Perseguições, vídeos com traições e agressões. Como os Hells Angels chegaram a tribunal /premium

18 Julho 2018

No documento entregue pelo Ministério Público à juíza de instrução, há relatos de como os motards perseguiram o líder do grupo rival, Mário Machado, antes e depois do ataque no Prior Velho.

Os membros dos Hells Angels não largaram o skinhead Mário Machado após o ataque ao restaurante do Prior Velho, em Loures. Segundo o Ministério Público, o grupo de motards, que foi detido na semana passada, montou mesmo um cerco ao ex-líder dos Hammerskins, que saiu recentemente da prisão e está a fundar um grupo rival em Portugal. As autoridades têm provas de que os Hells Angels  perseguiram Machado no centro comercial onde trabalha a namorada, agrediram um membro do grupo dele e, ainda, enviaram um vídeo comprometedor a um amigo da Juve Leo.

Segundo o despacho de Apresentação de Detidos, entregue à juíza de instrução Maria Antónia Andrade e a que o Observador teve acesso, já depois do ataque de março ao restaurante “Mesa do Prior”, no Prior Velho — onde o grupo de motards rival Bandidos MC reuniram para celebrar a criação de uma filial em Portugal, de nome “Red & Gold” — os membros dos Hells Angels continuaram atrás de Mário Machado.

No processo, existem videogramas retirados do sistema de videovigilância de um centro comercial da Grande Lisboa, onde trabalha a namorada de Mário Machado, em que se veem quatro dos 58 arguidos detidos a seguirem os passos do ex-líder dos Hammerskins pelos corredores. E não foi só uma vez. Fizeram-no a 26 de maio e, depois, nos dias 10, 12 e 23 de junho. Sempre organizados em duplas.

Também por esta altura, a 11 de junho, um dos membros dos Red & Gold foi “barbaramente” agredido. C.S. tinha publicado na rede social Facebook uma fotografia sua, acompanhado por outros membros do grupo motard, tornando “pública a sua afiliação”. E acabou agredido por três elementos, alegadamente dos Hells Angels. Segundo descreveu às autoridades, um deles atacou-o com uma soqueira e um outro tinha uma arma à cintura. A vítima sofreu vários ferimentos na cara e na cabeça e foi obrigada a fazer uma cirurgia de reconstrução maxilo-facial.

Mário Machado está em liberdade condicional desde 2017

O Ministério Público acredita que o verdadeiro alvo dos Hells Angels era, no entanto, Mário Machado, mas, para o atingir, atacaram também quem lhe era próximo. E foi por isso que, nesse dia 11 de junho, fizeram nova investida. Enviaram um vídeo a um amigo de Machado, presente na candidatura do skinhead à Juve Leo, no qual, alegadamente, a mulher dele aparece “em cenas pornográficas com um terceiro indivíduo”. Há uma escuta no processo que mostra um dos arguidos a ameaçar alguém para enviar o vídeo. “Senão (…) vai-te dar nos cornos”, lê-se.

O Ministério Público juntou num inquérito, em que eram investigados os Hells Angels, o processo do ataque ao restaurante no Prior Velho, o inquérito de uma agressão a um amigo de Mário Machado e várias provas que mostram que o grupo de motards perseguia Mário Machado.

A prospeção de terreno e as armas para atacar

Entre os 58 suspeitos agora detidos e à espera de medida de coação, estão dois membros dos Hells Angels que foram apanhados pela polícia três semanas antes do ataque ao restaurante. A dupla foi detida com armas dentro de um carro, na zona das docas de Alcântara. E a Polícia Judiciária disse ao Ministério Público não ser um acaso.

É que, explicam as autoridades, existem duas formas das organizações de motards abalarem a hegemonia das outras: uma mais discreta, em que se tenta abrir uma filial (denominada de chapter) e se espera pela reação do rival (o que acabou por fazer Mário Machado e os Bandidos), e uma mais reativa e violenta, “através de uma ação inopinada contra membros ou interesses do grupo rival”. Aqui o que conta é o fator “surpresa”, condicionando, assim, a capacidade de resposta do opositor.

Quando os Hells Angels perceberam que Mário Machado — em liberdade condicional desde 2017, depois de cumprir uma pena de dez anos de prisão por crimes de discriminação racial, roubo, extorsão e posse ilegal de arma — queria fundar um grupo motard em Portugal e que até tinha apoio dos alemães, temeram que a sua imposição em Portugal fosse por via da violência. Então, enviaram operacionais para o terreno para perceber se algo acontecia. Fizeram-no nas docas, temendo que esse ataque pudesse ser feito ao nível da segurança privada, dominada, às vezes ilegalmente, por elementos dos Hells Angels.

