos se mantenham exatamente nos mesmos números, ou piores. As coisas vão ser muitíssimo, muitíssimo más. Não tenho outro nome, vão ser mesmo muito más"

Prevê que estes números e estes internamentos continuem a crescer nas próximas duas semanas, mesmo que as pessoas cumpram este confinamento e que as fronteiras sejam fechadas?
Sim, os números dos internamentos vão continuar a crescer. Mesmo que, por artes mágicas, amanhã tivéssemos uma taxa de infeção zero, os internamentos continuariam a galopar. Os internamentos refletem sempre aquilo que foram as infeções nos últimos 14 dias. É expectável que nas próximas duas semanas os internamentos se mantenham exatamente nos mesmos números, ou piores — porque já temos muita gente internada e não há muita margem para crescimento. As coisas vão ser muitíssimo, muitíssimo más. Não tenho outro nome, vão ser mesmo muito más. Daí ter falado na frustração. Estamos frustrados, mas acho que estamos todos muito empenhados e com a enorme convicção de que estaremos todos disponíveis para fazer o que for necessário.

Apesar de todas as dificuldades… Quantas horas por semana está a fazer no hospital?
Estou a fazer o que é necessário. Não tenho a intensidade horária de urgências e de rotação que os meus colegas mais jovens têm, não estou ali 24 sobre 24. A equipa de jovens médicos do meu hospital é de uma dedicação extraordinária, e eles fazem muito mais urgências do que eu faço, eu tenho uma função de direção. Estou muitas horas no hospital, dou muitas horas ao hospital — em casa e lá —, mas quando se pensa na tal ficção hospitalar, no médico que está 24 sobre 24 sobre 24, não sou eu.

Mas aí não será tão romanceado, existem pessoas que o fazem.
Existe sobretudo uma coisa que acho que é muito, muito importante: se por acaso alguém falta, outra pessoa que até já fez urgência há menos de 24 horas oferece-se para fazer. Esse sentido de missão, de dar aquilo que pode e o que não pode, é muito gratificante de ver na classe médica, nos enfermeiros, em todos os profissionais de saúde, e nessa atitude de dar ao outro o nosso melhor. É frequente que as pessoas que vão trocar um turno às 20h ou às 21h saiam de lá à meia-noite, porque como ainda não acabaram têm de continuar. E não é porque alguém as obrigue, é porque não querem deixar os doentes sem dar o seu melhor.

E isso é extraordinário, sobretudo quando já passam tantos meses desde o início e o cansaço já é acumulado. E também é reconfortante saber que se nos acontecer alguma coisa estaremos nessas mãos.
É reconfortante saber que os profissionais estarão sempre a tentar dar o seu melhor — tentar dar o seu melhor, o que não quer dizer que estarão nas mãos dos mais capazes. Todos nós tentaremos dar o nosso melhor, mas não é a mesma coisa, como é lógico. Se me puserem a fazer uma cirurgia cardíaca, eu, que sou infecciologista, posso dar o meu melhor, mas o meu melhor pode ser muito pouco. Lá está, a diferenciação e a especialização de cada médico implica que nós não saibamos tratar de tudo.

Portanto esperam-se tempos complicados. A correr tudo pelo melhor, quando é que diria que vão poder voltar a respirar um bocadinho de alívio? Quando é que acha que vão voltar a ter um hospital normal?
Ainda hoje houve essa conversa… Não sei quando é que vamos poder ter um hospital normal. O ideal seria conseguirmos lidar com este vírus, que não vai desaparecer agora, mesmo com este confinamento. As coisas hão-de melhorar, de forma muito penosa para todos nós, profissionais, e muito penosa para muitas famílias, porque vai morrer muita gente, mas isto vai ser ultrapassado. Eventualmente daqui a um mês já vamos estar numa fase descendente e em redução desta pressão. Depois é muito importante que as opções governativas, políticas e técnicas sejam muito bem tomadas. É necessário que, desta vez, o desconfinamento seja planeado ao milímetro, para que tudo possa correr bem e para que, já com uma parte importante da população vacinada, possamos regressar a alguma normalidade — sabendo que vamos ter Covid e vamos ter Covid durante muito tempo. O ideal é que isto possa ser vivido e tratado como conseguimos em agosto, quando tínhamos uma única enfermaria com 30 camas para todo o hospital. É muito importante que se diga que enquanto não controlarmos a patologia Covid não vamos conseguir chegar a mais lado nenhum. Não é uma questão de escolher, não é uma questão de dizerem “Ah, só ligam à Covid, morre muita gente por outras coisas e não ligam nenhuma, e os rastreios, e não sei o quê”. Claro que ligamos, claro que ligamos! Claro que os cirurgiões não estão contentes de não poderem operar, ninguém está contente de não fazer aquilo que é a sua função primordial. Acho que esta terceira onda já mostrou a todos que, enquanto não controlarmos a transmissão deste vírus, nada mais se resolve. Se não o controlarmos não há nada a funcionar, nem saúde, nem escolas, nem economia, nem coisa nenhuma.

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