Os arguidos estão a ser ouvidos no Tribunal de Instrução Criminal, em Lisboa. MP pede que 50 fiquem em prisão preventiva

A PJ não refere, especificamente, na informação enviada ao Ministério Público, quais as armas apreendidas na altura, mas refere que “representariam um grande poder de fogo”. E afasta a hipótese de se destinarem a cometer qualquer outro tipo de crime, como “roubo ou homicídio”, uma vez que os dois arguidos se encontravam dentro do carro de um deles. Se quisessem cometer um crime, usariam outro carro, conclui Judiciária. A polícia acredita, assim, que o facto destas detenções terem ocorrido a apenas três semanas do ataque ao restaurante no Prior Velho “reforça a suspeita de que as duas ocorrências estejam intimamente relacionadas”.

Um destes arguidos então detidos — e depois libertados — foi o primeiro a entrar no restaurante do Prior Velho, onde decorria a reunião dos Bandidos, em março. Atuou de cara descoberta e “participou ativamente” nas agressões. Independentemente de já estar sujeito a uma medida de coação, por posse de arma ilegal.

Um dos 58 arguidos detidos foi apanhado em março na posse de armas. A PJ acredita que já andava atrás do grupo de Mário Machado na zona das docas, em Alcântara, onde os motards dominam a segurança privada ilegal.

Os 30 segundos no restaurante do Prior Velho eram para matar

O ataque ao grupo de Mário Machado aconteceu a 24 de março, ainda ele não tinha chegado ao restaurante onde iria ser o convívio para comemorar a nova filial dos Bandidos em Portugal, designada por “Red&Gold” e liderada pelo mesmo homem que criou uma filial da Hammerskins Nation em Portugal — Mário Machado. No almoço, estavam três alemães dos Bandidos, que tinham vindo a Portugal apadrinhar a criação do grupo “Red&Gold” e o seu primeiro chapter,  denominado “Alcatraz”.

Segundo a informação fornecida à juíza de instrução criminal, foram cerca de “50 a 80” membros dos Hells Angels, que usaram carrinhas alugadas e carros próprios para chegar à rua de Moçambique. O ataque fora planeado com antecedência. Pelo menos cinco dias antes. Antes de ali chegarem, os suspeitos reuniram-se em vários postos de abastecimento de combustível e junto a um parque de estacionamento às portas de Lisboa. Não podiam usar os telemóveis, para não serem monitorizados pela polícia, e foi-lhes fornecido material e atribuídas tarefas bem definidas. Apesar das cautelas, as imagens dos sistemas de videovigilância desses locais, que foram passadas a pente fino, mostram que alguns dos suspeitos estiveram ali.

Naquela tarde, o grupo chegou ao Prior Velho e bloqueou a rua de um lado e do outro, para impedir a circulação. Uns ficaram cá fora, montando um perímetro de segurança, e outros entraram. Uns tinham a cara coberta e outros não se importaram de mostrar quem eram. À porta do restaurante, lê-se no despacho, ficou um dos arguidos, com a mão no bolso, pronta a sacar de uma arma. Ao fim de 30 segundos, o suspeito fez um sinal com a mão para que todos fugissem dali.

Além de terem agredido os seus alvos com “facadas, marteladas e agressões”, numa violência “extrema”, os motards ainda levaram os coletes das vítimas, com logotipos dos Bandidos, como “troféu”. Uma atitude que a polícia descreve como sendo “o maior ato de humilhação para os membros dos grupos que são vítimas”.

A PJ acredita que o modo como tudo aconteceu mostra que os “seus autores desejaram” ou que se “conformaram” com a possibilidade de matar. Do ataque resultaram seis feridos graves, três dos quais em estado muito grave. E os investigadores acreditam que podiam ter sido mais, mas houve quem se tivesse refugiado na casa de banho e na arrecadação e escapado, assim, às “bárbaras” agressões.

No processo consta ainda uma escuta de um dos suspeitos, em sueco, na qual este fala com um homem a quem chama irmão. Depois de um diálogo sobre problemas pessoais, o agora arguido convida o tal homem a vir a Portugal. Refere que antes havia apenas um clube no país, mas agora existe um “idiota” a tentar criar outro. E que, por isso, ele e “100 rapazes” foram tratar do assunto.

O chapter dos Hells Angels em Lisboa foi o primeiro a abrir portas, em 2002, certificado pelos Estados Unidos

Polícias e ex-polícias interditos nos Hells Angels

Na operação levada a cabo há cerca de um semana por 400 elementos da Polícia Judiciária, de norte a sul do País, foram apreendidas armas, droga e diverso material relacionado com a atividade da organização. Na casa de um dos membros, em Quarteira, no Algarve, a PJ encontrou mesmo um documento escrito em inglês a ordenar aos membros dos Hells Angels Motorcycle Club Nomads PT e dos Hells Angels Motorcycle Club Southside PT que não permitissem a entrada de polícias e ex-polícias nas suas filiais.

As regras da organização de motards são, aliás, resumidas no despacho apreciado pela juíza de instrução criminal. Lembra o Ministério Público que o Hells Angels Motorcicle Club é um dos maiores “Outlaw Motorcycle Gang” a nível mundial e que os seus membros são, muitas vezes, referenciados por crimes de tráfico de droga, lenocínio, roubos, homicídios e tráfico de armas, com os quais financiam a organização.

No documento entregue pelo Ministério Público à juíza de instrução criminal é apresentada uma história da organização dos Hells Angels. A Unidade Nacional Contra Terrorismo, que os investigou, diz que quando sentem que perdem a hegemonia, atacam com violência.

Referem as autoridades que os Hells Angels têm uma estrutura “vertical organizada”, com cada um a assumir um papel e funções específicos. Regem-se por regras escritas e não escritas, definidas a nível mundial, e têm também estatutos regionais, pelos quais se rege cada estrutura regional — os chamados chapters. Todos os chapters a nível mundial têm de responder a nível regional, nacional e internacional e nunca são independentes. Mais: sempre que um chapter começa a funcionar é certificado pela sede dos Hells Angels, em Oakland, nos Estados Unidos.

Cada membro, segundo uma das regras fundamentais do grupo, deve colocar os interesses da organização à frente dos seus interesses pessoais. 

Em Portugal existem cinco chapters reconhecidos pelos americanos: Lisboa, Almancil, Cascais (que antes foi no Montijo), Porto (antes era em Aveiro) e Setúbal (inicialmente em Almada). Estes locais foram passados a pente fino pela PJ. Em Almancil, por exemplo, foram apreendidos martelos, um bastão, um colete balístico e, até, um aparelho bloqueador de sinal de telecomunicações — para escapar às autoridades.

No topo da estrutura dos Hells Angels está o presidente do chapter, seguindo-se os vice-presidentes. Há, depois, um secretário/tesoureiro, um sargento de armas, um capitão de estrada e um membro full colour. Entre eles, tratam-se por “brothers” (irmãos). Os aspirantes a membros são denominados “prospects” e devem ser apadrinhados por “full colours”. Todos eles podem participar nas reuniões. Já os hang-arounds não podem participar nas reuniões e são comandados pelos “prospects e full coulours”. Todos eles são convocados para concentrações de motards onde possam estar rivais. Segundo a PJ, o objetivo é eliminá-los “pela força e uso da violência”. E quando não são em número suficiente, recorre-se a membros de chapters internacionais.

O Ministério Público indicia todos os 58 suspeitos detidos dos crimes de associação criminosa, tentativa de homicídio, roubo, ofensas à integridade física graves e qualificadas, detenção de armas proibidas e tráfico de droga — por causa de algumas quantidades apreendidas nas buscas domiciliárias.

Apesar de este grupo andar debaixo de olho da PJ há muito tempo, por crimes como tráfico de armas, lenocínio e extorsões, em tribunal, durante os interrogatórios, os 58 suspeitos detidos responderam por crimes apenas relacionados com o ataque ao restaurante ao Prior Velho. Por isso, a defesa insistiu que todos deviam ser separados em grupos, conforme as suas verdadeiras responsabilidades no crime. Os advogados alegaram, segundo apurou o Observador, que quem entrou no restaurante e agrediu de facto não deveria ter igual medida de coação a quem apenas foi visto no exterior.

A decisão da juíza de instrução acabou por não ser, de facto, igual para todos. 39 ficaram em prisão preventiva (ainda que 3 desses possam passar brevemente a prisão domiciliária) e os restantes 19 foram libertados, com medidas de coação mais leves. Um delas, pouco comum: não podem sair do concelho onde habitam, à exceção de um arguido que trabalha fora do concelho de residência e que pode deslocar-se para aquela zona. Além disso, terão que apresentar-se periodicamente à polícia e não podem frequentar clubes ou concentrações de motards. Os arguidos libertados também ficaram proibidos de contactar outros arguidos ou membros dos Hells Angels, a menos que tenham relações familiares com eles. Também não poderão fazer segurança privada.

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